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24jul2008
PONTO QUARENTA
Minha arma suava no coldre atrás de minha cintura. A ponto quarenta é um excelente equipamento, alto poder de impacto, derruba no ato imediato após o encontro com a massa corporal. No interior do corpo, explode como um pequeno míssil, sem transpassar (pelo menos, assim reza a lenda).
Arma urbana, para ferir apenas o alvo desejado sem o risco de machucar ninguém que inocentemente esteja atrás do objetivo. Eu ainda não tinha uma cabrita, nunca pensei na hipótese de precisar de uma vela para jogar ao lado do bandido morto, e assim forjar uma cena de revidação de tiro. Por enquanto essa era a única arma que eu possuía.
A 9 mm, apesar de admirada, tinha o uso proibido. E polícia que a usava era tido como burro. Porque ela era transpassante, e furava tudo o que encontrava na frente. Nem bandido gostava de usá-la. A pessoa atingida pelo projétil de uma arma dessas demorava a cair. Mesmo que o tiro fosse no peito, o pulmão demorava a esvaziar, o que lhe dava alguns importantes segundos de vida para uma possível reação.
Deixei o carro distante dos barracos, debaixo de uma sombra fresca. Caminhei até o lugar fedorento onde esgoto e restos de comida moravam com a namorada de Filé, o traficante que eu precisava capturar.
Normalmente eu não iria sozinho cumprir mandados de prisão, mas Filé já havia combinado com o meu delegado para voltarmos juntos. O filha da puta era tão bom bandido, que sabia que ser preso era parte do jogo que sempre vencia.
O mala era um excelente informante de Ricardo. E por isso precisava de tratamento especial. O próprio Ricardo não poderia fazer a cana para não se desgastar com Filé, já que assim corria o risco de perder tamanha fonte de informação.
"Fica tranquilo, Vital. Já falamos com o Filé, e ele quer puxar essa bronca de boa. Não tem arma e não vai reagir. Pode ir com calma. Ele é tranqüilo. Paga pau de polícia. E você precisa começar a ter contato com esses lixos. São uns lixos, mas necessários".
Minha presença ali era mera burocracia.
"Filé não tá. Foi na casa de uma amiga. O sr é o moço da polícia?" - Era uma jovem gorda de cabelos crespos, alisados por alguma coisa melada. Na frente do barraco tido como casa de Filé. Uma criança me olhava pela fresta da porta, nua. O cachorro dormia em seu pequenino colo tísico.
"Sim. Nós já conversamos."
"Ele me falou".
"Onde ele está?"
"Foi entregar um bagulho na casa de uma amiga. Faz pouco tempo que está aqui e já arrumou esses cachos".
A moça sabia que o coração de filé não tinha exclusividade. Possuía várias amantes, uma mais viciada do que a outra. Em seu mundo de morte iminente, amar significa proteção, garantia de vida com um mínimo de recursos. E a mulher parecia não se importar em dividir.
Poderia aceitar aquilo por não conhecer o carinho terno e descompromissado. Ou por já saberem que a rejeição dói menos que a solidão que os acometeriam, já que amar e pesar são sentimentos gêmeos; um é o medo de sermos estranhos aos iguais, para tanto, nos tornamos parte deles. O outro é o medo de sermos iguais, por isso nos distanciamos.
Minha paciência não era mais forte que o calor que estava sentindo. Pedi o telefone de Filé.
"O dele não tá recebendo chamada, mas se o senhor. quiser eu tenho o da casa da moça. Dá uma ligadinha lá." - Trouxe de dentro do barraco escuro um pedaço de folha de caderno com um número rabiscado. - "Toma, pode ligar. Já deve ter chegado lá. Mas ele vai achar ruim. Filé é tão fogoso, espera uns dez minutos e liga."
Coincidências podem ser curiosas. Ou trágicas. Os filmes americanos parecem impossíveis de serem realizados sem os fatos que surgem e se encaixam aleatoriamente perfeitos para ajudar o enredo, num sincronismo mágico de histórias paralelas. Tudo parece ter motivo pré-estabelecido; sempre se descobre algo inimaginável de maneira acidental, o amor distante que aparece em situações improváveis, o encontro casual.
Serão catastrófico os fatos que apenas acontecem naturalmente, orientando os personagens a se manifestarem pelas suas atitudes diante do corriqueiro?
Essas lembranças surgiram quando tomei consciência (após entender a péssima caligrafia da mulata) de que o telefone da atual namorada de filé era o mesmo número da casa da Michelle, uma namorada que não via há dois anos. A moça deve ter percebido que algo de errado acontecera comigo.
