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janeiro 30, 2007

Uma história de Alexandria (3)

A caixa era o vazio deprimente de uma urna lacrada por pregos pintados também da tinta azul – que permanecia azul – na falsa noite cerrada dos objetos apartados da vista, encerrados nos escrínios, nos sarcófagos de lápis-lázuli e ouro marchetado de pedras cegas debaixo das lajes dos túmulos secretos dos seus antepassados na linha do medo. O azul estava ali, mas mofado por dentro, no oco da serragem que produzira a vida de vermes secados com o resto do resto de troncos cheios do antigo verde dos cemitérios (azul, verde, amarelo, branco, preto: as cores para a química dos olhos também secados há muito tempo, entre lágrimas na chuva e asas de insetos nas caixas abertas, violadas, expostas à intempérie antes de serem roubadas da forma mais vil sobre a face da Terra).

A sua cabeça do Bicórnio fora comprada e paga à vista, integralmente. Agora, não estava mais ali, dentro da caixa azul por dentro e por fora, pintada por ele mesmo, há muito tempo, para guardar a cabeça que faltava, não se encontrava dentro, em repouso, contemplando a noite da caixa com seus olhos de pedra. Quem poderia ter roubado uma cabeça dentro de uma caixa perdida no oco de uma casa?

Abrira-a, alguma vez, há muito tempo – e não sabia, sonâmbulo nas salas? Subira até o depósito das coisas abandonadas sob a lua da maturidade? Esquecera-se do ato, duplicado, de abrir e, de novo, fechar a caixa? Martelara os pregos, fechara outra vez, selara aquele espaço da quimera disfarçada cabeça de Alexandre? Onde estava a sua própria, desconfiada de si mesma, e sem ter mais qualquer certeza das coisas que encerrava? Tinha ou não fechado o segredo – um homem que penetra no jardim das suas faltas –, confundindo as ausências com as saudades dos furtos da alma?

Onde estava o seu espírito, seu vigor de outros lugares, sua busca de uma cor nos vasos esmaltados, seu toque sobre uma nuca, seu calor sobre uma espádua – onde estavam todos os mortos que desfilam num relato a respeito de outra vida, numa outra cidade?

De que é feita a matéria da vida falseada pela arte? Os olhos que não vêem, os sorrisos martelados, a fronte pura, os braços decepados, quem poderia crer que tudo seja engano e se reduza a algum truque que muda de mulher para homem, de ouro para lata, de plenitude para o vazio... e que enche de espaço a curva do tempo sobre uma cabeça que falta?

Onde está a lua? Onde ela vaga? Por que a noite é tão escura quando a lua se esconde sobre o lago na penumbra? As cabeças afogadas guardavam o reflexo das pontes iluminadas sobre os rios engrossados pela chuva. Havia um lago na sombra da cabeça afogada, que faltava? Alexandre morrera na água? Ou morrera na cama, ao lado de um jovem guerreiro apaixonado? Quais rostos, nos afrescos, o rei mandara apagar da têmpera tratada, onde o azul de uma tinta nova recobria as paisagens do fundo da Ásia? O azul desses disfarces, a antiga parede de retratos que a religião não permitia, acertadamente (porque um crente se perde na piscina das imagens, uma alma pia duvida do Deus e da realidade entre duas colunas e um ídolo de face humana), o que lhe vinha à memória era a imagem de uma beleza de face humana que poderia afastar da Divindade... e era, agora, muito tarde para buscar essa face, na impaciência dos anos.

Faltava a paciência e não havia mais felicidade. Sua mão tateara na sombra e não encontrara nada. Ficara muito pouco na palma, entre marcas e o contato de pele ressequida: a fumaça de uma fogueira à beira do mar, as flores quebradiças trazidas pela onda, os papiros frágeis, desfazendo-se nas mãos antes de concluir a história. Havia uma história?
Mesmo que houvesse, nenhuma história de fato terminava. Não havia um fim para as coisas, a justiça de um fim, de uma conclusão que dispersa os ouvintes, provoca um suspiro, um arfar do peito cansado – justamente pelo conhecimento, íntimo, de que toda infelicidade prossegue fazendo mais infelizes como o grande Alexandre, fechado no seu túmulo, à espera do invasor da sua sombra. “Eu fui rei da Macedônia e, depois, rei da Grécia e rei do Mundo. Por que você pensa que reina sobre seu quarto, dentro da casa, onde guarda uma caixa com a cabeça do amado...”

