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fevereiro 27, 2007

A cidade das magnólias

Há dois anos, mais coisa, menos coisa, fui atingido pela dolorosa consciência de que a felicidade não é possível. Ninguém volta a reerguer-se completamente depois de ser tomado por uma certeza dessas – preparamo-nos apenas para ser infelizes da melhor forma que nos for possível, fazendo por aparentar a dignidade patética daqueles a quem a vida derrotou inexoravelmente.
Hoje, instruído por um livro de Vila-Matas, estou empenhado em viver em paz com a infelicidade que me calhou na sorte; em fazer da minha infelicidade uma bela infelicidade, procurando povoá-la de pequenos e ínfimos instantes luminosos: pode ser a visão breve de uma mulher bonita, um raio de sol rompendo entre as nuvens, uma folha a cair de uma árvore – ou pode ser essa subtil festa das magnólias florindo nas ruas da minha cidade.
Se alguma justiça houvesse nos títulos que as cidades adquirem, o Porto seria já hoje mundialmente conhecido como “a cidade das magnólias”, figurando ao lado de Paris, a cidade-luz, Nova Iorque, a que nunca dorme, da eterna Roma, da cidade-maravilhosa do Rio de Janeiro ou de Maputo, a das acácias rubras. Como, porém, algum imobilismo nos tolhe, aos portuenses, preferimos ainda apresentar-nos ao mundo com o epíteto de Cidade Invicta, coisa que, convenhamos, já ninguém sabe muito bem o que significa. Basta ver como a cidade se tem amesquinhado e empobrecido para constatar que, se não nos venceram os outros – fraca consolação! –, nos derrotamos a nós próprios com incomparável eficácia e brio.
Adiante, porém, que esta crónica tem objectivos mais nobres do que fazer a psicanálise de uma cidade confusa ou das confusões que isto faz a um homem triste.
A verdade é que, pensando nisso, não me ocorrem muitas paisagens urbanas mais belas do que aquelas que a minha cidade oferece nesta altura do ano, entre o final de Janeiro e o final de Março, com as ruas enchendo-se desse subtil milagre das flores (brancas, cor-de-rosa ou roxas) despontando nos ramos de árvores nuas. Uma mulher cuja memória tenho ainda em brasa chamou-lhes, um dia, borboletas vegetais – e isto, não sendo hoje mais do que um momento belo na bela infelicidade da minha vida, é também quase um poema.
Pode ser uma crónica também, a celebração dessa flor brotando dos ramos escuros das magnólias plantadas no Porto, jorrando luz e cor sobre a parda e fria cidade que o Inverno entristece. A Avenida da Boavista está cheia dessa magia – e ainda não floriu a maior de todas as magnólias, a que há na esquina com a Rua de Belos Ares. A minha rua também já está engalanada, como estão a Avenida do Marechal Gomes da Costa ou a Rua de Guerra Junqueiro, as praças e os jardins, os simples quintais e os seus muros, tomados todos por esse benévolo e florido assalto. Eis, pois, a crónica de uma bela e infeliz cidade. Com magnólias.

fevereiro 20, 2007

A minha vida está naquela mala!

Quando eu era miúdo adorava os dias de chuva. Vivia então em casa de minha avó materna, num bairro suburbano, muito perto da cidade. Em frente da nossa casa, de madeira e zinco, erguia-se o único prédio da minha infância, com três andares. Antes de eu vislumbrar os prédios altos da grande cidade da então Lourenço Marques meu conhecimento urbano resignava-se àquele edifício, em cujo baldio jogávamos futebol. Não fui um jogador predestinado, tanto mais que acabei me refugiando num quarto a escrever poemas para colegas que nunca me deram bola. O meu bairro chama-se hoje Minkadjuíne, que significa onde abundam cajueiros. Não recordo que houvesse grande quantidade de cajueiros a habitarem a minha infância. Recordo-me sim das cheias, razão pela qual ali se designava também por Xitala-Mati. Mas os dias de chuva eram gloriosos: pelo som ininterrupto sobre as chapas de zinco. Eu amava aquele som. Lembro, muito remotamente, de andar de pequenos barcos naquela zona porque as águas tinha invadido as casas e não havia como sair sem ser em embarcações como aqueles que se haviam improvisado.

