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novembro 20, 2009

DELERRUPTO

Nos meados de 80, o país parecia que caminhava para a civilização democrática prenunciada pela Constituição Federal de 88. No mesmo ano a gloriosa polícia civil bandeirante, então sob os mandos do governador Orestes Quércia (PMDB), criou o DECON, Departamento Estadual de Polícia do Consumidor (Decreto nº 20.872/1988), órgão de polícia judiciária supostamente especializado em investigar crimes de relação de consumo.

corrupcao.jpgDa mesma forma como o DENARC (departamento de entorpecentes), DEIC (departamento de crimes gerais) e outros, o DECON viria para demonstrar que a vanguarda das polícias civis era a paulista, em eco aos movimentos sociais que surgiam. Em 1995 (governador Mário Covas - PSDB), através do Decreto estadual nº 39.948/95, embora mantendo a mesma estrutura, passou a se denominar Departamento de Polícia do Consumidor.

Não precisou de muito tempo para se descobrir o potencial de arrecadação financeira que esse novo departamento proporcionava a seus policiais. Empresários começaram a reclamar de ameaças de flagrantes por iogurtes com o prazo de validade vencido, geladeiras com 2ºC fora do padrão.

Por óbvio, a irresignação não era por causa das infrações que cometiam, mas pela extorsão sofrida para que o crime não fosse formalizado. O que deveria ser modelo de política cidadã, tornou-se a maior fonte informal de renda para o governo e motivo de desonra para a polícia civil paulista.

Diante de constrangedoras notícias de corrupção, impossíveis de serem punidas sem que espirrasse na cúpula do governo, ou silenciadas a um preço alto para a república, o governador Mário Covas, através do então secretário de segurança Março Vinício Petrelluzzi, encerrarou definitivamente as atividades do DECON através do Decreto nº 44.448/1999 e, no ensejo, ainda reformulou toda a estrutura administrativa do órgão policial.

Passados dez anos, e garantido o esquecimento dos atos criminosos de seus policiais, o governador José Serra (PSDB) reativou a antiga delegacia do consumidor, agora sob a alcunha de Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC), com o Decreto nº 54.359/2009. De acordo a nota da SSP, o novo departamento:

(...) tem por finalidade o exercício das atividades de policia judiciária, administrativa e preventiva especializada relativamente às infrações penais contra o consumidor, a saúde pública, o meio ambiente, o ambiente a as relações do trabalho e a Fazenda Pública Estadual e Municipais.

Foi isso mesmo o que você leu. Reuniram no mesmo prédio a delegacia ambiental, a fazendária, relações do trabalho, entre outras. Quem é do meio sabe que essas são os melhores locais de arrecadação ilícita para os policiais, e as mais desejadas para quem deseja fazer o pé de meia. Eu acredito que essa visão é fruto de preconceito, e que deve haver bons policiais lá dentro que acreditam no que fazem, independente de quanto ganharão ao final da investigação.

Há duas semana um amigo advogado me ligou:

"estou na empresa de um cliente. Seus amigos da DELERRUPTO voltaram a ativa. Querem entrar na empresa com uma intimação fumaça, alegando que possuem denúncia anônima de software pirata."

"Já perguntou quanto eles querem?" - respondi.
"Ainda não. Devo perguntar para eles irem embora?"
"Não. Diga que isso é crime de ação privada, e se não tiverem qualquer iniciativa da vítima, que só voltem com um mandado de busca."

Parece que resolveu. Os policiais prometeram voltar. Até ontem, o advogado não me mandou notícias de novos acharques.

Essa madrugada, outro colega da advocacia ligou. Dessa vez, a concussão era em um frigorífico.

"Porra, eles já entraram no prédio e pediram R$ 4.000,00 para não descobrirem nada de errado."
"Mas vocês tem algo de errado?"
"Sempre tem. E o cliente já pagou."

Depois me perguntam porque não quero advogar no direito criminal. Bem vindo, DPPC. Que a história seja justa com seus homens.

novembro 8, 2009

Nota de Repúdio à UNIBAN (Universidade Bandeirantes)

Há tempos não via algo tão estranho. Tenho certeza que todos já ouviram falar de uma estudante que foi humilhada, chamada de "puta" pelos alunos da UNIBAN (São Bernardo do Campo). Consta dos autos que a rapariga foi à aula trajando um vestido por deveras curto, o que instigou os instintos mais primitivos dos pobres estudantes. Os alunos, em momento de rara catárse coletiva, passaram a xingá-la pela citada alcunha em uníssona histeria. Foi necessária a intervenção da Polícia Militar bandeirante para que conseguisse sair do prédio com a dvida escolta (veja o vídeo ao lado).

O bom senso dizia que o fato decorreu de atitude preconceituosa, machismo porco. Machismo ruim, breve leitor. Não o machismo saudável, moleque, que agrada as mulheres por valorizá-las. Consequência lógica do evento seria um pedido de desculpas da Universidade, para evitar processo de indenização, já que a entidade responde solidariamente a tudo o que ocorre em suas depências.

Pelo contrário. A UNIBAN expulsou a aluna do corpo discente considerando, em sindicância interna, que ela teve postura inadequada e provocativa, incitando a algazarra dos demais estudantes, os quais teriam se manifestado em prol do ambiente escolar, como se observa na nota da entidade divulgada na imprensa:

anuncio uniban folha.jpg


A estudante, chamada Geisy Arruda (foto abaixo divulgada pelo jornal Folha de São Paulo de 08/11/2009) recebeu o certificado oficial de "puta" da UNIBAN. Não há como entender o motivo que levou seus responsáveis a expô-la com o anúncio do resultado da sindicância. geisa.jpg De acordo com a matéria do jornal "O Diário de São Paulo", o proprietário da UNIBAN, Heitor Pinto e Silva Filho (candidato a vice-governador na chapa de Paulo Maluf nas eleições de 2002), possuia contra si, até a data de publicação da notícia (2002) 04 (quatro!) inquéritos policiais, sendo formalmente condenado em dois processos, um criminal e outro cível, além de constar como réu em outras 59 ações.

Sabemos que isso não é motivo que justifique a defesa da aluna, mas deve-se deixar claro que o julgamento pautou-se em parâmetros de moralidade canhestra, exarcebadamente hipócrita. Não bastasse o choque em descobrir que existem ambientes de ensino no qual as pessoas são julgadas pelas roupas que usa, saber que essas condições são apoiadas e incentivadas pela coordenação da entidade é de causar medo até no mais retrógrado dos conservadores.

Elaboramos uma Nota de Repúdio no site Pettion on line, onde estamos recolhendo assinaturas das pessoas que se sentiram ofendidas com a postura da UNIBAN. Vamos encaminhar ofício ao diretor da Universidade, ao MEC e ao ógrão do Ministério Público competente, solicitando providências imediatas, para que esse fato fique registrado como uma infelicidade da instituição de ensino, na intenção de que nunca mais se repitam julgamentos morais de tamanha incoerência.

