A primeira vez a gente nunca esquece
POR MÁRCIA MAIA - a escritora pernambucana faz uma luxuosa participação especial no Verbütsfußballbloge.
Era domingo. Meio-inverno. Mas quente, muito quente. Como costumam ser certos domingos de junho no Nordeste. Era de manhã, eu acho. Antes do almoço, com certeza. Nem sempre a hora exata fica assinalada na mente da gente.
A casa tinha jardim e quintal. Coqueiro, panamás, avencas e buganvílias num, mangueiras e um pé-de-sapoti, noutro. E três terraços. Um mínimo, à porta da frente. Um médio, na porta lateral. E um imenso, atrás, beirando o quintal. Era no médio que a emoção jorrava.
Dentro de casa, a mãe e as tias, que nem eram tias de verdade, agitavam-se preparando o almoço. E cuidando das crianças, que eram muitas. Umas dez. Vez em quando , chegavam até o terraço, o médio, para espiar o que se passava.
O pai, com os tios que eram amigos e não tios, bebia cerveja e alternava exclamações e silêncios profundos. Reunidos entre cigarros, tira-gostos e, - oh, glória! -, o radinho de pilha azul-turquesa que trouxera da América, como então se dizia ao referir-se aos Estados Unidos. Da América, obviamente. Pequena preciosidade inexistente na terra brasilis nos anos cinqüenta.
Meu coração parecia um cabrito-montês de tanto pulo que dava no peito. Sobressalto contínuo. Mãos frias.
Pé-ante-pé, me esgueirava pelo oitão florido, próximo ao terraço, onde não era vista. Esgueirávamo-nos. Que não estava só. E o coração batia mais rápido ainda.
Não lembro de nada daquele junho além deste dia. Nem do meu aniversário que, hoje sei, acontecera pouco antes. Só desse único e especial dia. Azul. De inverno. Quente. Da voz no radinho gritando gooooool! Da voz de meu pai dizendo: vamos tomar champanhe quente! E minha mãe, que odiava bebida, concordando sem pestanejar. E todos falando ao mesmo tempo. E rindo!
Quando pensei que houvesse acabado, a voz no radinho, de novo, berrou: goooooooool!!! E todos beberam o tal champanhe. Abraçavam-se e derramavam a espuma pelo chão. E meu pai quase chorava de tanta alegria,enquanto o homem no radinho gritava: terminoooooou! Brasil, campeão do mundo! Então criei coragem e fui até o terraço. Fomos. Suados. Mãos frias. Coração batendo. Pulando. Tomar o tal champanhe. Horrível, por sinal.
Era junho de 1958. Eu era apenas uma menininha tímida, atordoada diante da vida. Mas lembro cada detalhe daquele domingo de inverno. É, a primeira vez a gente nunca esquece. A primeira final de Copa do Mundo também não.
Comments
Beleza de texto, Márcia. Mas podia esperar diferente? : )
Beijo,
Silvia
Posted by: Silvia Chueire | junho 11, 2006 12:03 PM
Prezada Márcia,
Meu coração parecia um cabrito-montês
Pulando assim, com tal maestria, só mesmo a memória afetiva...
Amitiés,
BetoQ.
Posted by: Zadig | junho 10, 2006 07:34 PM
Sorte sua, Márcia!
Eu ainda nem tive primeira vez...
Posted by: Paulo José Miranda | junho 10, 2006 03:06 PM
minha amiga poeta/
joga do goleiro/
a ponta esquerda./
nesse mundo de pernas-de-pau/ ela cruza e faz o gol/ artilheira que é.
parabéns ao blog que convidou essa moça danada.
abraços
Posted by: Alexandre Beanes | junho 9, 2006 10:45 PM
Obrigada, Milton. Adorei estar aqui.
Ah, botei o link lá no mudança de ventos.
Beijos muitos.
Posted by: Márcia | junho 9, 2006 10:05 PM