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09 jan2007

Milton Ribeiro

Reverência

Amigos, gostaria de escrever sobre a transformação de Porto Alegre logo após o campeonato mundial de futebol conquistado pelo Inter, mas ando ocupadíssimo e o cansaço me impediu de escrever qualquer coisa nos intervalos ou, sendo provavelmente mais sincero, abracei os exíguos espaços de tempo que obtive e os utilizei para não fazer NADA... Então, como tenho em meu micro um diretório lotado de crônicas de que gostei, deixo para meus sete leitores uma de outro colorado fanático: Luís Fernando Verissimo. A crônica é de 1999.

Tenho algumas raridades entre as minhas memórias de louco por futebol. Uma vez, na Espanha, vi jogar aquele ataque do Real Madrid que tinha Kopa, Puskas, Di Stefano e Gento. Vi um jogo do Santos em Porto Alegre em que, no segundo tempo, entrou um garoto que estavam preparando para ser titular, chamado Pelé. Não achei nada demais.

Depois, morando no Rio, peguei a época em que o Maracanã enchia para ver o Santos jogar contra qualquer time. Foi certamente a última vez que lotaram o estádio não para torcer mas para ver alguém dar um espetáculo, não contando o Frank Sinatra. Peguei o Botafogo de Garrincha, Quarentinha e (suspiro) etc. Vi, de coração presente, as copas de 86, 90, 94 e 98. Mas a minha lembrança mais curiosa é anterior a todas essas.

Não me pergunte o ano. A federação gaúcha importou um juiz inglês para apitar o campeonato de Porto Alegre. Talvez desistindo de encontrar neste hemisfério um juiz que nem o Internacional suspeitasse de ser gremista e nem vice-versa, Mr. Barrick chegou. Não sei se foi no primeiro jogo que ele apitou mas digamos que sim, para efeito dramático. Tesourinha, ponta-direita do Internacional (naquele tempo havia pontas), pega a bola, dribla uns quatro ou cinco, entra na área e só não faz o gol porque a bola bate no poste e vai para fora. Começa a voltar, cabisbaixo (naquele tempo se dizia cabisbaixo), para o meio do campo e de repente dá com Mr. Barrick à sua frente. Para surpresa de todo mundo e, mais do que todos, Tesourinha, o juiz estende a mão e o cumprimenta. Até faz uma pequena reverência, de pés juntos.

Nunca mais vi um juiz fazer coisa parecida. Nunca mais vi um jogador de futebol ser homenageado da mesma maneira. E para dar uma idéia da grandeza do inglês - ou, talvez, de Tesourinha - deve-se dizer que nenhum gremista sugeriu, depois do gesto, que Mr. Barrick fosse torcedor do Internacional desde pequeno.


Publicado às 02:37 | Comente [2]


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