Com disse meu amigo Doni, "Ontem, cigarros. Hoje, um minivestido. Amanhã serão tatuagens e piercings. Depois, negros, gays ou mesmo gordos."


agosto 21, 2009

AGU afirma que Lei antifumo é inconstitucional

E eu, com uma plaquinha "EU JÁ SABIA!!!!"

Lei antifumo em SP é inconstitucional, diz AGU em parecer ao Supremo
STF vai julgar ação que pede revogação da lei; data ainda não foi definida.
Para AGU, houve invasão de competência da União pela lei paulista.

A Advocacia-Geral da União (AGU) enviou parecer ao Supremo Tribunal Federal (STF) na última terça-feira (18) recomendando que a lei antifumo aprovada pela Assembleia Legislativa de São Paulo, em vigor desde o último dia 6, seja declarada inconstitucional.

O STF vai julgar em data ainda não definida uma ação em que a Confederação Nacional do Turismo (CNTUR) pede que a lei seja revogada. Para a confederação, a legislação "viola frontalmente o direito fundamental de liberdade dos fumantes".

No documento, assinado pelo advogado-geral da União, José Antonio Dias Toffoli, e por mais dois representantes do órgão, a AGU destaca que houve invasão de competência da União pelo Estado de São Paulo. A norma sancionada pelo governador José Serra proíbe o consumo de cigarros, cigarrilhas, charutos, cachimbos e qualquer outro produto fumígeno em áreas de uso coletivo, total ou parcialmente fechadas.

Segundo a AGU, entre as hipóteses em que o Estado poderia editar uma lei seria no caso de ausência de norma federal sobre a matéria ou em situações de peculiaridades locais que justificassem uma norma própria. No parecer, o órgão que representa juridicamente a União considerou que, como já há uma norma própria que trata da questão, os termos da lei estadual extrapolaram os comandos da lei federal.

"No presente caso, o governador do estado de São Paulo, bem como a Assembleia Legislativa da mesma Unidade Federativa, não indicaram a existência de qualquer peculiaridade ou particularidade local a justificar um tratamento normativo diferenciado", destaca trecho do parecer.

O documento da AGU cita ainda que a lei paulista não permite a manutenção de áreas para fumantes em ambientes coletivos, enquanto a legislação federal autoriza.

Governo de SP defende legitimidade da lei

O Governo de São Paulo, por sua vez, defende a legalidade da lei sob o argumento de que a norma se encontra em consonância com o conteúdo da convenção-quadro sobre controle do uso do tabaco, assinada em 2003, e aprovada pelo Congresso em 2005.

Esclarece ainda que "inexiste contrariedade" entre a lei federal e a estadual, ao citar que a legislação do estado deve se "conformar" com ao conteúdo da convenção e não com a lei federal que regulamenta o uso do tabaco, que é de 1996. Por fim, o governo cita que "a inviolabilidade ao direito à vida, à saúde, à proteção à maternidade, bem como o direito ao desfrute de um meio ambiente saudável, são bens e valores jurídicos protegidos constituição".

Processo será julgado no STF

O relator do processo no STF é o ministro Celso de Mello. Cabe a ele levar o caso para julgamento em plenário. O parecer enviado pela AGU não representa influência direta sobre a análise, pois caberá aos 11 ministros do Supremo decidir se a lei paulista é ou não constitucional. Em julgamentos recentes que envolviam a União, como o da demarcação da reserva indígena Raposa Serra do Sol, no entanto, a maior parte dos ministros seguiu a orientação da AGU.

Qualquer que seja a decisão do STF sobre o caso, poderá servir de parâmetro para todo o país, pois além de São Paulo, alguns outros estados e municípios também discutem leis estaduais antifumo. É o caso do Rio de Janeiro, onde o governador Sérgio Cabral já sancionou uma lei na última segunda-feira (17).

Efeitos

Só na primeira semana em que a lei paulista entrou em vigor, 7.428 estabelecimentos da capital paulista foram fiscalizados por agentes da Vigilância Sanitária e do Procon e 55 autuados.

A AGU, seguindo o vetusto parecerista Cultcoolfreak!

Eu preciso correr ao fórm da barra funda para ganhar meu Habbeas Corpus antes que a AGU consiga o óbvio no STF.

agosto 4, 2009

Até a última ponta da Lei antifumo

pmcigarro.jpg

"O 190 vai atender aos chamados do mesmo jeito que faz quando tem briga de trânsito, quando tem briga de marido e mulher. É uma ocorrência normal, e eles vão porque há alguém desrespeitando a lei. O fumante vai ser removido usando força policial. Não vai ser preso, mas vai ser levado à delegacia de polícia para registrar a ocorrência"

É a voz de Luiz Roberto Barradas Barata, secretário estadual da saúde do estado de são paulo, no jornal folha de são paulo de 03/08/09 (só para assinantes, mas copiado aqui). Quando me disseram, custei a acreditar que isso prosperasse. Deixaram um chefe do poder executivo de uma unidade da federação atropelar a constituição federal e legislar sobre direito penal. Talvez o breve leitor nunca tenha se preocupado em saber o motivo da existência de duas casa legislativas, câmara dos deputados e senado. Essa foi a opção histórica do estado brasileiro, porque pensou-se que os temas mais importantes seriam exaustivamente debatidos antes de virarem leis. A carta magna assim determinou, em seu artigo 22, I:

Art. 22. Compete privativamente à União legislar sobre:
I - direito civil, comercial, penal, processual, eleitoral, agrário, marítimo, aeronáutico, espacial e do trabalho;

Mas a Lei estadual 13.541/2009 irrompe toda a lógica jurídica, ao permitir que a polícia militar bandeirante possa retirar, à força, o contribuinte que estiver fumando dentro das áreas por ela definidas. Quer dizer, seguindo esse mesmo raciocínio monarquista, se o governador quiser, pode baixar uma lei proibindo o abraço para evitar a contaminação da gripe suína.

Quando falo que o brasil pertence à um grupelho quatrocentão, dizem que meu complexo de inferioridade é maior do que minhas ambições. Mas (não querendo ressuscitar a vetusta barba de Marx) não é a história querendo ciclicar novamente? Afinal, do pouco que me lembro das aulas da dona Rute na minha oitava série em meados de 92, houve uma tal revolta da vacina, quando o governo tentou impor a sanitarização dos pobres a chicotadas. Novamente, tentam fazer da PMSP uma polícia de governo, desonrando seu objetivo primoridial: a manutenção da ordem pública.

