O pai de Abdul-Qadir sentira a influência da cabeça, desde as primeiras horas, debaixo do teto da sua casa. O homem quieto que ele era, não muito impressionável, agora estava ali, numa espécie de paz indiferente, enquanto via crescer uma inquietação nova, indefinida como a fumaça do fumo refletida num espelho de cobre embaçado. Olhava para a pedra calcária esculpida por algum artista remoto, colocada sobre a mesa da sala como se poderia olhar para um gramofone de corda comprado numa feira, a novidade sonora numa tarde luminosa de barcos e gaivotas. Talvez tivesse sido bem melhor comprar um gramofone, com a ópera Aída fanhosamente gritada nuns discos, fazendo ouvir outros ventos e outros barcos numa terra longínqua – que ia se tornando estranha para o pai de Abdul-Qadir. Agora que comprara a cabeça, tinha algumas dúvidas dentro da sua, dormia menos e não sabia onde colocar aquela coisa que perturbava a mente, com pensamentos novos.
Não poderia ficar na mesa. Uma circassiana que vinha fazer a limpeza todos os dias, poderia derrubá-la com alguma toalha frenética – e o pai de Abdul-Qadir a espancaria por isso, com certeza. Na verdade, não queria que a circassiana sequer visse a cabeça e, nela pegando com os seus dedos ensebados, censurasse um patrão capaz de pagar para trazer um pedaço de pedra para dentro de casa, enquanto o pai não dispunha de um dote para casar a filha (de maneira a que a filha saísse para fora da palhoça situada porta afora das riquezas mal gastas da cidade).
As mulheres do povo batem a roupa e tratam peixe sobre a cabeça dos reis, as grandes coroas deitadas. Só alguns poucos homens se sentem incomodados – e discretamente mudam de assento e voltam para a areia molhada. Os reis, mesmo mortos, têm uma relação misteriosa com os homens murmurando (coisas que as mulheres não compreendem, quando passam ao largo, com as suas crias nos braços tisnados pelas tinturas de tecidos), ao pé das fogueiras. Os reis perturbam o sono de sapateiros, de tintureiros, dos latoeiros, dos vendedores de chá e até dos engraxates que lustram os sapatos de perfeitas nulidades imponentes, reis do câmbio e do jogo, num tempo em que os Alexandres deveriam ser sufocados ao nascer – para não reduzirem a sua glória ao contrabando de armas e à venda de cabeças sagradas.
O pai de Abdul-Qadir resolveu que levaria a cabeça de volta para a Síria e a enterraria de novo na areia molhada (de qual rio?) e assim se veria livre de perguntas a si próprio... mas não levou avante a idéia, e até pediu perdão, mentalmente, àquela coisa decepada (pelas idéias malucas da sua cabeça de egípcio desterrado).
Um dia, pegou do martelo e mais alguns pregos, além de uma bela tinta azul no mesmo armazém onde lhe cederam alguma madeira dos engradados das encomendas, e fez, ele mesmo, uma espécie de caixa pintada (de azul quase negro), onde a cabeça parecia suspensa no azul de cerração e rara chuva no lago Mareótis.
O pai de Abdul-Qadir fechou a caixinha e nunca mais a abriu... e voltou à sua rotina de negociante, às viagens e aos novos divertimentos, naturais na sua idade (os quais um homem jovem deve satisfazer enquanto é de ouro a luz sobre cabelos fartos; depois... é tarde). E conheceu Azyadée, e casou com ela.
A caixa com a pequena cabeça seguiu fechada, quase esquecida na casa, por anos e anos que rolaram como o fumo dos escuros cigarros turcos subindo para além da janela, por sobre as construções confusas, os balcões de madeira, as lojas apertadas umas contra as outras, no espaço e na ambição dos negócios.
Só muito mais tarde, num dia que os anos trouxeram debaixo das suas muitas dobras, o pai de Abdel-Qadir percebeu que nem mais sabia onde estava a caixinha, na casa já ampliada. E entendeu que envelhecera, e que o tempo havia passado, as coisas sendo mudadas sem que um homem percebesse que a sua vida mudava também: o seu filho homem tomava caminho próprio, no mundo de tantas estradas, e ele mesmo era agora um velho egípcio saudoso do sol alexandrino, dos dias luminosos que tivera nas mãos, como Sansão, sentindo a juventude no mar de cabelos molhados pela água do lago e lembrando-se de si mesmo na suspensa poeira de uma escada atravessada pela flecha oblíqua de luz vinda de uma cúpula dourada, claridade subindo, rápida, enquanto ele era seguro e sabia abrir uma porta trancada com raiva. Lá, recebia no seu o calor de um peito que não era o peito farto da maturidade de Azyadée... que ele também recordava como uma tarde finda, na qual o reflexo da cúpula se retardasse (a cúpula de ouro de todos os abraços que podia recordar (sendo estranho como uma só coisa, com o tempo, podia se tornar a chave de todas as outras).
Resolveu, então, mostrar a pequena cabeça ao filho, sem qualquer especial motivo – exceto a lembrança daquela porta no alto da escada, num prédio sem beleza e que escondia, corredores adentro, toda a beleza que havia, no entanto, em Constantinopla e no Egito, na Ásia e nas caixas afundadas nos oceanos.
Seu pai abriu, então, o escrínio azul de tinta e poeira, e chamou o filho para admirar a cabeça de pedra calcária, mas a cabeça não estava na caixa intacta. (As palavras devem se destacar: “não estava”, “caixa intacta”, “a cabeça”: onde estava?)
Era de Alexandre. Sempre desconfiara que fosse dele, o Bicórnio, o maior dos reis da antiguidade. Não era de uma mulher que acabou de se banhar e vem para o quarto, de cabelo molhado. Seus pés deixam um rastro de umidade, e ela senta sobre a cama, para reler uma carta. A cabeça não era dessa pessoa viva. Nem era a cabeça pintada de uma prostituta sagrada ou de uma dançarina do templo, que ele também pudesse tomar nos braços, se fosse um marinheiro macedônio, um fenício de bolsa de ouro – que achasse que as prostitutas sagradas eram para ser pagas. Não eram. E ele também já não era jovem, não podia agradar às mulheres que recuavam do seu amor sem forças, afastadas pela mágica do inferno que torna um homem mais idoso do que um pai já morto, na meia idade, quando se faz contas com o tempo, com as cidades deixadas para trás, com os amigos mortos e com o silêncio que nos cerca.
A cabeça, onde estava? Como pudera ser levada, se a madeira apresentava, ainda, os pregos do seu cuidado, afundados no cerne macio da matéria que fora, um dia, parte do tronco de alguma das árvores sobre a colina de um cemitério? Lembrava da tarde pintada na sua memória de velho: era moço e tinha medo, recém-casado. A vida ia mudar e precisava enterrar o que não mais viria do lado oculto do acaso. Encerrar a cabeça numa caixa fora o modo de guardar as possibilidades intactas, e seria a maneira de preservar os dias de volta de esperança do oásis da juventude: ali, o vazio com o objeto no meio de serragem seria a parte oculta daquele lado, escondida entre as dobras dos dois atos: encontrar e guardar, ou guardar e esperar pelo dia em que tudo lhe parecesse mais vazio do que o tanque de peixes do parque abandonado, a piscina invertida, o céu, sem limite, desabado no centro da ilha de mármore que imobiliza todo o orbe, numa única (e pintada) tarde...