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      <title>Cidades Crónicas</title>
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      <language>pt</language>
      <copyright>Copyright 2007</copyright>
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         <title>Miquelina Ângela e Amélia Jeremias morreram abraçadas</title>
         <description><![CDATA[<p>Miquelina Ângela tinha 12 anos e andava na quinta-classe. Amélia Jeremias  também tinha 12 anos, mas estava na sexta. Quando começaram os rebentamentos do Paiol de Mahlazine, em Maputo, na quinta-feira, 22 de Março, foram retiradas das salas de aula e concentradas num lugar onde os professores pudessem ampará-las e ajudá-las. Toda a gente pensou que fosse algo semelhante ao que acontecera em Janeiro quando o mesmo paiol incendiou e não houve danos tão avultados. Mas não. Os estrondos avolumaram-se e o pânico também. Alguns pais assomaram à porta da escola, muitas crianças saltaram pelo muro. Miquelina e Amélia estavam abraçadas e caminhavam, debaixo dos estrondos, quando as suas vidas foram estilhaçadas por um obus. Tiveram uma brutal e instantânea morte. O mesmo obus atravessara antes duas salas, rebentara com uma porta e se alojaria, ulteriormente, numa casa distante transformando-a em cinzas.</p>

<p>A Escola Primária de Wiryamu fica no bairro de Zimpeto. Nela estudam 3060 crianças, em quatro pavilhões, sendo que cada sala alberga 65 alunos. Falta concluir um pavilhão e prover de carteiras e cadeiras algumas salas onde as crianças aprendem acocoradas ou sentadas no chão porque as carteiras e as cadeiras que existem não chegam para todas elas. Entre as seis e meia da manhã e as dezoito e cinco da tarde, três turnos passam por aquele lugar agora ensombrado pela tragédia. Ninguém sabe explicar por que razão os obuses deflagraram no paiol e destruíram, cegamente, vidas e bens, arrastando muitas famílias para o infortúnio. </p>

<p>Há crianças que não foram localizadas até hoje pelos pais, muitas outras traumatizadas. Há desaparecidos. As crianças de Wiryamu vinham de Magoanine, Zimpeto, Kongolote e Bairro Policial, nomes de bairros que circundam o paiol. Ontem fui visitar a escola de Miquelina e de Amélia. Tinha sabido delas pela televisão quando se relatava o pânico que assombrava a minha cidade. Agora, nos obituários da Escola de Wiryamu contabiliza-se mais uma morte: Brígida da Conceição. Não resistiu aos ferimentos da tarde de quinta-feira e morreu no domingo – conta-me o director da escola.  </p>

<p>Seis crianças, três meninas e três meninos, aproveitam o interregno das aulas, no turno do meio, por causa dos funerais de uma das mártires da escola, e revisitam o lugar onde dias antes eram visitadas pelos demónios da guerra. Sorriem, falam alto, correm. Pergunto-lhes de onde vieram, se estavam na quinta feira. </p>

<p>- Viemos de Magoanine, dizem-me. Sim, estávamos. Tivemos medo.</p>

<p>Estão ali, fazendo a sua catarse. A catarse possível de meninos pobres que não sucumbem à força material da tragédia, que não podem ter o luxo de se sentirem traumatizadas. No fundo, esta a nossa tragédia maior.  </p>

<p>Há ainda o rasto de sangue da Miquelina Ângela e de Amélia Jeremias na areia quente de segunda-feira, as meninas que foram para a morte abraçadas, enquanto se retiravam da escola. Há chinelos sem par, há vestígios dos obuses, paredes esventradas, portas arrancadas. Faz um calor atroz e o jovem director da escola, Carlos Armando Zacarias Chihongo, tem o rosto carregado. </p>

<p>À volta do bairro, carros atafulhados de gente, que regressa dos funerais. Morreram mais de 100 pessoas, outras tantas - mais de 400 - ficaram feridas, muitas delas gravemente. Ficaram sem pernas, nem braços. Quem esteve no local relata cenas dantescas. Muitos têm os rostos marcados para sempre por aquela inaudita violência. Os testemunhos na rádio e na televisão são desoladores. A vida regressa, não obstante. Contudo, os cortejos de silêncio, de quem regressa do cemitério, no pico do calor, entre o meio-dia e uma hora da tarde, deixam-me sem palavras. </p>

<p>Regresso ao centro da cidade e penso nas mártires de Wiryamu, um nome assombrado pela História. Em tempos fora lugar cruel de um massacre, hoje é nome de uma escola primária, a escola que viu duas meninas abraçadas serem levadas para o território desconhecido da morte.</p>]]></description>
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         <category>Nelson</category>
         <pubDate>Tue, 03 Apr 2007 01:08:57 -0300</pubDate>
      </item>
      
      <item>
         <title>Motel Sheraton de Porto Alegre</title>
         <description><![CDATA[<p>O Hotel Sheraton de Porto Alegre realizou uma promoção especial em 12 de junho de 2006, Dia dos Namorados. Por um preço mais ou menos módico para seus padrões, foi oferecido jantar e hospedagem de uma noite em suas luxuosas instalações. Era como se o grande hotel se transformasse em um supermotel. Estava lotado de casais e eu era a metade de um deles. Só que o Sheraton não é um motel; isto é, não é aquele local em que se vai mais ou menos escondido com o propósito de ter por algumas horas um ambiente privado, quase sempre <em>kitsch </em>e que nos provoca irrefreavelmente a libido. A primeira diferença já se notava na chegada: não saíamos de nossos carros em garagens escondidas e sim entrávamos numa féerica fila de casais. Um <em>check-in </em>de aeroporto, entende? Os que estavam ali conosco pareciam ser pessoas estáveis, rotineiras e felizes, donde concluo que esta devia ser minha cara. É claro, era aproximadamente 21h, era o notório Dia dos Namorados ou, mais exatamente, a notória noite do notório Dia dos Namorados. Seria intolerável para qualquer um que tenha seu par ficar sozinho esta noite, assim como seria estranha a presença de amantes eventuais. </p>

<p>Mas era um ambiente cômico. As duplas iam chegando ao balcão, todos sem malas, com as mulheres portando pequenas <em>nécessaires</em>. Todos olhávamos reto para o balcão, pois não apenas qualquer amigo ou conhecido seria indesejável numa hora daquelas, como havia a estranha de se estar entrando em grande grupo num motel. Quem chegava finalmente ao balcão era saudado pelo atendente com um festivo "Feliz Dia dos Namorados" que soava como um ditoso <em>have a nice fucking</em>. Por sorte, a tortura era rápida e entrávamos rapidamente. </p>

<p>Depois de deixarem a pequena bagagem no quarto, os casais desciam para a soberba refeição. Todas as mesas eram pequenas e estavam belamente decoradas. Havia um violinista que ia de mesa em mesa. Aqui acabava o constrangimento inicial, pois a comida e o vinho faziam o habitual milagre de tornar-nos felizes, falastrões e, afinal, podíamos observar abertamente quem praticaria intercurso após a sobremesa. Era interessante, às vezes bonito ou enternecedor. Havia um casal de septuagenários; quando subiram para o quarto, ambos sorrindo intensamente, viu-se que a senhora amparava-se em uma bengala. Havia a falsa loira envelhecida acompanhada de seu jovem, impressionável e anabolizado consorte. Havia o japonês apaixonado que chegou ao restaurante com um copo de champanhe na mão, máquina fotográfica no pescoço, e que levou carinhosamente sua dama para a mesa que lhes fora destinada. (Depois o mesmo solicitou que um garçom lhes tirasse uma foto. Japonês é sempre japonês.) Havia as grandes personagens, como Paulo Roberto Falcão e senhora, etc. Porém, lá também estava o cronista que só fala em sexo, o Casanova, o tarado-mor da cidade: o gremista David Coimbra. Era impossível observar a mulher que o acompanhava sem pensar que - pequenina e delicada - ela seria destroçada dali a minutos. </p>

<p>Sinto decepcioná-los ao ignorar o longo espaço narrativo entre a sobremesa e o <em>check-out</em>. Lá, pudemos ver mais casais saindo abraçados. Aparentemente tudo tinha dado certo. O único casal já visto que estava no <em>check-out </em>era o Garanhão Gremista e a Pequenina Delicada. Ela estava viva e movimentava-se normalmente. Ele não deve ser toda esta coisa. Apenas um fato os diferenciava. Ela não carregava uma <em>nécessaire </em>e sim uma enorme mala.</p>]]></description>
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         <category>Milton</category>
         <pubDate>Tue, 03 Apr 2007 00:07:28 -0300</pubDate>
      </item>
      