Hoje tenho da chuva um verdadeiro temor. Principalmente, a chuva de Fevereiro, que traz consigo morte e destruição. No momento em que escrevo há muitos concidadãos meus que estão ao relento, à fome, à doença. Tudo isto por causa da chuva que castiga o centro-norte de Moçambique. Escrevo sobre este tema para combater a indiferença.

As cheias deste ano são invulgares. Fizeram-me recordar as cheias do ano 2000. Nunca mais me esquecerei daquele domingo em que choveu sem parar em Maputo. Recordo que meu filho Irati veio interromper-me enquanto revia um capítulo do meu romance, que viria a ser publicado naquele ano.

- O pai está a trabalhar. – disse-lhe, admoestando-o.

Eles sabem. Quando o pai se curva à escrita, não quer ser interrompido. Tanto o Irati, que tinha quatro anos, como a Mayisha, que nasceria nesse ano. Mas o Irati foi obstinado e conseguiu levar-me a ver o telejornal. A frase de um dos flagelados derrubou-me da modorra em que me encontrava: “As casas viajaram com a chuva”. Tudo à volta era silêncio e destruição. Meu espanto era absoluto: o medo, o pânico, o sofrimento, a tragédia, a hecatombe, o apocalipse. A desolação: tudo diante de mim.

Já era tarde para sair de casa. Na manhã seguinte, muito cedo, fui resgatar a minha avó, que reincide no bairro da minha infância: Munhuana para mim, Minkadjuíne para os demais. Meus pais estavam no Infulene, a 25 km. Minha avó, com 80 anos, não queria abandonar a sua velha casa:

- E as minhas coisas?
- Não é possível levar tudo, vamos com o essencial!

A água invadira-lhe a casa. Chegava pelos joelhos.

- A minha mala! A minha mala!
- A mala não cabe no carro vovó!

A mala era na verdade uma arca de madeira onde ela guardava todo o seu pecúlio.

- Deixei as minhas coisas: capulanas que nunca vesti, coisas da minha vida inteira. A minha comida, as minhas galinhas, cada uma pesa 20 quilos.
- Antes de tudo, temos que salvar-lhe a vida.
- A minha vida está naquela mala!

À tarde consegui ir buscar a arca da velha. Mas antes rumei para o Infulene. Tinha que ir resgatar os meus pais. Já não havia comunicações: os telefones não falavam. A confusão era total. Em direcção à cidade vinham todos, ampliando, nos meus olhos, o rosto da tragédia. Escusado será dizer que a estrada estava já cortada. Não havia como alcançar o Infulene, nem pela via da Matola, muito menos pelo Bairro Jardim. Regressei de ombros curvos entregue à minha impotente resignação.

Lembrei-me, para meu consolo, de que eles viviam numa zona alta. No dia seguinte conseguimos um contacto furtivo e combinámos encontro num lugar em que a estrada fizera nascer um imenso lago. Havia barcaças, de miúdos que idealizaram o seu negócio e transportavam as pessoas de uma margem para outra, que meu pai usaria para alcançar o outro lado do mundo. Foi assim que ele veio dar-nos notícias. Estavam de outro lado da cidade, isolados, sem nada. Redes de água, electricidade e telefones não funcionavam. Bebiam da água da chuva. Mas estavam bem. Viera para nos serenar, mas tinha que regressar. Minha mãe ficaria preocupada com a demora.

Deixei-lhe o que tinha e dei-lhe um comovido abraço. Ele descalçou-se e arregaçou as calças: mergulhou na sarjeta das águas fedorentas e partiu numa daquelas barcaças.

