agosto 18, 2005
Sobre o direito de mudar de idéia
Estréio na Verbeat com uma republicação. Foi o segundo ou terceiro post que escrevi na vida e que só meia dúzia de gatos pingados leram (desculpas antecipadas a eles).
Puxe uma cadeira e fique à vontade. Cerveja no freezer.
Sobre o direito de mudar de idéia
Ou Em defesa da árvore torta.
Coisas que eu queria ser quando era pequena
(ou criança, considerando que 1,60m não é exatamente grande)
1.Dentista
2.Arquiteta
3.Piloto de Fórmula 1
4.Bailarina
5.Cientista maluca
O ser humano por natureza não sabe o que quer.
Retificando. O ser humano sabe o que quer: comer, dormir, reproduzir, não necessariamente nessa ordem. Fora isso o ser humano não sabe o que quer. Exemplo? Tente pedir uma pizza. Sozinho você já vai ter dificuldade. Agora pense que é pouco provável que você peça uma pizza sozinho, o que torna a tarefa ainda mais difícil.
A questão é que pessoas teimam em viver em sociedade, o que complica tudo! Porque aí não basta agradar a si mesmo e pronto. Você tem que agradar os outros também, senão eles te enchem o saco. Logo você faz coisas que não quer para que outras pessoas não façam o que você não quer.
Complicado? De jeito nenhum. Já tentou pedir pizza de calabresa numa turma de vegetarianos? Não, é claro que não. Porque por mais que seja meio a meio e que ninguém vá ficar com fome se não comer uma das partes da tal pizza, na melhor das hipóteses vão te olhar com uma cara de “Pai, perdoai. Ele não sabe o que faz”. Na pior, vão te acusar de assassino. Você decididamente não quer que eles façam isso, então pede quatro queijos. “Droga! Eu gosto de calabresa!”
Se você estiver sozinho pode pedir até alho e óleo, ou crocante (aquela coisa que vem com batata palha, aka atentado gastronômico). Quem se importa? É você quem vai comer, mesmo. Agora, é bem provável que fique em dúvida entre portuguesa, lombo com catupiry ou qualquer outra com bacon, por mais que goste de calabresa.
Tá vendo? Seres humanos não sabem o que querem. E não há mal nenhum nisso. Ou melhor, não haveria. Porque a dúvida da pizza até que é fácil de ser resolvida, você sempre pode pedir um sabor diferente na semana seguinte, mas e as outras? “Será que eu caso ou me mando pra Europa?” “Será que eu gosto de homem ou de mulher?” “Será que eu quero ser engenheiro ou cirurgião plástico?” “Será que se eu escolher agora vou poder mudar de idéia depois?” Não. Porque se você mudar de idéia vai ter um monte de gente pegando no seu pé.
Olha só a sacanagem: uma pobre criatura entre 16 e 18 anos, praticamente desprovida de razão dados os hormônios que tomam conta não só do seu corpo, mas também da sua mente, é obrigada a escolher o que vai fazer pelo resto da vida. Algum tempo depois essa criatura descobre que não era aquilo que ela queria. E aí, o que é que faz? Estranho pessoas que pedem divórcio terem um chilique quando os filhos abandonam a faculdade.
Não bastasse um pobre coitado ter que descobrir do que gosta, tem que arranjar algo que dê dinheiro. E não venha com essa de que dinheiro é o de menos porque todo mundo sabe que não é. Ou existe alguém que não precise morar, comer, vestir? Se não por si, pelos parentes que, preocupados, não vão largar do pé do dito-cujo. Quando não são os parentes são os vizinhos, os amigos, a sociedade, o Papa, a Rede Globo, o presidente, o raio-que-o-parta. Logo ele vai passar a fazer o que os outros esperam que ele faça só porque não suporta a aporrinhação. Ou vai aturá-la pro resto da vida.
Kant disse uma vez que uma árvore não pode ficar isolada para se desenvolver bem*. Ela precisa da proximidade de outras. Sabe por quê? Porque muitas árvores juntas necessitam criar raízes mais profundas para poderem extrair nutrientes do solo. Também precisam crescer mais e de maneira retilínea, pois se a sua copa ficar abaixo das outras não conseguirá tomar sol e pode acabar morrendo. Assim uma árvore isolada cresce pouco, desordenadamente e com raízes pouco profundas, enquanto várias juntas tornam-se fortes e exuberantes. Mas a que custo? Competição constante e padronização? Desculpa aí, seu Kant, mas duvido que a árvore torta precise de analista.
* KANT, Immanuel. Idéia de uma história universal de um ponto de vista cosmopolita. In GARDINER, Patrick. Teorias da História.
Posted by luizab at agosto 18, 2005 12:44 AM
Comments
Desculpa, retificando o começo do comentario anterior, creio que seja necessário viver em sociedade.
Posted by: Luis at agosto 26, 2005 10:06 AM
Bem legal este seu texto, mas creio que por que seja viver em sociedade, necessitamos em certo grau disto, e gostemos ou não, para cada escolha tem sua parte boa e ruim, e a partir disso nos cabe fazer nossas escolhas.
boa sorte no novo blog, já me tornei fã
Posted by: Luis at agosto 26, 2005 10:04 AM
Excelente!!! Ficou lindo seu template, só a letrinha branca tá cruel hein??? mas tudo bem , consigo te ler assim mesmo e a cada dia gosto mais.... e neste post vc disse o que eu sempre digo pra todas as pessoas: não é justo termos de decidir o que vamos fazer pro resto da vida quando ainda somos tao jovens e nao temos muita certeza do que queremos.... quase sempre temos que mudar e aí fica mais dificil nao é?
Menina! boa sorte na casa nova... continuarei te visitando! Beijocas
Posted by: Juju at agosto 25, 2005 12:38 PM
AMEI o template!!!!!!
Tá lindão, amiga!
Um beijo grande ;)
Posted by: Spleen at agosto 23, 2005 8:22 AM
To na area ... como sempre ...
Posted by: Alisson at agosto 18, 2005 7:53 PM