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julho 31, 2008

O "bonde" e a política de apadrinhamento na PC-SP

Sempre que falo da existência do "bonde" na polícia, dizem que exagero, e que isso é uma ferramenta que os delegados utilizam apenas para resolver problemas internos.

Não tenho dúvidas de que o sistema de segurança pública, para ser reformulado, deve sair das mãos dos delegados, da maneira como os conhecemos hoje. Não sei se o Ministério Público tem perfil para transformá-la. O exemplo das carreiras verticalizadas, com o acesso do policial ostensivo até ao cargo máximo da investigação é o que melhor funciona, tendo em vista os modelos que existem em outros países.

O bonde continua sendo a melhor maneira dos delegados chefes para calar a boca daqueles que intencionam alterar o status quo da corporação. Alertado pelo Dr. Guerra, um tipo singular de delegado que pode desaparecer, hoje descobrimos um ótimo exemplo do uso do "bonde" como instrumento de coação:

"POLICIAL QUE INVESTIGOU COLEGAS SOFREU AMEAÇAS

Por André Camarante -
Cotiano - Folha de São Paulo em 31/07/2008 (assinantes)

Caso ocorreu em maio, quando a delegada apurava o desvio de 327,5 kg de cocaína no Denarc, o departamento de narcóticos - Alexandra da Silveira foi afastada da corregedoria após concluir inquérito sobre grupo acusado de usar estrutura da polícia para falsificar CNHs.

A delegada Alexandra de Agostini Randmer da Silveira, 37, afastada da Corregedoria da Polícia Civil anteontem pelo chefe da corporação, Maurício José Lemos Freire, sofreu ameaças quando investigava, em maio, um grupo de policiais suspeitos de desviar 327,5 kg de cocaína do Denarc (departamento de narcóticos). Alexandra foi também a responsável pela investigação da máfia das CNHs de Ferraz de Vasconcelos (Grande São Paulo). Um inquérito está andamento no 89º DP (Portal do Morumbi) para apurar quem são os responsáveis pela ameaça, feita por telefone na residência da policial, que está há 14 anos na Polícia Civil, é casada e mãe de um menino. Ela ficou um ano e meio na corregedoria.

A ameaça ocorreu quando ela estava prestes a concluir a investigação na qual os delegados Roberto Leon Carrel e Luiz Henrique Mendes de Moraes, juntamente com os investigadores Ismar José da Cruz, João Carlos da Silva e Valdir Jacinto dos Santos, acabaram acusados pelo Ministério Público de sumir com os 327,5 kg de cocaína.
A delegada ouviu do interlocutor, segundo investigadores do 89º DP que tentam descobrir quem fez a ligação, que "deveria tomar cuidado com o caso que estava prestes a esclarecer [o desaparecimento da cocaína do Denarc], porque muita gente iria ser prejudicada com isso, inclusive ela própria".
De acordo com as investigações da delegada, os cinco policiais civis, todos eles no Denarc à época do sumiço da droga, em abril de 2003, substituíram os 327,5 kg de cocaína por outra com grau de pureza menor e, portanto, com menor valor.
A reportagem não conseguiu falar com a delegada ontem.

Afastamento
O afastamento da corregedoria anteontem ocorreu cinco dias após Alexandra ter concluído o inquérito sobre 29 pessoas -nove delas policiais civis, sendo três delegados- acusadas de integrar a quadrilha que usava a infra-estrutura da Polícia Civil em Ferraz para falsificar e vender CNHs (carteira nacional de habilitação).
Segundo o promotor Marcelo Alexandre de Oliveira, ela foi retirada por "retaliação".
Ao transferir a delegada para o Decap (Departamento de Polícia Judiciária da Capital), que coordena os distritos policiais da capital, o delegado-geral Freire também fez com 45 investigações desenvolvidas pela policial sofressem alterações. Nesses casos, cerca de 80 policiais -dentre eles ao menos 20 delegados- são investigados.
Quando concluiu a apuração sobre a máfia das CNHs, a delegada pediu a decretação da prisão preventiva de todos os 29 suspeitos. Além de ser contra o pedido da decretação da prisão preventiva dos três delegados acusados, segundo apurou a Folha, a cúpula da Polícia Civil não queria que ela solicitasse à Justiça a quebra dos sigilos fiscal e telefônico dos acusados."


PS:Na verdade, a sociedade está pouco lixando para essa política de padrinhos. O que ela quer é a certeza de poder andar de carro sem ver meninos pobres vendendo coisas nos semáforos.

julho 28, 2008

PCC, DP e DHPP

Às quatro da manhã, tenha flagrante sendo elaborado ou não, eu e o Ricardo sempre revezamos o banco azul do atendimento do andar de cima da delegacia para dormir. Eu prefiro dormir no segundo período, que estipulamos começar à meia noite. No começo da madrugada eu não tenho sono. Por isso eu sempre perdia uma, uma hora e meia, às vezes três horas só para começar a cochilar. Além do risco de ser pego por alguma ronda com um delegado mal comido da corregedoria, sempre que eu tombava no sono pesado, vinha o Ricardo me avisar que já eram quatro horas, e deveria descer para o balcão do plantão da delegacia. O delegado começava dormir lá pelas onze. O escrivão nunca dormia. Sujeito maluco, cheio de tiques.