A ABRESI (Associação Brasileira de Gastronomia, Hospedagem e Turismo) reclamou no mandado de segurança nº 053.09.015779-9, impetrado junto a 3ª vara da fazenda pública da capital. Por sorte, o processo caiu nas mãos de um juiz que sabia ler, e sua excelência VALTER ALEXANDRE MENA, em uma sentença de 75 páginas, ensinou ao governador e seus asseclas que, muito embora a boa vontade em salvar vidas, o estado democrático de direito é superior ao ego individual de autoridades com pretenções eleitorais. Eu gostaria que todos pudessem ler a fundamentação do magistrado na decisão, que ensinou de forma brilhante conceitos como competência concorrente, exclusiva e privada. Ainda há esperança no judiciário. Sei que o texto cansa, mas vale a pena selecionar alguns excertos:

"Ora, o poder de polícia é indelegável ao particular, e, no caso de empresários, nada justifica transferir-lhe tal atribuição em detrimento de sua própria clientela." [no caso, sobre o grosseiro equívoco da lei que permite ao proprietário do estabelecimento a retirada coercitiva do cliente canceroso]

"Doutra banda, a força policial somente pode ser utilizada na hipótese de ocorrência de crime, ou seja, conduta assim tipificada na lei. Ora, fumar em ambientes proibidos não constitui crime ou contravenção, mas no máximo mera infração administrativa, sujeita a sanções administrativas, e que somente podem ser impostas ao infrator e se a ordem for dada por autoridade competente (o que não é o caso do empresário). Daí decorre que a utilização da polícia militar e da polícia judiciária para tal mister constitui claro desvio de finalidade."

"(1) A lei estadual, ao proibir radicalmente e abruptamente, a existência de fumódromos, extrapola a limitação da competência legislativa concorrente prevista na Constituição Federal, dado seu caráter substitutivo e não suplementar da norma federal que os admite;"

"(3) A lei estadual viola o princípio da proporcionalidade e da razoabilidade, incidindo na proibição do excesso, ao proibir o fumo em propriedade privada e de acesso privado (não aberto ao público), em prejuízo da intimidade"

Para quem se interessar, a íntegra da decisão está aqui em:
sentencaleiantifumo.PDF

Muito bem. Após a determinação de suspensão da lei em 1ª instância, os cavaleiros do rei recorreram e, para surpresa de todos os técnicos do direito, o excelentíssimo presidente do TJSP, o desembargador Roberto Vallin Bellochi, em outra decisão no mesmo processo, agora com o novo número 180.562.0/9-00 (Órgão Especial), omitindo-se quanto à análise da inconstitucionalide do dispositivo, suspensou a sentença sem ao menos disponibilizar no saite do TJSP o teor de tal estranheza:

processocigarro.jpg
(confira o andamento do processo no site do TJSP)

Com o silêncio antirepublicano de sua decisão, omitindo o conteúdo do proferido até do diário oficial, só podemos imaginar que pautou-se pela propaganda facista do governo, caminhando a passos largos para uma indicação à algum tribunal superior, na esperança de seu governador eleger-se presidente.

Sabe o que vai acontecer, breve leitor? Aguarde o primeiro minuto do dia 7 de agosto desse ano. Caso você esteja em algum barzinho, aparecerão policiais militares acompanhados de fiscais da saúde e jornalistas, pronto para lhe carregarem para algum DP e fazer um boletim de ocorrência de preservação de direito, para te liberarem em seguida como se nada tivesse acontecido, posto que fumar em local fechado nunca foi, não é, e nunca será crime à altura da extrema medida coercitiva que querem impor.

Na dúvida, sempre diga que é usuário.

junho 7, 2009

Direto do plantão

Caro Roger

Desculpe-me pelo atraso em agradecer o autógrafo no livro.
Gostei muito! Sabe que sou seu fã...
Lembrei de vc agora heheheh ....estou no plantão e está rolando um flagrante de um cara que furtou dez reais de cima do caixa de um mercado....
Acho que vou chamar o Roxin para tirar um plantão no meu lugar... Ando meio cansado... hehehe

Um abraço.

março 8, 2009

Da heroica caguetagem do investigador Pena

O investigador Pena, da Polícia Civil paulista, apresentou gravações em vídeo, no qual comprova a comercialização de cargos públicos dentro da PC/SP. De quebra, ainda se descobriu o quanto a Corregedoria da instituição tem objetivos duvidosos, distantes do interesse público, conforme também se noticiou no Jornal Folha de São Paulo.

Para mim, é como se uma antiga lenda pudesse ser comprovada. Manja se um dia alguém se apresentasse como a loira do banheiro; ou se você dormisse com uma mulher linda, mas desconhecida, e acordasse dentro de uma banheira cheia de gelo e sem um dos rins. Dá para imaginar você ganhando um computador novinho da Microsoft, simplesmente porque alguém mandou você repassar um e-mail estúpido?

Pois bem, é assim que me sinto. Sempre ouço histórias do sujeito quinta-classe (hoje extinta), calça branca de tudo, acabado de sair da academia, que, por uma boa indicação ou cacife, é designado para atuar em um departamento, sem nunca ter puxado um plantão na vida.

Todos conhecem um tira que tem o mesmo tempo de janela do que você mas, curiosamente, vai trabalhar de pick-up importada, enquanto você chega de ônibus no DP.

O Pena é resultado do próprio sistema injusto da própria Polícia Civil de São Paulo, que trata seus homens como peças baratas de um joguinho político ancorado no poder e gana eleitoreira. Um governador não pretende ser menos do que é hoje. O grupo político ao qual ele é vinculado não pode poupar vidas, sob o risco de perder posições estratégicas.

"Pau no cu do surdo" - dirão os hipócritas paulistas que votam.

Ninguém é inocente na heroica caguetagem do investigador Pena: Os partidos, por ausência completa de propostas corajosas que poderiam expropriar os donos da polícia judiciária de São Paulo. Nós, por optarmos pela omissão e ideias vazias de transformação. Todos tememos a intervenção política, confiamos nas cômodas palavras de governantes monarquista-classe-média-asséptica; em uma mídia moribunda, parcial e cínica; em um STF pró-latifundiário e, para que tudo se encerre de maneira absurda, em uma assembleia legislativa que não se modifica desde a patética tentativa de golpe de 32.

Até agora, o único que pretendeu ajudar a polícia a não desaparecer foi o corajoso Pena.

Pense comigo. Entendo que você não queira ir para a cadeia, tampouco para a cova. Mas tenho certeza que gostaria muito de ver expurgado da chefia todos os policiais, assessores, secretários e governadores que tem vantagem com a corrupção cotidiana das delegacias.

Então, caso pudesse registrar em áudio/vídeo o que te incomoda no seu dia a dia, colega policial, você teria a coragem de enviar tudo para o MP, Defensoria, Judiciário, imprensa, Bispo e, de quebra, para garantir que nada desaparecerá, publicar em blogs, comunidades e outros canais de comunicação que não precisam se preocupar com patrocínio público? Tudo isso com a garantia que se mantivesse anônimo, sem o mínimo de identificação. Toparia?

Acho que sei qual sua resposta. É o final que todo policial pretende para sua história. Por isso eu não tenho pudores em atirar pedras. Porque tenho a certeza de que são com elas que uma nova polícia se construirá.

março 4, 2009

Perseguição política contra delegado de polícia

Saiu hoje na Folha de São Paulo uma boa notícia à blogsfera policial. É de se ressaltar quando uma agressão ao sagrado direito de expressão é violado, principalmente no caso do delegado da PC/SP Dr. Guerra chega, o qual beira o patético, e está, no mínimo, escasso de moralidade. Há muito alertamos aqui, junto com a ONG artigo 19, esses absurdos que nos envergonham.

