Você ama o carnaval e prepara-se adequadamente para ele. Começa separando alguns CDs: Nielsen, Bach, Villa-Lobos, Mozart, Handel e... olha o Piazzola chegando aí, gente! Como livros são de consumo mais lento, pegamos apenas dois – um de Nikolai Dejnióv e outro de Luiz Vilela para garantir. Olho o celular e há a mensagem de um querido amigo Cidade vazia eh tudo de bom! Trabalhando por aqui. Abraço!. Ou seja, até o trabalho fica bom durante o carnaval dos outros. Vão pular, seus idiotas buliçosos; deixe-nos aqui livres do trânsito, livres das filas, livres de vocês. Xô!
Vou ao hospital onde está minha mãe em 10 minutos, atravessando a cidade. Normalmente, levo 30. Teve menor sorte o cãozinho bonitinho, velhinho e arrastando uma coleira que tentou atravessar a rua vazia e foi colhido por um táxi perdido. Um som forte de batida. Eu estava correndo. Paro. O cachorrinho, ganindo, se debate no meio do asfalto. De repente, pára. Chego até ele, vendo o táxi reacelerar, não quer incomodação, o desgraçado. Como sei que cães feridos tornam-se agressivos, empurro-o com o bico do tênis. Morto. Pego-o pela coleira. Está mole mole. Gritos de crianças, choro da mãe, choro da vizinha. Largo o cão na calçada. Todos olham. Aponto e digo
- foi aquele táxi. – A mulher cobre o rosto com as mãos e diz que
- ele tinha 11 anos, nunca saía do pátio. Será que fui eu quem deixou o portão aberto?
Alguém afirma que cachorros criados em casas não sabem atravessar ruas. Eu não quero mais ver aquilo. Lamento e vou-me embora caminhando; depois, volto a correr.
Na vídeo-locadora deliciosamente vazia, alugo Repulsa ao Sexo, A Pequena Jerusalém e A Grande Noite. Olho para minha mulher sem saber a resposta quando ela pergunta se a empregada trabalhará segunda-feira. Os feriados são de sábado à quarta ao meio-dia, mas, oficialmente, segunda-feira é dia útil. Acho que ela não vem, melhor ir lavando a louça aos poucos, não haverá escrava no feriado. Vemos A Grande Noite e minha filha pede para que eu faça um Porque hoje é sábado com Isabella Rosselini. Entro no Google e fico impressionado com as fotos, ela é belíssima mesmo. Tem pedigree a moça – imaginem: a filha de Ingrid Bergman recebendo um sanguezinho italiano... Porca troia, bellissima!
Acaba o carga do celular, mas ninguém me liga mesmo, só minha irmã. Vou ao hospital, minha mãe se mostra totalmente fora da casinha. Me confunde com meu pai e, falando comigo, dá conselhos a meu pai para cuidar melhor de mim. Loucura total. Compramos uma cadeira de rodas para banho, mas ainda temos que procurar a cadeira de rodas para casa. Nada de rodas duras, tem que ter pneus como os das bicicletas. OK. Um sufoco, uma tristeza, melhor agir sem pensar muito. Afinal, quando piso num formigueiro, as formigas já saem correndo para reconstruir a casa, não lamentam porra nenhuma; sou uma formiga... Ou será que elas correm por desespero? Bom, as minhas correrão para reconstruir o formigueiro e fim. A empregada, para nosso pasmo, chega às 14h de segunda-feira. Veio trabalhar! Encantada, encontra toda a louça limpa, tudo guardadinho, mas não faz piadas com o fato. É uma pessoa sem humor.
Saio para correr novamente. Ruas vazias. Cuido os cães. Começa a chover e comprovo como é bom correr na chuva, mesmo com os tênis fazendo schlap, schlap; dou uma volta maior para pegar mais chuva, diminuo a velocidade da corrida, vou quase trotando, sentindo alguns pingos baterem na minha cabeça de quase cinqüenta anos enquanto outros entram nos meus olhos misturados com suor; eles ardem, o suor é salgado, droga. Olho para o céu de nuvens baixas e em seguida vejo uma mulher protegendo-se da chuva com um filhote de cachorro – ele fofinho, pequenininho, uma bola de pêlos como devem ser os filhotes que chegam às crianças -, entrando na casa das crianças do cão morto. Fico muito surpreso com a coincidência; será que vi as duas faces do drama? As lágrimas da tristeza, o velório improvisado na calçada e depois o que causaria mais lágrimas, só que agora de alegria: o cão novinho em folha, as crianças felizes, o carnaval enfim salvo?
E hoje ainda é terça, ainda faltam 36 horas de feriado. Mas não tenho culpa do Cidades Crônicas exigir uma crônica na terça-feira. Vai ficar incompleta. E nem falei de tantas outras coisas: não falei que minha mulher fez inhoque para umas dez pessoas; vieram sete e comeram tudo, mas tudo mesmo. E ainda, como se não bastasse, enfrentaram com galhardia o maravilhoso pudim de requeijão com molho de goiabada que minha sogra trouxe. Puxa, e era para sobrar comida para a noite! Gente faminta, hein? Meu cunhado serviu-se quatro vezes de gnocchi e ainda repetiu a sobremesa. Minha filha refestelou-se, um absurdo uma menina de 12 anos e 37 quilos comer daquela maneira. E ainda tinha carne! Ou o pessoal vem aqui com uma fome de anteontem ou é minha mulher que cozinha benissimamente? É ela, claro. Ela é a culpada pelos quilos que ganhei (e que luto para perder correndo pela rua) e pelos amigos ficarem se convidando para vir aqui em casa. Melhor levantar daqui e dar-lhe um beijo. Não vou terminar a crônica mesmo!