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25jul2008

O Velho

Uma madrugada de tranqüilidade. Os funcionários foram se deitar por volta das quatro horas. O delegado avisara que, caso a ronda noturna com o delegado de sobreaviso da corregedoria aparecesse para a vistoria, deveríamos fingir que a equipe estava no primeiro andar jogando baralho. Dormir no plantão era falta grave.

A administração os obrigava a agüentar as doze horas ininterruptas com presteza. Sabiam que se a ronda resolvesse aparecer seria por volta das quatro horas, depois que o pessoal da corregedoria acordava. Aí poderiamos trancar a porta do DP e apagar.

Vital ficou aguardando a possível ronda chegar no andar superior do prédio, com muito sono, também deitaria-se.

Em dado momento, ouviu uma voz chamando no bancada de pedra da recepção da portaria:

"Eu quero fazer um registro de ocorrência!"

Com um sotaque carregado de carioca, a voz pigarrenta do um velho ressoava pela delegacia. Vital desceu apressado as escadas, mas com certa calma, para não demonstrar ao contribuinte que estava quase dormindo.

Era um careca de pele manchada, poucos fios brancos e longos que insistiam em não desaparecer ao longo de suas orelhas enormes. Rosto fino, no qual os olhos afundavam sobre bolsas cansadas. Olhava para o vazio. Por algum motivo que Vital - não queria ter que pensar - o velho vestia terno marrom, chapéu e fumava charutos.

"Eu quero fazer um registro de ocorrência"
"Um boletim de ocorrência?"
"Dê o nome que quiser à notitias criminis que lhe trago. Eu também fui da polícia, meu filho. Quando mais jovem, claro, lá no Rio de Janeiro"

Vital não gostava de cariocas. Principalmente de seu sotaque. Se não bastasse essa sua pré-disposição, o velho ainda apresentava um ar aristocrático que lhe incomodava. Que diabos um velho caquético como esse vinha fazer na delegacia aquela hora da madrugada? Será que só estava ali para mostrar que sabia o que era uma notitia criminis? Outro ganso, com certeza. Alguém que gostaria de ter sido polícia, não conseguiu, e agora fica assombrando as delegacias com sua presença.

Vital estava com o discurso pronto para se desfazer da encheção de saco que era o velho e, enfim, dormir. Deveria levantar as oito e meia para poder assistir a aula que perdeu na noite anterior. Por isso, nada o impediria de dormir, nem que fosse por alguns minutos do resto daquela madrugada. Diria ao desgraçado velho que o sistema eletrônico de registro de boletins de ocorrência estava fora do ar, como sempre fazia para se livrar das vítimas chatas.

"Eu quero falar com o delegado. Você é o delegado?"
"Não. Sou o investigador"

Definitivamente, Vital odiava cariocas. E queria dizer isso ao velho, mas ponderou. A sentença ficou pela metade, e a palavra órfã. Se fosse o Ricardo, com certeza já teria mandado esse desgraçado a merda. Cariocas folgados. Todos eles. Cazuza , uma bicha cafona. Os velhos eram piores. Este lhe lembrava o Niemeyer, o velho carioca com um puta mau gosto.

Vital sempre lembrava do cafonismo do velho e festejado construtor quando tinha que ir ao prédio do DETRAN. Durante os dias de verão, estar naquela caixa quente de cimento sem ventilação era claustrofóbico. Os funcionários daquela repartição sofriam com o calor, e maldiziam o gênio da arquitetura moderna.

Evidentemente, Niemeyer nunca teve que trabalhar atrás de uma balcão de repartição pública. Por isso pouco se importava com os trabalhadores. Aliás, nunca entendera o motivo de toda essa admiração pelo arquiteto. "Como podem levar aquele homem a sério? Brasília é a coisa mais feia do mundo, e só perde para o memorial da américa latina".

Achava-o um hipócrita, isso sim. Como uma pessoa se diz socialista, mas nunca mexeu uma palha para melhorar a vida dos trabalhadores? Ora, se não estava mancomunado com o regime militar, como conseguiu construir tanto às custas do estado de exceção?

"O que aconteceu com o senhor?"
"Quero falar com o delegado. Sou um ex colega. Fui comissário de polícia no Rio" - E tragou seu charuto com extremo prazer, tentando fazer com que a fumaça saísse de sua boca em bolinhas.
"Comissário? Da marinha?"
"Comissário da polícia. Antes de haver delegados, havia os comissários de polícia. Nunca ouviu falar?".

