Uma história de Alexandria (3)
A caixa era o vazio deprimente de uma urna lacrada por pregos pintados também da tinta azul – que permanecia azul – na falsa noite cerrada dos objetos apartados da vista, encerrados nos escrínios, nos sarcófagos de lápis-lázuli e ouro marchetado de pedras cegas debaixo das lajes dos túmulos secretos dos seus antepassados na linha do medo. O azul estava ali, mas mofado por dentro, no oco da serragem que produzira a vida de vermes secados com o resto do resto de troncos cheios do antigo verde dos cemitérios (azul, verde, amarelo, branco, preto: as cores para a química dos olhos também secados há muito tempo, entre lágrimas na chuva e asas de insetos nas caixas abertas, violadas, expostas à intempérie antes de serem roubadas da forma mais vil sobre a face da Terra).
A sua cabeça do Bicórnio fora comprada e paga à vista, integralmente. Agora, não estava mais ali, dentro da caixa azul por dentro e por fora, pintada por ele mesmo, há muito tempo, para guardar a cabeça que faltava, não se encontrava dentro, em repouso, contemplando a noite da caixa com seus olhos de pedra. Quem poderia ter roubado uma cabeça dentro de uma caixa perdida no oco de uma casa?
Abrira-a, alguma vez, há muito tempo – e não sabia, sonâmbulo nas salas? Subira até o depósito das coisas abandonadas sob a lua da maturidade? Esquecera-se do ato, duplicado, de abrir e, de novo, fechar a caixa? Martelara os pregos, fechara outra vez, selara aquele espaço da quimera disfarçada cabeça de Alexandre? Onde estava a sua própria, desconfiada de si mesma, e sem ter mais qualquer certeza das coisas que encerrava? Tinha ou não fechado o segredo – um homem que penetra no jardim das suas faltas –, confundindo as ausências com as saudades dos furtos da alma?
Onde estava o seu espírito, seu vigor de outros lugares, sua busca de uma cor nos vasos esmaltados, seu toque sobre uma nuca, seu calor sobre uma espádua – onde estavam todos os mortos que desfilam num relato a respeito de outra vida, numa outra cidade?
De que é feita a matéria da vida falseada pela arte? Os olhos que não vêem, os sorrisos martelados, a fronte pura, os braços decepados, quem poderia crer que tudo seja engano e se reduza a algum truque que muda de mulher para homem, de ouro para lata, de plenitude para o vazio... e que enche de espaço a curva do tempo sobre uma cabeça que falta?
Onde está a lua? Onde ela vaga? Por que a noite é tão escura quando a lua se esconde sobre o lago na penumbra? As cabeças afogadas guardavam o reflexo das pontes iluminadas sobre os rios engrossados pela chuva. Havia um lago na sombra da cabeça afogada, que faltava? Alexandre morrera na água? Ou morrera na cama, ao lado de um jovem guerreiro apaixonado? Quais rostos, nos afrescos, o rei mandara apagar da têmpera tratada, onde o azul de uma tinta nova recobria as paisagens do fundo da Ásia? O azul desses disfarces, a antiga parede de retratos que a religião não permitia, acertadamente (porque um crente se perde na piscina das imagens, uma alma pia duvida do Deus e da realidade entre duas colunas e um ídolo de face humana), o que lhe vinha à memória era a imagem de uma beleza de face humana que poderia afastar da Divindade... e era, agora, muito tarde para buscar essa face, na impaciência dos anos.
Faltava a paciência e não havia mais felicidade. Sua mão tateara na sombra e não encontrara nada. Ficara muito pouco na palma, entre marcas e o contato de pele ressequida: a fumaça de uma fogueira à beira do mar, as flores quebradiças trazidas pela onda, os papiros frágeis, desfazendo-se nas mãos antes de concluir a história. Havia uma história?
Mesmo que houvesse, nenhuma história de fato terminava. Não havia um fim para as coisas, a justiça de um fim, de uma conclusão que dispersa os ouvintes, provoca um suspiro, um arfar do peito cansado – justamente pelo conhecimento, íntimo, de que toda infelicidade prossegue fazendo mais infelizes como o grande Alexandre, fechado no seu túmulo, à espera do invasor da sua sombra. “Eu fui rei da Macedônia e, depois, rei da Grécia e rei do Mundo. Por que você pensa que reina sobre seu quarto, dentro da casa, onde guarda uma caixa com a cabeça do amado...”
Isso era um poema? Viera no vento, murmurado pelas palmeiras? Ou fora ouvido nas dobras internas de um búzio vindo dos mares da estranheza?
Examinou a caixa vazia, por fora e por dentro. O que havia feito os dois riscos numa das paredes de sândalo? E se não era sândalo (mas madeira barata, restos de engradados de encomendas, sem aroma), se a vontade queria nobre tudo próximo da morte, se o esforço de poesia virava vômito e excremento entre infusões e febres pontuais na tarde – se tudo desabava e um doente não mais encontrava nem sequer a sua cabeça na caixa da sua propriedade, toda a vida (toda a vida era o esforço, inútil, contra a perda, no meio da vulgaridade das coisas?)...
Uma vez viera um homem à sua porta, meio mendigo e meio comerciante, a tentar lhe vender o fragmento de um fragmento de livro sagrado. Era uma criatura sem crença, ímpia nos seus negócios sem orgulho, algo estranha nas ofertas de mercadoria de procedência às vezes duvidosa. O visitante quase havia sido expulso do templo da sua casa, ao pronunciar duas palavras que, ali, eram interditas aos moradores e intoleráveis na boca de estranhos vindos da luz exterior do pátio onde a água rumorejava com suavidade...
Outra vez, também havia sido procurado – por um comerciante respeitável – para analisar a oferta de coisa semelhante, uma relíquia estranha (por acaso seria mais pio o homem que adquirisse uma partícula de tinta ilusória do Fogo da Palavra?), pertencente a um homem santo cujos ossos alguns herejes haviam saqueado, nas criptas das capelas abertas na rocha, os lugares vazios de devoções esquecidas de cristãos e muçulmanos.
Tudo era como aquilo: a ausência, numa caixa. A casa estava na casa – ausência dentro de outra – e a casa estava no planeta que rolava no abismo do Universo sem fim e sem começo cujo oco lhe dava náusea, naquele momento de um dia cujo traço iria desaparecer na noite. Cúpulas, minaretes, muralhas e muros, telhados e toldos, janelas e portas douradas, o lago na sua calma, a lua na sua cisma, tudo se afastava do pai de Abdul-Qadir naquela hora de dor feita do conhecimento de todas as ausências que estavam no lugar das coisas em fuga como a cabeça longe dos ombros pesados que o levaram para o último sono na cama.
Não sonhou com mais nada – e a cabeça de Alexandre foi encontrada na caixa e mais uma vez tomada pela cabeça de Cleópatra, em virtude dos olhos separados demais, entre o Oriente e o Ocidente se encontrando acima do nariz de ponte reta que a mãe de Abdul-Qadir, rasgando as vestes, fez se partir contra o mármore.