Gostava de dormir no primeiro turno, assim eu acordava com o plantão vazio. Depois vinha o Ricardo assumir nossa cama improvisada, e então eu prosseguia com o sono ali mesmo, na frente do DP. Com a porta trancada, eu sentava na cadeira, deitava meio corpo sobre a mesa e descansava minha cabeça sobre o braço. Acordava com ele formigando e insensível. Era indiferente se havia ocorrências ou não. Do lado de fora, foda-se o mundo. Quem quiser registrar B.O., que venha amanhã, depois das nove, quando estarei em casa.

Como disse, eu dormir no segundo turno. Era meu preferido. Até a hora chegar, eu ficava sentado lá ná frente do DP, lendo alguma coisa, fumando, ensaiando um sono. Às quatro, mal subia as escadas, e apagava meu corpo, junto com a brasa do FREE. Acordava sempre no dia seguinte, com a faxineira brincando quando passava, sempre com a mesma piada:

"Olha o PCC, doutor! Acorda"

Pau no cu da senhora, e do PCC - eu pensava. Mas ela ria gostoso, então isso me deixava feliz. Alguém que consegue sorrir dentro de uma delegacia merece respeito.

Em uma madrugada assim, faltando dez minutos para minha vez de ir deitar, fui ao banheiro mijar e lavar o rosto. Parei em frente à pia e quando fui tirar a arma do coldre, ela ficou presa na cinta (há muito tempo uso a PT na cinta da calça, pq não tenho dinheiro para o coldre).

Creio que a trava da arma ficou presa em alguma parte da calça. Quando puxei com mais força, a arma disparou. Confesso que a sensação de se ouvir um disparo de uma ponto quarenta dentro de um banheiro é singular. Fiquei surdo e cego por alguns instantes. Ouvi o projétil ricochetear pelo ladrilho, e o metal da cápsula quicando dentro da louça da pia. Levei a mão à perna para tantar sentir o sangue. Não havia nada.

Aos poucos, notei que nenhuma parede se quebrara, ou azulejos quebrados. Incrível, mas o projétil era tão frágil que se dissolveu com o impacto. Talvez o ângulo de entrada... só sei que dei muita sorte.

Só então compreendi a cagada: o tiro iria alertar os vizinhos, a PM, a corregedoria, os macacos do GOE... eu estava fudido. Mesmo sendo acidental, um disparo desses dentro do banheiro era motivos para uma sindicância generosa. Principalmente se a imprensa fica sabendo.

Guardei a arma e sai do banheiro pensado em uma desculpa. No saguão, o ecsrivão estava deitado em cima da mesa dele. O delegado trancado em sua sala, e o Ricardo, bem, esse dava para ouvir o seu ronco ainda daqui do andar de baixo.

Como já eram quatro e quinze, fui acordá-lo

"Caralho, Ricardo. Não ouviu que minha arma disparou?"
"Sua arma? Não ouvia nada não."

Aliás, só ali notei que ninguém havia ouvido o tiro. E me dei conta que se o disparo houvesse sido feito de outra arma, por outra pessoa, em minha direção, ninguém daquela delegacia ouviria. Ninguém no mundo inteiro ouviria. Se eu disparasse contra minha própria cabeça, quem sabe nem mesmo eu ouvisse.

Deitei e apaguei rápido, sentindo o cheiro forte de pólvora que ficou em minhas mãos. Por algum motivo sonhei com uma moça chamada Virgínia, que usava minissaia, para quem eu escrevi uma peça aos 15 anos. E depois sonhei que o tenente 02 acariciava o rosto do capitão Nascimento.

Mas aí apareceu a Dona Cida, com seu sorriso de gente despreocupada:

"Olha o PCC, Doutor! Acorda"

PS: Pela nonagésima vez esse ano, vou mandar mensagem para o DHPP e tentar trabalhar lá. Da ultima vez, o chefe da equipe perguntou se eu conhecia algum deputado que me ajudasse na ida. Pelo o que tenho lido na blogsfera, parece que não sou só eu que morde a língua para não parecer cínico Então, se alguém aí tiver algum parente candidato à alguma coisa, diga à ele que se me ajudar a ir para o Dê Agá, eu voto nele, e arrumo mais trezentos eleitores. E também prometo dois meses do salário. Eu preciso muito dormir oito horas por dia!!

julho 25, 2008

O Velho

Uma madrugada de tranqüilidade. Os funcionários foram se deitar por volta das quatro horas. O delegado avisara que, caso a ronda noturna com o delegado de sobreaviso da corregedoria aparecesse para a vistoria, deveríamos fingir que a equipe estava no primeiro andar jogando baralho. Dormir no plantão era falta grave.

A administração os obrigava a agüentar as doze horas ininterruptas com presteza. Sabiam que se a ronda resolvesse aparecer seria por volta das quatro horas, depois que o pessoal da corregedoria acordava. Aí poderiamos trancar a porta do DP e apagar.

Vital ficou aguardando a possível ronda chegar no andar superior do prédio, com muito sono, também deitaria-se.

Em dado momento, ouviu uma voz chamando no bancada de pedra da recepção da portaria:

"Eu quero fazer um registro de ocorrência!"

Com um sotaque carregado de carioca, a voz pigarrenta do um velho ressoava pela delegacia. Vital desceu apressado as escadas, mas com certa calma, para não demonstrar ao contribuinte que estava quase dormindo.