Isso era um poema? Viera no vento, murmurado pelas palmeiras? Ou fora ouvido nas dobras internas de um búzio vindo dos mares da estranheza?

Examinou a caixa vazia, por fora e por dentro. O que havia feito os dois riscos numa das paredes de sândalo? E se não era sândalo (mas madeira barata, restos de engradados de encomendas, sem aroma), se a vontade queria nobre tudo próximo da morte, se o esforço de poesia virava vômito e excremento entre infusões e febres pontuais na tarde – se tudo desabava e um doente não mais encontrava nem sequer a sua cabeça na caixa da sua propriedade, toda a vida (toda a vida era o esforço, inútil, contra a perda, no meio da vulgaridade das coisas?)...

Uma vez viera um homem à sua porta, meio mendigo e meio comerciante, a tentar lhe vender o fragmento de um fragmento de livro sagrado. Era uma criatura sem crença, ímpia nos seus negócios sem orgulho, algo estranha nas ofertas de mercadoria de procedência às vezes duvidosa. O visitante quase havia sido expulso do templo da sua casa, ao pronunciar duas palavras que, ali, eram interditas aos moradores e intoleráveis na boca de estranhos vindos da luz exterior do pátio onde a água rumorejava com suavidade...

Outra vez, também havia sido procurado – por um comerciante respeitável – para analisar a oferta de coisa semelhante, uma relíquia estranha (por acaso seria mais pio o homem que adquirisse uma partícula de tinta ilusória do Fogo da Palavra?), pertencente a um homem santo cujos ossos alguns herejes haviam saqueado, nas criptas das capelas abertas na rocha, os lugares vazios de devoções esquecidas de cristãos e muçulmanos.

Tudo era como aquilo: a ausência, numa caixa. A casa estava na casa – ausência dentro de outra – e a casa estava no planeta que rolava no abismo do Universo sem fim e sem começo cujo oco lhe dava náusea, naquele momento de um dia cujo traço iria desaparecer na noite. Cúpulas, minaretes, muralhas e muros, telhados e toldos, janelas e portas douradas, o lago na sua calma, a lua na sua cisma, tudo se afastava do pai de Abdul-Qadir naquela hora de dor feita do conhecimento de todas as ausências que estavam no lugar das coisas em fuga como a cabeça longe dos ombros pesados que o levaram para o último sono na cama.

Não sonhou com mais nada – e a cabeça de Alexandre foi encontrada na caixa e mais uma vez tomada pela cabeça de Cleópatra, em virtude dos olhos separados demais, entre o Oriente e o Ocidente se encontrando acima do nariz de ponte reta que a mãe de Abdul-Qadir, rasgando as vestes, fez se partir contra o mármore.

Onde foi que eu errei?