Eu estava diante do apocalipse. Ele, sereno; eu sem saber o que dizer. Acenou-me enquanto se agarrava ao miúdo que tinha uma vara para ajudar os seus passageiros. Não tive coragem de o ver partir. Retornei à baixa, onde vivia. Quando cheguei à casa fechei-me no quarto e chorei. Depois escrevi uma crónica para o mundo saber um pouco mais da tragédia dos moçambicanos.

Histórias Verídicas do Não-Carnaval

Você ama o carnaval e prepara-se adequadamente para ele. Começa separando alguns CDs: Nielsen, Bach, Villa-Lobos, Mozart, Handel e... olha o Piazzola chegando aí, gente! Como livros são de consumo mais lento, pegamos apenas dois – um de Nikolai Dejnióv e outro de Luiz Vilela para garantir. Olho o celular e há a mensagem de um querido amigo Cidade vazia eh tudo de bom! Trabalhando por aqui. Abraço!. Ou seja, até o trabalho fica bom durante o carnaval dos outros. Vão pular, seus idiotas buliçosos; deixe-nos aqui livres do trânsito, livres das filas, livres de vocês. Xô!

Vou ao hospital onde está minha mãe em 10 minutos, atravessando a cidade. Normalmente, levo 30. Teve menor sorte o cãozinho bonitinho, velhinho e arrastando uma coleira que tentou atravessar a rua vazia e foi colhido por um táxi perdido. Um som forte de batida. Eu estava correndo. Paro. O cachorrinho, ganindo, se debate no meio do asfalto. De repente, pára. Chego até ele, vendo o táxi reacelerar, não quer incomodação, o desgraçado. Como sei que cães feridos tornam-se agressivos, empurro-o com o bico do tênis. Morto. Pego-o pela coleira. Está mole mole. Gritos de crianças, choro da mãe, choro da vizinha. Largo o cão na calçada. Todos olham. Aponto e digo

- foi aquele táxi. – A mulher cobre o rosto com as mãos e diz que
- ele tinha 11 anos, nunca saía do pátio. Será que fui eu quem deixou o portão aberto?

Alguém afirma que cachorros criados em casas não sabem atravessar ruas. Eu não quero mais ver aquilo. Lamento e vou-me embora caminhando; depois, volto a correr.

Na vídeo-locadora deliciosamente vazia, alugo Repulsa ao Sexo, A Pequena Jerusalém e A Grande Noite. Olho para minha mulher sem saber a resposta quando ela pergunta se a empregada trabalhará segunda-feira. Os feriados são de sábado à quarta ao meio-dia, mas, oficialmente, segunda-feira é dia útil. Acho que ela não vem, melhor ir lavando a louça aos poucos, não haverá escrava no feriado. Vemos A Grande Noite e minha filha pede para que eu faça um Porque hoje é sábado com Isabella Rosselini. Entro no Google e fico impressionado com as fotos, ela é belíssima mesmo. Tem pedigree a moça – imaginem: a filha de Ingrid Bergman recebendo um sanguezinho italiano... Porca troia, bellissima!

Acaba o carga do celular, mas ninguém me liga mesmo, só minha irmã. Vou ao hospital, minha mãe se mostra totalmente fora da casinha. Me confunde com meu pai e, falando comigo, dá conselhos a meu pai para cuidar melhor de mim. Loucura total. Compramos uma cadeira de rodas para banho, mas ainda temos que procurar a cadeira de rodas para casa. Nada de rodas duras, tem que ter pneus como os das bicicletas. OK. Um sufoco, uma tristeza, melhor agir sem pensar muito. Afinal, quando piso num formigueiro, as formigas já saem correndo para reconstruir a casa, não lamentam porra nenhuma; sou uma formiga... Ou será que elas correm por desespero? Bom, as minhas correrão para reconstruir o formigueiro e fim. A empregada, para nosso pasmo, chega às 14h de segunda-feira. Veio trabalhar! Encantada, encontra toda a louça limpa, tudo guardadinho, mas não faz piadas com o fato. É uma pessoa sem humor.