Era o ponto final para a conversa. O velho já tinha sido demasiadamente arrogante com essa lição de história. Vital estava pronto para chutar-lhe porta afora.

"O delegado saiu. Estamos sem sistema para registrar sua ocorrência. Sugiro que venha mais tarde, depois da nove. E eu achava que comissários eram só nas histórias ruins do Rubem Fonseca. De comissário, só conheço o Mattos, do livro Agosto."

Vital não conseguiu distinguir se o rosto do velho naquele momento demonstrava desprezo, por saber estar sendo chutado da repartição policial. Ele ficou inerte, fitou o policial com profundidade. Dava para notar que, com a ponta da língua, saboreava o pouco do charuto que se escondia em sua boca murcha, fazendo a fumaça sair da outra extremidade em desenhos enviesados. Balançava a cabeça positivamente, mas Vital quase não notara o balanço. Ao se aproximar, o investigador sentiu o cheiro alcoólico do hálito senil. Entendeu na hora que aquilo poderia se tornar um problema. Deveria ser rápido no despacho.

"Desde quando um investigador lê livros? Na minha época o bom inspetor - era assim que nós os chamávamos - só precisava ter coragem de bater. E saber matar, se necessário. Mas ler livros? Você, jovem, consegue entender as obras de Rubem Fonseca" - podia-se ver um sorriso de escárnio lambuzando sua boca de barba mal cortada.

Caso fosse uns trinta anos mais novo, Vital já teria pego o velho pelo cu da calça e chutado até o asfalto. Se mais novo ainda, algemava-o e o jogaria no corró por causa da falta de respeito. Mas temia que a fragilidade da idade quebrasse algum de seus ossos quando sua fúria tomasse conta. Respirou fundo:

"E há coisas para entender em Rubem Fonseca? Um autor prolixo, de histórias pobres. Um maçaneta que nunca pisou em uma delegacia na vida. A literatura policial brasileira sofre desse mal. Ela é escrita pela classe média arrogante, ou pelo pobre preto e vítima. Os dois odeiam a polícia. Não sabem quem é a polícia. Nunca se preocuparam em saber a bosta da vida do policial, preso entre a criminalidade e a administração da elite. Onde já se viu? Advogado investigando crimes? Um advogado chamado Mandrake? De que polícia ele fala? Da Suiça?

"Rubem Fonseca também foi policial" - o velho estava menos eufórico diante do discurso do investigador.

"Policial o caralho! Polícia é quem faz plantão e tem que atender vítima chata de madrugada, que acredita no governo e acha que o estado possui a polícia do NYPD. Ele era maçaneta. Delegado de departamento, que trabalhava dois dias por semana. Era da relações públicas da polícia. Filho de gente importante, conseguiu estudar e crescer porque era influente. Nunca deu um tiro na vida. Nunca prendeu ninguém. Agora vem me dizer que o que ele escreve é genial? Que polícia é aquela que ele retrata? A polícia do incrível mundo de Rubem Fonseca? Polícia que não faz plantão e acha que o delegado é um juiz de direito? Ele é outro estúpido que escreve romances policiais e querendo ser livro da fuvest. Quem lê Rubem Fonseca? Aposto que ninguém interessante."

"Ele era policial."

Vital respirou fundo. Notou que havia se exaltado demais e o velho estava perturbado com suas palavras. Talvez tenha se ofendido.

"Você tem razão, rapaz, quando diz que o que ele escreve é duvidoso. Não acho que Rubem Fonseca seja genial. Sua retórica é de um Nelson Rodrigues menos inspirado. Mandrake realmente é um bufão, uma fraude. Uma piada com a crítica punheteira e bichona. E a imprensa caiu nessa conversa fiada. Mas ele foi policial. E isso posso garantir. Ele era um comissário corajoso, destemido. Gostava de perseguir os bandidos com lógica e razão. Ele não apostava na violência, e por isso se afastou das ruas.

"Como poderia ter sido um policial tão ativo, se o que escreve não tem anda a ver com a realidade da polícia? Advogado investigando? Quer coisa mais surreal do que isso? Advogado toma dinheiro do cliente, e ele tá nem aí pra investigação."

Vital se aproximou do velho sentiu seu odor desagradável de álcool e tabaco. Conseguiu ver a marca do charuto: Panatela. Não conhecia, talvez fosse importado. Afastou-se mais um tanto, porque começou a sentir um cheiro de merda. Leve. Mas era de merda.