Ele é bege, feioso e seu teclado, imundo, é coberto duma película amarronzada e levemente gosmenta que congrega em alegre camaradagem poeira, partículas não identificadas, creme para o rosto, creme para as mãos, Fanta Uva, requeijão e – sem drama, querido leitor, apenas a verdade - lágrimas.
Sim, ele me faz chorar. Mas nunca deixei de considerá-lo um membro da família, um filhinho, menos amado que os gatos, é verdade, mas muito mais querido que o microôndas.
Num momento de desespero econômico, falta absoluta de trabalho e soberba, inventei um curso de história da arte pra ser dado pela internet. Pesei prós e contras, avaliei meu estado físico e mental e resolvi que daria conta da empreitada. Só me esqueci de avaliar meu computador. Ele não estava pronto. Ele precisa de tempo, de carinho, leves atividades ao ar livre, talvez um pouco de jardinagem. Nada que exija a produção de 300, 400 páginas mensais, com figuras e muitas, muitas cores. Assim não dá. As aulas seguem, mais ou menos no prazo, mas a custa de lágrimas. E sangue, querido leitor. Hum, meu sangue, o que é pior. Meu computador come as imagens das aulas. Come as legendas engraçadinhas que boto em baixo da imagens. Come os textos. As coisas somem. Eu soluço, e ele permanece imperturbável. Sacudo ele pelos ombros, como um filho que decepcionou a mamãe e jogou o dinheiro do pão nos cavalos: meu Deus, o que foi que eu fiz de errado? Será que eu tratei a pobre máquina mal? Eu sei, os banhos repetidos de Fanta em seu teclado devem ter magoado, mas não era pra tanto. Será que foi falta dum nome? Afinal eu batizo tudo na casa (que o diga Ricardo, o novo bichinho de pelúcia do cachorro). Vai ver que o coitado se sentiu preterido. Internautas amigos dos quatro cantos desse amado país e dos cantos dalguns outros países, não menos amados, mandaram inúmeros conselhos, mandingas, simpatias, “ameaça com a chinela, às vezes tem de tratar mal pra ele te dar valor”, “dá três pulinhos, reza um salve-rainha e aperta a tecla tal”, “ leva num pai-de-santo micreiro em Santa Efigênia que tira o encosto do hardware” etc., mas sabem como é, não adianta dar conselho sobre a criação do fio dos outros. Meu marido, que sabe como as mães são emotivas, já me disse que não, que tudo fizemos por ele, que ele é um vagabundo inútil, que ele como pai exercerá sua autoridade e não sustentará maconheiro e que o computador revortoso vai embora na semana que vem. Mas meu coração de mãe sangra. Ele me fez chorar, minha pressão subiu por causa dele, ele é um burro imprestável, mas, Deus, é sangue do meu sangue, é plug do meu plug.
Enfim. Com o próximo vamos começar certo. Será uma menina. E vai se chamar Violeta.

janeiro 9, 2007

Reverência

Amigos, gostaria de escrever sobre a transformação de Porto Alegre logo após o campeonato mundial de futebol conquistado pelo Inter, mas ando ocupadíssimo e o cansaço me impediu de escrever qualquer coisa nos intervalos ou, sendo provavelmente mais sincero, abracei os exíguos espaços de tempo que obtive e os utilizei para não fazer NADA... Então, como tenho em meu micro um diretório lotado de crônicas de que gostei, deixo para meus sete leitores uma de outro colorado fanático: Luís Fernando Verissimo. A crônica é de 1999.

Tenho algumas raridades entre as minhas memórias de louco por futebol. Uma vez, na Espanha, vi jogar aquele ataque do Real Madrid que tinha Kopa, Puskas, Di Stefano e Gento. Vi um jogo do Santos em Porto Alegre em que, no segundo tempo, entrou um garoto que estavam preparando para ser titular, chamado Pelé. Não achei nada demais.

Depois, morando no Rio, peguei a época em que o Maracanã enchia para ver o Santos jogar contra qualquer time. Foi certamente a última vez que lotaram o estádio não para torcer mas para ver alguém dar um espetáculo, não contando o Frank Sinatra. Peguei o Botafogo de Garrincha, Quarentinha e (suspiro) etc. Vi, de coração presente, as copas de 86, 90, 94 e 98. Mas a minha lembrança mais curiosa é anterior a todas essas.

Não me pergunte o ano. A federação gaúcha importou um juiz inglês para apitar o campeonato de Porto Alegre. Talvez desistindo de encontrar neste hemisfério um juiz que nem o Internacional suspeitasse de ser gremista e nem vice-versa, Mr. Barrick chegou. Não sei se foi no primeiro jogo que ele apitou mas digamos que sim, para efeito dramático. Tesourinha, ponta-direita do Internacional (naquele tempo havia pontas), pega a bola, dribla uns quatro ou cinco, entra na área e só não faz o gol porque a bola bate no poste e vai para fora. Começa a voltar, cabisbaixo (naquele tempo se dizia cabisbaixo), para o meio do campo e de repente dá com Mr. Barrick à sua frente. Para surpresa de todo mundo e, mais do que todos, Tesourinha, o juiz estende a mão e o cumprimenta. Até faz uma pequena reverência, de pés juntos.

Nunca mais vi um juiz fazer coisa parecida. Nunca mais vi um jogador de futebol ser homenageado da mesma maneira. E para dar uma idéia da grandeza do inglês - ou, talvez, de Tesourinha - deve-se dizer que nenhum gremista sugeriu, depois do gesto, que Mr. Barrick fosse torcedor do Internacional desde pequeno.

janeiro 2, 2007

Aquela faca que me rasga o ventre (Mas houve mulheres nuas e fogo de artifício)

Não há muito a fazer. A época do Natal é como uma faca que me rasga o ventre, ano após ano. Não importa o brilho das luzes na cidade, a época do Natal é como uma faca que me rasga o ventre.