Como já noticiamos aqui, o delegado que retirou o blog do dr. Guerra do ar (Flit Paralisante), foi o José Mariano de Araújo Filho, da Delegacia de Crimes em Meios Eletrônicos, (4ª DIG do DEIC, fone: 011 2221-7030), que nos autos do I.P. 217/2008, em caráter preventivo (??) conseguiu com que o Juiz do 3º DIPO (Departamento de Inquéritos Policiais e Polícia Judiciária) expedisse a ordem que culminou no silêncio deste importante meio de informação.

Parece que só agora, com essa notícia da Folha de São Paulo, que ficou constatado o absurdo jurídico, com nítido viés política, que a blogsfera policial já anuncaciara: a investigação está centrada em ficitício crime contra a honra, cuja vítima é o governador José Serra. Alega o delgado do DEIC que o dr. Guerra é funcionário público, e por isso a medida cautelar fora urgente, "pois se trata de um funcionário público, e o site foi usado como veículo de difusão de calúnia, injúria e difamação", (in verbis).

Pois bem. Sei que não cabe a mim querer ensinar processo penal a ninguém, mas um pouco de esclarecimento se faz necessário.

Primeiro: um crime contra a honra é de iniciativa privada. Ou seja, a polícia só pode se mover para apurá-lo e registrá-lo mediante a prévia, pública e inequívoca manifestação da vítima. Neste caso, a vítima que consta no ofício é o excelentíssimo senhor governador citado. Mas ora, veja só, breve leitor. O próprio delegado do DEIC diz que seu patrão não é parte nos autos do IP (????).

Eita. Pergunto: então, quem diabos elaborou a manifestação para que o inquérito fosse proposto???? E eu mesmo respondo: se não foi uma das supostas vítima, o delegado incorre em infração administrativa, por fazer mais do que permite a lei. Mesmo que se aplique o Artigo 141, inciso II* do Código Penal, a iniciativa é concorrente entre a vítima e o MP.

Vou além: e se o agente público não motivar seu ato administrativo pautado na legalidade, todo o procedimento do inquérito (inclusive a equivocada ordem judicial que o retirou do ar) é nulo. O interesse público, objeto direito da administração, foi atropelado. O que fez o DEIC foi tratar o inquérito policial, ferramenta imprescindível ao Estado Democrático de Direito, como um instrumento particular de perseguição, para, unicamente, proteger a pessoa do senhor José Serra. mais uma vez, a polícia civil de São Paulo deixa de ser uma polícia de estado, para se sujeitar ao papel de polícia de governo.

Caso tenha havido realmente qualquer indício de crime contra a honra, é imprescindível deixar que a vítima decida sobre a necessidade de apuração. Afinal, da ofensa só sabe o ofendido.

Fica definitivamente comprovada nossa tese de que todos os cargos da PC/SP são dependentes de indicação política e apadrinhamento. Caso o funcionário não defenda os meios ideais políticos do grupo que ocupa o poder naquele instante, ele não pode ficar em lugares de destaque.

Uma pena. São Paulo merecia uma polícia mais profissional, e menos politiqueira.


* Art. 141 - As penas cominadas neste Capítulo aumentam-se de um terço, se qualquer dos crimes é cometido:
(..)
II - contra funcionário público, em razão de suas funções
;

fevereiro 25, 2009

Chefes inseguros em barracas

Quem já teve a oportunidade de passar pela Avenida São João em São Paulo, pela manhã, vai se lembrar de ter visto centenas de pessoas dormindo sobre o viaduto conhecido por minhocão. Enfileiradas como se estivessem participando de uma intervenção de algum artista plástico metido a besta, todas as noites improvisa-se naquele lugar um hospital de guerra que se extende por quilômetros.

Na Capital, a principal função de um investigador do DECAP (o departamento responsável pelos distritos policiais) é limpar a rua da população residual, como os sem-tetos e os menores. Nada daquele romantismo de inquerir com perspicácia criminosos geniais. Como sempre disse, caso o polícia não tenha as costas quentes, vai ficar cuidando da parte indesejável da cidade.

Enfim, sobre os mendigos: depois de revistar pelo menos uns dois mil moradores de rua ao longo da promíscua carreira de investigador, ganhei uma certa intimidade (não que queresse tê-la) com esse nicho. Ao ponto de, em uma noite gelada em que me deparei com a humilhante missão de colher as impressões digitais de um morador de rua que cheirava à merda, a raiva fez com que eu perguntasse:

- Caralho! Porque você não vai para um albergue e passa a noite lá? Porque insiste em morar na rua?

O sujeito abriu a boca sem dente, e disse que não iria porque não possuía RG. E no albergue municipal só entra quem é civilmente identificado.

Como ele era muito experto, não me disse mais nada. Mas não precisou. Vejam: eu não tenho patrimônio ou dinheiro algum. Ao mesmo tempo, não tenho a falta de caráter suficiente para mentir e puxar o tapete de pessoas no trabalho, de forma que as perspectiva de crescimento não são muitas. Não gosto da cidade onde moro e aqui os amigos são raros, senão inexistentes. Minha família está longe e tenho vergonha de contar meus fracassos a eles. O que sobraria? Para mim é óbvio: renunciar a vida de homem ocidentalizado e viver à margem do mundo de trabalhar-doze-horas-por-dia.

Não foi preciso o mendigo responder nada. Acho que compreendi sua necessidade de morar na rua. Ele é a negação da política, a afirmação de uma outra possibilidade de existência distante do que conhecemos como sociedade. Aliás, a única experiência de vida fora da sociedade capitalista são os mendigos. O sujeito não vai para o albergue porque tem preguiça de tirar um novo RG, retomando sua conexão com o sistema. Ele não se subemete ao pseudo conforto da moradia coletiva provisória porque não aceita se submeter às mesmas regras que eu e você, breve leitor, nos deixamos ser engolidos.

Eu volto amanhã ao trabalho, depois de uma semana de carnaval. E já estou triste por antecipação em ter que vivenciar mais um período com sensações que facilmente me levariam matar alguém, mesmo que a mim mesmo. Para nós é normal sermos humilhados por chefes inseguros e carreiristas, ficar 12, 13 horas sentados em uma sala gelada em frente a um computador para ganhar um salário que não paga suas constas. No final das contas, entendi que a proposta de vida oferecida pelos moradores de rua não é tão esdrúxula assim.

Pesquisando na net sobre essas pessoas que negam o modo paulistano de viver, encontrei um projeto francês chamado "The children of Don Quichotte." São voluntários que distribuem barracas para os moradores de rua de Paris, oferecendo uma existência menos dura à essas pessoas. Sem o melancolismo barato da filantropia burra, é ao mesmo tempo dar uma noite menos fria e úmida à pessoas desenganadas, e golpear gente que nunca se deu conta que são tão humanos quanto os mendigos.

homeless2.jpgAs barracas parecem mais agressivas do que os caixotes de papelão em que eles se efiam para dormir. É um produto criado para a classe média desfrutar de suas horas não trabalhadas, em lazer e diversão. Todavia, quando disposta em linha reta, lembram acampamentos de campanhas. É impossível não se incomodar com a visão de centenas de estruturas ovais idênticas alinhadas uma à outra no meio da rua. É menos agressivo do que os restos de papelão e lixão inerente a imagem dos mendigos. Mas não deixa de incomodar o fato de saber que agora os moradores de rua podem ter mais conforto e uma existência mais duradoura. Talvez o lixo em que viviam antes não deixasse-nos lembrar que li havia um ser humano, tal como nós.