Era um careca de pele manchada, poucos fios brancos e longos que insistiam em não desaparecer ao longo de suas orelhas enormes. Rosto fino, no qual os olhos afundavam sobre bolsas cansadas. Olhava para o vazio. Por algum motivo que Vital - não queria ter que pensar - o velho vestia terno marrom, chapéu e fumava charutos.

"Eu quero fazer um registro de ocorrência"
"Um boletim de ocorrência?"
"Dê o nome que quiser à notitias criminis que lhe trago. Eu também fui da polícia, meu filho. Quando mais jovem, claro, lá no Rio de Janeiro"

Vital não gostava de cariocas. Principalmente de seu sotaque. Se não bastasse essa sua pré-disposição, o velho ainda apresentava um ar aristocrático que lhe incomodava. Que diabos um velho caquético como esse vinha fazer na delegacia aquela hora da madrugada? Será que só estava ali para mostrar que sabia o que era uma notitia criminis? Outro ganso, com certeza. Alguém que gostaria de ter sido polícia, não conseguiu, e agora fica assombrando as delegacias com sua presença.

Vital estava com o discurso pronto para se desfazer da encheção de saco que era o velho e, enfim, dormir. Deveria levantar as oito e meia para poder assistir a aula que perdeu na noite anterior. Por isso, nada o impediria de dormir, nem que fosse por alguns minutos do resto daquela madrugada. Diria ao desgraçado velho que o sistema eletrônico de registro de boletins de ocorrência estava fora do ar, como sempre fazia para se livrar das vítimas chatas.

"Eu quero falar com o delegado. Você é o delegado?"
"Não. Sou o investigador"

Definitivamente, Vital odiava cariocas. E queria dizer isso ao velho, mas ponderou. A sentença ficou pela metade, e a palavra órfã. Se fosse o Ricardo, com certeza já teria mandado esse desgraçado a merda. Cariocas folgados. Todos eles. Cazuza , uma bicha cafona. Os velhos eram piores. Este lhe lembrava o Niemeyer, o velho carioca com um puta mau gosto.

Vital sempre lembrava do cafonismo do velho e festejado construtor quando tinha que ir ao prédio do DETRAN. Durante os dias de verão, estar naquela caixa quente de cimento sem ventilação era claustrofóbico. Os funcionários daquela repartição sofriam com o calor, e maldiziam o gênio da arquitetura moderna.

Evidentemente, Niemeyer nunca teve que trabalhar atrás de uma balcão de repartição pública. Por isso pouco se importava com os trabalhadores. Aliás, nunca entendera o motivo de toda essa admiração pelo arquiteto. "Como podem levar aquele homem a sério? Brasília é a coisa mais feia do mundo, e só perde para o memorial da américa latina".

Achava-o um hipócrita, isso sim. Como uma pessoa se diz socialista, mas nunca mexeu uma palha para melhorar a vida dos trabalhadores? Ora, se não estava mancomunado com o regime militar, como conseguiu construir tanto às custas do estado de exceção?

"O que aconteceu com o senhor?"
"Quero falar com o delegado. Sou um ex colega. Fui comissário de polícia no Rio" - E tragou seu charuto com extremo prazer, tentando fazer com que a fumaça saísse de sua boca em bolinhas.
"Comissário? Da marinha?"
"Comissário da polícia. Antes de haver delegados, havia os comissários de polícia. Nunca ouviu falar?".

Era o ponto final para a conversa. O velho já tinha sido demasiadamente arrogante com essa lição de história. Vital estava pronto para chutar-lhe porta afora.

"O delegado saiu. Estamos sem sistema para registrar sua ocorrência. Sugiro que venha mais tarde, depois da nove. E eu achava que comissários eram só nas histórias ruins do Rubem Fonseca. De comissário, só conheço o Mattos, do livro Agosto."

Vital não conseguiu distinguir se o rosto do velho naquele momento demonstrava desprezo, por saber estar sendo chutado da repartição policial. Ele ficou inerte, fitou o policial com profundidade. Dava para notar que, com a ponta da língua, saboreava o pouco do charuto que se escondia em sua boca murcha, fazendo a fumaça sair da outra extremidade em desenhos enviesados. Balançava a cabeça positivamente, mas Vital quase não notara o balanço. Ao se aproximar, o investigador sentiu o cheiro alcoólico do hálito senil. Entendeu na hora que aquilo poderia se tornar um problema. Deveria ser rápido no despacho.

"Desde quando um investigador lê livros? Na minha época o bom inspetor - era assim que nós os chamávamos - só precisava ter coragem de bater. E saber matar, se necessário. Mas ler livros? Você, jovem, consegue entender as obras de Rubem Fonseca" - podia-se ver um sorriso de escárnio lambuzando sua boca de barba mal cortada.

Caso fosse uns trinta anos mais novo, Vital já teria pego o velho pelo cu da calça e chutado até o asfalto. Se mais novo ainda, algemava-o e o jogaria no corró por causa da falta de respeito. Mas temia que a fragilidade da idade quebrasse algum de seus ossos quando sua fúria tomasse conta. Respirou fundo:

"E há coisas para entender em Rubem Fonseca? Um autor prolixo, de histórias pobres. Um maçaneta que nunca pisou em uma delegacia na vida. A literatura policial brasileira sofre desse mal. Ela é escrita pela classe média arrogante, ou pelo pobre preto e vítima. Os dois odeiam a polícia. Não sabem quem é a polícia. Nunca se preocuparam em saber a bosta da vida do policial, preso entre a criminalidade e a administração da elite. Onde já se viu? Advogado investigando crimes? Um advogado chamado Mandrake? De que polícia ele fala? Da Suiça?

