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27 mar2007

Fernando Monteiro

Stromboli (2)

Nem sempre é o mesmo avião. Mas o ronco é sempre o mesmo (o ronronar, só o menino escuta). E há sempre as mariposas mortas sobre a mesa, quando nos levantamos para fazer os sinais com a lanterna (menos o menino, que “vê” tudo pela janela.). Ele poderia se ferir com as hélices, topar numa pedra, ver mais do que nós, na nossa noite de sombras se esquivando.

Lá fora, o vento enfuna o vestido da mulher, às vezes mostra as suas meias grossas – porque a luz é voltada para a terra, formando círculos ao redor das pernas (seríamos alvos fáceis, se o avião fosse hostil, e não o aliado que acaba de atravessar as linhas de fogo inimigo).

Uma vez eu fiquei doente e a mulher, durante uma semana, fez tudo sozinha – ou quase sozinha, porque o menino veio para fora nas noites dessa semana e esteve tão perto do avi ão, todas as vezes, que passou semanas imerso naqueles seus sonhos da parede, tardes inteiras, de novo próximo do metal suado das alturas, do combustível que forma um capote de cheiro grosso e forte em torno daquela coisa que atravessa a noite e que a noite também atravessa, como uma sombra entra pela mancha da outra, nas minhas manipulações nunca mais feitas contra a parede branca, o lobo faminto não mais devorando a lebre trêmula que não pode escapar do fatal encanto...

Um avião de perto é tão diferente de um avião voando, roncando, sumido no frio das nuvens rosadas por um sol carinhoso. O menino não consegue entender, parece, que o sol quente possa ser terno na sua luz ingênua, de alegria pelas coisas. Nunca vi o sol contente nos olhos opacos do menino que, no entanto, refletem a grandeza gelada das naves e a morte das mariposas contra a lâmpada. Há relação? A fuselagem riscada, as pequenas luzes vermelhas, a graxa em excesso, o combustível (que um aeroplano bebe de pleno direito), o vôo cego com os instrumentos de navegação abandonados a si mesmos.

O menino disse – depois de eu muito perguntar, como um professor de aldeia exigindo definições – que os aviões eram tristes. Os aviões, segundo ele, não eram tristes como os insetos indecisos, ainda à volta da luz, decidindo se querem ou não morrer contra o céu falso do bojo ocultando os filamentos da luz elétrica acesa como um mortal engano para eles. Triste, realmente triste, segundo ele, era um único inseto morto em que se podia tocar com o dedo, empurrando o pequeno corpo inerte da mesa limpa para o chão sujo de farelos e folhas secas, lixo das asas queimadas e uma ou outra pena de ave abatida pelas hélices (riscos de sangue na fuselagem davam sinal dos choques freqüentes).

“Nem o piloto está mais dentro” – foi o que ele quis dizer, riscando na areia da praia, com seus olhos feridos, um avião vazio que não tinha, quase, a forma dos aviões descidos do céu, porque tudo pode se tornar desmedido nos desenhos riscados por um cego. Não o ajudei, naquele dia. Dei-lhe o melhor graveto, no máximo, e com ele o menino sulcou na areia fina, ficou ouvindo o mar para imaginar a fortaleza voadora que ainda ficou visível debaixo da língua espumosa da água indo e vindo sobre o avião triste da sua cabeça de menino morto (aquela cabeça grande, que não espera pelo corpo crescer) de medo dos gafanhotos vivos quando eu os ponho na mão dele, dizendo que são os aviões verdes da natureza, que ele poderia esmagar com os dedos, se quisesse.


Publicado às 00:34 |


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