FUR1M8PF0VQ3G98.MEDIUM.jpgBem mais barata é a Shell House living portable. pela bagatela de US$ 35,00 e feita de papelão, é a saída menos pesada e mais barata. Dobrável, pode ser levada para qualquer lugar nas costas. O único problema é a durabilidade, que não aguenta uma noite de chuva paulistana. E ela vem com wifii. Pode ser uma brincadeira de mal gosto gastar dinheiro no projeto para incorporar esse conforto, mas é a prova de que basta pensar e agir para que mudanças acontençam no mundo.
E minha mente que não para já começou a visualizar milhões de barracas nas noites das ruas tristes de São Paulo, com o símbolo de algo enígmático estampada na lona. Noite a noite o número de barracas crescendo, ultrapassando os limites do centro, e chegando a lugares asséptico como Higienópolis, Itains, Jardins...

janeiro 29, 2009

OAB quer diminuir atendimento as pessoas carentes

Segundo afirmou o jornal Folha de São Paulo nesta notícia (só para assinantes), a seccional da OAB em São Paulo pretende fazer com que a defensoria pública abaixe o valor do salário de referência ao atendimento jurídico de pessoas carentes.

Atualmente, só pode utilizar o benefício dos serviços de advogados gratuitos quem recebe até 3 salários mínimos, equivalentes à R$ 1.350. Contudo, segundo a OAB, este valor é muito alto, e o justo seria atender gratuitamente somente aqueles que recebem até R$ 900,00.

Nos termos da Lei 1.060/50 (que regula a gratuidade da assitência), o infeliz que deve ser laureado com tal portento é "todo aquele cuja situação econômica não lhe permita pagar as custas do processo e os honorários de advogado, sem prejuízo do sustento próprio ou da família." (Art. 2º, parágrafo único).

justo_verissimo.jpgEvidentemente, tal postura da única entidade que representa os adevogados trouxe dúvidas à imagem de defensora das garantias individuais que há tantos anos defende.
Tenho certeza que Raimundo Faoro dá pulos em sua cova, e tenta desamarrar sua história de luta contra o poder dominante, das atitudes da entidade chapa branca que a OAB se tornou. Flávio D´urso (o mesmo daquele elitista movimento Cansei!), presidente da entidade regional, temendo a repercussão negativa de sua decisão, postou uma cartinha de explicações no site da OAB/SP, justificando que a decisão que segrega vasta população do atendimento do poder jurdiciário era porque:

"não é justo que alguém que ganhe, por exemplo, R$ 1.350,00/mês e tenha grande patrimônio, imóveis, carros importados, seja atendido pelo Convênio, retirando a possibilidade de atendimento gratuito de alguém verdadeiramente carente."

Eu, patinho que sou, fiz minha cara de inteligente (polegar em oposição ao indicador, ambos segurando o queixo, com o olhar apertado de paquerador), e questionei:

- Puta que o pariu! Com alguém que recebe R$ 1.350,00 consegue construir um grande patrimônio??

E querem saber mais? De acordo com a tabela de honorários que a OAB impõe ao adéva, seria mais estranho ainda nos perguntarmos como uma classe média tão chulé conseguiria arrancar alguma linha de um defensor pago, se fosse obrigada a desembolsar, no mínimo, R$ 2.561,38 por umHabeas Corpus.

Mais um portentoso adereço ao episódio "coisas que devemos esquecer para o Brasil crescer".

janeiro 11, 2009

Outro blog policial retirado do ar pela judiciário

O Juiz Davi Capellato, do 3º DIPO (Departamento de Inquéritos Policiais e Polícia Judiciária), mais uma vez, nos autos do Inquérito Policial nº 050.08.082723-3 (junto ao DIPO 3.2.3, fones: 011-3660-9606 e 011-3660-9607), e registrado na 4ª DIG do DEIC (fone: 011 2221-7030) sob o número 217/2008, determinou que o Blog Flit Paralisante, do Delegado da Polícia Civil de São Paulo, Roberto Conde Guerra, fosse retirado do ar. A ordem foi expedida na sexta-feira, 09/01/2008 para que fosse cumprida pela Google do Brasil, empresa responsável pelo Blogspot, onde supostamente estaria hospedado o blog. A notícia começou a se espalhar no Blog do Investipol Flávio, e não pode passar em branco.

A verdade é que tal atitude desmedida aprofunda a vigente política do governo paulista para cercear a liberdade de expresssão de seus policiais civis. O Delegado Roberto Guerra é a mais alta, se não a única, voz dentro da instituição que ainda tem coragem de falar e expor a surreal e caótica situação a que os funcionários da polícia civil de são paulo estão submetidos. Em resposta a tais manifestações, o poder judiciária vem corroborando tal iniciativa, e calando de forma nazista todos os policiais que se opõem às diretrizes políticas do governo. Tornar público o pensamento é a única coisa que resta aos policiais de São Paulo, e atropelar essa garantia é afrontar diretamente o Estado Democrático de Direito no qual vivemos.

É desta forma que o governador pretende ser presidente? É este o país que desejamos? Tolerar tal atitude é conceder ao administrador público a chance de tornar-se um ditador sem medidas.

Torcemos para que isso seja rapidamente revertido, em prol da boa ordem jurídica.

Uma cópia da decisão pode ser lida aqui. E o novo Blog do Guerra, aqui.

janeiro 2, 2009

Vai preso quem comprar de camelô


A trilha sonora do projeto "Coisas que devemos esquecer para o Brasil crescer. também aqui. Há muito tempo não ria tanto de nossas desgraças.

dezembro 29, 2008

Senha sem fila

Já falamos aqui sobre a patetada das senhas genéricas dadas aos policiais civis para descobrirem informações sobre os usuários de telefonia móvel sem autorização judicial. Dizem, os polícias, que tais informações estão disponíveis a todos na lista telefônica. Mas nunca vi um número de RG e CPF de usuário de celular em lista telefônica. Alías, nunca vi uma lista telefônica de usuários de telefonia móvel.

E agora o MP paulista diz estar surpreso com a festa da uva.

E lhe pergunto: tem culpa todo mundo?

outubro 26, 2008

Nóis invade com mais força

Não pretendo fazer coro à sociedade sedenta de sangue coalhado e carne crua em que vivo. Ainda devo muito àqueles que fiz sofrer pela causa republicana e democrática e, se alguns religiosos estiverem corretos, na minha próxima vida serei um oxiúro de porco. Por estas e outras que notícias como um possível erro estratégico do GATE na incursão ao apartamento da moça sequestrada pelo namorado em Santo André não merece ser discutida além dos tribunais. Nivelar essa conversa com blogueiros que só conhecem um cativeiro através do Counter Strike, e a única relação com bocas-de-fumo e bandidos que tiveram foi fumar um baseadinho em uma balada qualquer não os deixa técnico em porcaria nenhuma.

