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02 jan2007

Luís Graça

Aquela faca que me rasga o ventre (Mas houve mulheres nuas e fogo de artifício)

Não há muito a fazer. A época do Natal é como uma faca que me rasga o ventre, ano após ano. Não importa o brilho das luzes na cidade, a época do Natal é como uma faca que me rasga o ventre.

Uma tortura a que não me posso escusar.

Adoro teatro, mas não suporto o teatro de Natal, com as palavras tão esvaziadas de sentido, tão hipócritas, tão engalanadas de cinismo.

Em pequeno adorava o Natal. As férias, os presentes, o cheiro das carumas na árvore de Natal. A construção do presépio. E aquela sensação de que ainda havia uma hipótese: o mundo havia de melhorar.

Agora não. O Natal revolve-me o estômago, põe-me a úlcera a dançar bolero em três dimensões, dá-me vontade de emigrar para uma ilha deserta com jacuzzis de lava.
Saí pelas 7 da tarde, na noite de Consoada. Imaginando uma caminhada a pé, purificante, antes de chegar à casa onde ia passar a Noite de Natal com os meus pais e uma série de primos. Nem cinco minutos andei e encontrei um amigo que me contou a história da sua vida. A mulher “envenenou” a filha de 35 anos contra ele. No ano anterior, até uma fatia de bolo-rei foi pretexto para uma frase assassina, como um punhal de curare:

--- Então e nós?!?

Uma mulher com dinheiro para comprar uma pastelaria ficou a discutir uma fatia de bolo-rei para o pai da sua filha. E o meu amigo fez-me esta confissão com uns olhos verdes, lindos, de um homem que ameaçava ir para a cama às 23 horas na Noite de Natal.
Era urgente começar a caminhada.

Fui a pé pela urbe, das Avenidas Novas até Benfica. Pacificando-me à medida que caminhava nas ruas de uma cidade fria de 7 graus. Uma Lisboa solitária, com as pastelarias e os restaurantes a fechar as portas, com os táxis, raros, a circular pelas ruas como um tubarão sem rumo, filho pródigo sem cardume onde acostar.

Cheguei ao meu destino. A minha prima que vive no Algarve abriu-me a porta, pegou-me no blusão, nas luvas, no cachecol. Abriu a porta do quarto. Paco, o cão de fila de S.Miguel (uma raça típica dos Açores, ilha portuguesa a meio do Atlântico) que teve educação na Alemanha, só compreende ordens em teutão puro e vive perto de Lagos, levantou a cabeça e disparou um olhar desconfiado, antes de continuar a sua sesta de Natal.

É preciso cuidado com Paco, o cão que matou um gato velhinho com um ataque de coração. O gato saiu de casa, viu o Paco à sua frente e caiu fulminado. Cena rigorosamente real.
Deixo o Paco a dormir no quarto e vou para a sala. Começa o jantar. O tradicional bacalhau. Pouco depois, o meu primo alemão despediu-se à francesa e foi dormir para o quarto, dividindo a cama com Paco. Instantes volvidos, a filha da irmã mais nova da minha prima que casou com o alemão emigrou para outra sala, para rever “Harry Potter” na televisão.
Regresso a casa. Abro o computador, tomo um chá e ouço “Love Songs --- Miles Davis”. Uma foto do Miles lembra-me o Pelé. Nunca me tinha ocorrido isto.

Hoje fui até ao Parque das Nações passar a noite de Ano Novo. Namorar o rio Tejo, enfeitado com uma bruma simpática, em noite cinco graus mais quente que a de Natal.
Saí de casa perto das 22 horas. Na Av. Guerra Junqueiro já um desalojado ressona estrondosamente, indiferente à aparente felicidade alheia e ao clima de festa.
Faço umas carícias a um Golden Retriever sociável. “Ele quer é festas”, diz a dona. Metros abaixo, a loja de modas tem camisolões com outro cão: “Idéfix, where are you?”. O cão de Obélix não responde.

A cidade está quase deserta, mas o comboio Metropolitano para o Parque das Nações vai quase cheio.

Às 22 e 17 subo à superfície do Parque das Nações e ouço apregoar champanhe: “Olhó champanhe fresquinho! Olhó champanhe fresquinho!”.

De raspão, apanho uma conversa entre dois negros: “Os únicos amigos brancos que tenho não são brancos”.

A caminho do Casino de Lisboa, uma criança resiste ainda e sempre à autoridade maternal: “Tens de vestir este casaco, Tiago!”.

NÃO! --- diz o Tiago e foge. Parou metros à frente, vendo o poster de Lance Armstrong a correr, num anúncio da Nike.

No Casino de Lisboa não resisto ao quiosque de revistas e jornais e compro “O crime”, o semanário “Tal e Qual”, o semanário “Sol” e a revista de cinema “Première” de Janeiro. Toda a noite ando com o saco de plástico com os jornais pela mão. E não vi mais ninguém assim.

Um grupo português toca “Jamiroquai”. Há figurantes a passear pelas salas do Casino. Uns de andas, mascarados como no Carnaval de Veneza, outros pelo seu pé, disfarçados de samurais. Ou quase, que havia naquela indumentária algo de novo.

Na sala das roletas, um pedinte de sobretudo comprido, óculos bastante graduados, alto, de barba, observa atentamente. Mais tarde encontro-o deitado junto à parede exterior do Casino. Mas ninguém se quer incomodar a dar-lhe uma miserável esmola. Conheço-o dos comboios da linha do Estoril, vendendo pequenos bonecos de arame e pensos rápidos:

--- Vá lá, é para me ajudar...

Vou até à Torre Vasco da Gama, onde se realiza o fogo de artifício de fim de ano. Oito minutos a ver o céu cheio de cores, a ouvir as explosões de alegria de uma multidão de milhares.
Regresso ao Casino, para ver o espectáculo do cantor Pedro Abrunhosa, que entrou em palco todo de branco, parecendo um vendedor de gelados da Olá, um traficante de cocaína cubano numa esplanada de Miami ou o Roberto Leal. À escolha.

A dez minutos da uma da manhã, o meu coração pula de contente. Quatro meninas de topless e corpos pintados entram para a sala, com os algarismos de 2007 por cima de cada cabeça. Abrunhosa passa a segundo plano.

Findo o concerto, deparo com um anúncio do Crazy Horse de Paris e fico a saber que o ballet se vai estrear no Casino a 3 de Abril. Boa notícia. Abalo até à fila para os táxis.

Estou na fila. Com centenas de pessoas à minha frente. São 2 horas e 15 minutos. A lua vai alta.

Estou na fila. São 3 horas e 20 minutos. Um folião pára no semáforo, abre o vidro e grita: “Um 2007 fixe para todos e que o Sporting seja campeão”. Risos, palmas, apupos.

Estou na fila. São 4 horas e 7 minutos. Apanho finalmente táxi. A lua vai alta.

Chego a casa. Como nozes, pinhões, pão com marmelada, uma banana. Bebo chá. Abro a televisão e vejo Nova Iorque a mudar de pele pela televisão, na SIC Notícias. Só agora a “Big Apple” entra em 2007. Na Times Squase há casais de namorados com chapéus grandes a fazer publicidade à Chevrolet. Os cartazes electrónicos têm publicidade à Pontiac.

Venho para o computador. Ouço “French Touch”, de Richard Galliano.

Bom 2007 para todos.


Publicado às 00:31 | Comente [7]


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