Uma tortura a que não me posso escusar.

Adoro teatro, mas não suporto o teatro de Natal, com as palavras tão esvaziadas de sentido, tão hipócritas, tão engalanadas de cinismo.

Em pequeno adorava o Natal. As férias, os presentes, o cheiro das carumas na árvore de Natal. A construção do presépio. E aquela sensação de que ainda havia uma hipótese: o mundo havia de melhorar.

Agora não. O Natal revolve-me o estômago, põe-me a úlcera a dançar bolero em três dimensões, dá-me vontade de emigrar para uma ilha deserta com jacuzzis de lava.
Saí pelas 7 da tarde, na noite de Consoada. Imaginando uma caminhada a pé, purificante, antes de chegar à casa onde ia passar a Noite de Natal com os meus pais e uma série de primos. Nem cinco minutos andei e encontrei um amigo que me contou a história da sua vida. A mulher “envenenou” a filha de 35 anos contra ele. No ano anterior, até uma fatia de bolo-rei foi pretexto para uma frase assassina, como um punhal de curare:

--- Então e nós?!?

Uma mulher com dinheiro para comprar uma pastelaria ficou a discutir uma fatia de bolo-rei para o pai da sua filha. E o meu amigo fez-me esta confissão com uns olhos verdes, lindos, de um homem que ameaçava ir para a cama às 23 horas na Noite de Natal.
Era urgente começar a caminhada.

Fui a pé pela urbe, das Avenidas Novas até Benfica. Pacificando-me à medida que caminhava nas ruas de uma cidade fria de 7 graus. Uma Lisboa solitária, com as pastelarias e os restaurantes a fechar as portas, com os táxis, raros, a circular pelas ruas como um tubarão sem rumo, filho pródigo sem cardume onde acostar.

Cheguei ao meu destino. A minha prima que vive no Algarve abriu-me a porta, pegou-me no blusão, nas luvas, no cachecol. Abriu a porta do quarto. Paco, o cão de fila de S.Miguel (uma raça típica dos Açores, ilha portuguesa a meio do Atlântico) que teve educação na Alemanha, só compreende ordens em teutão puro e vive perto de Lagos, levantou a cabeça e disparou um olhar desconfiado, antes de continuar a sua sesta de Natal.

É preciso cuidado com Paco, o cão que matou um gato velhinho com um ataque de coração. O gato saiu de casa, viu o Paco à sua frente e caiu fulminado. Cena rigorosamente real.
Deixo o Paco a dormir no quarto e vou para a sala. Começa o jantar. O tradicional bacalhau. Pouco depois, o meu primo alemão despediu-se à francesa e foi dormir para o quarto, dividindo a cama com Paco. Instantes volvidos, a filha da irmã mais nova da minha prima que casou com o alemão emigrou para outra sala, para rever “Harry Potter” na televisão.
Regresso a casa. Abro o computador, tomo um chá e ouço “Love Songs --- Miles Davis”. Uma foto do Miles lembra-me o Pelé. Nunca me tinha ocorrido isto.

Hoje fui até ao Parque das Nações passar a noite de Ano Novo. Namorar o rio Tejo, enfeitado com uma bruma simpática, em noite cinco graus mais quente que a de Natal.
Saí de casa perto das 22 horas. Na Av. Guerra Junqueiro já um desalojado ressona estrondosamente, indiferente à aparente felicidade alheia e ao clima de festa.
Faço umas carícias a um Golden Retriever sociável. “Ele quer é festas”, diz a dona. Metros abaixo, a loja de modas tem camisolões com outro cão: “Idéfix, where are you?”. O cão de Obélix não responde.

A cidade está quase deserta, mas o comboio Metropolitano para o Parque das Nações vai quase cheio.

Às 22 e 17 subo à superfície do Parque das Nações e ouço apregoar champanhe: “Olhó champanhe fresquinho! Olhó champanhe fresquinho!”.

De raspão, apanho uma conversa entre dois negros: “Os únicos amigos brancos que tenho não são brancos”.

A caminho do Casino de Lisboa, uma criança resiste ainda e sempre à autoridade maternal: “Tens de vestir este casaco, Tiago!”.