O máximo que conseguem fazer é provocar gente como o GOE de São Joaquim da Barra (???) a conceder uma entrevista anti-ética como essa. Fico me perguntando porquê esse pessoal não está de greve, exigindo do governo as mesmas condições de treinamento que o GATE possuí, ao invés de ficar contando que seu pasto é mais bonito. Notem que ao final da entrevista o policial diz que aprendeu tudo isso com um curso feito no Paraná, o qual foi pago com dinheiro de seu próprio, na vultosa quantia de R$ 3000,00 (mais da metade do seu salário).

Compará-los ao GATE não só é motivo de piada entre quem entende do assunto, como trouxe à polícia civil de São Paulo mais um motivo para fazer parte de nosso projeto "coisas que devemos esquecer para o Brasil crescer".

"GOE USARIA OUTRA TÁTICA NO CASO DE ELOÁ
Delegado do Grupo de Operações Especiais da Polícia Civil diz que invasão deveria ser de manhã, envolveria rapel e cão treinado

Em: Folha de São Paulo - Laura Caproglione, 26/10/2008

sniper-cat.jpgEspecialista em ocorrências de alto risco, resgate de reféns e rebeliões no sistema prisional, o GOE (Grupo de Operações Especiais) faria tudo diferente em uma situação como a que culminou na morte da jovem Eloá Pimentel, 15, assassinada pelo ex-namorado Lindemberg Alves, 22, em um conjunto habitacional de Santo André, na Grande São Paulo.

Na última sexta-feira, o grupo de elite da Polícia Civil sediado em São Joaquim da Barra (404 km de São Paulo) realizou um treino tático. Objetivo: simular a invasão de uma residência ocupada por um seqüestrador com reféns. O ensaio, com 16 homens, foi coordenado pelo delegado Hugo Anselmo Ravagnani, 47 anos e 20 de polícia. A Folha acompanhou a ação com exclusividade.
A experiência de grupos de elite dos principais países que mantêm forças táticas e antiterroristas, como a Swat americana, o GIPN (da França), o GSG 9 (da Alemanha), os Carabinieri (Itália) ou a polícia israelense, mostram que pelo menos dez procedimentos adotados pelo Gate (a força da PM usada no caso de Santo André) foram contrários aos protocolos internacionais.

Segundo Ravagnani, que participou de 60 cursos ministrados por instrutores desses grupos de elite, a condução do resgate das meninas Eloá e Nayara Rodrigues da Silva, 15, seria da seguinte forma:

1. "O GOE não deixaria o seqüestro durar mais do que 24 horas. Pela experiência internacional, a situação psicológica do agressor tende a se agravar com o estresse prolongado."

2. "O GOE não colocaria uma pessoa emocionalmente envolvida com o refém ou o seqüestrador na negociação [tal era a condição da menina Nayara]. A negociação seria conduzida por um policial especialista em resgate. Muitas vezes, este policial define até o posicionamento do agressor dentro da casa. Se ele percebe que a negociação não vai prosperar, então parte para a tática, que implica em obter vantagens para a equipe. Um exemplo? Ele leva o criminoso para mais perto de uma janela, para se tornar visível à mira de um sniper [atirador de elite]. O negociador tem de ser um especialista em tática e também conhecer muito de psicologia para traçar um perfil do criminoso e usá-lo a seu favor."

3. "O GOE não deixaria que o seqüestrador desse entrevistas durante o cativeiro das jovens."

4. "Segundo os manuais do GOE, o "start da invasão" deveria ter sido acionado quando o seqüestrador começou a agredir as reféns. Nunca a partir de um suposto disparo contra as jovens [rojões e bombas de são João lançados por outros atores no cenário de operações, como traficantes do bairro, poderiam ser confundidos com disparos de armas do agressor]." A reportagem da Folha, no local dos acontecimentos, escutou vários estouros de fogos de artifício promovidos por moradores do local.

5. "O GOE não usaria escadas para a invasão do quarto -ainda mais uma escada sem altura suficiente para alçar o policial em segurança. Em vez disso, empregaria um especialista em rapel, que entraria "por cima" da janela, empunhando sua arma, e mais rapidamente."

6. "O GOE evitaria dar o "start da invasão" à tarde, como ocorreu. Preferiria os primeiros instantes depois do amanhecer." Segundo o delegado, é preciso explorar as oscilações do ritmo ciscardiano. "De madrugada, o organismo ainda está em situação de repouso, [uma hora] muito mais adequada a uma abordagem de surpresa do que à tarde, após um dia inteiro de estresse, [com] a adrenalina a mil", diz.

7. "O GOE empregaria um cão treinado para atacar com mais agilidade o agressor durante a invasão." O delegado explicou que a PM tem os cães mais bem treinados do país. Se usados na operação, atacariam o agressor armado com velocidade muito maior do que a possível a um agente humano.

8. "O GOE posicionaria um atirador especialista em rapel, de cabeça para baixo, logo acima da janela em que o agressor aparecia para um possível tiro de imobilização. Para que [ele] não visse a preparação da ação, cortaria, por exemplo, a luz."

9. "O GOE usaria um estetoscópio para auscultar, a partir de um apartamento vizinho, o que ocorria no local do seqüestro. Também empregaria microtransmissores, que faria chegar ao apartamento onde estava Eloá por intermédio dos condutores elétricos da casa. Jamais o GOE usaria um copo como foi feito na operação."

10. "O GOE usaria munição letal em vez dos projéteis de borracha empregados na ação de resgate. Balas de borracha são capazes de machucar, mas não impedem o agressor de reagir, inclusive atirando nas vítimas. No limite, as forças de elite internacionais usam "balotes", balas de 1,5 centímetro de diâmetro arremessadas por uma espingarda calibre 12, ultraletais. Um tiro do gênero é capaz de decepar a cabeça de um seqüestrador."

Tiro de espoleta
Foram necessários 12 minutos para três policiais colarem o chamado "cordão detonante" em todo o batente da porta da casa escolhida para o treinamento, em um sítio abandonado na zona rural de São Joaquim da Barra. O mesmo material foi usado na tentativa de resgate da adolescente Eloá.

O "cordão detonante" nem parece bomba. Um desavisado diria que se trata de um fio elétrico, com cobertura de plástico vermelha. Só que, dentro dele, existe um pó branco explosivo, com o nome químico de nitropenta. Um pedaço de 10 cm enrolado no pulso tem o poder de arrancar a mão de uma pessoa. No caso de uma porta, o efeito do cordel é cortar, com uma incrível precisão, todo o perímetro dela.