      <item>
         <title>Stromboli (2)</title>
         <description><![CDATA[<p>Nem sempre é o mesmo avião. Mas o ronco é sempre o mesmo (o ronronar, só o menino escuta). E há sempre as mariposas mortas sobre a mesa, quando nos levantamos para fazer os sinais com a lanterna (menos o menino, que “vê” tudo pela janela.). Ele poderia se ferir com as hélices, topar numa pedra, ver mais do que nós, na nossa noite de sombras se esquivando.</p>

<p>Lá fora, o vento enfuna o vestido da mulher, às vezes mostra as suas meias grossas – porque a luz é voltada para a terra, formando círculos ao redor das pernas (seríamos alvos fáceis, se o avião fosse hostil, e não o aliado que acaba de atravessar as linhas de fogo inimigo).</p>

<p>Uma vez eu fiquei doente e a mulher, durante uma semana, fez tudo sozinha – ou quase sozinha, porque o menino veio para fora nas noites dessa semana e esteve tão perto do avi ão, todas as vezes, que passou semanas imerso naqueles seus sonhos da parede, tardes inteiras, de novo próximo do metal suado das alturas, do combustível que forma um capote de cheiro grosso e forte em torno daquela coisa que atravessa a noite e que a noite também atravessa, como uma sombra entra pela mancha da outra, nas minhas manipulações nunca mais feitas contra a parede branca, o lobo faminto não mais devorando a lebre trêmula que não pode escapar do fatal encanto... </p>

<p>Um avião de perto é tão diferente de um avião voando, roncando, sumido no frio das nuvens rosadas por um sol carinhoso. O menino não consegue entender, parece, que o sol quente possa ser terno na sua luz ingênua, de alegria pelas coisas. Nunca vi o sol contente nos olhos opacos do menino que, no entanto, refletem a grandeza gelada das naves e a morte das mariposas contra a lâmpada. Há relação? A fuselagem riscada, as pequenas luzes vermelhas, a graxa em excesso, o combustível (que um aeroplano bebe de pleno direito), o vôo cego com os instrumentos de navegação abandonados a si mesmos. </p>

<p>O menino disse – depois de eu muito perguntar, como um professor de aldeia exigindo definições – que os aviões eram tristes. Os aviões, segundo ele, não eram tristes como os insetos indecisos, ainda à volta da luz, decidindo se querem ou não morrer contra o céu falso do bojo ocultando os filamentos da luz elétrica acesa como um mortal engano para eles. Triste, realmente triste, segundo ele, era um único inseto morto em que se podia tocar com o dedo, empurrando o pequeno corpo inerte da mesa limpa para o chão sujo de farelos e folhas secas, lixo das asas queimadas e uma ou outra pena de ave abatida pelas hélices (riscos de sangue na fuselagem davam sinal dos choques freqüentes). </p>

<p>“Nem o piloto está mais dentro” – foi o que ele quis dizer, riscando na areia da praia, com seus olhos feridos, um avião vazio que não tinha, quase, a forma dos aviões descidos do céu, porque tudo pode se tornar desmedido nos desenhos riscados por um cego. Não o ajudei, naquele dia. Dei-lhe o melhor graveto, no máximo, e com ele o menino sulcou na areia fina, ficou ouvindo o mar para imaginar a fortaleza voadora que ainda ficou visível debaixo da língua espumosa da água indo e vindo sobre o avião triste da sua cabeça de menino morto (aquela cabeça grande, que não espera pelo corpo crescer) de medo dos gafanhotos vivos quando eu os ponho na mão dele, dizendo que são os aviões verdes da natureza, que ele poderia esmagar com os dedos, se quisesse.</p>]]></description>
         <link>http://www.verbeat.org/blogs/cidadescronicas/arquivos/2007/03/stromboli_2.html</link>
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         <category>Fernando Monteiro</category>
         <pubDate>Tue, 27 Mar 2007 00:34:21 -0300</pubDate>
      </item>
      
      <item>
         <title>Visões</title>
         <description><![CDATA[<p><small>Foi ver o fruto a desprender-se e a cair<br />
<small>Em sangue, enquanto ciciava<br />
<small>Com olhos deslumbrados<br />
<small>Os feitos irreais de Sertório.</small><br />
<small>E eu a vê-lo </small><br />
<small>Por trás </small><br />
<small>Com máscara de Vénus</small><br />
<small>A vaguear sob nuvens rápidas</small> <br />
<small>E as penas</small><br />
<small>Do rosmaninho.</small></p>

<p>São incandescências espalhadas na obsessiva brancura da cidade, cercaduras longínquas, retábulos e soleiras onde a acção recôndita do homem e a erosão da paisagem abraçaram um devir estranho e antigo. </p>

<p>São trepadeiras inesperadas, muros adiados no seu hierático sigilo, vias a pulsar num granito orgânico sob frontispícios de cal, ferros forjados e rostos em laje que o aqueduto do tempo embalou. </p>

<p>São cisternas de prata, musgos rasteiros, crisântemos e efígies ao vento, passo ante passo, em torno da fonte henriquina da grande praça. </p>

<p>São dias e corpos encostados aos arcos, palmeiras que excedem o corpo de cada quintal, frontões diáfanos entre estátuas solares, pombos errantes sobre este teatro do espanto. </p>

<p>São varandas e jarros, cisnes e anjos a dançarem nos mosaicos entre cátedras.</p>

<p>São labirintos e arbustos, pavões e galgos no limiar dos lagos, arcarias árabes, canteiros e ossadas a reluzirem na efemeridade da luz. </p>

<p>São tijolos mouriscos, telhas retorcidas, argila botante, pendões lisonjeados pelo tempo em longos cortejos sob fogo e a escurecida memória de Évora sempre cercada por exércitos do diabo.</p>

<p>São estrelas e cantarias, fenos da noite e cavalos de asas brancas que escalaram a Rua do Raymundo e depois entraram no centro do sol.</p>]]></description>
         <link>http://www.verbeat.org/blogs/cidadescronicas/arquivos/2007/03/visoes.html</link>
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         <category>Carmelo</category>
         <pubDate>Tue, 27 Mar 2007 00:07:40 -0300</pubDate>
      </item>
      
      <item>
         <title>A cidade das magnólias</title>
         <description><![CDATA[<p>Há dois anos, mais coisa, menos coisa, fui atingido pela dolorosa consciência de que a felicidade não é possível. Ninguém volta a reerguer-se completamente depois de ser tomado por uma certeza dessas – preparamo-nos apenas para ser infelizes da melhor forma que nos for possível, fazendo por aparentar a dignidade patética daqueles a quem a vida derrotou inexoravelmente.<br />
Hoje, instruído por um livro de Vila-Matas, estou empenhado em viver em paz com a infelicidade que me calhou na sorte; em fazer da minha infelicidade uma bela infelicidade, procurando povoá-la de pequenos e ínfimos instantes luminosos: pode ser a visão breve de uma mulher bonita, um raio de sol rompendo entre as nuvens, uma folha a cair de uma árvore – ou pode ser essa subtil festa das magnólias florindo nas ruas da minha cidade.<br />
Se alguma justiça houvesse nos títulos que as cidades adquirem, o Porto seria já hoje mundialmente conhecido como “a cidade das magnólias”, figurando ao lado de Paris, a cidade-luz, Nova Iorque, a que nunca dorme, da eterna Roma, da cidade-maravilhosa do Rio de Janeiro ou de Maputo, a das acácias rubras. Como, porém, algum imobilismo nos tolhe, aos portuenses, preferimos ainda apresentar-nos ao mundo com o epíteto de Cidade Invicta, coisa que, convenhamos, já ninguém sabe muito bem o que significa. Basta ver como a cidade se tem amesquinhado e empobrecido para constatar que, se não nos venceram os outros – fraca consolação! –, nos derrotamos a nós próprios com incomparável eficácia e brio.<br />
Adiante, porém, que esta crónica tem objectivos mais nobres do que fazer a psicanálise de uma cidade confusa ou das confusões que isto faz a um homem triste. <br />
A verdade é que, pensando nisso, não me ocorrem muitas paisagens urbanas mais belas do que aquelas que a minha cidade oferece nesta altura do ano, entre o final de Janeiro e o final de Março, com as ruas enchendo-se desse subtil milagre das flores (brancas, cor-de-rosa ou roxas) despontando nos ramos de árvores nuas. Uma mulher cuja memória tenho ainda em brasa chamou-lhes, um dia, borboletas vegetais – e isto, não sendo hoje mais do que um momento belo na bela infelicidade da minha vida, é também quase um poema.<br />
Pode ser uma crónica também, a celebração dessa flor brotando dos ramos escuros das magnólias plantadas no Porto, jorrando luz e cor sobre a parda e fria cidade que o Inverno entristece. A Avenida da Boavista está cheia dessa magia – e ainda não floriu a maior de todas as magnólias, a que há na esquina com a Rua de Belos Ares. A minha rua também já está engalanada, como estão a Avenida do Marechal Gomes da Costa ou a Rua de Guerra Junqueiro, as praças e os jardins, os simples quintais e os seus muros, tomados todos por esse benévolo e florido assalto. Eis, pois, a crónica de uma bela e infeliz cidade. Com magnólias.</p>]]></description>
         <link>http://www.verbeat.org/blogs/cidadescronicas/arquivos/2007/02/a_cidade_das_magnolias.html</link>
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         <category>Manuel</category>
         <pubDate>Tue, 27 Feb 2007 13:44:14 -0300</pubDate>
      </item>
      
