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28jul2008

PCC, DP e DHPP

Às quatro da manhã, tenha flagrante sendo elaborado ou não, eu e o Ricardo sempre revezamos o banco azul do atendimento do andar de cima da delegacia para dormir. Eu prefiro dormir no segundo período, que estipulamos começar à meia noite. No começo da madrugada eu não tenho sono. Por isso eu sempre perdia uma, uma hora e meia, às vezes três horas só para começar a cochilar. Além do risco de ser pego por alguma ronda com um delegado mal comido da corregedoria, sempre que eu tombava no sono pesado, vinha o Ricardo me avisar que já eram quatro horas, e deveria descer para o balcão do plantão da delegacia. O delegado começava dormir lá pelas onze. O escrivão nunca dormia. Sujeito maluco, cheio de tiques.

Gostava de dormir no primeiro turno, assim eu acordava com o plantão vazio. Depois vinha o Ricardo assumir nossa cama improvisada, e então eu prosseguia com o sono ali mesmo, na frente do DP. Com a porta trancada, eu sentava na cadeira, deitava meio corpo sobre a mesa e descansava minha cabeça sobre o braço. Acordava com ele formigando e insensível. Era indiferente se havia ocorrências ou não. Do lado de fora, foda-se o mundo. Quem quiser registrar B.O., que venha amanhã, depois das nove, quando estarei em casa.

Como disse, eu dormir no segundo turno. Era meu preferido. Até a hora chegar, eu ficava sentado lá ná frente do DP, lendo alguma coisa, fumando, ensaiando um sono. Às quatro, mal subia as escadas, e apagava meu corpo, junto com a brasa do FREE. Acordava sempre no dia seguinte, com a faxineira brincando quando passava, sempre com a mesma piada:

"Olha o PCC, doutor! Acorda"

Pau no cu da senhora, e do PCC - eu pensava. Mas ela ria gostoso, então isso me deixava feliz. Alguém que consegue sorrir dentro de uma delegacia merece respeito.

Em uma madrugada assim, faltando dez minutos para minha vez de ir deitar, fui ao banheiro mijar e lavar o rosto. Parei em frente à pia e quando fui tirar a arma do coldre, ela ficou presa na cinta (há muito tempo uso a PT na cinta da calça, pq não tenho dinheiro para o coldre).

Creio que a trava da arma ficou presa em alguma parte da calça. Quando puxei com mais força, a arma disparou. Confesso que a sensação de se ouvir um disparo de uma ponto quarenta dentro de um banheiro é singular. Fiquei surdo e cego por alguns instantes. Ouvi o projétil ricochetear pelo ladrilho, e o metal da cápsula quicando dentro da louça da pia. Levei a mão à perna para tantar sentir o sangue. Não havia nada.

Aos poucos, notei que nenhuma parede se quebrara, ou azulejos quebrados. Incrível, mas o projétil era tão frágil que se dissolveu com o impacto. Talvez o ângulo de entrada... só sei que dei muita sorte.

Só então compreendi a cagada: o tiro iria alertar os vizinhos, a PM, a corregedoria, os macacos do GOE... eu estava fudido. Mesmo sendo acidental, um disparo desses dentro do banheiro era motivos para uma sindicância generosa. Principalmente se a imprensa fica sabendo.

Guardei a arma e sai do banheiro pensado em uma desculpa. No saguão, o ecsrivão estava deitado em cima da mesa dele. O delegado trancado em sua sala, e o Ricardo, bem, esse dava para ouvir o seu ronco ainda daqui do andar de baixo.

Como já eram quatro e quinze, fui acordá-lo

"Caralho, Ricardo. Não ouviu que minha arma disparou?"
"Sua arma? Não ouvia nada não."

Aliás, só ali notei que ninguém havia ouvido o tiro. E me dei conta que se o disparo houvesse sido feito de outra arma, por outra pessoa, em minha direção, ninguém daquela delegacia ouviria. Ninguém no mundo inteiro ouviria. Se eu disparasse contra minha própria cabeça, quem sabe nem mesmo eu ouvisse.

Deitei e apaguei rápido, sentindo o cheiro forte de pólvora que ficou em minhas mãos. Por algum motivo sonhei com uma moça chamada Virgínia, que usava minissaia, para quem eu escrevi uma peça aos 15 anos. E depois sonhei que o tenente 02 acariciava o rosto do capitão Nascimento.

Mas aí apareceu a Dona Cida, com seu sorriso de gente despreocupada:

"Olha o PCC, Doutor! Acorda"

PS: Pela nonagésima vez esse ano, vou mandar mensagem para o DHPP e tentar trabalhar lá. Da ultima vez, o chefe da equipe perguntou se eu conhecia algum deputado que me ajudasse na ida. Pelo o que tenho lido na blogsfera, parece que não sou só eu que morde a língua para não parecer cínico Então, se alguém aí tiver algum parente candidato à alguma coisa, diga à ele que se me ajudar a ir para o Dê Agá, eu voto nele, e arrumo mais trezentos eleitores. E também prometo dois meses do salário. Eu preciso muito dormir oito horas por dia!!

Comentários

Só tenho três coisas para dizer sobre o post: Adorei, adorei e adorei...

E pensar que eu disse que não voltaria mais aqui. Acho que eu fiquei chateada com o seu desabafo, aquele papo de dizer que só iria escrever quando só você precisasse, eu também precisava do que você escrevia, acho que foi por isso que continuei lendo discretamente o seu blog.
Tô gostando de ver.
Beijos
Carol.

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