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janeiro 17, 2006

Entrando pra estatística

Ou Como um relógio vagabundo salvou o meu dia

Estava lá Luizinha feliz e faceira trocando-se no vestiário do Heartbreak Hotel depois de um árduo dia de trabalho. Olha para o braço e pensa em tirar o relógio. Relógio bonitinho, tinha comprado naquele mesmo dia numa promoção de loja de chinês por dezesseis reais, de longe nem dava pra notar. Porém na pressa de perder o ônibus e com uma preguiça danada de abrir a imensa bolsa deixa ele lá, mesmo. Quando diz tchau pro segurança já é quase meia noite e as quatro quadras até o ponto de ônibus não são lá muito saudáveis, mas é o único caminho, fazer o que? Luiza faz esse caminho todo dia e nunca olha pra trás. Justamente hoje resolveu olhar. Dois marginaizinhos, de longe não dava pra precisar a idade. Chuta quinze, dezesseis anos. Apressa o passo e olha de novo ao atravessar a rua. Estão vindo. Apressa mais um pouco e atravessa a rua pensando na barraquinha de cachorro quente da quadra seguinte que sempre tem bastante gente. Os dois se separam. Poucos metros depois um deles a intercepta, o outro logo atrás.
- Me dá dinheiro, tia!
Puta que pariu! Esse cara é mais velho que eu e me chama de tia? Isso dá quase tanta raiva do que o fato d’ele querer me roubar.
– Não tenho nada.
- Vai, me dá logo o dinheiro.
Marginal saca uma faca. Lembrando agora da cena deveria ser uma tesoura. Luiza fica com medo de pegar tétano.
- Já disse, não tenho nada!
Pausa. A barraca está perto. Luiza pensa em gritar mas fica com medo da faca. Pensa no monte de tralhas que carrega, nos dois óculos (um deles custou metade do salário), no telefone que pode ser uma porcaria mas ainda é um telefone, na carteira cheia de cartões, documentos e talão de cheque, no discman... Não – céus – o discman não!
- Me dá!
- Só tenho isso aqui. Quer levar meu relógio?
Marginal toma o relógio e sai correndo por uma perpendicular. O comparsa continua na mesma rua calmamente atrás dela. Ainda assim Luizinha para na barraca de cachorro quente.
- Moço, me empresta um telefone que eu acabei de ser assaltada?
A turma que estava comendo se mobiliza. Nem adiantou dizer que o pior tinha sido o susto, que ela estava inteira e a perda material era ínfima. O comparsa percebe e sai correndo, não o suficiente pra escapar de uma voadora e umas bifas dos comedores de cachorro quente. Quando a polícia chega – a polícia sempre passa nessa rua e sempre tarde demais – o guri já está imobilizado. O outro correu, mas com o parceiro no camburão não deve ser difícil encontrá-lo. Saem atrás dele.
Neste momento chega a carona (ou você acha que o telefone era pra ligar pra polícia? Ou pior, você acha que depois disso dava pra voltar sozinha de ônibus?), Luizinha se despede dos comedores, do dono da barraca e entra no carro ainda tremendo. Aí sim chora de nervoso. Depois pensa no filho da mãe que apanhou, vai passar umas horinhas passeando de camburão e nem ficou com o lucro do assalto. E no outro filho da mãe que saiu ileso, mas não vai conseguir trocar a mercadoria por pedra, que o tal relógio é baratinho.

Saldo da história:
1. Susto maldito.
2. Abençoados os chineses e suas lojas de bugigangas.
3. Nunca mais saio sem relógio.
4. Bem feito pros dois que se ferraram por mixaria.
5. Susto maldito!

Posted by luizab at janeiro 17, 2006 2:04 AM

Comments

Mari,
O assalto foi um dia antes. A volta pra casa ultrapassou os 7, sim :P mas a noite seguinte derrubou pra 5. Aguarde posts futuros ;)

Posted by: Luiza at janeiro 19, 2006 9:53 PM

Nossa Lu...
qdo foi isso q vc nem comentou nada?!

alias...to curiosa p saber se a volta p casa superou os 7 pontos?!!! ahahhahaha

Bjos

Posted by: Mari at janeiro 19, 2006 9:57 AM

Que coisa chata. E eu que agora ando com um notebook por aí? Bom, Meus relógios não são bem a fina flor e sempre posso doá-los...

Te cuida, guria.

(Será que o fato de olhares para trás chamou a atenção dos caras e denunciou teus receios?)

Posted by: Milton Ribeiro at janeiro 19, 2006 9:50 AM

:-////

Posted by: tiagón at janeiro 17, 2006 1:24 PM

sabe q esse post me deu uma idéia? vou andar sempre com o meu relogio bagaceira q funciona todo errado dentro da minha bolsa!

(acho q não era bem essa a lição a ser aprendida pelo texto, mas é q eu sou meio desligada, mesmo...)

Posted by: fer at janeiro 17, 2006 1:01 PM

hehehehhe acontece ;) mas estou feliz por você estar bem !

Posted by: Alisson at janeiro 17, 2006 10:18 AM