      <item>
         <title>A minha vida está naquela mala!</title>
         <description><![CDATA[<p>Quando eu era miúdo adorava os dias de chuva. Vivia então em casa de minha avó materna, num bairro suburbano, muito perto da cidade. Em frente da nossa casa, de madeira e zinco, erguia-se o único prédio da minha infância, com três andares. Antes de eu vislumbrar os prédios altos da grande cidade da então Lourenço Marques meu conhecimento urbano resignava-se àquele edifício, em cujo baldio jogávamos futebol. Não fui um jogador predestinado, tanto mais que acabei me refugiando num quarto a escrever poemas para colegas que nunca me deram bola. O meu bairro chama-se hoje Minkadjuíne, que significa onde abundam cajueiros. Não recordo que houvesse grande quantidade de cajueiros a habitarem a minha infância. Recordo-me sim das cheias, razão pela qual ali se designava também por Xitala-Mati. Mas os dias de chuva eram gloriosos: pelo som ininterrupto sobre as chapas de zinco. Eu amava aquele som. Lembro, muito remotamente, de andar de pequenos barcos naquela zona porque as águas tinha invadido as casas e não havia como sair sem ser em embarcações como aqueles que se haviam improvisado.</p>

<p>Hoje tenho da chuva um verdadeiro temor. Principalmente, a chuva de Fevereiro, que traz consigo morte e destruição. No momento em que escrevo há muitos concidadãos meus que estão ao relento, à fome, à doença. Tudo isto por causa da chuva que castiga o centro-norte de Moçambique. Escrevo sobre este tema para combater a indiferença. </p>

<p>As cheias deste ano são invulgares. Fizeram-me recordar as cheias do ano 2000. Nunca mais me esquecerei daquele domingo em que choveu sem parar em Maputo. Recordo que meu filho Irati veio interromper-me enquanto revia um capítulo do meu romance, que viria a ser publicado naquele ano. </p>

<p>- O pai está a trabalhar. – disse-lhe, admoestando-o. </p>

<p>Eles sabem. Quando o pai se curva à escrita, não quer ser interrompido. Tanto o Irati, que tinha quatro anos, como a Mayisha, que nasceria nesse ano. Mas o Irati foi obstinado e conseguiu levar-me a ver o telejornal. A frase de um dos flagelados derrubou-me da modorra em que me encontrava: “As casas viajaram com a chuva”. Tudo à volta era silêncio e destruição. Meu espanto era absoluto: o medo, o pânico, o sofrimento, a tragédia, a hecatombe, o apocalipse.  A desolação: tudo diante de mim. </p>

<p>Já era tarde para sair de casa. Na manhã seguinte, muito cedo, fui resgatar a minha avó, que reincide no bairro da minha infância: Munhuana para mim, Minkadjuíne para os demais. Meus pais estavam no Infulene, a 25 km. Minha avó, com 80 anos, não queria abandonar a sua velha casa:</p>

<p>- E as minhas coisas?<br />
- Não é possível levar tudo, vamos com o essencial!</p>

<p>A água invadira-lhe a casa. Chegava pelos joelhos. </p>

<p>- A minha mala! A minha mala!<br />
- A mala não cabe no carro vovó!</p>

<p>A mala era na verdade uma arca de madeira onde ela guardava todo o seu pecúlio. </p>

<p>- Deixei as minhas coisas: capulanas que nunca vesti, coisas da minha vida inteira. A minha comida, as minhas galinhas, cada uma pesa 20 quilos.<br />
- Antes de tudo, temos que salvar-lhe a vida.<br />
- A minha vida está naquela mala!</p>

<p>À tarde consegui ir buscar a arca da velha. Mas antes rumei para o Infulene. Tinha que ir resgatar os meus pais. Já não havia comunicações: os telefones não falavam. A confusão era total. Em direcção à cidade vinham todos, ampliando, nos meus olhos, o rosto da tragédia. Escusado será dizer que a estrada estava já cortada. Não havia como alcançar o Infulene, nem pela via da Matola, muito menos pelo Bairro Jardim. Regressei de ombros curvos entregue à minha impotente resignação.</p>

<p>Lembrei-me, para meu consolo, de que eles viviam numa zona alta. No dia seguinte conseguimos um contacto furtivo e combinámos encontro num lugar em que a estrada fizera nascer um imenso lago. Havia barcaças, de miúdos que idealizaram o seu negócio e transportavam as pessoas de uma margem para outra, que meu pai usaria para alcançar o outro lado do mundo. Foi assim que ele veio dar-nos notícias. Estavam de outro lado da cidade, isolados, sem nada. Redes de água, electricidade e telefones não funcionavam. Bebiam da água da chuva. Mas estavam bem. Viera para nos serenar, mas tinha que regressar. Minha mãe ficaria preocupada com a demora.</p>

<p>Deixei-lhe o que tinha e dei-lhe um comovido abraço. Ele descalçou-se e arregaçou as calças: mergulhou na sarjeta das águas fedorentas e partiu numa daquelas barcaças. </p>

<p>Eu estava diante do apocalipse. Ele, sereno; eu sem saber o que dizer. Acenou-me enquanto se agarrava ao miúdo que tinha uma vara para ajudar os seus passageiros. Não tive coragem de o ver partir. Retornei à baixa, onde vivia. Quando cheguei à casa fechei-me no quarto e chorei. Depois escrevi uma crónica para o mundo saber um pouco mais da tragédia dos moçambicanos.</p>]]></description>
         <link>http://www.verbeat.org/blogs/cidadescronicas/arquivos/2007/02/a_minha_vida_esta_naquela_mala.html</link>
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         <category></category>
         <pubDate>Tue, 20 Feb 2007 15:30:54 -0300</pubDate>
      </item>
      
      <item>
         <title>Histórias Verídicas do Não-Carnaval</title>
         <description><![CDATA[<p>Você ama o carnaval e prepara-se adequadamente para ele. Começa separando alguns CDs: Nielsen, Bach, Villa-Lobos, Mozart, Handel e... olha o Piazzola chegando aí, gente! Como livros são de consumo mais lento, pegamos apenas dois – um de Nikolai Dejnióv e outro de Luiz Vilela para garantir. Olho o celular e há a mensagem de um <a href="http://www.verbeat.com.br/blogs/bereteando/" target="_blank">querido amigo </a><i>Cidade vazia eh tudo de bom! Trabalhando por aqui. Abraço!</i>. Ou seja, até o trabalho fica bom durante o carnaval dos outros. Vão pular, seus idiotas buliçosos; deixe-nos aqui livres do trânsito, livres das filas, livres de vocês. Xô! </p>

<p>Vou ao hospital onde está minha mãe em 10 minutos, atravessando a cidade. Normalmente, levo 30. Teve menor sorte o cãozinho bonitinho, velhinho e arrastando uma coleira que tentou atravessar a rua vazia e foi colhido por um táxi perdido. Um som forte de batida. Eu estava correndo. Paro. O cachorrinho, ganindo, se debate no meio do asfalto. De repente, pára. Chego até ele, vendo o táxi reacelerar, não quer incomodação, o desgraçado. Como sei que cães feridos tornam-se agressivos, empurro-o com o bico do tênis. Morto. Pego-o pela coleira. Está mole mole. Gritos de crianças, choro da mãe, choro da vizinha. Largo o cão na calçada. Todos olham. Aponto e digo</p>

