Andava por veredas e caminhos
Onde antes floriam
Acácias alinhadas e dizia
Que a cidade era apenas um vestígio
De névoa
Para respirar
Ao pé da lagoa.
Entrar na Catedral e auscultar a serenidade do vivido.
Subir pelas naves e eximirmo-nos ao sentido. Por momentos.
Percorrer lentamente a imensa embarcação de pedra e o seu inadvertido e irrespondível mistério: por que terá aparecido, entre os séculos XII e XIII, aquela dimensão granítica auscultadora de céus e horizontes que escapa radicalmente às dimensões das outras cidades lusas, incluindo aquela que, à sua medida, foi a nossa capital imperial?
Que narrativa insondável terá suscitado aquela desproporção que as demais edificações de Évora jamais conseguiram acompanhar e que, na Ibéria, apenas se revê, aqui e ali, nas grandes urbes históricas?
O dom íntimo deste templo respira-se entre badaladas fortuitas e um rugido muito remoto de aves. Mas um mistério persiste, justamente, porque não é interrogado.
Subir pela nave central até que o olhar se fixa nos vitrais, nas amplas rosáceas e na leve curvatura do céu. Navegar pelo movimento gerado pelo altar de Ludovice, esse tardio volume em movimento que galardoa e saúda os deuses da nascente (é a nascente - a oriente - que a terra procriou uma homonímia elementar: Evoramonte e Jevora).
Penetrar nesse reduto do barroco inquieto e resistente, mas tão distante da elevação gótica ainda tímida e pesada, porque de legado românico, que continua a albergar os confessionários recurvados pelas colunatas e, junto ao baptistério sombrio, a imagem viva de de S. Gabriel.
Depois há-de abrir-se a porta que dá para o claustro.
E a luz, enviesada e transversal, invadirá este canto húmido e recôndito dando a vez à baça luminosidade que, um dia, os esplendores flamengos trouxeram até a Évora.