"O sr. conhece ela?"
"Ela?"
"A Michelle. Deve conhecer, na polícia todo mundo sabe quem usa pedra, não é? Eu não, tô sossegada com minha cervejinha, meus filhos..."
"A Michelle usa crack?"
"Crack? Claro. Vive ligando aqui. Ela que vende pras patis. Qualquer dia ainda vô dar uns esporros nela. Onde já se viu? Tá certo que o Filé é gostoso mas, porra! Que falta de respeito."
Michelle usa crack. Michelle viciada em crack. Michelle namorando Filé?
"A senhora já viu como ela é fisicamente?"
"Não, mas sei que mora em Perdizes".
Michelle estava envolvida com essa sujeira? O calor desapareceu, a favela sumiu, a gorda feia, seu cachorro magro e seu filho fedido não existiam mais. Meu queixo tremia.
O carro era difícil de controlar, o mecanismo do cambio endureceu como ferro fundido. O pedal do freio não estava lá, a embreagem não funcionava, o acelerador estava sem pressão, mole como o asfalto quente. Tudo era estranho, menos a casa de Michelle.
Do mesmo modo, o portão alto cor de madeira nobre, o muro rachado, verde. Quando Michelle esquecia a chave, dávamos a volta pela rua de trás, com a qual sua casa fazia fundos. O muro não era tão alto, pulávamos e depois era só atravessar um pequeno pomar para chegar até a casa.
Fiz o mesmo trajeto com as lembranças de todas as vezes, inúmeras, bêbados, que entramos por lá, ora rindo, ora enfurecidos com alguma atitude que o outro fazia. Era a primeira vez em três anos que nos veríamos. Não me ocorreu a hipótese de estar enganado.
A porta da cozinha, como de costume, estava entreaberta. Parei silenciosamente para ouvir os murmúrios que saiam do final do corredor. Caminhei pequeno, alto entre as paredes. Do quarto de Michelle, reconheci sua voz de menina. Parecia grunhir sons vazios, intermitentes. E também uma voz masculina surgiu. Ninguém que morasse ali seria dono dela. Uma risada de homem, diferente da primeira voz. -"anda logo, vaca".
Uma brisa ardida golpeou meu nariz. Era crack. Cheiro forte, amoniacado. No beiral da porta, ouvia o homem repetir: -"vamo, vai logo que não acabou, depois você fuma mais."
Ao olhar minha mão, uma mancha prateada apontava para frente. Não lembrara quando havia sacado a arma. Estava lá, leve, destravada.
Coloquei-me por inteiro na moldura da porta do quarto para observar aquele quadro de cores barrocas: Três pessoas nuas. A primeira era Michelle, sentada na cama, tinha uma marica enfiada na boca e um isqueiro na mão. Os olhos serrados foram se abrindo diafragmamente. Pode ter me visto, mas não esboçou a atitude esperada por mim.
Filé, também pelado na cama, sentado a sua frente e de costas para mim. Outro homem só de cuecas, também preto, mas desconhecido, em pé, preparando carreiras de farinha na cômoda ao lado.
O meu primeiro tiro ensurdeceu por causa da reverberação do estampido. Eu ainda estava no corredor de paredes próximas. O projétil atravessou o ambiente e atingiu Filé no topo da nuca. Vi seu sangue tingir Michelle de um roxo profundo deixando seu cabelo melado como o da negra gorda do barraco. Ela gritava sem sons. Sua boca abria em exagero.
Ela empurrou o corpo pastoso de Filé que havia caído sobre si com a ojeriza que sabia ter de baratas e bichos alados, minúsculos. Meu segundo tiro acertou a testa de Michelle; desta vez pude ouvir o som metálico da cápsula tilintando no chão. Ví quando suas orelhas cuspiram sangue, e pedaços de carne mole saltarem para os lados.
O terceiro tiro só ouvi. O preto da farinha na cômoda acertara meu peito, disparando com uma arma que eu não percebera.
Sempre achei que a dor de um tiro seria pior. Algo insuportável. Mas veio a decepção. Minha garganta saturou-se de um líquido quente. Um clarão de luz atordoou meu equilíbrio e caí.
Antes do preto fugir, tomou minha arma que a mão fraca já não mais conseguia segurar. Pude ver seus olhos de mais perto. Eram saltados, talvez pelo efeito do pó; de cílios compridos e lábios enorme. Tive o azar dele não me matar neste momento; preferiu correr. Cusão.
