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setembro 30, 2005

Nós na Rede

Grupo de apoio Nós na Rede:

Boa tarde. Meu nome é Luiza e eu escrevi um post sobre aborto. É importante dizer que o conteúdo dele é inédito até para o meu analista. Mais gente falou sobre. Elas podem ser encontradas aqui.

Minha opinião sobre aborto? Bem, digamos que a essência é a mesma, mas os argumentos mudaram consideravelmente.

Antes:
É egoísmo obrigar a vir ao mundo uma criança que não será querida. E ela sabe disso, ah, se sabe, antes mesmo de nascer. Pra que? Pra ter mais um sem ter o que comer, onde estudar, onde trabalhar? Pra criar mais uma família desestruturada onde só há desentendimento e frustração? Pra mais uma criança abandonada na rua? Não, meu amigo, se você não vai dar uma boa estrutura familiar (e refiro-me a questões financeiras e afetivas) não me faça essa sacanagem com um inocente, porque de gente problemática o mundo já está cheio.

Depois:
Menstruação atrasa. Teste da farmácia dá positivo.Putaqueopariu, não dá pra confiar em camisinha. Por que diabos eu fui parar de tomar a merda da pílula? Nessa hora eu não pensei na vida que daria pra criança, pensei na minha. Na faculdade e no curso técnico por terminar, no estágio, em tudo o que eu ainda queria fazer, nos projetos de sair da casa dos meus pais, de passar uns anos trabalhando fora, de juntar uma grana e me perder no mundo sem dar sinal de vida pra ninguém, de ter casa própria...
Depois pensei na minha mãe, na decepção que ela teria, nos sonhos todos que meu pai coruja tinha feito para a única filha dele, no que eu diria, e se diria, pro ex (sim, porque Murphy rege a minha vida e o namorico de pouco mais de um mês tinha recém terminado). Pensei em pedir abrigo pra pseudo-tia que mora em outro estado, ter a criança e entregá-la a uma instituição, mas mamãe trabalhava com serviço social e eu já conhecia histórias escabrosas suficientes sobre esses lugares. Pensei em virar mãe e entrei em pânico só de pensar na possibilidade de acabar odiando a criança e culpando-a por todas as minhas frustrações. Pensei que naquela altura eu era o orgulho da família, a neta exemplar que trabalhava sem parar e nunca tinha tirado uma nota baixa na vida, e na cara com que iria olhar para o clã no almoço de domingo. Pensei na minha mísera fonte de renda e na mesada que ainda recebia, nos anos de economia de papai para que pudesse se aposentar e morar na praia e se teria coragem de pedir que abrisse mão deles.
Pensei em aborto. Em tomar remédio pra úlcera e provocar emorragia. Pra garantir, também pensei em agulha de tricô vagina adentro. Foda-se o que acontece depois, o importante é que sai. Pensei em procurar uma clínica, mas como é que eu encontraria algo do tipo se não podia contar pra ninguém? Sim, porque eu estava planejando um crime, não podia comprometer as pessoas em quem confiava obrigando-as a serem cúmplices. Isso fora a consciência me chamando de assassina.
Passei noites sem dormir e quando finalmente conseguia pregar os olhos tinha pesadelos com choro de criança. Eu não podia ter um filho. Não daquele jeito. Eu sonhava, e ainda sonho, em casar e ter filhos. E se desse tudo errado e eu ficasse estéril? E se meus pais tivessem que assistir ao enterro da própria filha depois de um médico desconhecido dizer que ela sofreu complicações decorrentes de um aborto mal feito?
Alguns dias depois o raciocínio lógico consegui se sobrepor ao conflito entre culpa e desespero e fiz exame de sangue. Negativo.