<p>- foi aquele táxi. – A mulher cobre o rosto com as mãos e diz que<br />
- ele tinha 11 anos, nunca saía do pátio. Será que fui eu quem deixou o portão aberto? </p>

<p>Alguém afirma que cachorros criados em casas não sabem atravessar ruas. Eu não quero mais ver aquilo. Lamento e vou-me embora caminhando; depois, volto a correr. </p>

<p>Na vídeo-locadora deliciosamente vazia, alugo <i>Repulsa ao Sexo</i>, <i>A Pequena Jerusalém</i> e <i>A Grande Noite</i>. Olho para minha mulher sem saber a resposta quando ela pergunta se a empregada trabalhará segunda-feira. Os feriados são de sábado à quarta ao meio-dia, mas, oficialmente, segunda-feira é dia útil.  Acho que ela não vem, melhor ir lavando a louça aos poucos, não haverá escrava no feriado. Vemos <i>A Grande Noite</i> e minha filha pede para que eu faça um <i>Porque hoje é sábado</i> com Isabella Rosselini. Entro no Google e fico impressionado com as fotos, ela é belíssima mesmo. Tem <i>pedigree</i> a moça – imaginem: a filha de Ingrid Bergman recebendo um sanguezinho italiano... <i>Porca troia, bellissima!</i></p>

<p>Acaba o carga do celular, mas ninguém me liga mesmo, só minha irmã. Vou ao hospital, minha mãe se mostra totalmente fora da casinha. Me confunde com meu pai e, falando comigo, dá conselhos a meu pai para cuidar melhor de mim. Loucura total. Compramos uma cadeira de rodas para banho, mas ainda temos que procurar a cadeira de rodas para casa. Nada de rodas duras, tem que ter pneus como os das bicicletas. OK. Um sufoco, uma tristeza, melhor agir sem pensar muito. Afinal, quando piso num formigueiro, as formigas já saem correndo para reconstruir a casa, não lamentam porra nenhuma; sou uma formiga... Ou será que elas correm por desespero? Bom, as minhas correrão para reconstruir o formigueiro e fim. A empregada, para nosso pasmo, chega às 14h de segunda-feira. Veio trabalhar! Encantada, encontra toda a louça limpa, tudo guardadinho, mas não faz piadas com o fato. É uma pessoa sem humor. </p>

<p>Saio para correr novamente. Ruas vazias. Cuido os cães. Começa a chover e comprovo como é bom correr na chuva, mesmo com os tênis fazendo schlap, schlap; dou uma volta maior para pegar mais chuva, diminuo a velocidade da corrida, vou quase trotando, sentindo alguns pingos baterem na minha cabeça de quase cinqüenta anos enquanto outros entram nos meus olhos misturados com suor; eles ardem, o suor é salgado, droga. Olho para o céu de nuvens baixas e em seguida vejo uma mulher protegendo-se da chuva com um filhote de cachorro – ele fofinho, pequenininho, uma bola de pêlos como devem ser os filhotes que chegam às crianças -, entrando na casa das crianças do cão morto. Fico muito surpreso com a coincidência; será que vi as duas faces do drama? As lágrimas da tristeza, o velório improvisado na calçada e depois o que causaria mais lágrimas, só que agora de alegria: o cão novinho em folha, as crianças felizes, o carnaval enfim salvo? </p>

<p>E hoje ainda é terça, ainda faltam 36 horas de feriado. Mas não tenho culpa do Cidades Crônicas exigir uma crônica na terça-feira. Vai ficar incompleta. E nem falei de tantas outras coisas: não falei que minha mulher fez inhoque para umas dez pessoas; vieram sete e comeram tudo, mas tudo mesmo. E ainda, como se não bastasse, enfrentaram com galhardia o maravilhoso pudim de requeijão com molho de goiabada que minha sogra trouxe. Puxa, e era para sobrar comida para a noite! Gente faminta, hein? Meu cunhado serviu-se quatro vezes de <i>gnocchi</i> e ainda repetiu a sobremesa. Minha filha refestelou-se, um absurdo uma menina de 12 anos e 37 quilos comer daquela maneira. E ainda tinha carne! Ou o pessoal vem aqui com uma fome de anteontem ou é minha mulher que cozinha <i>benissimamente</i>? É ela, claro. Ela é a culpada pelos quilos que ganhei (e que luto para perder correndo pela rua) e pelos amigos ficarem se convidando para vir aqui em casa. Melhor levantar daqui e dar-lhe um beijo. Não vou terminar a crônica mesmo!</p>]]></description>
         <link>http://www.verbeat.org/blogs/cidadescronicas/arquivos/2007/02/historias_veridicas_do_naocarn.html</link>
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         <category></category>
         <pubDate>Tue, 20 Feb 2007 00:59:22 -0300</pubDate>
      </item>
      
      <item>
         <title>Stromboli (1)</title>
         <description><![CDATA[<p>O avião primeiro é um ronco, um som longínquo enrolado nas nuvens. <br />
         <br />
Se a noite houvesse conseguido dormir, seu ronco seria um ronco assim – mas a noite não dorme, o menino não dorme, ninguém aqui dorme até ir o aeroplano vago, o avião-ronco se tornando uma coisa mais sonora e maior, porque sua forma bojuda rompe os cúmulos e vem na nossa direção, cresce um dragão metálico irritado e se prepara para pousar quando já estamos lá fora. </p>

<p>Antes de sairmos, a mulher ou eu, na estação das chuvas, sempre olharemos para a mesa de mariposas, por um motivo qualquer, relacionado com o avião e com a noite, e por superstição que, talvez, não precise de tantas explicações. E aqui devo voltar a mencionar o menino e seus muitos talentos desenvolvidos na escuridão, um menino cego que não pode ver os aviões, mas é o primeiro a escutar a sua aproximação.    </p>

<p>O menino pode estar atento ao outro vôo – o dos insetos antes da morte – mas é sempre ele que ouve o ronronar (o ronco antes do ronco), levantando a cabeça como um sinal para nós (porque logo depois se ouvirá claramente o som cortando as nuvens de sombra, pesadas sobre a península). <br />
         <br />
Uma única vez ele deixou  de escutar: eu lhe mostrava uma lebre negra e um lobo faminto, com os dedos das duas mãos contra a luz da lâmpada assassina dos insetos, e o seu ouvido foi para dentro das sombras que não podia ver projetadas na parede. Buscava os sons, quem sabe, que eu não sabia fazer com o meu lábio leporino feio de se ver  produzindo os sopros de deformação das palavras sibilantes como “sassânida”, “assassino”, “sussurro”, “silício” e “açafrão”. Seja como for, ficamos ali, com receio de que ele estivesse se retardando demais na sua sombra, não escutando o avião da noite, fazia frio e nossa esperança era que a noite ficasse como um borrão sem nada de avião surgindo da irrealidade do ronco que crescia ao encontro do hangar sem nome, que não figurava nos mapas: nós. “Aqui estamos, menino: esse nada somos você, eu, sua mãe e toda a sucata, todos os pedaços de coisas que estão atrás da casa: hélices quebradas, manches, partes de asas partidas como um coração de piloto abandonado”. Fazia frio, eu já disse, e voltamos – porém o menino continuava sentado como se pudesse ver a parede onde as minhas mãos haviam animado o contorno do predador e da vítima que não escapa, o animalzinho sem socorro (que a mão desfaz na boca do lobo).    <br />
         <br />
Como escapar? Como fugir do fogo antiaéreo que derruba os caças e as altas esperanças dos jovens pilotos? O que há de estranho sobre a juventude eterna dos rapazes que pousam, o capacete de couro como uma couraça dos dançarinos do touro corcoveando entre as nuvens? Tive vontade de perguntar ao menino silencioso, mas a falta do avião, a parede sem manchas, tudo que era branco e silencioso também me calou naquele instante e deixamos que o menino saísse lentamente do seu sonho imóvel para a imobilidade do sono.</p>]]></description>
         <link>http://www.verbeat.org/blogs/cidadescronicas/arquivos/2007/02/stromboli_1.html</link>
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         <category></category>
         <pubDate>Tue, 13 Feb 2007 23:40:16 -0300</pubDate>
      </item>
      
      <item>
         <title>Aparições</title>
         <description><![CDATA[<p><small>Andava por veredas e caminhos</small><br />
<small>Onde antes floriam</small><br />
<small>Acácias alinhadas e dizia</small><br />
<small>Que a cidade era apenas um vestígio</small><br />
<small>De névoa</small><br />
<small>Para respirar</small><br />
<small>Ao pé da lagoa.</small></p>