Saio para correr novamente. Ruas vazias. Cuido os cães. Começa a chover e comprovo como é bom correr na chuva, mesmo com os tênis fazendo schlap, schlap; dou uma volta maior para pegar mais chuva, diminuo a velocidade da corrida, vou quase trotando, sentindo alguns pingos baterem na minha cabeça de quase cinqüenta anos enquanto outros entram nos meus olhos misturados com suor; eles ardem, o suor é salgado, droga. Olho para o céu de nuvens baixas e em seguida vejo uma mulher protegendo-se da chuva com um filhote de cachorro – ele fofinho, pequenininho, uma bola de pêlos como devem ser os filhotes que chegam às crianças -, entrando na casa das crianças do cão morto. Fico muito surpreso com a coincidência; será que vi as duas faces do drama? As lágrimas da tristeza, o velório improvisado na calçada e depois o que causaria mais lágrimas, só que agora de alegria: o cão novinho em folha, as crianças felizes, o carnaval enfim salvo?

E hoje ainda é terça, ainda faltam 36 horas de feriado. Mas não tenho culpa do Cidades Crônicas exigir uma crônica na terça-feira. Vai ficar incompleta. E nem falei de tantas outras coisas: não falei que minha mulher fez inhoque para umas dez pessoas; vieram sete e comeram tudo, mas tudo mesmo. E ainda, como se não bastasse, enfrentaram com galhardia o maravilhoso pudim de requeijão com molho de goiabada que minha sogra trouxe. Puxa, e era para sobrar comida para a noite! Gente faminta, hein? Meu cunhado serviu-se quatro vezes de gnocchi e ainda repetiu a sobremesa. Minha filha refestelou-se, um absurdo uma menina de 12 anos e 37 quilos comer daquela maneira. E ainda tinha carne! Ou o pessoal vem aqui com uma fome de anteontem ou é minha mulher que cozinha benissimamente? É ela, claro. Ela é a culpada pelos quilos que ganhei (e que luto para perder correndo pela rua) e pelos amigos ficarem se convidando para vir aqui em casa. Melhor levantar daqui e dar-lhe um beijo. Não vou terminar a crônica mesmo!

fevereiro 13, 2007

Stromboli (1)

O avião primeiro é um ronco, um som longínquo enrolado nas nuvens.

Se a noite houvesse conseguido dormir, seu ronco seria um ronco assim – mas a noite não dorme, o menino não dorme, ninguém aqui dorme até ir o aeroplano vago, o avião-ronco se tornando uma coisa mais sonora e maior, porque sua forma bojuda rompe os cúmulos e vem na nossa direção, cresce um dragão metálico irritado e se prepara para pousar quando já estamos lá fora.

Antes de sairmos, a mulher ou eu, na estação das chuvas, sempre olharemos para a mesa de mariposas, por um motivo qualquer, relacionado com o avião e com a noite, e por superstição que, talvez, não precise de tantas explicações. E aqui devo voltar a mencionar o menino e seus muitos talentos desenvolvidos na escuridão, um menino cego que não pode ver os aviões, mas é o primeiro a escutar a sua aproximação.

O menino pode estar atento ao outro vôo – o dos insetos antes da morte – mas é sempre ele que ouve o ronronar (o ronco antes do ronco), levantando a cabeça como um sinal para nós (porque logo depois se ouvirá claramente o som cortando as nuvens de sombra, pesadas sobre a península).

Uma única vez ele deixou de escutar: eu lhe mostrava uma lebre negra e um lobo faminto, com os dedos das duas mãos contra a luz da lâmpada assassina dos insetos, e o seu ouvido foi para dentro das sombras que não podia ver projetadas na parede. Buscava os sons, quem sabe, que eu não sabia fazer com o meu lábio leporino feio de se ver produzindo os sopros de deformação das palavras sibilantes como “sassânida”, “assassino”, “sussurro”, “silício” e “açafrão”. Seja como for, ficamos ali, com receio de que ele estivesse se retardando demais na sua sombra, não escutando o avião da noite, fazia frio e nossa esperança era que a noite ficasse como um borrão sem nada de avião surgindo da irrealidade do ronco que crescia ao encontro do hangar sem nome, que não figurava nos mapas: nós. “Aqui estamos, menino: esse nada somos você, eu, sua mãe e toda a sucata, todos os pedaços de coisas que estão atrás da casa: hélices quebradas, manches, partes de asas partidas como um coração de piloto abandonado”. Fazia frio, eu já disse, e voltamos – porém o menino continuava sentado como se pudesse ver a parede onde as minhas mãos haviam animado o contorno do predador e da vítima que não escapa, o animalzinho sem socorro (que a mão desfaz na boca do lobo).

