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19fev2008

"Blogar... uma profissão?" (ou falta de emprego melhor?)

(Atrevi-me a botar o bedelho na discussão, mesmo sem ser chamado)

Até ontem, por profissão, devia-se entender a atividade especial remunerada exercida por um indivíduo. No Brasil legal, escrever em blog não faz da pessoa um jornalista. Para isso é necessário ter um diploma. Essa obrigação foi uma vitória das entidades representativas dos jornalistas para garantir a reserva de mercado.

Para eles, o indivíduo só pode ter a capacidade de trazer a notícia ao público após cursar quatro anos de estudos em faculdades de jornalismo, seja ela qual for.

Isso significa que blogueiro não pode ter as prerrogativas de jornalista (como preservar a fonte anônima ou responder judicialmente perante a lei de imprensa), mas o jornalista pode ser um blogueiro, se é que isso tem alguma vantagem. Todos se lembram da campanha do jornal "O Estado de São Paulo" que colocava em cheque a credibilidade das informações fornecidas pela novíssima mídia. Nada mais claro para sintetizar o sentimento da imprensa com relação ao petulante blogueiro. E esta última figura, o melancólico blogueiro, pode ser uma profissão?

Eu pergunto: qual a diferença entre a informação trazida por um jornalista e a aquela dada por um blogueiro?
Eu respondo: o salário do jornalista.

O termo profissão está ficando tão etéreo quanto Marx imaginou. Mas o blog não consegue ocupar o espaço que a profissão deixou. Há um ou outro gato pingado ganhando alguma coisa com isso, mas nada significativo para o grande capitalista, que move montanhas. Ele não tem a capacidade de sustentar o sonho para o qual fomos criado (e de qual o capitalismo desesperadamente depende para sobreviver), de casa própria, carro, família e felicidade. Essa função ainda é das profissões tradicionais para a qual todos estudamos os malditos quatro, cinco, seis anos de faculdade. E sabe porque? A internet, por mais democrática que aparente ser, ainda é um dinossauro que se sustenta do básico do sistema capitalista: o consumo e exploração. O profissional, portanto, é quem pode viver exclusivamente desta função. E por isso só premia quem se integra à essa velha e combatida tese: só é cidadão quem pode comprar e vender. O resto é população residual.

Se é certo ou errado, tivemos o século vinte inteiro para tentar descobrir isso com guerras, regimes autoritários e muitas vidas dedicadas à defesa de ambos os lados. Não sei se chegamos a algum lugar melhor, mas pelo menos hoje é possível se enxergar diversos outros caminhos. E o que ficou de profissional? A crise.

A crise no conceito de trabalho e profissão, hoje em dia, caminha para um lugar desconhecido, mas bastante atraente. Essa nova fase coloca em cheque paradigmas seculares de ensino, no qual os jovens deveriam escolher, ainda crianças, a função que ocupariam no sociedade até morrer. E quem se disperssasse era visto como uma pessoa menor, de valor inferior... o famigerado "loser" americano, que as vezes tenta-se importar na nossa sociedade latino-americanas, de chances sociais injustas, e que faz jovens promissores matarem seus coleguinhas nos recreios das escolas.

Querem ver o quanto ainda estamos presos à carroça do destino?

A associação dos magistrados do Brasil, uma espécie de entidade representativa de juízes, começou a defender o fim do chamado "quinto constitucional".

(Rapidamente, o quinto constitucional é a parcela das vagas dos tribunais - STF, STJ, TST, etc_ destinada aos advogados e membros do judiciários).

Os magistrados argumentam que somente pode ser juiz quem prestou concurso para tal. Vejam só. O poder jurisdicional, dizem eles, somente pode ser laureada ao virtuoso indivíduo que usa toga e martelinho.

É indiferente se o pimpão foi seu colega no mesmo curso de direito que você, se tiveram as mesmas provas na faculdade, leram os mesmos livros, beberam nas mesmas festas. Nesse sentido parece que o direito é uma revelação sagrada, como aquela dos dez mandamentos que Moisés recebeu no monte Sinai, e ninguém mais tem acesso a esse código inatingível, que somente os juízes conseguem decifrar.

Há mesmo um juiz. Luiz Guilherme Marques, que afirma não conseguir entender o motivo de advogados ou qualquer um demonstrar uma vocação tardia para a magistratura. Como se fosse um sacerdócio, uma missão conferida por Deus em uma vida passada. Esquecendo-se que, fora os louros, o status e a glória da altar da magistratura, ser juiz é tão somente um trabalho técnico como qualquer outro. Técnico, mas que exige dedicação, competência, senso de justiça e paixão de quem o exerce. E não somente uma indicação sobrenatural que lhe foi conferido antes mesmo de nascer -

"Vai, filho, e sede juiz. E você, pirralho, serás blogueiro. E se encher mais meu saco, serás advogado ou policial!"

O que falta à blogsfera é senso de cooperação política. Não é estranho querer politizar, quando se traz o debate à luz da racionalização do mercado. Mas temo que, dada ao costumeiro temor adolescente às regras estabelecidas, os principais representantes dessa nova categoria de formadores de opinião fujam desta discussão.