"Rubem Fonseca também foi policial" - o velho estava menos eufórico diante do discurso do investigador.

"Policial o caralho! Polícia é quem faz plantão e tem que atender vítima chata de madrugada, que acredita no governo e acha que o estado possui a polícia do NYPD. Ele era maçaneta. Delegado de departamento, que trabalhava dois dias por semana. Era da relações públicas da polícia. Filho de gente importante, conseguiu estudar e crescer porque era influente. Nunca deu um tiro na vida. Nunca prendeu ninguém. Agora vem me dizer que o que ele escreve é genial? Que polícia é aquela que ele retrata? A polícia do incrível mundo de Rubem Fonseca? Polícia que não faz plantão e acha que o delegado é um juiz de direito? Ele é outro estúpido que escreve romances policiais e querendo ser livro da fuvest. Quem lê Rubem Fonseca? Aposto que ninguém interessante."

"Ele era policial."

Vital respirou fundo. Notou que havia se exaltado demais e o velho estava perturbado com suas palavras. Talvez tenha se ofendido.

"Você tem razão, rapaz, quando diz que o que ele escreve é duvidoso. Não acho que Rubem Fonseca seja genial. Sua retórica é de um Nelson Rodrigues menos inspirado. Mandrake realmente é um bufão, uma fraude. Uma piada com a crítica punheteira e bichona. E a imprensa caiu nessa conversa fiada. Mas ele foi policial. E isso posso garantir. Ele era um comissário corajoso, destemido. Gostava de perseguir os bandidos com lógica e razão. Ele não apostava na violência, e por isso se afastou das ruas.

"Como poderia ter sido um policial tão ativo, se o que escreve não tem anda a ver com a realidade da polícia? Advogado investigando? Quer coisa mais surreal do que isso? Advogado toma dinheiro do cliente, e ele tá nem aí pra investigação."

Vital se aproximou do velho sentiu seu odor desagradável de álcool e tabaco. Conseguiu ver a marca do charuto: Panatela. Não conhecia, talvez fosse importado. Afastou-se mais um tanto, porque começou a sentir um cheiro de merda. Leve. Mas era de merda.

"A literatura não é a vida real, meu caro rapaz, como você deseja. Deixe a vida que você atende todos os dias nessa delegacia para o jornalismo. A literatura discute a vida com outra verdade, com outra ferramenta. E o romance policial é uma dessas possibilidades. Fala-se da relação entre as regras socais e as coincidências da verdade que as atropelam sem pedir licença. Você precisa entender que somente um olhar externo ao estado consegue identificar a desgraça que é a vida da polícia. Um polícia nunca seria capaz de escrever sobre sua própria condição de oprimido, sabia disso? Por isso todos os livrode policiais precisam de um personagem que não é nem bandido, nem polícial, para estabelecer uma relação entre a lei e a verdade. E o Rubem usa o advogado porque no Brasil não existe o Private Eyes - já que o nosso detetive particular é o ganso" - o velho ria enquanto ensinava Vital, levando a mão à boca para impedir que sua saliva escorresse pelo queixo. Vital estava quase gostando da conversa, não fosse o sono.

"É o detetive que pode interpretar os sinais do crime sem a cegueira da polícia, ou a loucura da vítima. Ele não pertence ao mundo do delito, tampouco ao mundo da lei. Está à margem de todas as regras. E estando às margens, pode dizer aquilo que quem pertence ao universo do crime ou do estado não pode dizer. Ele pode ser aquilo que nenhum policia teria a condição de ser: um intelectual. Você, policial, consegue manter a linha racional e independente ao longo de uma investigação?"

Vital não estava preocupado em responder. Havia bocejado algumas vezes para fazer o idoso entender que não era bem vindo ali, mas não funcionava. O velho queria falar, e Vital, como como educado, estava ouvindo. Mas não sabia até quando?

"Plantão investigar? Desde quando o plantão investiga? Aqui todos somos porteiros, senhor. Porteiros de luxo. Ou porteiros de lixo, como corre uma de nossas piadinhas interna e suja. Aqui nós tentamos ao máximo não transparecer para a população o quanto elas esta desprotegida. Na verdade, só se investiga aquilo que a imprensa exige, ou algo que vai dar muito lucro aos policiais"

O sono estava fazendo Vital falar demais. Talvez a raiva que sentia do velho estar ali, naquela hora, tenha ajudado a dizer coisas que assustavam tanto as pessoas. Mas o velho não parecia prestar atenção as lamentações do investigador.

"Viu, meu jovem. A polícia, como instituição, funciona mal. E torna seus policiais são animais anti-sociais. Rubem temia isso. Não queria ser um sociopata. Queria ter esposa, filhos, casa para morar e levar as crianças para comer na sogra aos domingos."

Vital estava pronto para pedir ao velho que se retirasse e reiterar o pedido para voltar mais tarde. As horas corriam no relógio e ele começava a ficar ansioso por não dormir. Estava tão absorto no desespero para descansar que deixou escapar o detalhe do velho saber tanto sobre a vida de um escritor.

Não há como ser policial sem ser violento? Veja você. Vejo que é um rapaz inteligente, causa surpresa estar aí, deste lado do balcão. Acha que vai conseguir manter essa velocidade de raciocínio por mais quanto tempo sem se desumanizar?"