Como escapar? Como fugir do fogo antiaéreo que derruba os caças e as altas esperanças dos jovens pilotos? O que há de estranho sobre a juventude eterna dos rapazes que pousam, o capacete de couro como uma couraça dos dançarinos do touro corcoveando entre as nuvens? Tive vontade de perguntar ao menino silencioso, mas a falta do avião, a parede sem manchas, tudo que era branco e silencioso também me calou naquele instante e deixamos que o menino saísse lentamente do seu sonho imóvel para a imobilidade do sono.

Aparições

Andava por veredas e caminhos
Onde antes floriam
Acácias alinhadas e dizia
Que a cidade era apenas um vestígio
De névoa
Para respirar
Ao pé da lagoa.

Entrar na Catedral e auscultar a serenidade do vivido.

Subir pelas naves e eximirmo-nos ao sentido. Por momentos.

Percorrer lentamente a imensa embarcação de pedra e o seu inadvertido e irrespondível mistério: por que terá aparecido, entre os séculos XII e XIII, aquela dimensão granítica auscultadora de céus e horizontes que escapa radicalmente às dimensões das outras cidades lusas, incluindo aquela que, à sua medida, foi a nossa capital imperial?

Que narrativa insondável terá suscitado aquela desproporção que as demais edificações de Évora jamais conseguiram acompanhar e que, na Ibéria, apenas se revê, aqui e ali, nas grandes urbes históricas?

O dom íntimo deste templo respira-se entre badaladas fortuitas e um rugido muito remoto de aves. Mas um mistério persiste, justamente, porque não é interrogado.

Subir pela nave central até que o olhar se fixa nos vitrais, nas amplas rosáceas e na leve curvatura do céu. Navegar pelo movimento gerado pelo altar de Ludovice, esse tardio volume em movimento que galardoa e saúda os deuses da nascente (é a nascente - a oriente - que a terra procriou uma homonímia elementar: Evoramonte e Jevora).

Penetrar nesse reduto do barroco inquieto e resistente, mas tão distante da elevação gótica ainda tímida e pesada, porque de legado românico, que continua a albergar os confessionários recurvados pelas colunatas e, junto ao baptistério sombrio, a imagem viva de de S. Gabriel.

Depois há-de abrir-se a porta que dá para o claustro.

E a luz, enviesada e transversal, invadirá este canto húmido e recôndito dando a vez à baça luminosidade que, um dia, os esplendores flamengos trouxeram até a Évora.

fevereiro 6, 2007

Intemporalidades

A beleza era o nome desse incêndio,
Mas alguém dizia que era também a imagem parada
Onde há muito a cidade se perdera
Nas aves feridas e tempestuosas da noite.

Sempre senti, desde a infância, que Évora era atravessada por uma angústia do extremo do universo.

Não é, naturalmente, um sentimento que se pareça com o pasmo poético dos abismos islandeses, das orlas meridionais do Chile, ou dos cumes do Atlas. Mas desde sempre reconheci, no mais recôndito crivo da minha consciência, que essa característica existia por trás das inevitáveis vestes épicas com que as gerações de todos os presentes se auto-representam.

Uma geração aspira forçosamente ao cume da história e faz da sua coreografia, da sua urbe e da sua terra o lugar desse cerimonial único. Esta desfocagem dos autóctones é universal, mas Évora, em concreto, é, por trás da letargia e dos orgulhos fáticos, uma cidade singular, particular.