Saldo final:
Não sei dizer quanto tempo isso levou. Poucos dias com certeza, decididamente os piores de toda a minha vida. Este depoimento levou dois dias pra ser escrito, pois em determinados momentos a vista embaçava demais, em outros a emoção tomava conta e eu ficava impossibilitada de escrever frases com começo, meio e fim ou qualquer coisa que fizesse sentido. E isso porque eu não fiz um aborto. Mas faria e provavelmente até o último minuto não saberia se aquela era a decisão certa. Pense agora em quem chegou às vias de fato.
Voltando ao assunto principal, que diferença faz a descriminalização? A diferença de poder dividir a angústia, de ter apoio psicológico, de poder conversar sobre isso e tomar atitudes mais conscientes. Diferença de entrar num hospital, submeter-se a um procedimento acompanhada por uma equipe de confiança e ter a quem recorrer caso algo saia errado. Crime ou não, mulheres desesperadas continuarão fazendo abortos. Que pelo menos sobrevivam a eles, e com a menor quantidade de seqüelas possível.


Acréscimo feito às 18:00

Women on Waves é uma organização holandesa que utiliza um navio para realizar abortos em mulheres cujos países proíbem ou dificultam a prática. De tempos em tempos ele atraca e são feitas gratuitamente palestras sobre métodos anticoncepcionais e planejamento familiar além de distribuição de camisinhas e pílulas do dia seguinte. Vale visitar o site.

Posted by luizab at setembro 30, 2005 02:18 AM

Comments

Very nice blog!

Posted by: 10 at fevereiro 22, 2006 11:01 PM

Luiza, também demorei pra me manifestar pela falta de tempo blablabla. Mas olha, um dos melhores depoimentos sobre aborto que já li - contundente e racional, emotivo sem ser piegas, enfim, esclarecedor.
Espero ler um dia sobre a sua gravidez, o nascimento, o primeiro dentinho ...
Beijos !

Posted by: Renato K. at outubro 7, 2005 09:21 AM

Luiza, só hoje vi seu post sobre o aborto. Cheguei aqui pelo Gejfin. Gostei muito do seu depoimento. É difícil opinar quando não vivemos uma situação limite como essa...

Posted by: Viva at outubro 6, 2005 10:03 PM

Não ousarei tecer comentários sobre seu post de hoje, acho que alguns pontos descordamos .... mas tenho uma coisa pra te dizer ..... foi fantástico seu post ... serio te conhecendo tão bem ... cheguei a ficar emocionado também !
Bjao Fia ! parabéns.

Posted by: Alisson at setembro 30, 2005 06:55 PM

Pois é,

Foi exatamente disso que falei lá, por ter acompanhado e partilhado todas essas angústias da pessoa com quem eu estava. Ela, diferente de ti, pode contar com alguém para passar a crise, antes e depois. bjs

Posted by: afonso at setembro 30, 2005 05:46 PM

Texto corajoso e contundente. Parabéns.

Posted by: Monix at setembro 30, 2005 05:00 PM

Luiza, acho difícil conhecer uma mulher que NUNCA tenha passado por um pânico de uma suspeita de gravidez indesejada, mesmo as mais esclarecidas e que usam contraceptivos. No meu caso, foi quando uma camisinha estourou e eu tinha 21 anos. Ou seja, mesmo tentando fazer tudo certo, não conseguimos garantir 100% de segurança. A gravidez por acidente é uma realidade e não se pode punir uma mulher (e/ou seu parceiro) como criminosos.

Bem, como no meu caso era óbvio imediatamente que a gravidez era um risco, fui direto no ginecologista pedir a pílula do dia seguinte.

Posted by: Leila at setembro 30, 2005 02:14 PM

Oi...Através de um blog..acabei aqui. Acho muito saudável quando passamos por situações limite, como esta descrita no post, desabafar mesmo! Já passei pela angústia de um positivo ou não num papel..deu negativo. Mas as dúvidas, questionamentos, cobranças são as mesmas para todas. Fique bem..
abraço, aparecerei...

Posted by: Dani F at setembro 30, 2005 01:41 PM

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