"O senhor é como todos. Adora Rubem Fonseca e odeia o policial. E hoje o Rubem Fonseca, para se eximir de se explicar porque seus livros são tão ruins, faz o tipo Greta Garbo e não conversa com ninguém. E a mídia adora isso. Trata-o como uma entidade sagrada, inatingível. Para mim ele é viado."

"Besteira!" Bradou o velho, descendo sua mão branca e de pele viscosa com força sobre o granito gelado do balcão.

A voz alta e ensopada de pigarro do velho fez Vital despertar. A reação violenta daquele senhor lhe deixou receoso. Como podia ter deixado a conversa prolongar-se tanto. Ou mandava a figura embora, ou registrava sua ocorrência. E a última hipótese não lhe parecia mais certa.

"Vocês jovens são tão prepotentes. Não sabem respeitar aqueles que lhes abriram caminhos. Antes não havia romance policial no Brasil, meu caro. Só palavrinhas bonitas e um monte de intelectual de esquerda que achava bonito ser miserável. O que você sabe de literatura? O que você sabe de policia?" - os olhos do velho saltavam por sobre as bolsas que antes os escondia

"E hoje continua não havendo nada. O que há é um monte de palavrão sobre gente miserável. Quem são nossos escritores policiais? Toni Beloto? Garcia-Roza e seu médico asséptico? Ou seu delegado Spinoza, alheio a violência cotidiana do Rio. Insignificantes, de um mundinho paralelo, que nunca chegarão às massas. Manoel Carlos e Paulo Coelho são mais representativos, dentro de sua mentiras sociais."

Àquela hora um discussão como essa não levaria a caminho algum. A ronda da corregedoria não apareceu, e Vital perdia tempo com um homem desconhecido.

O velho não parecia feliz com o ponto de vista de Vital. Abriu a aba do paletó e mostrou o cabo do revólver que trazia no coldre da cintura. Um calibre trinta e oito, cromado, cabo de marfim. Vital ficou preocupado com aquilo. Afinal, um homem entrara armado na delegacia.

Não apresentava intenções de machucá-lo. Apenas mostrou a arma a Vital. Não compreendeu o motivo do show. O velho sorria com dentes amarelos e manchados de preto entre um e outro. Se ameasse colocar a mão no revólver, Vital sacaria a pistola e estouraria os miolos daquela decadência ali mesmo.

Mas então lembrou-se que havia largado sua arma no banco da chefia onde costumava dormir. Gelou ao lembrar o quanto estava vulnerável, e de sua estupidez em atender alguém de madrugada estando desarmado. Não havia regras internas de como se deve atender ao público. Isso aprendia-se na prática do dia a dia.

Só restava ser rápido o suficiente para não deixar o velhote atirar. Não deveria ser difícil, já que naquela idade ele não apresentava ser um exímio lutador. Seria dominado com rapidez.

"Eu fui policial. E dos bons. Matei um cara só na vida. E por causa disso minha vida terminou. Deveria ter matado mais. Saía dessa merda enquanto é tempo, garoto. Se não vai terminar numa bosta de vida, como a minha. Com gente descartável. Hoje estou velho, e não preciso mais ter medo de matar pessoas. Mas minha vida inteira eu tive medo disso. Só porque o filha da puta que matei morreu olhando pra mim. Desgraçado. Ele me matou também, olhando pra mim. O que me me consola é a literatura. E tudo o que leio me cansa. Odeio gente, entende?"

Não era uma pergunta para ser respondida. E Vital sabia disso. Queria muito que Ricardo, que provavelmente estava jogando paciência em algum da chefia, viesse lhe ajudar. Se o velhote soubesse que havia outros policiais, talvez não fizesse nada mais do que falar.

"Ia lhe recomendar, garoto, que saísse da polícia porque era inteligente demais para estar aqui. Seu lugar não aqui. Mas não porque pensa diferente. Porque é subversivo. E um pobre ser subversivo é perigoso. Se a polícia não perceber isso logo, ambos terão problemas." - O velho puxou uma bufada funda de seu charuto.

Olhou o nome dos investigadores que faziam plantão naquela noite na placa da parede. Perguntou ao Vital qual dos dois nomes estampados era do o seu :

"Só respondo se me disser qual seu nome"
"E isso vai fazer diferença à sua petulância?"

O velho virou-se, abriu a porta de vidro da saída e desapareceu na noite. Vital correu para trancá-la, a fim de que ninguém mais ousasse lhe perturbar naquela noite para mais nada. Para tudo mais estavam fechado. Não conseguiu dormir mais. Teve que ir para a faculdade com a noite em branco. O sono resolveu aparecer no meio da aula de direito previdenciário.

Dias depois, na delegacia, um envelope lhe esperava. Dentro dele, folhas amarelas de papel rasgadas de um livro. Rasgadas sem nenhum cuidado, como que por mãos inseguras.

Um texto chamado:"Os sujeitos trágicos: literatura e psicanálise." Sob o título, uma dedicatória: "A polícia não teria nenhuma graça se seus todos seus policiais fossem como nós. E a literatura não serviria de nada, se seus personagens fossem como nós deveríamos ser. RF."

julho 24, 2008

PONTO QUARENTA


Minha arma suava no coldre atrás de minha cintura. A ponto quarenta é um excelente equipamento, alto poder de impacto, derruba no ato imediato após o encontro com a massa corporal. No interior do corpo, explode como um pequeno míssil, sem transpassar (pelo menos, assim reza a lenda).