Évora é uma terra que, como todas, se individualiza no tempo em contraste com a parcialidade das gerações e com as morfologias do território. Grande parte do que a cidade é e vai sendo, na sua caminhada entre tempos, faz parte do que se podia ser designado pelo seu ronronar secular.

Por isso a cidade ali está, habitada pelo seu espaço, presente, perfilada e aparentemente incólume, e, ao mesmo tempo, tão terrivelmente senhora de si e da sua quase intemporalidade. E por isso Évora ergue diante de nós, como se nada fosse, o pretensamente não dito do seu encanto, assim como uma parte pungente daquilo que Borges designou por desilusão na sua História da Eternidade.

De algum modo, Évora é uma cidade propensa à desestruturação, ao spleen da imobilidade e à angústia do desejo, já que nela domina a tentação de levar a cabo a releitura dos seus textos arquitectónicos, imaginários, passionais e espaciais, num movimento simultaneamente ascendente e descendente, e que visaria, num só plano, tanto os rastos, as ruínas e os vestígios, como as presenças, o agora-aqui e o emergir às vezes informe do próprio discurso contemporâneo (que é o nosso).

Évora também tem uma herança dos confins do mundo, é verdade. Reduto, afinal, da sua claridade.

O Marechal e o Minotauro

O meu nome é Saldanha. Marechal Saldanha. Uma figura importante na história de Portugal. Política e militarmente importante. Talvez por isso me tenham erigido uma estátua numa das principais praças de Lisboa: o Saldanha.

No meu tempo não se chamava Saldanha. O centro de Lisboa era o Rossio (Praça D.Pedro IV, mas ninguém sabe que se chama assim, é como o Teatro Nacional D.Maria II, ninguém sabe que é a segunda). O Saldanha já era a caminho das hortas, que as havia e com legumes frescos.

Eram outros tempos. Dizia a publicidade que um homem se distinguia pela honra, pela barba e pela camisa. Por acaso nunca tive uma Triple Marfel (ou Regojo?), não havia.

Hoje um homem distingue-se pela sua capacidade de endividamento. É a globalização. No meu tempo era mais à força dos canhões, dos dotes de oratória, dos grandes golpes e das pequenas revoluções.


No Saldanha, a minha estátua está lá bem no cimo, com um ar imperial. Tenho o braço esticado e aponto. Bem sei que “não se aponta, que é feio”, mas este apontar é diferente. Eu aponto o caminho do futuro aos portugueses. Aponto para o rio Tejo, mas entre mim e o rio Tejo interpõem-se os pequenos arranha-céus portugueses, pigmeus de 20 andares e muito obrigado a Vossa Excelência, senhor doutor, apresente os meus respeitos à sua senhora e os meus cumprimentos às crianças.


À minha direita está o Cine-Teatro Monumental, onde actuaram nomes grandes do teatro português, onde pisaram o palco vultos excelsos da música. Onde o Luís Graça ganhou o terceiro prémio de um concurso de máscaras, no Carnaval, quando tinha oito anos. O traje, inventado pela senhora sua mãe (porra para a ideia), era composto por um chapéu de coco preto e brilhante. Um vestido xadrez com direito a mini-saia ou o que raio era aquilo. Meias vermelhas pelo joelho. Sapatos pretos de verniz. Brilhantes. Luvas até ao cotovelo. Vermelhas. À Rita Hayworth. Mas sem estalo do Glen Ford. E os olhos rodeados por uma maquilhagem xadrez. “A menina que ganhou o terceiro prémio chegue-se aqui à frente”.


A “menina” que ganhou o terceiro prémio disse raivosamente que não havia menina nenhuma a ganhar o terceiro prémio e a estúpida da máscara se chamava “Mini-Hop Art”, pela alma de todos os santinhos que lhe eram preciosos. E depois desatou a dar com a mala de senhora (obrigatoriamente a tiracolo, para definir um quadro de total e absoluta humilhação) nos árabes, romanos, zorros, vampiros e outros miúdos de esgar escancarado que se atravessavam no seu caminho.

Saldanha. Marechal Saldanha. É o meu nome.