Mas o cordel não é simples de ser detonado. Ele não estoura, por exemplo, com fogo. Necessita de duas espoletas acionadas por comando elétrico ou pirotécnico. Esta última foi a escolhida para a ação na velha casa que simulava um esconderijo de seqüestro.
As duas espoletas foram conectadas a uma das extremidades do cordel detonante. Em seguida, o comandante da operação ordenou que os policiais se posicionassem para a invasão e acionou o explosivo: Pá-Pá-Puuuuuuuuum.

Ao todo escutaram-se três estampidos. Dois menores, parecidos com tiros, e o terceiro, que lembrava a explosão de um botijão de gás. No caso de Eloá, alguns observadores relataram ter escutado um estampido antes da explosão do cordão detonante, que atribuíram a um tiro da arma de Lindemberg. O delegado Ravagnani acha que pode ter sido apenas o barulho do estouro da espoleta.

Passagem liberada, cinco policiais entraram. Toda a ação de invasão não durou 15 segundos, ao fim dos quais três alvos de papel jaziam no chão com buracos de 3 centímetros de diâmetro -o estrago da calibre 12. Alvos eliminados, escutaram-se gritos: "Limpo! Limpo! Limpo!", seguidos por outros que diziam "Extração! Extração!"
Era a ordem para o ingresso no local de equipes de paramédicos e de retirada de cadáveres. Mais um treinamento do GOE estava concluído. No caso de Santo André, não custa lembrar, a porta não cedeu com a explosão por estar "ancorada" em uma mesa de vidro, encostada nela por Lindemberg poucos minutos antes do desfecho trágico.

"Bastava ter colado à porta quatro saquinhos de leite enrolados em um cordão detonante", conta o delegado Ravagnani. Ele fez o curso de "explosivista" no Tees (Tactical Explosive Entry School) do Paraná. Pagou, do próprio bolso, R$ 3.000. Seu salário mensal é, bruto, R$ 5.000. A porta que ele explodiu no ensaio saiu inteira do batente, diferentemente do que ocorreu em Santo André."

outubro 17, 2008

Combate no Palácio dos Bandeirantes

261224223304.jpgSabe aquela sensação de quando você vai para uma balada muito ruim, enche a cara para esquecer que já se deu mau ali e vai embora bêbado, e só depois que você tá em casa é que fica sabendo que a festa pegou fogo e ficou ótima?
É a sensação que tenho agora com essa batalha. O comando de greve falhou ao não conseguir impedir o confronto. Quem achou que a PM conseguiria impedir os policiais civis de fazerem piquete não conhece a categoria. Fato lamentável é ver o GOE avançando com a viatura sobre o paredão do CHOQUE.

Se queriam humilhar os policias militares, era só colocar no carro de som a música da piriquita e o mambo que tanto gostam.

outubro 10, 2008

Durante a greve, DEIC prende Gansopol

Será verdade que o paulista acredita em historinhas como essa? O pobre do ganso foi preso porque estava fazendo o que sempre fez, o que sempre lhe permitiram fazer. Alguém se perguntou o quê diabos uma viatura estava fazendo toda a noite no estacionamento de um hotel "limpa e com tanque cheio" ?? O fato de terem rejeitado o Alckimim não é motivo suficiente para a redenção. E no mais, continua a queda da polícia civil, sedimentando nosso projeto de "coisas que devemos esquecer para o Brasil crescer".

"Preso falso policial que furtava viatura do Deic em SP
Estudante de Direito usaria carro do Deic durante a madrugada para levar vantagens em bares e boates - Jornal O Estado de São paulo, em 10/10/2008.

SÃO PAULO - O mistério que envolvia uma Blazer do Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado (Deic) foi desvendado às 5 horas de domingo, dia das eleições. Deixada à noite limpa e com tanque cheio em um estacionamento pelos investigadores do departamento, ela aparecia suja e quase sem combustível quando os policiais iam apanhá-la de manhã. O responsável pela mudança era um estudante de Direito que tinha distintivo, algema e uma pistola calibre 45 de policial. Faltava a viatura, que ele apanhava à noite e devolvia antes de amanhecer. A polícia desconfia que o estudante se passava por policial para fazer achaques ou obter vantagens com "carteiradas" em bares e boates. "O rapaz tem vontade de ser policial, mas não passa no concurso e faz isso", disse o delegado Marcos Manfrim, do Deic.

Quando perceberam que algo de estranho acontecia com a Blazer, os policiais da Delegacia de Roubos do Deic resolveram instalar no carro um rastreador. Eles deixavam o carro no estacionamento de um hotel na Avenida Zaki Narchi, perto do departamento, e apanhavam a viatura de manhã. Por volta das 23 horas de sábado, o rastreador mostrou que a Blazer estava em movimento.

Os policiais foram ao hotel e ficaram esperando. Às 5 horas do dia seguinte, o estudante de Direito Emerson Ernande Domingos Ruvenal, de 30 anos, apareceu com a viatura. Depois de desligar o carro e fechar a porta, o estudante foi preso. Com ele foram achados um distintivo e um colete da Polícia Civil, além de algemas e uma pistola calibre 45. A arma foi roubada há um ano de um investigador do Departamento Estadual de Investigações sobre Narcóticos (Denarc), que afirmou na época ter sido assaltado por dois ladrões com capacetes de motociclistas na saída de um caixa eletrônico. Os policiais do Deic investigam se Ruvenal seria informante de algum policial.

Autuado em flagrante sob as acusações de furto, porte ilegal de arma e usurpação de função pública, o estudante se recusou a depor. Na última noite em que deu uma volta com a viatura do Deic, o estudante rodou 60 quilômetros. Ele usava uma chave falsa para abrir o carro e dar a partida.

Não foi a primeira vez que Ruvenal foi preso se passando por policial. Em 2006, foi detido na Vila Rica, na zona leste. Na época, ele tinha até cartão para abastecer o carro - uma viatura dublê - nos postos de gasolina da polícia."

outubro 4, 2008

Inspetor de quarteirão/Ganso - vegonha alheia

listei aqui algumas coisas que teríamos que esquecer, caso quiséssemos nos tornar um país respeitável.

Quero incluir agora uma profissão antiga, que por sua própria natureza envergonha-nos até hoje pela desconexão com princípios básicos da democracia e república: o inspetor de quarteirão.

Hoje em dia a policia paulista precisa de uma figura denominada "ganso". Ele é um pouco diferente do informante, porque normalmente faz serviços junto com o policial. Anda armado, de viatura, faz plantão. Oficialmente ele não existe. Não há registros de sua passagem nos autos. E caso o contribuinte o veja dentro de uma delegacia, não saberá diferenciá-lo do policial. Normalmente ele é remunerado com a arrecadação das investigações. Faz o serviço de infiltração no meio criminoso, porque nenhum policial é idiota o bastante para se arriscar a isso recebendo o salário pago pelo estado. Apesar de ser muito mal visto pelos bons policiais, ele é uma persona necessária.