Arma urbana, para ferir apenas o alvo desejado sem o risco de machucar ninguém que inocentemente esteja atrás do objetivo. Eu ainda não tinha uma cabrita, nunca pensei na hipótese de precisar de uma vela para jogar ao lado do bandido morto, e assim forjar uma cena de revidação de tiro. Por enquanto essa era a única arma que eu possuía.

A 9 mm, apesar de admirada, tinha o uso proibido. E polícia que a usava era tido como burro. Porque ela era transpassante, e furava tudo o que encontrava na frente. Nem bandido gostava de usá-la. A pessoa atingida pelo projétil de uma arma dessas demorava a cair. Mesmo que o tiro fosse no peito, o pulmão demorava a esvaziar, o que lhe dava alguns importantes segundos de vida para uma possível reação.

Deixei o carro distante dos barracos, debaixo de uma sombra fresca. Caminhei até o lugar fedorento onde esgoto e restos de comida moravam com a namorada de Filé, o traficante que eu precisava capturar.

Normalmente eu não iria sozinho cumprir mandados de prisão, mas Filé já havia combinado com o meu delegado para voltarmos juntos. O filha da puta era tão bom bandido, que sabia que ser preso era parte do jogo que sempre vencia.

O mala era um excelente informante de Ricardo. E por isso precisava de tratamento especial. O próprio Ricardo não poderia fazer a cana para não se desgastar com Filé, já que assim corria o risco de perder tamanha fonte de informação.

"Fica tranquilo, Vital. Já falamos com o Filé, e ele quer puxar essa bronca de boa. Não tem arma e não vai reagir. Pode ir com calma. Ele é tranqüilo. Paga pau de polícia. E você precisa começar a ter contato com esses lixos. São uns lixos, mas necessários".

Minha presença ali era mera burocracia.

"Filé não tá. Foi na casa de uma amiga. O sr é o moço da polícia?" - Era uma jovem gorda de cabelos crespos, alisados por alguma coisa melada. Na frente do barraco tido como casa de Filé. Uma criança me olhava pela fresta da porta, nua. O cachorro dormia em seu pequenino colo tísico.
"Sim. Nós já conversamos."
"Ele me falou".
"Onde ele está?"
"Foi entregar um bagulho na casa de uma amiga. Faz pouco tempo que está aqui e já arrumou esses cachos".

A moça sabia que o coração de filé não tinha exclusividade. Possuía várias amantes, uma mais viciada do que a outra. Em seu mundo de morte iminente, amar significa proteção, garantia de vida com um mínimo de recursos. E a mulher parecia não se importar em dividir.

Poderia aceitar aquilo por não conhecer o carinho terno e descompromissado. Ou por já saberem que a rejeição dói menos que a solidão que os acometeriam, já que amar e pesar são sentimentos gêmeos; um é o medo de sermos estranhos aos iguais, para tanto, nos tornamos parte deles. O outro é o medo de sermos iguais, por isso nos distanciamos.

Minha paciência não era mais forte que o calor que estava sentindo. Pedi o telefone de Filé.

"O dele não tá recebendo chamada, mas se o senhor. quiser eu tenho o da casa da moça. Dá uma ligadinha lá." - Trouxe de dentro do barraco escuro um pedaço de folha de caderno com um número rabiscado. - "Toma, pode ligar. Já deve ter chegado lá. Mas ele vai achar ruim. Filé é tão fogoso, espera uns dez minutos e liga."

Coincidências podem ser curiosas. Ou trágicas. Os filmes americanos parecem impossíveis de serem realizados sem os fatos que surgem e se encaixam aleatoriamente perfeitos para ajudar o enredo, num sincronismo mágico de histórias paralelas. Tudo parece ter motivo pré-estabelecido; sempre se descobre algo inimaginável de maneira acidental, o amor distante que aparece em situações improváveis, o encontro casual.

Serão catastrófico os fatos que apenas acontecem naturalmente, orientando os personagens a se manifestarem pelas suas atitudes diante do corriqueiro?

Essas lembranças surgiram quando tomei consciência (após entender a péssima caligrafia da mulata) de que o telefone da atual namorada de filé era o mesmo número da casa da Michelle, uma namorada que não via há dois anos. A moça deve ter percebido que algo de errado acontecera comigo.

"O sr. conhece ela?"
"Ela?"
"A Michelle. Deve conhecer, na polícia todo mundo sabe quem usa pedra, não é? Eu não, tô sossegada com minha cervejinha, meus filhos..."
"A Michelle usa crack?"
"Crack? Claro. Vive ligando aqui. Ela que vende pras patis. Qualquer dia ainda vô dar uns esporros nela. Onde já se viu? Tá certo que o Filé é gostoso mas, porra! Que falta de respeito."

Michelle usa crack. Michelle viciada em crack. Michelle namorando Filé?

"A senhora já viu como ela é fisicamente?"
"Não, mas sei que mora em Perdizes".

Michelle estava envolvida com essa sujeira? O calor desapareceu, a favela sumiu, a gorda feia, seu cachorro magro e seu filho fedido não existiam mais. Meu queixo tremia.

O carro era difícil de controlar, o mecanismo do cambio endureceu como ferro fundido. O pedal do freio não estava lá, a embreagem não funcionava, o acelerador estava sem pressão, mole como o asfalto quente. Tudo era estranho, menos a casa de Michelle.

