Ele é bege, feioso e seu teclado, imundo, é coberto duma película amarronzada e levemente gosmenta que congrega em alegre camaradagem poeira, partículas não identificadas, creme para o rosto, creme para as mãos, Fanta Uva, requeijão e – sem drama, querido leitor, apenas a verdade - lágrimas.
Sim, ele me faz chorar. Mas nunca deixei de considerá-lo um membro da família, um filhinho, menos amado que os gatos, é verdade, mas muito mais querido que o microôndas.
Num momento de desespero econômico, falta absoluta de trabalho e soberba, inventei um curso de história da arte pra ser dado pela internet. Pesei prós e contras, avaliei meu estado físico e mental e resolvi que daria conta da empreitada. Só me esqueci de avaliar meu computador. Ele não estava pronto. Ele precisa de tempo, de carinho, leves atividades ao ar livre, talvez um pouco de jardinagem. Nada que exija a produção de 300, 400 páginas mensais, com figuras e muitas, muitas cores. Assim não dá. As aulas seguem, mais ou menos no prazo, mas a custa de lágrimas. E sangue, querido leitor. Hum, meu sangue, o que é pior. Meu computador come as imagens das aulas. Come as legendas engraçadinhas que boto em baixo da imagens. Come os textos. As coisas somem. Eu soluço, e ele permanece imperturbável. Sacudo ele pelos ombros, como um filho que decepcionou a mamãe e jogou o dinheiro do pão nos cavalos: meu Deus, o que foi que eu fiz de errado? Será que eu tratei a pobre máquina mal? Eu sei, os banhos repetidos de Fanta em seu teclado devem ter magoado, mas não era pra tanto. Será que foi falta dum nome? Afinal eu batizo tudo na casa (que o diga Ricardo, o novo bichinho de pelúcia do cachorro). Vai ver que o coitado se sentiu preterido. Internautas amigos dos quatro cantos desse amado país e dos cantos dalguns outros países, não menos amados, mandaram inúmeros conselhos, mandingas, simpatias, “ameaça com a chinela, às vezes tem de tratar mal pra ele te dar valor”, “dá três pulinhos, reza um salve-rainha e aperta a tecla tal”, “ leva num pai-de-santo micreiro em Santa Efigênia que tira o encosto do hardware” etc., mas sabem como é, não adianta dar conselho sobre a criação do fio dos outros. Meu marido, que sabe como as mães são emotivas, já me disse que não, que tudo fizemos por ele, que ele é um vagabundo inútil, que ele como pai exercerá sua autoridade e não sustentará maconheiro e que o computador revortoso vai embora na semana que vem. Mas meu coração de mãe sangra. Ele me fez chorar, minha pressão subiu por causa dele, ele é um burro imprestável, mas, Deus, é sangue do meu sangue, é plug do meu plug.
Enfim. Com o próximo vamos começar certo. Será uma menina. E vai se chamar Violeta.