NÃO! --- diz o Tiago e foge. Parou metros à frente, vendo o poster de Lance Armstrong a correr, num anúncio da Nike.

No Casino de Lisboa não resisto ao quiosque de revistas e jornais e compro “O crime”, o semanário “Tal e Qual”, o semanário “Sol” e a revista de cinema “Première” de Janeiro. Toda a noite ando com o saco de plástico com os jornais pela mão. E não vi mais ninguém assim.

Um grupo português toca “Jamiroquai”. Há figurantes a passear pelas salas do Casino. Uns de andas, mascarados como no Carnaval de Veneza, outros pelo seu pé, disfarçados de samurais. Ou quase, que havia naquela indumentária algo de novo.

Na sala das roletas, um pedinte de sobretudo comprido, óculos bastante graduados, alto, de barba, observa atentamente. Mais tarde encontro-o deitado junto à parede exterior do Casino. Mas ninguém se quer incomodar a dar-lhe uma miserável esmola. Conheço-o dos comboios da linha do Estoril, vendendo pequenos bonecos de arame e pensos rápidos:

--- Vá lá, é para me ajudar...

Vou até à Torre Vasco da Gama, onde se realiza o fogo de artifício de fim de ano. Oito minutos a ver o céu cheio de cores, a ouvir as explosões de alegria de uma multidão de milhares.
Regresso ao Casino, para ver o espectáculo do cantor Pedro Abrunhosa, que entrou em palco todo de branco, parecendo um vendedor de gelados da Olá, um traficante de cocaína cubano numa esplanada de Miami ou o Roberto Leal. À escolha.

A dez minutos da uma da manhã, o meu coração pula de contente. Quatro meninas de topless e corpos pintados entram para a sala, com os algarismos de 2007 por cima de cada cabeça. Abrunhosa passa a segundo plano.

Findo o concerto, deparo com um anúncio do Crazy Horse de Paris e fico a saber que o ballet se vai estrear no Casino a 3 de Abril. Boa notícia. Abalo até à fila para os táxis.

Estou na fila. Com centenas de pessoas à minha frente. São 2 horas e 15 minutos. A lua vai alta.

Estou na fila. São 3 horas e 20 minutos. Um folião pára no semáforo, abre o vidro e grita: “Um 2007 fixe para todos e que o Sporting seja campeão”. Risos, palmas, apupos.

Estou na fila. São 4 horas e 7 minutos. Apanho finalmente táxi. A lua vai alta.

Chego a casa. Como nozes, pinhões, pão com marmelada, uma banana. Bebo chá. Abro a televisão e vejo Nova Iorque a mudar de pele pela televisão, na SIC Notícias. Só agora a “Big Apple” entra em 2007. Na Times Squase há casais de namorados com chapéus grandes a fazer publicidade à Chevrolet. Os cartazes electrónicos têm publicidade à Pontiac.

Venho para o computador. Ouço “French Touch”, de Richard Galliano.

Bom 2007 para todos.

Uma história de Alexandria (2)

O pai de Abdul-Qadir sentira a influência da cabeça, desde as primeiras horas, debaixo do teto da sua casa. O homem quieto que ele era, não muito impressionável, agora estava ali, numa espécie de paz indiferente, enquanto via crescer uma inquietação nova, indefinida como a fumaça do fumo refletida num espelho de cobre embaçado. Olhava para a pedra calcária esculpida por algum artista remoto, colocada sobre a mesa da sala como se poderia olhar para um gramofone de corda comprado numa feira, a novidade sonora numa tarde luminosa de barcos e gaivotas. Talvez tivesse sido bem melhor comprar um gramofone, com a ópera Aída fanhosamente gritada nuns discos, fazendo ouvir outros ventos e outros barcos numa terra longínqua – que ia se tornando estranha para o pai de Abdul-Qadir. Agora que comprara a cabeça, tinha algumas dúvidas dentro da sua, dormia menos e não sabia onde colocar aquela coisa que perturbava a mente, com pensamentos novos.

Não poderia ficar na mesa. Uma circassiana que vinha fazer a limpeza todos os dias, poderia derrubá-la com alguma toalha frenética – e o pai de Abdul-Qadir a espancaria por isso, com certeza. Na verdade, não queria que a circassiana sequer visse a cabeça e, nela pegando com os seus dedos ensebados, censurasse um patrão capaz de pagar para trazer um pedaço de pedra para dentro de casa, enquanto o pai não dispunha de um dote para casar a filha (de maneira a que a filha saísse para fora da palhoça situada porta afora das riquezas mal gastas da cidade).