No outro dia saí de cima do pedestal de imponente pedra branca e fui beber uma cerveja ao Atrium Saldanha. Ali na zona tudo tem o meu nome: é o Atrium Saldanha, o Saldanha Residence, a estação de metropolitano é o Saldanha, até acho que o restaurante que está aberto até às 3 da manhã não se devia chamar “Galeto”. Devia chamar-se “Saldanha Snack”. E o McDonald’s, mesmo ao lado, devia chamar-se “McSaldanha”.

O “Galeto” esteve 11 dias fechado, porque apareceu lá uma equipa de fiscalização e encontrou “várias gerações de baratas”. Algumas, as mais velhas, eram do meu tempo de estadista e militar.

Eu sempre gostei de passear à noite na minha zona, o Saldanha. Nas madrugadas de bruma era muito agradável discutir a Nação com o fantasma de D.Sebastião, que se enganou na táctica para a batalha de Alcácer-Quibir e o resto sabe-se. É muita areia.

Ontem encontrei o Minotauro muito enfurecido, aos pontapés às pedras na zona do Saldanha.
“É vergonhoso. Antigamente o Saldanha era uma coisa como deve ser. A sua estátua imaculada. As pessoas sabiam quem era o marechal. Hoje passam pela rotunda a acelerar, todas fixadas no verde dos semáforos, numa ânsia sexual de chegar antes de todos à Av. Fontes Pereira de Melo, num desvario de se meterem debaixo do Marquês de Pombal, de leão pela trela. Salvas as devidas diferenças, claro”.

“É vergonhoso. Hoje, o marechal quer ir comer um “Linguado à Delícia” à pastelaria Versailles, anda por ali às voltas num labirinto de tapumes de metal cinzento. É muito pior do que Creta. E vamos já em dois anos de obras, dois anos de fura-fura, de rebenta-me com esse alcatrão, criatura, que é para o bem de todos, para ligar a estação de S.Sebastião à estação da Alameda. E o S.Sebastião todo cravadinho de flechas, uma expressão de santo com cara de quem foi tramado pela vida sem saber porquê”.

E o Minotauro continuou a protestar. Que o pior de tudo era os tapumes serem traiçoeiros como o caraças, mudando de posição de dia para dia. E por isso era preciso dar uma volta do escamarquilhão para chegar ao restaurante Moisés e à farmácia. E que era preciso voltar para trás se se quisesse ir ao relojoeiro onde o Luís Graça muda as correias dos relógios e mete pilhas nos relógios de pulso com a cara do Tintim e do Fernando Pessoa, que lhe foram oferecidos pela sua querida prima Isabel Alexandra.

E um dia destes ele ainda ia aos cornos a alguém, mas que eu estivesse descansado, que eu era uma pessoa de bem, ele até me admirava há montes de tempo. Ficar ali feito estátua uma eternidade não era para todos. Sempre havia aquele moço que ia fazer de estátua para o Rossio, mascarado de Camões. Mas a esse davam moedas e batia recordes. E sempre podia dormir em serviço porque tinha umas coisas para colocar por cima dos olhos.

E depois o Minotauro pediu licença, descobriu-se (ele tem um chapéu de abas largas, com dois furinhos dos lados, para deixar passar os chifres) deu-me a salva e vi-o a desaparecer no labirinto das obras do Metro, a caminho da praça do Campo Pequeno, onde ia assistir a uma corrida de touros.

“O espectáculo é bárbaro, marechal, mas não resisto às turistas americanas e aos voos de forcado”.


Voltei para o meu pedestal, fiz uns exercícios de desentorpecimento, olhei para o ponto de mira nos vidros do arranha-céus, estiquei o braço, fiz uma expressão severa e pus-me a apontar.

É a minha vida.

É uma pena a poluição.

Uns metros abaixo de mim, do outro lado da estrada, há um senhor que passa as noites a dizer adeus aos carros. E eles buzinam quando se cruzam com ele.

É assim.

É Lisboa em Janeiro de 2007.