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abril 3, 2007

Miquelina Ângela e Amélia Jeremias morreram abraçadas

Miquelina Ângela tinha 12 anos e andava na quinta-classe. Amélia Jeremias também tinha 12 anos, mas estava na sexta. Quando começaram os rebentamentos do Paiol de Mahlazine, em Maputo, na quinta-feira, 22 de Março, foram retiradas das salas de aula e concentradas num lugar onde os professores pudessem ampará-las e ajudá-las. Toda a gente pensou que fosse algo semelhante ao que acontecera em Janeiro quando o mesmo paiol incendiou e não houve danos tão avultados. Mas não. Os estrondos avolumaram-se e o pânico também. Alguns pais assomaram à porta da escola, muitas crianças saltaram pelo muro. Miquelina e Amélia estavam abraçadas e caminhavam, debaixo dos estrondos, quando as suas vidas foram estilhaçadas por um obus. Tiveram uma brutal e instantânea morte. O mesmo obus atravessara antes duas salas, rebentara com uma porta e se alojaria, ulteriormente, numa casa distante transformando-a em cinzas.

A Escola Primária de Wiryamu fica no bairro de Zimpeto. Nela estudam 3060 crianças, em quatro pavilhões, sendo que cada sala alberga 65 alunos. Falta concluir um pavilhão e prover de carteiras e cadeiras algumas salas onde as crianças aprendem acocoradas ou sentadas no chão porque as carteiras e as cadeiras que existem não chegam para todas elas. Entre as seis e meia da manhã e as dezoito e cinco da tarde, três turnos passam por aquele lugar agora ensombrado pela tragédia. Ninguém sabe explicar por que razão os obuses deflagraram no paiol e destruíram, cegamente, vidas e bens, arrastando muitas famílias para o infortúnio.

Há crianças que não foram localizadas até hoje pelos pais, muitas outras traumatizadas. Há desaparecidos. As crianças de Wiryamu vinham de Magoanine, Zimpeto, Kongolote e Bairro Policial, nomes de bairros que circundam o paiol. Ontem fui visitar a escola de Miquelina e de Amélia. Tinha sabido delas pela televisão quando se relatava o pânico que assombrava a minha cidade. Agora, nos obituários da Escola de Wiryamu contabiliza-se mais uma morte: Brígida da Conceição. Não resistiu aos ferimentos da tarde de quinta-feira e morreu no domingo – conta-me o director da escola.

Seis crianças, três meninas e três meninos, aproveitam o interregno das aulas, no turno do meio, por causa dos funerais de uma das mártires da escola, e revisitam o lugar onde dias antes eram visitadas pelos demónios da guerra. Sorriem, falam alto, correm. Pergunto-lhes de onde vieram, se estavam na quinta feira.

- Viemos de Magoanine, dizem-me. Sim, estávamos. Tivemos medo.

Estão ali, fazendo a sua catarse. A catarse possível de meninos pobres que não sucumbem à força material da tragédia, que não podem ter o luxo de se sentirem traumatizadas. No fundo, esta a nossa tragédia maior.

Há ainda o rasto de sangue da Miquelina Ângela e de Amélia Jeremias na areia quente de segunda-feira, as meninas que foram para a morte abraçadas, enquanto se retiravam da escola. Há chinelos sem par, há vestígios dos obuses, paredes esventradas, portas arrancadas. Faz um calor atroz e o jovem director da escola, Carlos Armando Zacarias Chihongo, tem o rosto carregado.

À volta do bairro, carros atafulhados de gente, que regressa dos funerais. Morreram mais de 100 pessoas, outras tantas - mais de 400 - ficaram feridas, muitas delas gravemente. Ficaram sem pernas, nem braços. Quem esteve no local relata cenas dantescas. Muitos têm os rostos marcados para sempre por aquela inaudita violência. Os testemunhos na rádio e na televisão são desoladores. A vida regressa, não obstante. Contudo, os cortejos de silêncio, de quem regressa do cemitério, no pico do calor, entre o meio-dia e uma hora da tarde, deixam-me sem palavras.