"A literatura não é a vida real, meu caro rapaz, como você deseja. Deixe a vida que você atende todos os dias nessa delegacia para o jornalismo. A literatura discute a vida com outra verdade, com outra ferramenta. E o romance policial é uma dessas possibilidades. Fala-se da relação entre as regras socais e as coincidências da verdade que as atropelam sem pedir licença. Você precisa entender que somente um olhar externo ao estado consegue identificar a desgraça que é a vida da polícia. Um polícia nunca seria capaz de escrever sobre sua própria condição de oprimido, sabia disso? Por isso todos os livrode policiais precisam de um personagem que não é nem bandido, nem polícial, para estabelecer uma relação entre a lei e a verdade. E o Rubem usa o advogado porque no Brasil não existe o Private Eyes - já que o nosso detetive particular é o ganso" - o velho ria enquanto ensinava Vital, levando a mão à boca para impedir que sua saliva escorresse pelo queixo. Vital estava quase gostando da conversa, não fosse o sono.

"É o detetive que pode interpretar os sinais do crime sem a cegueira da polícia, ou a loucura da vítima. Ele não pertence ao mundo do delito, tampouco ao mundo da lei. Está à margem de todas as regras. E estando às margens, pode dizer aquilo que quem pertence ao universo do crime ou do estado não pode dizer. Ele pode ser aquilo que nenhum policia teria a condição de ser: um intelectual. Você, policial, consegue manter a linha racional e independente ao longo de uma investigação?"

Vital não estava preocupado em responder. Havia bocejado algumas vezes para fazer o idoso entender que não era bem vindo ali, mas não funcionava. O velho queria falar, e Vital, como como educado, estava ouvindo. Mas não sabia até quando?

"Plantão investigar? Desde quando o plantão investiga? Aqui todos somos porteiros, senhor. Porteiros de luxo. Ou porteiros de lixo, como corre uma de nossas piadinhas interna e suja. Aqui nós tentamos ao máximo não transparecer para a população o quanto elas esta desprotegida. Na verdade, só se investiga aquilo que a imprensa exige, ou algo que vai dar muito lucro aos policiais"

O sono estava fazendo Vital falar demais. Talvez a raiva que sentia do velho estar ali, naquela hora, tenha ajudado a dizer coisas que assustavam tanto as pessoas. Mas o velho não parecia prestar atenção as lamentações do investigador.

"Viu, meu jovem. A polícia, como instituição, funciona mal. E torna seus policiais são animais anti-sociais. Rubem temia isso. Não queria ser um sociopata. Queria ter esposa, filhos, casa para morar e levar as crianças para comer na sogra aos domingos."

Vital estava pronto para pedir ao velho que se retirasse e reiterar o pedido para voltar mais tarde. As horas corriam no relógio e ele começava a ficar ansioso por não dormir. Estava tão absorto no desespero para descansar que deixou escapar o detalhe do velho saber tanto sobre a vida de um escritor.

Não há como ser policial sem ser violento? Veja você. Vejo que é um rapaz inteligente, causa surpresa estar aí, deste lado do balcão. Acha que vai conseguir manter essa velocidade de raciocínio por mais quanto tempo sem se desumanizar?"

"O senhor é como todos. Adora Rubem Fonseca e odeia o policial. E hoje o Rubem Fonseca, para se eximir de se explicar porque seus livros são tão ruins, faz o tipo Greta Garbo e não conversa com ninguém. E a mídia adora isso. Trata-o como uma entidade sagrada, inatingível. Para mim ele é viado."

"Besteira!" Bradou o velho, descendo sua mão branca e de pele viscosa com força sobre o granito gelado do balcão.

A voz alta e ensopada de pigarro do velho fez Vital despertar. A reação violenta daquele senhor lhe deixou receoso. Como podia ter deixado a conversa prolongar-se tanto. Ou mandava a figura embora, ou registrava sua ocorrência. E a última hipótese não lhe parecia mais certa.

