Quando eu era miúdo adorava os dias de chuva. Vivia então em casa de minha avó materna, num bairro suburbano, muito perto da cidade. Em frente da nossa casa, de madeira e zinco, erguia-se o único prédio da minha infância, com três andares. Antes de eu vislumbrar os prédios altos da grande cidade da então Lourenço Marques meu conhecimento urbano resignava-se àquele edifício, em cujo baldio jogávamos futebol. Não fui um jogador predestinado, tanto mais que acabei me refugiando num quarto a escrever poemas para colegas que nunca me deram bola. O meu bairro chama-se hoje Minkadjuíne, que significa onde abundam cajueiros. Não recordo que houvesse grande quantidade de cajueiros a habitarem a minha infância. Recordo-me sim das cheias, razão pela qual ali se designava também por Xitala-Mati. Mas os dias de chuva eram gloriosos: pelo som ininterrupto sobre as chapas de zinco. Eu amava aquele som. Lembro, muito remotamente, de andar de pequenos barcos naquela zona porque as águas tinha invadido as casas e não havia como sair sem ser em embarcações como aqueles que se haviam improvisado.
Hoje tenho da chuva um verdadeiro temor. Principalmente, a chuva de Fevereiro, que traz consigo morte e destruição. No momento em que escrevo há muitos concidadãos meus que estão ao relento, à fome, à doença. Tudo isto por causa da chuva que castiga o centro-norte de Moçambique. Escrevo sobre este tema para combater a indiferença.
As cheias deste ano são invulgares. Fizeram-me recordar as cheias do ano 2000. Nunca mais me esquecerei daquele domingo em que choveu sem parar em Maputo. Recordo que meu filho Irati veio interromper-me enquanto revia um capítulo do meu romance, que viria a ser publicado naquele ano.
- O pai está a trabalhar. – disse-lhe, admoestando-o.
Eles sabem. Quando o pai se curva à escrita, não quer ser interrompido. Tanto o Irati, que tinha quatro anos, como a Mayisha, que nasceria nesse ano. Mas o Irati foi obstinado e conseguiu levar-me a ver o telejornal. A frase de um dos flagelados derrubou-me da modorra em que me encontrava: “As casas viajaram com a chuva”. Tudo à volta era silêncio e destruição. Meu espanto era absoluto: o medo, o pânico, o sofrimento, a tragédia, a hecatombe, o apocalipse. A desolação: tudo diante de mim.
Já era tarde para sair de casa. Na manhã seguinte, muito cedo, fui resgatar a minha avó, que reincide no bairro da minha infância: Munhuana para mim, Minkadjuíne para os demais. Meus pais estavam no Infulene, a 25 km. Minha avó, com 80 anos, não queria abandonar a sua velha casa:
- E as minhas coisas?
- Não é possível levar tudo, vamos com o essencial!
A água invadira-lhe a casa. Chegava pelos joelhos.
- A minha mala! A minha mala!
- A mala não cabe no carro vovó!
A mala era na verdade uma arca de madeira onde ela guardava todo o seu pecúlio.
- Deixei as minhas coisas: capulanas que nunca vesti, coisas da minha vida inteira. A minha comida, as minhas galinhas, cada uma pesa 20 quilos.
- Antes de tudo, temos que salvar-lhe a vida.
- A minha vida está naquela mala!
À tarde consegui ir buscar a arca da velha. Mas antes rumei para o Infulene. Tinha que ir resgatar os meus pais. Já não havia comunicações: os telefones não falavam. A confusão era total. Em direcção à cidade vinham todos, ampliando, nos meus olhos, o rosto da tragédia. Escusado será dizer que a estrada estava já cortada. Não havia como alcançar o Infulene, nem pela via da Matola, muito menos pelo Bairro Jardim. Regressei de ombros curvos entregue à minha impotente resignação.
Lembrei-me, para meu consolo, de que eles viviam numa zona alta. No dia seguinte conseguimos um contacto furtivo e combinámos encontro num lugar em que a estrada fizera nascer um imenso lago. Havia barcaças, de miúdos que idealizaram o seu negócio e transportavam as pessoas de uma margem para outra, que meu pai usaria para alcançar o outro lado do mundo. Foi assim que ele veio dar-nos notícias. Estavam de outro lado da cidade, isolados, sem nada. Redes de água, electricidade e telefones não funcionavam. Bebiam da água da chuva. Mas estavam bem. Viera para nos serenar, mas tinha que regressar. Minha mãe ficaria preocupada com a demora.
Deixei-lhe o que tinha e dei-lhe um comovido abraço. Ele descalçou-se e arregaçou as calças: mergulhou na sarjeta das águas fedorentas e partiu numa daquelas barcaças.
Eu estava diante do apocalipse. Ele, sereno; eu sem saber o que dizer. Acenou-me enquanto se agarrava ao miúdo que tinha uma vara para ajudar os seus passageiros. Não tive coragem de o ver partir. Retornei à baixa, onde vivia. Quando cheguei à casa fechei-me no quarto e chorei. Depois escrevi uma crónica para o mundo saber um pouco mais da tragédia dos moçambicanos.