O monopólio do umbigo
Acho que todos que se dedicam a escrever um blog já passaram por isso. Sabe aquela sensação de asco a esse pessoal pseudo-amador de internet? Que inventa uma vida interessante na frente do computador, com amores, orgasmos sucesso e dinheiro. Pois é.
Cansei desse blog, e cansei de escrever. Antes era para mim, mas comecei a me preocupar quando minha presença aqui estava sendo cobrada demasiadamente. Tenho coisa melhor para fazer. Talvez volte esporadicamente, quando precisar. Mas quando eu precisar, só eu. E não quero mais ouvir falar em delegacias! A partir de hoje só entrarei em uma para registrar um boletim de ocorrência caso roubem meu rolex. Atendo em outro endereço comercial.
Enquanto isso, devo dizer que a melhor coisa da internet são os amigos que fazemos fora dela, e como ela nos aproxima daqueles que valem a pena estarmos perto. Além de achados maravilhosos, como o último CD dos espetáculos "Romeu e Julieta e Rua da Amargura" do Grupo Galpão, de 1994, que comprei no submarino.
Tinha que ser isso para fechar a melhor semana da minha vida.
Deixo um tostão da minha voz para vocês:
"Lisbon Revisited (1923)
"Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) -
Das ciências, das artes, da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!
Sou um técnico, mas só tenho técnica dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direto a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo. ouviram?
Não me macem, por amor de Deus!
Queriam-me casado, fútil, cotidiano e tributável?
Queriam o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes a todos a vontade.
Assim como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havermos de ir juntos?
Não me peguem pelo braço!
Não gosto que me peguem pelo braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!
Ó céu azul - o mesmo da minha infância -
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz! Não tardo que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!"