Do mesmo modo, o portão alto cor de madeira nobre, o muro rachado, verde. Quando Michelle esquecia a chave, dávamos a volta pela rua de trás, com a qual sua casa fazia fundos. O muro não era tão alto, pulávamos e depois era só atravessar um pequeno pomar para chegar até a casa.

Fiz o mesmo trajeto com as lembranças de todas as vezes, inúmeras, bêbados, que entramos por lá, ora rindo, ora enfurecidos com alguma atitude que o outro fazia. Era a primeira vez em três anos que nos veríamos. Não me ocorreu a hipótese de estar enganado.

A porta da cozinha, como de costume, estava entreaberta. Parei silenciosamente para ouvir os murmúrios que saiam do final do corredor. Caminhei pequeno, alto entre as paredes. Do quarto de Michelle, reconheci sua voz de menina. Parecia grunhir sons vazios, intermitentes. E também uma voz masculina surgiu. Ninguém que morasse ali seria dono dela. Uma risada de homem, diferente da primeira voz. -"anda logo, vaca".

Uma brisa ardida golpeou meu nariz. Era crack. Cheiro forte, amoniacado. No beiral da porta, ouvia o homem repetir: -"vamo, vai logo que não acabou, depois você fuma mais."

Ao olhar minha mão, uma mancha prateada apontava para frente. Não lembrara quando havia sacado a arma. Estava lá, leve, destravada.

Coloquei-me por inteiro na moldura da porta do quarto para observar aquele quadro de cores barrocas: Três pessoas nuas. A primeira era Michelle, sentada na cama, tinha uma marica enfiada na boca e um isqueiro na mão. Os olhos serrados foram se abrindo diafragmamente. Pode ter me visto, mas não esboçou a atitude esperada por mim.

Filé, também pelado na cama, sentado a sua frente e de costas para mim. Outro homem só de cuecas, também preto, mas desconhecido, em pé, preparando carreiras de farinha na cômoda ao lado.

O meu primeiro tiro ensurdeceu por causa da reverberação do estampido. Eu ainda estava no corredor de paredes próximas. O projétil atravessou o ambiente e atingiu Filé no topo da nuca. Vi seu sangue tingir Michelle de um roxo profundo deixando seu cabelo melado como o da negra gorda do barraco. Ela gritava sem sons. Sua boca abria em exagero.

Ela empurrou o corpo pastoso de Filé que havia caído sobre si com a ojeriza que sabia ter de baratas e bichos alados, minúsculos. Meu segundo tiro acertou a testa de Michelle; desta vez pude ouvir o som metálico da cápsula tilintando no chão. Ví quando suas orelhas cuspiram sangue, e pedaços de carne mole saltarem para os lados.

O terceiro tiro só ouvi. O preto da farinha na cômoda acertara meu peito, disparando com uma arma que eu não percebera.

Sempre achei que a dor de um tiro seria pior. Algo insuportável. Mas veio a decepção. Minha garganta saturou-se de um líquido quente. Um clarão de luz atordoou meu equilíbrio e caí.

Antes do preto fugir, tomou minha arma que a mão fraca já não mais conseguia segurar. Pude ver seus olhos de mais perto. Eram saltados, talvez pelo efeito do pó; de cílios compridos e lábios enorme. Tive o azar dele não me matar neste momento; preferiu correr. Cusão.

Esperei deitado o segredo da noite eterna se revelar, finalmente.

Não tinha forças para ver o estado de Michelle. Cheguei a agradecer a atitude do preto fujão; eu mesmo não teria coragem de resolver essa situação assim. E me pareceu ser a mais coerente.

O tom do vermelho na minha camiseta branca era mais forte do que aquele que escorria pelo chão. Seria difícil reproduzir com fidelidade na película uma paleta para isto. Talvez mel com groselha, água para dissolver. Não! Transparente demais, precisaria de algo celeste. Tem cheiro de carne de frango. Salsicha...será simples assim morrer? Nunca deveria ter parado de fumar, se soubesse que morreria assim.

Que bosta. Esperava epifanias, cordões de prata saindo de meu corpo. Por enquanto é só uma moleza gostosa. Imaginei quantos irão ao meu velório. Talvez minha mãe...preciso vê-la com mais freqüência... com quantas mulheres eu teria transado? Patrícia na zona, Andréia, Manuela, Amanda, Michelle... seis ou sete garotas até hoje. Será impossível localizá-las. Poderia levantar-me e ligar para alguma delas, para pedir ajuda ou convidar para meu enterro.

O celular incomodava no bolso da minha calça. Peguei sem saber para quem ligar. Chamou duas vezes - :" tô morrendo, levei tiro...tô na casa da Michelle.". Edgard, o PM, ficou desesperado. Meu dedo parecia feito de pano, visto que não consegui desligar o telefone. Pude ouvir o desespero de Ed na linha. Pedia-me calma.

Agora parecia ser definitivo. O fole esvaziou-se. A festa acabou. Não vieram anjos, nem diabos. Parece que nunca vou morrer. Sou eterno como o tempo. Tudo era regido por uma batuta estranha, sem cadência. Quando nascemos, não sabemos o que é tempo. Único e fungível. Depois vemos que o sol se põe freqüencialmente compassado. Fica noite, fica dia. Tomamos esse pêndulo binário como parâmetro único. A sensação de movimento corrobora nossa expectativa cotidiana.