Na verdade, o blogueiro que consegue o sucesso é um futuro ex-blogueiro, que acabará em outra mídia tradicional, TV ou impressa.

Não houve ninguém com coragem para criar uma entidade de apoio à classe. Já que não se pode criar sindicatos para quem é não categoria profissional, qual o problema de fazer surgir uma associação civil, nos termos do código civil, com estatuto, diretrizes e pessoas engajadas, capaz de contrair direitos e obrigações em defesa dos direito de quem quer fazer do blogs sua principal ocupação? "Bullshit!" dirão os hypes - "Isso é coisa de quem não entende nada de blog". Não faltam motivos a isso.

A relação entre blogueiros e jornalista é mais ou menos assim. Quem tem uma empresa bancando seus textos, prega a desqualificação dos demais informadores. E os blogueiros, caminhando de um lado para outro, na busca de se afirmarem como algo além do convencional.


PS: Palpitei na conversa que rolou pela Verbeat, há muito tempo. O Thalles me cobrou um link, fazendo referência a origem da conversa, que aliás, não tinha idéia de onde surgiu.

Comentários

Não houve ninguém com coragem para criar uma entidade de apoio à classe. Já que não se pode criar sindicatos para quem é não categoria profissional, qual o problema de fazer surgir uma associação civil, nos termos do código civil, com estatuto, diretrizes e pessoas engajadas, capaz de contrair direitos e obrigações em defesa dos direito de quem quer fazer do blogs sua principal ocupação?

Ora ora, Roger, tenho certeza de que você leu o manifesto do condomínio em que esse mesmíssimo blog se hospeda, hm? :) É um começo, e uma esperança, não?

Pessoalmente, ando meio blogueiro aposentado. Tive minha fase com blogues, tinha um pessoal, outro coletivo, outro que era um misto de blog e fórum. Passou, a vida me atropelou e eu nunca mais tive por prioridade refazer um espaço pessoal. Tentei, mas quando você perde o calor do momento, e fica só aquela paixão nostálgica --- aquilo só não basta.

Mas deixa meus egoísmos pra lá, e vamos voltar ao seu texto. :) Excelente texto, muito bem escrito, e levantando um assunto que, bem, há de se tornar um baita elefante muito, muito em breve. Concordo com você --- precisamos nos organisar. Blogueiros, sim, e não só. A comunidade online precisa encontrar o seu lugar, precisa exigir e conquistar crédito.

Comecei esse comentário provocando, mas mantenho a idéia: acho que a verbeat foi um grande começo; foi algo que, na época, eu lembro que me fez sorrir. Mas foi um ímpeto. Depois de uns dois ou três projetos descontinuados (estou pensando aqui nos nós na rede e nos e-néditos) brochou, e acabou se reduzindo a uma paixão nostálgica, como aquela minha de começar um blog.

Imagino os caras, el Tiagón, Gejfin et al, numa cerveja, comentando "poxa, e a verbeat?" "que tem ela?" "ah, aquelas coisas? sabe?" --- a cumplicidade de olhares --- "aquelas coisas todas que a gente queria fazer" "pois é. ...precisamos fazer, aquilo; um dia" "pois é..."

Não quero censurar ninguém; não quero soar como quem diz que achou o trabalho mal feito ou largado às moscas. Não quero soar acusador, de jeito nenhum. Como eu disse, a verbeat foi uma puta idéia bacana, e é desde já uma vitória.

Mas acho que, no clima do seu post, a idéia agora é olhar pro chão, olhar pra baixo --- e então erguer o olhar pra aquele horizonte bonito no final da vereda e dizer: puxa, já andamos bastante; mas agora, agora nós vamos pra lá.

É uma questão de começar. Sacodir a poeira e começar. Eu desde já não só declaro meu apoio, como ofereço ajuda no que der. :)

Puxa, Bruno. Você fez outro post. A resposta merece tempo... já volto.

haha, eu tenho esse problema. não consigo fazer um ponto simples em poucas linhas. :)

Fala camarada! chego meio atrasado aqui em seu post, mas é que fui fazer uma busca pela repercussão do meu meme e vi teu post. Caso é do meme que lancei qdo se refere a "Atrevi-me a botar o bedelho na discussão, mesmo sem ser chamado", sinta-se sempre convidado a meter o bedelho!

Só questiono duas coisas no seu post:

1) "o indivíduo só pode ter a capacidade de trazer a notícia ao público após cursar quatro anos de estudos em faculdades de jornalismo"
=> acho que a questão não é ter capacidade ou não. O problema é que tendo capacidade ou não eles estão levando informação ao público.

2) "Isso significa que blogueiro não pode ter as prerrogativas de jornalista (como preservar a fonte anônima ou responder judicialmente perante a lei de imprensa), mas o jornalista pode ser um blogueiro,"
=> Não pode ter as prerrogativas, mas tem. Tanto que o Imprensa Marrom já foi processado, Alcineia que publicou a charge do Sarney também... os casos são muitos. Lá no meu blog eu fiz um post com uma compilação.

Ah, por fim... caso tenha sido lá do meme que iniciei que vc tirou a discussão, só faltou um link né camarada....

abraço!

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