A beleza era o nome desse incêndio,
Mas alguém dizia que era também a imagem parada
Onde há muito a cidade se perdera
Nas aves feridas e tempestuosas da noite.
Sempre senti, desde a infância, que Évora era atravessada por uma angústia do extremo do universo.
Não é, naturalmente, um sentimento que se pareça com o pasmo poético dos abismos islandeses, das orlas meridionais do Chile, ou dos cumes do Atlas. Mas desde sempre reconheci, no mais recôndito crivo da minha consciência, que essa característica existia por trás das inevitáveis vestes épicas com que as gerações de todos os presentes se auto-representam.
Uma geração aspira forçosamente ao cume da história e faz da sua coreografia, da sua urbe e da sua terra o lugar desse cerimonial único. Esta desfocagem dos autóctones é universal, mas Évora, em concreto, é, por trás da letargia e dos orgulhos fáticos, uma cidade singular, particular.
Évora é uma terra que, como todas, se individualiza no tempo em contraste com a parcialidade das gerações e com as morfologias do território. Grande parte do que a cidade é e vai sendo, na sua caminhada entre tempos, faz parte do que se podia ser designado pelo seu ronronar secular.
Por isso a cidade ali está, habitada pelo seu espaço, presente, perfilada e aparentemente incólume, e, ao mesmo tempo, tão terrivelmente senhora de si e da sua quase intemporalidade. E por isso Évora ergue diante de nós, como se nada fosse, o pretensamente não dito do seu encanto, assim como uma parte pungente daquilo que Borges designou por desilusão na sua História da Eternidade.
De algum modo, Évora é uma cidade propensa à desestruturação, ao spleen da imobilidade e à angústia do desejo, já que nela domina a tentação de levar a cabo a releitura dos seus textos arquitectónicos, imaginários, passionais e espaciais, num movimento simultaneamente ascendente e descendente, e que visaria, num só plano, tanto os rastos, as ruínas e os vestígios, como as presenças, o agora-aqui e o emergir às vezes informe do próprio discurso contemporâneo (que é o nosso).
Évora também tem uma herança dos confins do mundo, é verdade. Reduto, afinal, da sua claridade.