Queria ter feito um filme. Por que devemos sempre ter o mesmo ritmo, se a mensagem possui várias espécies de linguagens? Tempo, espaço e lugar não caminham tão juntos assim. Seria o cinema apenas um teatro filmado?

Só naquele momento não me envergonhava destas perguntas tolas. Perguntas de que fugi a minha vida toda. Todo mundo sabe tanto. Eu só preciso manter as ruas limpas para todos andarem tranqüilos.

Tive que parar de pensar sobre isso devido uma intensa dor que sobreveio. Estava sim, aguda e insuportável; satisfeito, pois sabia que o fim seria breve. Ouvi vozes, aveludadas, pude voar.

Quando acordei já estava na Santa Casa; dois tiros no peito e um pulmão perfurado. Morreram Michelle, Filé e o preto fujão, que depois soube chamar-se Tigudum. Este último não fora eu, e sim a PM, quando o encontrou pelado e armado, escondido dentro de uma casa vizinha. Pelo menos, assim estava no B.O.

Fui afastado da polícia por tempo indeterminado até que fosse apurado o que realmente acontecera. procedimento comum em casos assim. Matei a Michelle. Eu nunca vou morrer.

"Sinto por Filé ter matado sua ex-namorada.

Era meu delegado avisando como a situação ficou resolvida.

julho 9, 2008

O mundo anda pra trás

Dando continuidade à série "Regina Duarte", aos poucos notamos que o mundo está ficando cada vez mais perigoso para quem prima pela liberdade de expressão. Eu pensava que essa sensação era própria de quem morava em um país em que um único partido fica no poder do maior estado da federação por quase vinte anos, amarrados à uma única empresa comunicação.

Em que a justiça eleitoral coloca um cabresto no debate livre da internet, como se fosse a coisa mais democrática do mundo.

Um senador resolve chamar todos aqueles que utilizam a internet de bandidos por meio de uma lei sem conexão alguma com a boa ordem jurídica, proibindo o acesso a dados e informações que ele considera como importantes. A identificação do usuário da internet é louvável, mas o fornecimento destas informações a quelquer delegado de polícia, por simples "denúncia", é algo digno do clássico de George Orwell.

Eu me enganei. No que achávamos ser o berço da liberdade de expressão, o autoritarismo do poder estatal e a influência das grandes empresas sobre os governos estão vencendo o direito de manifestação do pequeno súdito.

E tem gente na internet que se preocupa com a franja na testa de uma banda que surgiu na polinésia...

Há vida em marte?

julho 7, 2008

Eu tenho medo do TSE

"Art. 1º A propaganda eleitoral nas eleições municipais de 2008, ainda que realizada pela Internet ou por outros meios eletrônicos de comunicação, obedecerá ao disposto nesta resolução (...)

Art. 5º A propaganda, qualquer que seja a sua forma ou modalidade, mencionará sempre a legenda partidária e só poderá ser feita em língua nacional, não devendo empregar meios publicitários destinados a criar, artificialmente, na opinião pública, estados mentais, emocionais ou passionaisliberdade de imprensa.jpg

Parágrafo único. Sem prejuízo do processo e das penas cominadas, a Justiça Eleitoral adotará medidas para impedir ou fazer cessar imediatamente a propaganda realizada com infração do disposto neste artigo

Art. 3º, § 4º - A violação do disposto neste artigo sujeitará o responsável pela divulgação da propaganda e o beneficiário, quando comprovado o seu prévio conhecimento, à multa no valor de R$21.282,00 (vinte e um mil duzentos e oitenta e dois reais) a R$53.205,00 (cinqüenta e três mil duzentos e cinco reais) ou equivalente ao custo da propaganda, se este for maior.""


Não. TSE não é aquele mosquito que transmite a febre terçã. É o nosso colendo Tribunal Superior Eleitoral, formado por vetustos senhores, que conseguiram publicar umas das regulamentações mais nazistas dos últimos anos, que fariam arrepiar as sobrancelhas de Geisel, com a pérola do estado totalitarista resumida na RESOLUÇÃO Nº 22.718. A começar pelo processo sofrido pela Folha de São Paulo na entrevista da candidata Marta Suplicy, só podemos entender que o silêncio é a melhor ferramenta do judiciário brasílico.

Por algum motivo, na resoluçãoo, eles resolveram falar de coisas que nunca viram na vida: internet. Para as eleições de 2.008, proíbiram toda e qualquer manifestação não oficial que faça referência aos candidatos políticos no que eles entendem por "internet". De uma canetada só, deram caráter democrático às medidas autoritárias. Atentem para a riqueza das figuras de linguagens do Capítulo IV, curiosamente denominado: da propaganda eleitoral na internet

"Art. 18. A propaganda eleitoral na Internet somente será permitida na página do candidato destinada exclusivamente à campanha eleitoral."

Sugestão para afrontar tal abuso? Comecem a tecer críticas aos candidatos que merecem (o trivial de toda eleição), de algum blog/site ancorado em um provedor no exterior. Quero ver a polícia federal metendo o pé na porta na casa de pessoas que buscam o debate.

Há muito tempo nós precisávamos de uma guerra.

julho 5, 2008

Pane no governo

Quer dizer que, se a telefônica desejar, ninguém é preso em flagrante em São Paulo, e ninguém faz boletim de ocorrência??

Ninguém pensou nisso quando criaram o registro de ocorrência eletrônico?????