<p>Entrar na Catedral e auscultar a serenidade do vivido.</p>

<p>Subir pelas naves e eximirmo-nos ao sentido. Por momentos. </p>

<p>Percorrer lentamente a imensa embarcação de pedra e o seu inadvertido e irrespondível mistério: por que terá aparecido, entre os séculos XII e XIII, aquela dimensão granítica auscultadora de céus e horizontes que escapa radicalmente às dimensões das outras cidades lusas, incluindo aquela que, à sua medida, foi a nossa capital imperial? </p>

<p>Que narrativa insondável terá suscitado aquela desproporção que as demais edificações de Évora jamais conseguiram acompanhar e que, na Ibéria, apenas se revê, aqui e ali, nas grandes urbes históricas? </p>

<p>O dom íntimo deste templo respira-se entre badaladas fortuitas e um rugido muito remoto de aves. Mas um mistério persiste, justamente, porque não é interrogado. </p>

<p>Subir pela nave central até que o olhar se fixa nos vitrais, nas amplas rosáceas e na leve curvatura do céu. Navegar pelo movimento gerado pelo altar de Ludovice, esse tardio volume em movimento que galardoa e saúda os deuses da nascente (é a nascente - a oriente - que a terra procriou uma homonímia elementar: Evoramonte e Jevora). </p>

<p>Penetrar nesse reduto do barroco inquieto e resistente, mas tão distante da elevação gótica ainda tímida e pesada, porque de legado românico, que continua a albergar os confessionários recurvados pelas colunatas e, junto ao baptistério sombrio, a imagem viva de de S. Gabriel. </p>

<p>Depois há-de abrir-se a porta que dá para o claustro. </p>

<p>E a luz, enviesada e transversal, invadirá este canto húmido e recôndito dando a vez à baça luminosidade que, um dia, os esplendores flamengos trouxeram até a Évora.</p>]]></description>
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         <category></category>
         <pubDate>Tue, 13 Feb 2007 23:23:40 -0300</pubDate>
      </item>
      
      <item>
         <title>Intemporalidades</title>
         <description><![CDATA[<p><small>A beleza era o nome desse incêndio,</small><br />
<small>Mas alguém dizia que era também a imagem parada</small><br />
<small>Onde há muito a cidade se perdera </small><br />
<small>Nas aves feridas e tempestuosas da noite.</small></p>

<p>Sempre senti, desde a infância, que Évora era atravessada por uma angústia do extremo do universo. </p>

<p>Não é, naturalmente, um sentimento que se pareça com o pasmo poético dos abismos islandeses, das orlas meridionais do Chile, ou dos cumes do Atlas. Mas desde sempre reconheci, no mais recôndito crivo da minha consciência, que essa característica existia por trás das inevitáveis vestes épicas com que as gerações de todos os presentes se auto-representam. </p>

<p>Uma geração aspira forçosamente ao cume da história e faz da sua coreografia, da sua urbe e da sua terra o lugar desse cerimonial único. Esta desfocagem dos autóctones é universal, mas Évora, em concreto, é, por trás da letargia e dos orgulhos fáticos, uma cidade singular, particular. </p>

<p>Évora é uma terra que, como todas, se individualiza no tempo em contraste com a parcialidade das gerações e com as morfologias do território. Grande parte do que a cidade é e vai sendo, na sua caminhada entre tempos, faz parte do que se podia ser designado pelo seu ronronar secular. </p>

<p>Por isso a cidade ali está, habitada pelo seu espaço, presente, perfilada e aparentemente incólume, e, ao mesmo tempo, tão terrivelmente senhora de si e da sua quase intemporalidade. E por isso Évora ergue diante de nós, como se nada fosse, o pretensamente <em>não dito </em>do seu encanto, assim como uma parte pungente daquilo que Borges designou por desilusão na sua <em>História da Eternidade</em>. </p>

<p>De algum modo, Évora é uma cidade propensa à desestruturação, ao <em>spleen </em>da imobilidade e à angústia do desejo, já que nela domina a tentação de levar a cabo a releitura dos seus textos arquitectónicos, imaginários, passionais e espaciais, num movimento simultaneamente ascendente e descendente, e que visaria, num só plano, tanto os rastos, as ruínas e os vestígios, como as presenças, o agora-aqui e o emergir às vezes informe do próprio discurso contemporâneo (que é o nosso). </p>

<p>Évora também tem uma herança dos confins do mundo, é verdade. Reduto, afinal, da sua claridade.</p>]]></description>
         <link>http://www.verbeat.org/blogs/cidadescronicas/arquivos/2007/02/intemporalidades.html</link>
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         <category></category>
         <pubDate>Tue, 06 Feb 2007 23:17:22 -0300</pubDate>
      </item>
      
      <item>
         <title>O Marechal e o Minotauro</title>
         <description><![CDATA[<p>O meu nome é Saldanha. Marechal Saldanha. Uma figura importante na história de Portugal. Política e militarmente importante. Talvez por isso me tenham erigido uma estátua numa das principais praças de Lisboa: o Saldanha.</p>

<p>No meu tempo não se chamava Saldanha. O centro de Lisboa era o Rossio (Praça D.Pedro IV, mas ninguém sabe que se chama assim, é como o Teatro Nacional D.Maria II, ninguém sabe que é a segunda). O Saldanha já era a caminho das hortas, que as havia e com legumes frescos.</p>

<p>Eram outros tempos. Dizia a publicidade que um homem se distinguia pela honra, pela barba e pela camisa. Por acaso nunca tive uma Triple Marfel (ou Regojo?), não havia.</p>

<p>Hoje um homem distingue-se pela sua capacidade de endividamento. É a globalização. No meu tempo era mais à força dos canhões, dos dotes de oratória, dos grandes golpes e das pequenas revoluções.</p>

<p><br />
No Saldanha, a minha estátua está lá bem no cimo, com um ar imperial. Tenho o braço esticado e aponto. Bem sei que “não se aponta, que é feio”, mas este apontar é diferente. Eu aponto o caminho do futuro aos portugueses. Aponto para o rio Tejo, mas entre mim e o rio Tejo interpõem-se os pequenos arranha-céus portugueses, pigmeus de 20 andares e muito obrigado a Vossa Excelência, senhor doutor, apresente os meus respeitos à sua senhora e os meus cumprimentos às crianças.</p>

<p><br />
À minha direita está o Cine-Teatro Monumental, onde actuaram nomes grandes do teatro português, onde pisaram o palco vultos excelsos da música. Onde o Luís Graça ganhou o terceiro prémio de um concurso de máscaras, no Carnaval, quando tinha oito anos. O traje, inventado pela senhora sua mãe (porra para a ideia), era composto por um chapéu de coco preto e brilhante. Um vestido xadrez com direito a mini-saia ou o que raio era aquilo. Meias vermelhas pelo joelho. Sapatos pretos de verniz. Brilhantes. Luvas até ao cotovelo. Vermelhas. À Rita Hayworth. Mas sem estalo do Glen Ford. E os olhos rodeados por uma maquilhagem xadrez. “A menina que ganhou o terceiro prémio chegue-se aqui à frente”.</p>

<p><br />
A “menina” que ganhou o terceiro prémio disse raivosamente que não havia menina nenhuma a ganhar o terceiro prémio e a estúpida da máscara se chamava “Mini-Hop Art”, pela alma de todos os santinhos que lhe eram preciosos. E depois desatou a dar com a mala de senhora (obrigatoriamente a tiracolo, para definir um quadro de total e absoluta humilhação) nos árabes, romanos, zorros, vampiros e outros miúdos de esgar escancarado que se atravessavam no seu caminho.</p>

<p>Saldanha. Marechal Saldanha. É o meu nome.</p>

<p>No outro dia saí de cima do pedestal de imponente pedra branca e fui beber uma cerveja ao Atrium Saldanha. Ali na zona tudo tem o meu nome: é o Atrium Saldanha, o Saldanha Residence, a estação de metropolitano é o Saldanha, até acho que o restaurante que está aberto até às 3 da manhã não se devia chamar “Galeto”. Devia chamar-se “Saldanha Snack”. E o McDonald’s, mesmo ao lado, devia chamar-se “McSaldanha”.</p>

