O meu nome é Saldanha. Marechal Saldanha. Uma figura importante na história de Portugal. Política e militarmente importante. Talvez por isso me tenham erigido uma estátua numa das principais praças de Lisboa: o Saldanha.
No meu tempo não se chamava Saldanha. O centro de Lisboa era o Rossio (Praça D.Pedro IV, mas ninguém sabe que se chama assim, é como o Teatro Nacional D.Maria II, ninguém sabe que é a segunda). O Saldanha já era a caminho das hortas, que as havia e com legumes frescos.
Eram outros tempos. Dizia a publicidade que um homem se distinguia pela honra, pela barba e pela camisa. Por acaso nunca tive uma Triple Marfel (ou Regojo?), não havia.
Hoje um homem distingue-se pela sua capacidade de endividamento. É a globalização. No meu tempo era mais à força dos canhões, dos dotes de oratória, dos grandes golpes e das pequenas revoluções.
No Saldanha, a minha estátua está lá bem no cimo, com um ar imperial. Tenho o braço esticado e aponto. Bem sei que “não se aponta, que é feio”, mas este apontar é diferente. Eu aponto o caminho do futuro aos portugueses. Aponto para o rio Tejo, mas entre mim e o rio Tejo interpõem-se os pequenos arranha-céus portugueses, pigmeus de 20 andares e muito obrigado a Vossa Excelência, senhor doutor, apresente os meus respeitos à sua senhora e os meus cumprimentos às crianças.
À minha direita está o Cine-Teatro Monumental, onde actuaram nomes grandes do teatro português, onde pisaram o palco vultos excelsos da música. Onde o Luís Graça ganhou o terceiro prémio de um concurso de máscaras, no Carnaval, quando tinha oito anos. O traje, inventado pela senhora sua mãe (porra para a ideia), era composto por um chapéu de coco preto e brilhante. Um vestido xadrez com direito a mini-saia ou o que raio era aquilo. Meias vermelhas pelo joelho. Sapatos pretos de verniz. Brilhantes. Luvas até ao cotovelo. Vermelhas. À Rita Hayworth. Mas sem estalo do Glen Ford. E os olhos rodeados por uma maquilhagem xadrez. “A menina que ganhou o terceiro prémio chegue-se aqui à frente”.
A “menina” que ganhou o terceiro prémio disse raivosamente que não havia menina nenhuma a ganhar o terceiro prémio e a estúpida da máscara se chamava “Mini-Hop Art”, pela alma de todos os santinhos que lhe eram preciosos. E depois desatou a dar com a mala de senhora (obrigatoriamente a tiracolo, para definir um quadro de total e absoluta humilhação) nos árabes, romanos, zorros, vampiros e outros miúdos de esgar escancarado que se atravessavam no seu caminho.
Saldanha. Marechal Saldanha. É o meu nome.
No outro dia saí de cima do pedestal de imponente pedra branca e fui beber uma cerveja ao Atrium Saldanha. Ali na zona tudo tem o meu nome: é o Atrium Saldanha, o Saldanha Residence, a estação de metropolitano é o Saldanha, até acho que o restaurante que está aberto até às 3 da manhã não se devia chamar “Galeto”. Devia chamar-se “Saldanha Snack”. E o McDonald’s, mesmo ao lado, devia chamar-se “McSaldanha”.
O “Galeto” esteve 11 dias fechado, porque apareceu lá uma equipa de fiscalização e encontrou “várias gerações de baratas”. Algumas, as mais velhas, eram do meu tempo de estadista e militar.
Eu sempre gostei de passear à noite na minha zona, o Saldanha. Nas madrugadas de bruma era muito agradável discutir a Nação com o fantasma de D.Sebastião, que se enganou na táctica para a batalha de Alcácer-Quibir e o resto sabe-se. É muita areia.
Ontem encontrei o Minotauro muito enfurecido, aos pontapés às pedras na zona do Saldanha.
“É vergonhoso. Antigamente o Saldanha era uma coisa como deve ser. A sua estátua imaculada. As pessoas sabiam quem era o marechal. Hoje passam pela rotunda a acelerar, todas fixadas no verde dos semáforos, numa ânsia sexual de chegar antes de todos à Av. Fontes Pereira de Melo, num desvario de se meterem debaixo do Marquês de Pombal, de leão pela trela. Salvas as devidas diferenças, claro”.
“É vergonhoso. Hoje, o marechal quer ir comer um “Linguado à Delícia” à pastelaria Versailles, anda por ali às voltas num labirinto de tapumes de metal cinzento. É muito pior do que Creta. E vamos já em dois anos de obras, dois anos de fura-fura, de rebenta-me com esse alcatrão, criatura, que é para o bem de todos, para ligar a estação de S.Sebastião à estação da Alameda. E o S.Sebastião todo cravadinho de flechas, uma expressão de santo com cara de quem foi tramado pela vida sem saber porquê”.
E o Minotauro continuou a protestar. Que o pior de tudo era os tapumes serem traiçoeiros como o caraças, mudando de posição de dia para dia. E por isso era preciso dar uma volta do escamarquilhão para chegar ao restaurante Moisés e à farmácia. E que era preciso voltar para trás se se quisesse ir ao relojoeiro onde o Luís Graça muda as correias dos relógios e mete pilhas nos relógios de pulso com a cara do Tintim e do Fernando Pessoa, que lhe foram oferecidos pela sua querida prima Isabel Alexandra.
E um dia destes ele ainda ia aos cornos a alguém, mas que eu estivesse descansado, que eu era uma pessoa de bem, ele até me admirava há montes de tempo. Ficar ali feito estátua uma eternidade não era para todos. Sempre havia aquele moço que ia fazer de estátua para o Rossio, mascarado de Camões. Mas a esse davam moedas e batia recordes. E sempre podia dormir em serviço porque tinha umas coisas para colocar por cima dos olhos.
E depois o Minotauro pediu licença, descobriu-se (ele tem um chapéu de abas largas, com dois furinhos dos lados, para deixar passar os chifres) deu-me a salva e vi-o a desaparecer no labirinto das obras do Metro, a caminho da praça do Campo Pequeno, onde ia assistir a uma corrida de touros.
“O espectáculo é bárbaro, marechal, mas não resisto às turistas americanas e aos voos de forcado”.
Voltei para o meu pedestal, fiz uns exercícios de desentorpecimento, olhei para o ponto de mira nos vidros do arranha-céus, estiquei o braço, fiz uma expressão severa e pus-me a apontar.
É a minha vida.
É uma pena a poluição.
Uns metros abaixo de mim, do outro lado da estrada, há um senhor que passa as noites a dizer adeus aos carros. E eles buzinam quando se cruzam com ele.
É assim.
É Lisboa em Janeiro de 2007.