Ligo suas origens à curiosa pessoa do título. O inspector de quarteirão fazia as vezes de policia na rua, apesar de não ser remunerado. Regulamentado pelo Decreto 6.746, de 16 de setembro de 1975, outra obra prima do legado normativo do estado ditatorial, o dito cujo podia, de acordo com o artigo 3º do dispositivo:

"I - informar a autoridade policial sobre as contravenções e delitos de que tiverem conhecimento, bem como a existência ou permanência de contraventores ou criminosos na sua área de atuação;

II - conter as pessoas embriagadas ou turbulentas que, por palavras ou ações, ofendam a tranqüilidade e o decoro públicos;

III - diligenciar para a prevenção dos crimes e contravenções;

IV - elaborar o cadastro de seu quarteirão e informar à autoridade as alterações julgadas necessárias."

Em tempos de polícia comunitária, essa legislação soa como ridícula. Era o reconhecimento estatal do ganso, que vigiava a população e ostentava uma funcional. Consolidou a estigmatização de Raimundo Faoro, no qual a coisa pública no Brasil é tomada pelos administradores como se fossem particulares. Os cargos públicos são tão vinculados a seus servidores, que ultrapassam o mero interesse público. O inspetor de quarteirão era indicado pelo delegado do município (como ainda é feito hoje com todos os cargos na polícia civil), conseguindo assim o prestígio político junto a comunidade. A lei, apesar de não ter sido claramente revogada, não foi recepcionada pela CF-88, servindo apenas de documento histórico da formação moral da administração pública.

Desta forma, este é outro ítem que deve ser extirpado de nossos anais, entrando para nossa sessão VERGONHA ALHEIA.

dezembro 30, 2007

Coisas que devemos esquecer para o Brasil crescer

Mesmo que prescritos, os crimes posteriores ao período anistiado envolvem também a responsabilidade do Estado - Jânio de Freitas - Jornal Folha de São Paulo - 30/12/2007


O Brasil tem mudado rapidamente. Não só em termos econômico, com o aumento do PIB e um discreta melhora na distribuição da renda. É um passo significativo rumo à civilização, mas concordo que ninguém consegue se firmar sem um passado glorioso. Por isso, sugiro que algumas manchas na historia do Brasil sejam extirpadas dos livros escolares, para nos salvar da vergonha, e substituídas por novas informações mais condizentes com nosso estágio de desenvolvimento.

escravos.jpg


1) Quando a coroa portuguesa resolve povoar sua nova colônia, enviaram para cá pessoas que desejavam plantar e viver em paz, dá-lhes autonomia administrativa, jurídica e financeira e divide com eles os frutos da exploração fundiária.

2) Os colonos não permitiram que os portugueses firmassem aqui uma extensão tupiniquim das nobrezas européias. Pelo contrário, estabeleceram um contrato social democrático e fundado no consentimento entre os povos. Todos poderiam adquirir qualquer coisa, ajudados pela iniciativa do recém-formado estado brasileiro. Quem possuía qualquer título de nobreza, ou acumulava mais do que necessitava, passava a ser ridicularizado entre os brasileiros.

3) Não houve capitanias hereditárias, tampouco senhores de engenho ou latifundiários. Assim, sobrenomes como Junqueiras, Buarques de Hollanda, Cardosos, Diniz, Figueiredo, Geisel, etc, são apenas nomes, e não cartões de visitas. E a escravidão terminava na África. Quando aportaram em nossas terras, os escravos foram apresentados às modernas técnicas agropecuárias e ao cooperativismo capitalista.

4) A guerra do Paraguai nunca existiu. Os povos da américa, quando precisavam resolver questões de interesse nacionais, sentavam-se e expunham seus problemas em convenções mediadas por representantes de todos. O Brasil não foi o responsável por destruir o país mais promissor da américa latina do século XVIII a mando dos interesses comerciais ingleses. Sendo assim, nossa demarcação territorial naquela região foi justa, clara e consentida por todos os países envolvidos, sem subornos ou corrupções aos juízes internacionais.

5) Não tivemos o movimento literário chamado "romantismo". Nossa literatura sempre foi condizente com o clima local e nossa cultura de pessoas vencedoras. Não havia nos livros aqui impressos, personagens que enriqueciam sabe-se lá como, ou textos que se referiam aos índios de imaginação européia. Ao invés disso, desenvolveu-se uma tentativa de sublimação da palavra e do conceito de livro. Por isso, obras como "Lucíola", "Iracema", "I Juca Pirama", "Se se morre de amor" e "Liras dos vinte anos" não fazem parte de nossa bibliografia nacional.

6) Canudos foi uma tentativa de federalização da política nordestina, que terminou em uma experiência bem sucedida de monarquia não-nobiliária parlamentarista.

7) A república café-com leite serviu para a implementação de uma nova política alimentar ao amanhecer. Não tem nada a ver com a manutenção de castas, cujos descendentes persistem em manter suas regalias e distancia de pobres até hoje, através da burocracia do estado.

8) Juscelino Kubitschek pagou antecipadamente todas as dívidas da construção de Brasília, e não permitiu que fosse feito qualquer empréstimo internacional. E ele nunca traiu sua esposa com vedetes.

castelobranco.jpg9) Os militares nunca tomaram o poder de forma intransigente Ao contrário, nossos soldados sempre zelaram pela reforma agrária e o bom andamento da segurança interna do país. E são os primeiros a denunciar qualquer tipo de irregularidade contra os direitos humanos. Recusaram o engôdo da publicação do "Lei da Anistia", porque sabem que a vida é um direito imprescritível, e não se pode colocar um termo final a condenação de quem a subtraí de forma violenta e por interesses escusos. Aliás, eles riram abertamente quando alguém comentou, de maneira inocente, sobre a impossibilidade de se processar pessoas por atentados humanos praticado nos anos 70. Usam equipamentos militares de última geração para garantir o combate a doenças que já foram erradicadas, como a dengue e a febre amarela. Toda a fronteira é blindada, principalmente nos inóspitos rincões da amazônia.

10) Não fomos à copa de 1982. E a taça Jules Rimet não foi roubada por ladrões e derretida pela polícia.

11) Roberto Carlos não é exemplo de boa música. E nunca existiu uma música chamada: "eu sou terrível".

12) Glauber Rocha é chato e elitista. Esqueçam.

13) Garotinho, Rosinha, Maluf, FHC, Alckmim, Quércia, Covas, Fleury, familias Bornhausen, Calheiros, Magalhães, Cabral, Collor de Mello, entre outros, são nomes que devem ser sumariamente esquecidos da vida política, ou apenas lembrados como forma de administração pública para poucos amigos.

14) Favelas são pontos turísticos, e laboratórios sociais.

15) Todos os partidos políticos vivem de doações de seus próprios sócios e nunca receberam dinheiro de empresas.

16) Oscar Niemeyer é um ótimo comunista mas, como construtor, é um péssimo pedreiro. Por isso as casas que constrói precisam de dicas de seus moradores para que se tornem habitáveis. Mas ele é gente boa, mas meio sem noção, mas é gente boa.

17) Esqueçam nossas polícias e suas delegacias. Elas pertencem às colônias do século XVIII.


E há outras coisas a esquecer, mas que minha memória já fez o favor de apagar.