<p>O “Galeto” esteve 11 dias fechado, porque apareceu lá uma equipa de fiscalização e encontrou “várias gerações de baratas”. Algumas, as mais velhas, eram do meu tempo de estadista e militar.</p>

<p>Eu sempre gostei de passear à noite na minha zona, o Saldanha. Nas madrugadas de bruma era muito agradável discutir a Nação com o fantasma de D.Sebastião, que se enganou na táctica para a batalha de Alcácer-Quibir e o resto sabe-se. É muita areia.</p>

<p>Ontem encontrei o Minotauro muito enfurecido, aos pontapés às pedras na zona do Saldanha.<br />
“É vergonhoso. Antigamente o Saldanha era uma coisa como deve ser. A sua estátua imaculada. As pessoas sabiam quem era o marechal. Hoje passam pela rotunda a acelerar, todas fixadas no verde dos semáforos, numa ânsia sexual de chegar antes de todos à Av. Fontes Pereira de Melo, num desvario de se meterem debaixo do Marquês de Pombal, de leão pela trela. Salvas as devidas diferenças, claro”.</p>

<p>“É vergonhoso. Hoje, o marechal quer ir comer um “Linguado à Delícia” à pastelaria Versailles, anda por ali às voltas num labirinto de tapumes de metal cinzento. É muito pior do que Creta. E vamos já em dois anos de obras, dois anos de fura-fura, de rebenta-me com esse alcatrão, criatura, que é para o bem de todos, para ligar a estação de S.Sebastião à estação da Alameda. E o S.Sebastião todo cravadinho de flechas, uma expressão de santo com cara de quem foi tramado pela vida sem saber porquê”.</p>

<p>E o Minotauro continuou a protestar. Que o pior de tudo era os tapumes serem traiçoeiros como o caraças, mudando de posição de dia para dia. E por isso era preciso dar uma volta do escamarquilhão para chegar ao restaurante Moisés e à farmácia. E que era preciso voltar para trás se se quisesse ir ao relojoeiro onde o Luís Graça muda as correias dos relógios e mete pilhas nos relógios de pulso com a cara do Tintim e do Fernando Pessoa, que lhe foram oferecidos pela sua querida prima Isabel Alexandra.</p>

<p>E um dia destes ele ainda ia aos cornos a alguém, mas que eu estivesse descansado, que eu era uma pessoa de bem, ele até me admirava há montes de tempo. Ficar ali feito estátua uma eternidade não era para todos. Sempre havia aquele moço que ia fazer de estátua para o Rossio, mascarado de Camões. Mas a esse davam moedas e batia recordes. E sempre podia dormir em serviço porque tinha umas coisas para colocar por cima dos olhos.</p>

<p>E depois o Minotauro pediu licença, descobriu-se (ele tem um chapéu de abas largas, com dois furinhos dos lados, para deixar passar os chifres) deu-me a salva e vi-o a desaparecer no labirinto das obras do Metro, a caminho da praça do Campo Pequeno, onde ia assistir a uma corrida de touros.</p>

<p>“O espectáculo é bárbaro, marechal, mas não resisto às turistas americanas e aos voos de forcado”.</p>

<p><br />
Voltei para o meu pedestal, fiz uns exercícios de desentorpecimento, olhei para o ponto de mira nos vidros do arranha-céus, estiquei o braço, fiz uma expressão severa e pus-me a apontar.</p>

<p>É a minha vida.</p>

<p>É uma pena a poluição.</p>

<p>Uns metros abaixo de mim, do outro lado da estrada, há um senhor que passa as noites a dizer adeus aos carros. E eles buzinam quando se cruzam com ele.</p>

<p>É assim.</p>

<p>É Lisboa em Janeiro de 2007.</p>]]></description>
         <link>http://www.verbeat.org/blogs/cidadescronicas/arquivos/2007/02/o_marechal_e_o_minotauro.html</link>
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         <category></category>
         <pubDate>Tue, 06 Feb 2007 23:11:53 -0300</pubDate>
      </item>
      
      <item>
         <title>Uma história de Alexandria (3)</title>
         <description><![CDATA[<p>A caixa era o vazio deprimente de uma urna lacrada por pregos pintados também da tinta azul – que permanecia azul – na falsa noite cerrada dos objetos apartados da vista, encerrados nos escrínios, nos sarcófagos de lápis-lázuli e ouro marchetado de pedras cegas debaixo das lajes dos túmulos secretos dos seus antepassados na linha do medo. O azul estava ali, mas mofado por dentro, no oco da serragem que produzira a vida de vermes secados com o resto do resto de troncos cheios do antigo verde dos cemitérios (azul, verde, amarelo, branco, preto: as cores para a química dos olhos também secados há muito tempo, entre lágrimas na chuva e asas de insetos nas caixas abertas, violadas, expostas à intempérie antes de serem roubadas da forma mais vil sobre a face da Terra). </p>

<p>A sua cabeça do Bicórnio fora comprada e paga à vista, integralmente. Agora, não estava mais ali, dentro da caixa azul por dentro e por fora, pintada por ele mesmo, há muito tempo, para guardar a cabeça que faltava, não se encontrava dentro, em repouso, contemplando a noite da caixa com seus olhos de pedra. Quem poderia ter roubado uma cabeça dentro de uma caixa perdida no oco de uma casa?</p>

<p>Abrira-a, alguma vez, há muito tempo – e não sabia, sonâmbulo nas salas? Subira até o depósito das coisas abandonadas sob a lua da maturidade? Esquecera-se do ato, duplicado, de abrir e, de novo, fechar a caixa? Martelara os pregos,  fechara outra vez, selara aquele espaço da quimera disfarçada cabeça de Alexandre? Onde estava a sua própria, desconfiada de si mesma, e sem ter mais qualquer certeza das coisas que encerrava? Tinha ou não fechado o segredo – um homem que penetra no jardim das suas faltas –, confundindo as ausências com as saudades dos furtos da alma?</p>

<p>Onde estava o seu espírito, seu vigor de outros lugares, sua busca de uma cor nos vasos esmaltados, seu toque sobre uma nuca, seu calor sobre uma espádua – onde estavam todos os mortos que desfilam num relato a respeito de outra vida, numa outra cidade? </p>

<p>De que é feita a matéria da vida falseada pela arte? Os olhos que não vêem, os sorrisos martelados, a fronte pura, os braços decepados, quem poderia crer que tudo seja engano e se reduza a algum truque que muda de mulher para homem, de ouro para lata, de plenitude para o vazio... e que enche de espaço a curva do tempo sobre uma cabeça que falta?</p>

<p>Onde está a lua? Onde ela vaga? Por que a noite é tão escura quando a lua se esconde sobre o lago na penumbra? As cabeças afogadas guardavam o reflexo das pontes iluminadas sobre os rios engrossados pela chuva. Havia um lago na sombra da cabeça afogada, que faltava? Alexandre morrera na água? Ou morrera na cama, ao lado de um jovem guerreiro apaixonado? Quais rostos, nos afrescos, o rei mandara apagar da têmpera tratada, onde o azul de uma tinta nova recobria as paisagens do fundo da Ásia? O azul desses disfarces, a antiga parede de retratos que a religião não permitia, acertadamente (porque um crente se perde na piscina das imagens, uma alma pia duvida do Deus e da realidade entre duas colunas e um ídolo de face humana), o que lhe vinha à memória era a imagem de uma beleza de face humana que poderia afastar da Divindade... e era, agora, muito tarde para buscar essa face, na impaciência dos anos. </p>

<p>Faltava a paciência e não havia mais felicidade. Sua mão tateara na sombra e não encontrara nada. Ficara muito pouco na palma, entre marcas e o contato de pele ressequida: a fumaça de uma fogueira à beira do mar, as flores quebradiças trazidas pela onda, os papiros frágeis, desfazendo-se nas mãos antes de concluir a história. Havia uma história? <br />
Mesmo que houvesse, nenhuma história de fato terminava. Não havia um fim para as coisas, a justiça de um fim, de uma conclusão que dispersa os ouvintes, provoca um suspiro, um arfar do peito cansado – justamente pelo conhecimento, íntimo, de que toda infelicidade prossegue fazendo mais infelizes como o grande Alexandre, fechado no seu túmulo, à espera do invasor da sua sombra. “Eu fui rei da Macedônia e, depois, rei da Grécia e rei do Mundo. Por que você pensa que reina sobre seu quarto, dentro da casa, onde guarda uma caixa com a cabeça do amado...” </p>

<p>Isso era um poema? Viera no vento, murmurado pelas palmeiras? Ou fora ouvido nas dobras internas de um búzio vindo dos mares da estranheza? </p>

