Quem já teve a oportunidade de passar pela Avenida São João em São Paulo, pela manhã, vai se lembrar de ter visto centenas de pessoas dormindo sobre o viaduto conhecido por minhocão. Enfileiradas como se estivessem participando de uma intervenção de algum artista plástico metido a besta, todas as noites improvisa-se naquele lugar um hospital de guerra que se extende por quilômetros.
Na Capital, a principal função de um investigador do DECAP (o departamento responsável pelos distritos policiais) é limpar a rua da população residual, como os sem-tetos e os menores. Nada daquele romantismo de inquerir com perspicácia criminosos geniais. Como sempre disse, caso o polícia não tenha as costas quentes, vai ficar cuidando da parte indesejável da cidade.
Enfim, sobre os mendigos: depois de revistar pelo menos uns dois mil moradores de rua ao longo da promíscua carreira de investigador, ganhei uma certa intimidade (não que queresse tê-la) com esse nicho. Ao ponto de, em uma noite gelada em que me deparei com a humilhante missão de colher as impressões digitais de um morador de rua que cheirava à merda, a raiva fez com que eu perguntasse:
- Caralho! Porque você não vai para um albergue e passa a noite lá? Porque insiste em morar na rua?
O sujeito abriu a boca sem dente, e disse que não iria porque não possuía RG. E no albergue municipal só entra quem é civilmente identificado.
Como ele era muito experto, não me disse mais nada. Mas não precisou. Vejam: eu não tenho patrimônio ou dinheiro algum. Ao mesmo tempo, não tenho a falta de caráter suficiente para mentir e puxar o tapete de pessoas no trabalho, de forma que as perspectiva de crescimento não são muitas. Não gosto da cidade onde moro e aqui os amigos são raros, senão inexistentes. Minha família está longe e tenho vergonha de contar meus fracassos a eles. O que sobraria? Para mim é óbvio: renunciar a vida de homem ocidentalizado e viver à margem do mundo de trabalhar-doze-horas-por-dia.
Não foi preciso o mendigo responder nada. Acho que compreendi sua necessidade de morar na rua. Ele é a negação da política, a afirmação de uma outra possibilidade de existência distante do que conhecemos como sociedade. Aliás, a única experiência de vida fora da sociedade capitalista são os mendigos. O sujeito não vai para o albergue porque tem preguiça de tirar um novo RG, retomando sua conexão com o sistema. Ele não se subemete ao pseudo conforto da moradia coletiva provisória porque não aceita se submeter às mesmas regras que eu e você, breve leitor, nos deixamos ser engolidos.
Eu volto amanhã ao trabalho, depois de uma semana de carnaval. E já estou triste por antecipação em ter que vivenciar mais um período com sensações que facilmente me levariam matar alguém, mesmo que a mim mesmo. Para nós é normal sermos humilhados por chefes inseguros e carreiristas, ficar 12, 13 horas sentados em uma sala gelada em frente a um computador para ganhar um salário que não paga suas constas. No final das contas, entendi que a proposta de vida oferecida pelos moradores de rua não é tão esdrúxula assim.
Pesquisando na net sobre essas pessoas que negam o modo paulistano de viver, encontrei um projeto francês chamado "The children of Don Quichotte." São voluntários que distribuem barracas para os moradores de rua de Paris, oferecendo uma existência menos dura à essas pessoas. Sem o melancolismo barato da filantropia burra, é ao mesmo tempo dar uma noite menos fria e úmida à pessoas desenganadas, e golpear gente que nunca se deu conta que são tão humanos quanto os mendigos.
As barracas parecem mais agressivas do que os caixotes de papelão em que eles se efiam para dormir. É um produto criado para a classe média desfrutar de suas horas não trabalhadas, em lazer e diversão. Todavia, quando disposta em linha reta, lembram acampamentos de campanhas. É impossível não se incomodar com a visão de centenas de estruturas ovais idênticas alinhadas uma à outra no meio da rua. É menos agressivo do que os restos de papelão e lixão inerente a imagem dos mendigos. Mas não deixa de incomodar o fato de saber que agora os moradores de rua podem ter mais conforto e uma existência mais duradoura. Talvez o lixo em que viviam antes não deixasse-nos lembrar que li havia um ser humano, tal como nós.
Bem mais barata é a Shell House living portable. pela bagatela de US$ 35,00 e feita de papelão, é a saída menos pesada e mais barata. Dobrável, pode ser levada para qualquer lugar nas costas. O único problema é a durabilidade, que não aguenta uma noite de chuva paulistana. E ela vem com wifii. Pode ser uma brincadeira de mal gosto gastar dinheiro no projeto para incorporar esse conforto, mas é a prova de que basta pensar e agir para que mudanças acontençam no mundo.
E minha mente que não para já começou a visualizar milhões de barracas nas noites das ruas tristes de São Paulo, com o símbolo de algo enígmático estampada na lona. Noite a noite o número de barracas crescendo, ultrapassando os limites do centro, e chegando a lugares asséptico como Higienópolis, Itains, Jardins...