Há dois anos, mais coisa, menos coisa, fui atingido pela dolorosa consciência de que a felicidade não é possível. Ninguém volta a reerguer-se completamente depois de ser tomado por uma certeza dessas – preparamo-nos apenas para ser infelizes da melhor forma que nos for possível, fazendo por aparentar a dignidade patética daqueles a quem a vida derrotou inexoravelmente.
Hoje, instruído por um livro de Vila-Matas, estou empenhado em viver em paz com a infelicidade que me calhou na sorte; em fazer da minha infelicidade uma bela infelicidade, procurando povoá-la de pequenos e ínfimos instantes luminosos: pode ser a visão breve de uma mulher bonita, um raio de sol rompendo entre as nuvens, uma folha a cair de uma árvore – ou pode ser essa subtil festa das magnólias florindo nas ruas da minha cidade.
Se alguma justiça houvesse nos títulos que as cidades adquirem, o Porto seria já hoje mundialmente conhecido como “a cidade das magnólias”, figurando ao lado de Paris, a cidade-luz, Nova Iorque, a que nunca dorme, da eterna Roma, da cidade-maravilhosa do Rio de Janeiro ou de Maputo, a das acácias rubras. Como, porém, algum imobilismo nos tolhe, aos portuenses, preferimos ainda apresentar-nos ao mundo com o epíteto de Cidade Invicta, coisa que, convenhamos, já ninguém sabe muito bem o que significa. Basta ver como a cidade se tem amesquinhado e empobrecido para constatar que, se não nos venceram os outros – fraca consolação! –, nos derrotamos a nós próprios com incomparável eficácia e brio.
Adiante, porém, que esta crónica tem objectivos mais nobres do que fazer a psicanálise de uma cidade confusa ou das confusões que isto faz a um homem triste.
A verdade é que, pensando nisso, não me ocorrem muitas paisagens urbanas mais belas do que aquelas que a minha cidade oferece nesta altura do ano, entre o final de Janeiro e o final de Março, com as ruas enchendo-se desse subtil milagre das flores (brancas, cor-de-rosa ou roxas) despontando nos ramos de árvores nuas. Uma mulher cuja memória tenho ainda em brasa chamou-lhes, um dia, borboletas vegetais – e isto, não sendo hoje mais do que um momento belo na bela infelicidade da minha vida, é também quase um poema.
Pode ser uma crónica também, a celebração dessa flor brotando dos ramos escuros das magnólias plantadas no Porto, jorrando luz e cor sobre a parda e fria cidade que o Inverno entristece. A Avenida da Boavista está cheia dessa magia – e ainda não floriu a maior de todas as magnólias, a que há na esquina com a Rua de Belos Ares. A minha rua também já está engalanada, como estão a Avenida do Marechal Gomes da Costa ou a Rua de Guerra Junqueiro, as praças e os jardins, os simples quintais e os seus muros, tomados todos por esse benévolo e florido assalto. Eis, pois, a crónica de uma bela e infeliz cidade. Com magnólias.