<p>Examinou a caixa vazia, por fora e por dentro. O que havia feito os dois riscos numa das paredes de sândalo? E se não era sândalo (mas madeira barata, restos de engradados de encomendas, sem aroma), se a vontade queria nobre tudo próximo da morte, se o esforço de poesia virava vômito e excremento entre infusões e febres pontuais na tarde – se tudo desabava e um doente não mais encontrava nem sequer a sua cabeça na caixa da sua propriedade, toda a vida (toda a vida era o esforço, inútil, contra a perda, no meio da vulgaridade das coisas?)... </p>

<p>Uma vez viera um homem à sua porta, meio mendigo e meio comerciante, a tentar lhe vender o fragmento de um fragmento de livro sagrado. Era uma criatura sem crença, ímpia nos seus negócios sem orgulho, algo estranha nas ofertas de mercadoria de procedência às vezes duvidosa. O visitante quase havia sido expulso do templo da sua casa, ao pronunciar duas palavras que, ali, eram interditas aos moradores e intoleráveis na boca de estranhos vindos da luz exterior do pátio onde a água rumorejava com suavidade... </p>

<p>Outra vez, também havia sido procurado – por um comerciante respeitável – para analisar a oferta de coisa semelhante, uma relíquia estranha (por acaso seria mais pio o homem que adquirisse uma partícula de tinta ilusória do Fogo da Palavra?), pertencente a um homem santo cujos ossos alguns herejes haviam saqueado, nas criptas das capelas abertas na rocha, os lugares vazios de devoções esquecidas de cristãos e muçulmanos.  </p>

<p>Tudo era como aquilo: a ausência, numa caixa. A casa estava na casa – ausência dentro de outra – e a casa estava no planeta que rolava no abismo do Universo sem fim e sem começo cujo oco lhe dava náusea, naquele momento de um dia cujo traço iria  desaparecer na noite. Cúpulas, minaretes, muralhas e muros, telhados e toldos, janelas e portas douradas, o lago na sua calma, a lua na sua cisma, tudo se afastava do pai de Abdul-Qadir naquela hora de dor feita do conhecimento de todas as ausências que estavam no lugar das coisas em fuga como a cabeça longe dos ombros pesados que o levaram para o último sono na cama. </p>

<p>Não sonhou com mais nada – e a cabeça de Alexandre foi encontrada na caixa e mais uma vez tomada pela cabeça de Cleópatra, em virtude dos olhos separados demais, entre o Oriente e o Ocidente se encontrando acima do nariz de ponte reta que a mãe de Abdul-Qadir, rasgando as vestes, fez se partir contra o mármore.</p>]]></description>
         <link>http://www.verbeat.org/blogs/cidadescronicas/arquivos/2007/01/uma_historia_de_alexandria_3.html</link>
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         <category></category>
         <pubDate>Tue, 30 Jan 2007 20:00:37 -0300</pubDate>
      </item>
      
      <item>
         <title>Onde foi que eu errei?</title>
         <description><![CDATA[<p>Ele é bege, feioso e seu teclado, imundo, é coberto duma película amarronzada e levemente gosmenta que congrega em alegre camaradagem poeira, partículas não identificadas, creme para o rosto, creme para as mãos, Fanta Uva, requeijão e – sem drama, querido leitor, apenas a verdade -  lágrimas.<br />
Sim, ele me faz chorar. Mas nunca deixei de considerá-lo um membro da família, um filhinho, menos amado que os gatos, é verdade, mas muito mais querido que o microôndas.<br />
Num momento de desespero econômico, falta absoluta de trabalho e soberba, inventei um curso de história da arte pra ser dado pela internet. Pesei prós e contras, avaliei meu estado físico e mental e resolvi que daria conta da empreitada. Só me esqueci de avaliar meu computador. Ele não estava pronto. Ele precisa de tempo, de carinho, leves atividades ao ar livre, talvez um pouco de jardinagem. Nada que exija a produção de  300, 400 páginas mensais, com figuras e muitas, muitas cores. Assim não dá. As aulas seguem, mais ou menos no prazo, mas a custa de lágrimas. E sangue, querido leitor. Hum,  meu sangue, o que é pior. Meu computador come as imagens das aulas. Come as legendas engraçadinhas que boto em baixo da imagens. Come os textos. As coisas somem. Eu soluço, e ele permanece imperturbável. Sacudo ele pelos ombros, como um filho que decepcionou a mamãe e jogou o dinheiro do pão nos cavalos: meu Deus, o que foi que eu fiz de errado? Será que eu tratei a pobre máquina mal? Eu sei, os banhos repetidos de Fanta em seu teclado devem ter magoado, mas não era pra tanto. Será que foi falta dum nome? Afinal eu batizo tudo na casa (que o diga Ricardo, o novo bichinho de pelúcia do cachorro). Vai ver que o coitado se sentiu preterido. Internautas amigos dos quatro cantos desse amado país e dos cantos dalguns outros países, não menos amados, mandaram inúmeros conselhos, mandingas, simpatias, “ameaça com a chinela, às vezes tem de tratar mal pra ele te dar valor”,  “dá três pulinhos, reza um salve-rainha e aperta a tecla tal”, “ leva num pai-de-santo micreiro em Santa Efigênia que tira o encosto do  hardware” etc., mas sabem como é, não adianta dar conselho sobre a criação do fio dos outros. Meu marido, que sabe como as mães são emotivas, já me disse que não, que tudo fizemos por ele, que ele é um vagabundo inútil, que ele como pai exercerá sua autoridade e não sustentará maconheiro e que o computador revortoso vai embora na semana que vem. Mas meu coração de mãe sangra. Ele me fez chorar, minha pressão subiu por causa dele, ele é um burro imprestável, mas, Deus, é sangue do meu sangue, é plug do meu plug.<br />
Enfim. Com o próximo vamos começar certo. Será uma menina. E vai se chamar Violeta.</p>]]></description>
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         <category>Fal</category>
         <pubDate>Tue, 30 Jan 2007 18:26:03 -0300</pubDate>
      </item>
      
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         <title>Reverência</title>
         <description><![CDATA[<p><i>Amigos, gostaria de escrever sobre a transformação de Porto Alegre logo após o campeonato mundial de futebol conquistado pelo Inter, mas ando ocupadíssimo e o cansaço me impediu de escrever qualquer coisa nos intervalos ou, sendo provavelmente mais sincero, abracei os exíguos espaços de tempo que obtive e os utilizei para não fazer NADA... Então, como tenho em meu micro um diretório lotado de crônicas de que gostei, deixo para meus sete leitores uma de outro colorado fanático: Luís Fernando Verissimo. A crônica é de 1999.</i></p>

<p>Tenho algumas raridades entre as minhas memórias de louco por futebol. Uma vez, na Espanha, vi jogar aquele ataque do Real Madrid que tinha Kopa, Puskas, Di Stefano e Gento. Vi um jogo do Santos em Porto Alegre em que, no segundo tempo, entrou um garoto que estavam preparando para ser titular, chamado Pelé. Não achei nada demais. </p>

<p>Depois, morando no Rio, peguei a época em que o Maracanã enchia para ver o Santos jogar contra qualquer time. Foi certamente a última vez que lotaram o estádio não para torcer mas para ver alguém dar um espetáculo, não contando o Frank Sinatra. Peguei o Botafogo de Garrincha, Quarentinha e (suspiro) etc. Vi, de coração presente, as copas de 86, 90, 94 e 98. Mas a minha lembrança mais curiosa é anterior a todas essas. </p>

<p>Não me pergunte o ano. A federação gaúcha importou um juiz inglês para apitar o campeonato de Porto Alegre. Talvez desistindo de encontrar neste hemisfério um juiz que nem o Internacional suspeitasse de ser gremista e nem vice-versa, Mr. Barrick chegou. Não sei se foi no primeiro jogo que ele apitou mas digamos que sim, para efeito dramático. Tesourinha, ponta-direita do  Internacional (naquele tempo havia pontas), pega a bola, dribla uns quatro ou cinco, entra na área e só não faz o gol porque a bola bate no poste e vai para fora. Começa a voltar, cabisbaixo (naquele tempo se dizia cabisbaixo), para o meio do campo e de repente dá com Mr. Barrick à sua frente. Para surpresa de todo mundo e, mais do que todos, Tesourinha, o juiz estende a mão e o cumprimenta. Até faz uma pequena reverência, de pés juntos. </p>