Esperei deitado o segredo da noite eterna se revelar, finalmente.
Não tinha forças para ver o estado de Michelle. Cheguei a agradecer a atitude do preto fujão; eu mesmo não teria coragem de resolver essa situação assim. E me pareceu ser a mais coerente.
O tom do vermelho na minha camiseta branca era mais forte do que aquele que escorria pelo chão. Seria difícil reproduzir com fidelidade na película uma paleta para isto. Talvez mel com groselha, água para dissolver. Não! Transparente demais, precisaria de algo celeste. Tem cheiro de carne de frango. Salsicha...será simples assim morrer? Nunca deveria ter parado de fumar, se soubesse que morreria assim.
Que bosta. Esperava epifanias, cordões de prata saindo de meu corpo. Por enquanto é só uma moleza gostosa. Imaginei quantos irão ao meu velório. Talvez minha mãe...preciso vê-la com mais freqüência... com quantas mulheres eu teria transado? Patrícia na zona, Andréia, Manuela, Amanda, Michelle... seis ou sete garotas até hoje. Será impossível localizá-las. Poderia levantar-me e ligar para alguma delas, para pedir ajuda ou convidar para meu enterro.
O celular incomodava no bolso da minha calça. Peguei sem saber para quem ligar. Chamou duas vezes - :" tô morrendo, levei tiro...tô na casa da Michelle.". Edgard, o PM, ficou desesperado. Meu dedo parecia feito de pano, visto que não consegui desligar o telefone. Pude ouvir o desespero de Ed na linha. Pedia-me calma.
Agora parecia ser definitivo. O fole esvaziou-se. A festa acabou. Não vieram anjos, nem diabos. Parece que nunca vou morrer. Sou eterno como o tempo. Tudo era regido por uma batuta estranha, sem cadência. Quando nascemos, não sabemos o que é tempo. Único e fungível. Depois vemos que o sol se põe freqüencialmente compassado. Fica noite, fica dia. Tomamos esse pêndulo binário como parâmetro único. A sensação de movimento corrobora nossa expectativa cotidiana.
Queria ter feito um filme. Por que devemos sempre ter o mesmo ritmo, se a mensagem possui várias espécies de linguagens? Tempo, espaço e lugar não caminham tão juntos assim. Seria o cinema apenas um teatro filmado?
Só naquele momento não me envergonhava destas perguntas tolas. Perguntas de que fugi a minha vida toda. Todo mundo sabe tanto. Eu só preciso manter as ruas limpas para todos andarem tranqüilos.
Tive que parar de pensar sobre isso devido uma intensa dor que sobreveio. Estava sim, aguda e insuportável; satisfeito, pois sabia que o fim seria breve. Ouvi vozes, aveludadas, pude voar.
Quando acordei já estava na Santa Casa; dois tiros no peito e um pulmão perfurado. Morreram Michelle, Filé e o preto fujão, que depois soube chamar-se Tigudum. Este último não fora eu, e sim a PM, quando o encontrou pelado e armado, escondido dentro de uma casa vizinha. Pelo menos, assim estava no B.O.
Fui afastado da polícia por tempo indeterminado até que fosse apurado o que realmente acontecera. procedimento comum em casos assim. Matei a Michelle. Eu nunca vou morrer.
"Sinto por Filé ter matado sua ex-namorada.
Era meu delegado avisando como a situação ficou resolvida.





Comentários
AEW! Finalmente o tipo de post que me fez gostar de ler blogs, e me motivou a criar um!
Mas, não me falhando a memória, não é inédito, é? Ao menos me lembrou de outro post, de 2005 talvez.
Sensacional narrativa, obrigado! Abraço.
Por Eduardo | 24/jul/2008 21:43
Sim... aquele foi o rascunho.
Esse me parece ser mais adequado.
Abração
Por Roger | 25/jul/2008 23:22
é isso ai Roger...
Muito bom!
Valeu
Por Leandro Vieira | 26/jul/2008 11:34
O texto me prendeu de uma forma incrível...Vejo que em breve terei um novo livro de cabeceira! Gostei demais! Esperando os próximos textos, ok?
Bjs
Por Jackie Morena | 27/jul/2008 12:40
Rapaz, assim você me mata de angústia por ficar esperando o livro. Esse é o tipo de história que eu mais amo ler.
Super beijo.
Por Carol | 01/ago/2008 12:22