"Vocês jovens são tão prepotentes. Não sabem respeitar aqueles que lhes abriram caminhos. Antes não havia romance policial no Brasil, meu caro. Só palavrinhas bonitas e um monte de intelectual de esquerda que achava bonito ser miserável. O que você sabe de literatura? O que você sabe de policia?" - os olhos do velho saltavam por sobre as bolsas que antes os escondia

"E hoje continua não havendo nada. O que há é um monte de palavrão sobre gente miserável. Quem são nossos escritores policiais? Toni Beloto? Garcia-Roza e seu médico asséptico? Ou seu delegado Spinoza, alheio a violência cotidiana do Rio. Insignificantes, de um mundinho paralelo, que nunca chegarão às massas. Manoel Carlos e Paulo Coelho são mais representativos, dentro de sua mentiras sociais."

Àquela hora um discussão como essa não levaria a caminho algum. A ronda da corregedoria não apareceu, e Vital perdia tempo com um homem desconhecido.

O velho não parecia feliz com o ponto de vista de Vital. Abriu a aba do paletó e mostrou o cabo do revólver que trazia no coldre da cintura. Um calibre trinta e oito, cromado, cabo de marfim. Vital ficou preocupado com aquilo. Afinal, um homem entrara armado na delegacia.

Não apresentava intenções de machucá-lo. Apenas mostrou a arma a Vital. Não compreendeu o motivo do show. O velho sorria com dentes amarelos e manchados de preto entre um e outro. Se ameasse colocar a mão no revólver, Vital sacaria a pistola e estouraria os miolos daquela decadência ali mesmo.

Mas então lembrou-se que havia largado sua arma no banco da chefia onde costumava dormir. Gelou ao lembrar o quanto estava vulnerável, e de sua estupidez em atender alguém de madrugada estando desarmado. Não havia regras internas de como se deve atender ao público. Isso aprendia-se na prática do dia a dia.

Só restava ser rápido o suficiente para não deixar o velhote atirar. Não deveria ser difícil, já que naquela idade ele não apresentava ser um exímio lutador. Seria dominado com rapidez.

"Eu fui policial. E dos bons. Matei um cara só na vida. E por causa disso minha vida terminou. Deveria ter matado mais. Saía dessa merda enquanto é tempo, garoto. Se não vai terminar numa bosta de vida, como a minha. Com gente descartável. Hoje estou velho, e não preciso mais ter medo de matar pessoas. Mas minha vida inteira eu tive medo disso. Só porque o filha da puta que matei morreu olhando pra mim. Desgraçado. Ele me matou também, olhando pra mim. O que me me consola é a literatura. E tudo o que leio me cansa. Odeio gente, entende?"

Não era uma pergunta para ser respondida. E Vital sabia disso. Queria muito que Ricardo, que provavelmente estava jogando paciência em algum da chefia, viesse lhe ajudar. Se o velhote soubesse que havia outros policiais, talvez não fizesse nada mais do que falar.

"Ia lhe recomendar, garoto, que saísse da polícia porque era inteligente demais para estar aqui. Seu lugar não aqui. Mas não porque pensa diferente. Porque é subversivo. E um pobre ser subversivo é perigoso. Se a polícia não perceber isso logo, ambos terão problemas." - O velho puxou uma bufada funda de seu charuto.

Olhou o nome dos investigadores que faziam plantão naquela noite na placa da parede. Perguntou ao Vital qual dos dois nomes estampados era do o seu :

"Só respondo se me disser qual seu nome"
"E isso vai fazer diferença à sua petulância?"

O velho virou-se, abriu a porta de vidro da saída e desapareceu na noite. Vital correu para trancá-la, a fim de que ninguém mais ousasse lhe perturbar naquela noite para mais nada. Para tudo mais estavam fechado. Não conseguiu dormir mais. Teve que ir para a faculdade com a noite em branco. O sono resolveu aparecer no meio da aula de direito previdenciário.

Dias depois, na delegacia, um envelope lhe esperava. Dentro dele, folhas amarelas de papel rasgadas de um livro. Rasgadas sem nenhum cuidado, como que por mãos inseguras.

Um texto chamado:"Os sujeitos trágicos: literatura e psicanálise." Sob o título, uma dedicatória: "A polícia não teria nenhuma graça se seus todos seus policiais fossem como nós. E a literatura não serviria de nada, se seus personagens fossem como nós deveríamos ser. RF."

Comentários

Isso está se tornando vicioso! Já entro na net e venho ver se tem algum post novo.
Bom demais!
Valeu Roger...Show!

Chega de ficar assanhando os outros com esses posts e fala pra Olívia "soltar o pega"...do jeito que vc tá fazendo não vale...

Excelente, Roger. Muito bom mesmo. E o livro que você falou, quando vai ser lançado? Já quero comprar.

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