<p>Nunca mais vi um juiz fazer coisa parecida. Nunca mais vi um jogador de futebol ser homenageado da mesma maneira. E para dar uma idéia da grandeza do inglês - ou, talvez, de Tesourinha - deve-se dizer que nenhum gremista sugeriu, depois do gesto, que Mr. Barrick fosse torcedor do Internacional desde pequeno.</p>]]></description>
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         <category></category>
         <pubDate>Tue, 09 Jan 2007 02:37:32 -0300</pubDate>
      </item>
      
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         <title>Aquela faca que me rasga o ventre (Mas houve mulheres nuas e fogo de artifício)</title>
         <description><![CDATA[<p>Não há muito a fazer. A época do Natal é como uma faca que me rasga o ventre, ano após ano. Não importa o brilho das luzes na cidade, a época do Natal é como uma faca que me rasga o ventre.</p>

<p>Uma tortura a que não me posso escusar.</p>

<p>Adoro teatro, mas não suporto o teatro de Natal, com as palavras tão esvaziadas de sentido, tão hipócritas, tão engalanadas de cinismo.</p>

<p>Em pequeno adorava o Natal. As férias, os presentes, o cheiro das carumas na árvore de Natal. A construção do presépio. E aquela sensação de que ainda havia uma hipótese: o mundo havia de melhorar.</p>

<p>Agora não. O Natal revolve-me o estômago, põe-me a úlcera a dançar bolero em três dimensões, dá-me vontade de emigrar para uma ilha deserta com jacuzzis de lava.<br />
Saí pelas 7 da tarde, na noite de Consoada. Imaginando uma caminhada a pé, purificante, antes de chegar à casa onde ia passar a Noite de Natal com os meus pais e uma série de primos. Nem cinco minutos andei e encontrei um amigo que me contou a história da sua vida. A mulher “envenenou” a filha de 35 anos contra ele. No ano anterior, até uma fatia de bolo-rei foi pretexto para uma frase assassina, como um punhal de curare:</p>

<p>--- Então e nós?!?</p>

<p>Uma  mulher com dinheiro para comprar uma pastelaria ficou a discutir uma fatia de bolo-rei para o pai da sua filha. E o meu amigo fez-me esta confissão com uns olhos verdes, lindos, de um homem que ameaçava ir para a cama às 23 horas na Noite de Natal.<br />
Era urgente começar a caminhada.</p>

<p>Fui a pé pela urbe, das Avenidas Novas até Benfica. Pacificando-me à medida que caminhava nas ruas de uma cidade fria de 7 graus. Uma Lisboa solitária, com as pastelarias e os restaurantes a fechar as portas, com os táxis, raros, a circular pelas ruas como um tubarão sem rumo, filho pródigo sem cardume onde acostar.</p>

<p>Cheguei ao meu destino. A minha prima que vive no Algarve abriu-me a porta, pegou-me no blusão, nas luvas, no cachecol. Abriu a porta do quarto. Paco, o cão de fila de S.Miguel (uma raça típica dos Açores, ilha portuguesa a meio do Atlântico) que teve educação na Alemanha, só compreende ordens em teutão puro e vive perto de Lagos, levantou a cabeça e disparou um olhar desconfiado, antes de continuar a sua sesta de Natal.</p>

<p>É preciso cuidado com Paco, o cão que matou um gato velhinho com um ataque de coração.  O gato saiu de casa, viu o Paco à sua frente e caiu fulminado. Cena rigorosamente real.<br />
Deixo o Paco a dormir no quarto e vou para a sala.  Começa o jantar. O tradicional bacalhau. Pouco depois, o meu primo alemão despediu-se à francesa e foi dormir para o quarto, dividindo a cama com Paco. Instantes volvidos, a filha da irmã mais nova da minha prima que casou com o alemão emigrou para outra sala, para rever “Harry Potter” na televisão.<br />
Regresso a casa. Abro o computador, tomo um chá e ouço “Love Songs --- Miles Davis”. Uma foto do Miles lembra-me o Pelé. Nunca me tinha ocorrido isto.</p>

<p>Hoje fui até ao Parque das Nações passar a noite de Ano Novo. Namorar o rio Tejo, enfeitado com uma bruma simpática, em noite cinco graus mais quente que a de Natal.<br />
Saí de casa perto das 22 horas. Na Av. Guerra Junqueiro já um desalojado ressona estrondosamente, indiferente à aparente felicidade alheia e ao clima de festa.<br />
Faço umas carícias a um Golden Retriever sociável. “Ele quer é festas”, diz a dona. Metros abaixo, a loja de modas tem camisolões com outro cão: “Idéfix, where are you?”. O cão de Obélix não responde.</p>

<p>A cidade está quase deserta, mas o comboio Metropolitano para o Parque das Nações vai quase cheio.</p>

<p>Às 22 e 17 subo à superfície do Parque das Nações e ouço apregoar champanhe: “Olhó champanhe fresquinho! Olhó champanhe fresquinho!”.</p>

<p>De raspão, apanho uma conversa entre dois negros: “Os únicos amigos brancos que tenho não são brancos”.</p>

<p>A caminho do Casino de Lisboa, uma criança resiste ainda e sempre à autoridade maternal: “Tens de vestir este casaco, Tiago!”.</p>

<p>NÃO! --- diz o Tiago e foge. Parou metros à frente, vendo o poster de Lance Armstrong a correr, num anúncio da Nike.</p>

<p>No Casino de Lisboa não resisto ao quiosque de revistas e jornais e compro “O crime”, o semanário “Tal e Qual”, o semanário “Sol” e a revista de cinema “Première” de Janeiro. Toda a noite ando com o saco de plástico com os jornais pela mão. E não vi mais ninguém assim.</p>

<p>Um grupo português toca “Jamiroquai”. Há figurantes a passear pelas salas do Casino. Uns de andas, mascarados como no Carnaval de Veneza, outros pelo seu pé, disfarçados de samurais. Ou quase, que havia  naquela indumentária algo de novo.</p>

<p>Na sala das roletas, um pedinte de sobretudo comprido, óculos bastante graduados, alto, de barba, observa atentamente. Mais tarde encontro-o deitado junto à parede exterior do Casino. Mas ninguém se quer incomodar a dar-lhe uma miserável esmola. Conheço-o dos comboios da linha do Estoril, vendendo pequenos bonecos de arame e pensos rápidos:</p>

<p>--- Vá lá, é para me ajudar...</p>

<p>Vou até à Torre Vasco da Gama, onde se realiza o fogo de artifício de fim de ano. Oito minutos a ver o céu cheio de cores, a ouvir as explosões de alegria de uma multidão de milhares.<br />
Regresso ao Casino, para ver o espectáculo do cantor Pedro Abrunhosa, que entrou em palco todo de branco, parecendo um vendedor de gelados da Olá, um traficante de cocaína cubano numa esplanada de Miami ou o Roberto Leal. À escolha.</p>

<p>A dez minutos da uma da manhã, o meu coração pula de contente. Quatro meninas de topless e corpos pintados entram para a sala, com os algarismos de 2007 por cima de cada cabeça. Abrunhosa passa a segundo plano.</p>

<p>Findo o concerto, deparo com um anúncio do Crazy Horse de Paris e fico a saber que o ballet se vai estrear no Casino a 3 de Abril. Boa notícia. Abalo até à fila para os táxis.</p>

<p>Estou na fila. Com centenas de pessoas à minha frente. São 2 horas e 15 minutos. A lua vai alta.</p>

<p>Estou na fila. São 3 horas e 20 minutos. Um folião pára no semáforo, abre o vidro e grita: “Um 2007 fixe para todos e que o Sporting seja campeão”. Risos, palmas, apupos.</p>

<p>Estou na fila. São 4 horas e 7 minutos. Apanho finalmente táxi. A lua vai alta.</p>

<p>Chego a casa. Como nozes, pinhões, pão com marmelada, uma banana. Bebo chá. Abro a televisão e vejo Nova Iorque a mudar de pele pela televisão, na SIC Notícias. Só agora a “Big Apple” entra em 2007. Na Times Squase há casais de namorados com chapéus grandes a fazer publicidade à Chevrolet. Os cartazes electrónicos têm publicidade à Pontiac.</p>

<p>Venho para o computador. Ouço “French Touch”, de Richard Galliano.</p>

<p>Bom 2007 para todos.</p>]]></description>
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         <pubDate>Tue, 02 Jan 2007 00:31:34 -0300</pubDate>
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