Regresso ao centro da cidade e penso nas mártires de Wiryamu, um nome assombrado pela História. Em tempos fora lugar cruel de um massacre, hoje é nome de uma escola primária, a escola que viu duas meninas abraçadas serem levadas para o território desconhecido da morte.

Motel Sheraton de Porto Alegre

O Hotel Sheraton de Porto Alegre realizou uma promoção especial em 12 de junho de 2006, Dia dos Namorados. Por um preço mais ou menos módico para seus padrões, foi oferecido jantar e hospedagem de uma noite em suas luxuosas instalações. Era como se o grande hotel se transformasse em um supermotel. Estava lotado de casais e eu era a metade de um deles. Só que o Sheraton não é um motel; isto é, não é aquele local em que se vai mais ou menos escondido com o propósito de ter por algumas horas um ambiente privado, quase sempre kitsch e que nos provoca irrefreavelmente a libido. A primeira diferença já se notava na chegada: não saíamos de nossos carros em garagens escondidas e sim entrávamos numa féerica fila de casais. Um check-in de aeroporto, entende? Os que estavam ali conosco pareciam ser pessoas estáveis, rotineiras e felizes, donde concluo que esta devia ser minha cara. É claro, era aproximadamente 21h, era o notório Dia dos Namorados ou, mais exatamente, a notória noite do notório Dia dos Namorados. Seria intolerável para qualquer um que tenha seu par ficar sozinho esta noite, assim como seria estranha a presença de amantes eventuais.

Mas era um ambiente cômico. As duplas iam chegando ao balcão, todos sem malas, com as mulheres portando pequenas nécessaires. Todos olhávamos reto para o balcão, pois não apenas qualquer amigo ou conhecido seria indesejável numa hora daquelas, como havia a estranha de se estar entrando em grande grupo num motel. Quem chegava finalmente ao balcão era saudado pelo atendente com um festivo "Feliz Dia dos Namorados" que soava como um ditoso have a nice fucking. Por sorte, a tortura era rápida e entrávamos rapidamente.

Depois de deixarem a pequena bagagem no quarto, os casais desciam para a soberba refeição. Todas as mesas eram pequenas e estavam belamente decoradas. Havia um violinista que ia de mesa em mesa. Aqui acabava o constrangimento inicial, pois a comida e o vinho faziam o habitual milagre de tornar-nos felizes, falastrões e, afinal, podíamos observar abertamente quem praticaria intercurso após a sobremesa. Era interessante, às vezes bonito ou enternecedor. Havia um casal de septuagenários; quando subiram para o quarto, ambos sorrindo intensamente, viu-se que a senhora amparava-se em uma bengala. Havia a falsa loira envelhecida acompanhada de seu jovem, impressionável e anabolizado consorte. Havia o japonês apaixonado que chegou ao restaurante com um copo de champanhe na mão, máquina fotográfica no pescoço, e que levou carinhosamente sua dama para a mesa que lhes fora destinada. (Depois o mesmo solicitou que um garçom lhes tirasse uma foto. Japonês é sempre japonês.) Havia as grandes personagens, como Paulo Roberto Falcão e senhora, etc. Porém, lá também estava o cronista que só fala em sexo, o Casanova, o tarado-mor da cidade: o gremista David Coimbra. Era impossível observar a mulher que o acompanhava sem pensar que - pequenina e delicada - ela seria destroçada dali a minutos.

Sinto decepcioná-los ao ignorar o longo espaço narrativo entre a sobremesa e o check-out. Lá, pudemos ver mais casais saindo abraçados. Aparentemente tudo tinha dado certo. O único casal já visto que estava no check-out era o Garanhão Gremista e a Pequenina Delicada. Ela estava viva e movimentava-se normalmente. Ele não deve ser toda esta coisa. Apenas um fato os diferenciava. Ela não carregava uma nécessaire e sim uma enorme mala.