As mulheres do povo batem a roupa e tratam peixe sobre a cabeça dos reis, as grandes coroas deitadas. Só alguns poucos homens se sentem incomodados – e discretamente mudam de assento e voltam para a areia molhada. Os reis, mesmo mortos, têm uma relação misteriosa com os homens murmurando (coisas que as mulheres não compreendem, quando passam ao largo, com as suas crias nos braços tisnados pelas tinturas de tecidos), ao pé das fogueiras. Os reis perturbam o sono de sapateiros, de tintureiros, dos latoeiros, dos vendedores de chá e até dos engraxates que lustram os sapatos de perfeitas nulidades imponentes, reis do câmbio e do jogo, num tempo em que os Alexandres deveriam ser sufocados ao nascer – para não reduzirem a sua glória ao contrabando de armas e à venda de cabeças sagradas.

O pai de Abdul-Qadir resolveu que levaria a cabeça de volta para a Síria e a enterraria de novo na areia molhada (de qual rio?) e assim se veria livre de perguntas a si próprio... mas não levou avante a idéia, e até pediu perdão, mentalmente, àquela coisa decepada (pelas idéias malucas da sua cabeça de egípcio desterrado).

Um dia, pegou do martelo e mais alguns pregos, além de uma bela tinta azul no mesmo armazém onde lhe cederam alguma madeira dos engradados das encomendas, e fez, ele mesmo, uma espécie de caixa pintada (de azul quase negro), onde a cabeça parecia suspensa no azul de cerração e rara chuva no lago Mareótis.

O pai de Abdul-Qadir fechou a caixinha e nunca mais a abriu... e voltou à sua rotina de negociante, às viagens e aos novos divertimentos, naturais na sua idade (os quais um homem jovem deve satisfazer enquanto é de ouro a luz sobre cabelos fartos; depois... é tarde). E conheceu Azyadée, e casou com ela.

A caixa com a pequena cabeça seguiu fechada, quase esquecida na casa, por anos e anos que rolaram como o fumo dos escuros cigarros turcos subindo para além da janela, por sobre as construções confusas, os balcões de madeira, as lojas apertadas umas contra as outras, no espaço e na ambição dos negócios.

Só muito mais tarde, num dia que os anos trouxeram debaixo das suas muitas dobras, o pai de Abdel-Qadir percebeu que nem mais sabia onde estava a caixinha, na casa já ampliada. E entendeu que envelhecera, e que o tempo havia passado, as coisas sendo mudadas sem que um homem percebesse que a sua vida mudava também: o seu filho homem tomava caminho próprio, no mundo de tantas estradas, e ele mesmo era agora um velho egípcio saudoso do sol alexandrino, dos dias luminosos que tivera nas mãos, como Sansão, sentindo a juventude no mar de cabelos molhados pela água do lago e lembrando-se de si mesmo na suspensa poeira de uma escada atravessada pela flecha oblíqua de luz vinda de uma cúpula dourada, claridade subindo, rápida, enquanto ele era seguro e sabia abrir uma porta trancada com raiva. Lá, recebia no seu o calor de um peito que não era o peito farto da maturidade de Azyadée... que ele também recordava como uma tarde finda, na qual o reflexo da cúpula se retardasse (a cúpula de ouro de todos os abraços que podia recordar (sendo estranho como uma só coisa, com o tempo, podia se tornar a chave de todas as outras).

Resolveu, então, mostrar a pequena cabeça ao filho, sem qualquer especial motivo – exceto a lembrança daquela porta no alto da escada, num prédio sem beleza e que escondia, corredores adentro, toda a beleza que havia, no entanto, em Constantinopla e no Egito, na Ásia e nas caixas afundadas nos oceanos.

Seu pai abriu, então, o escrínio azul de tinta e poeira, e chamou o filho para admirar a cabeça de pedra calcária, mas a cabeça não estava na caixa intacta. (As palavras devem se destacar: “não estava”, “caixa intacta”, “a cabeça”: onde estava?)

Era de Alexandre. Sempre desconfiara que fosse dele, o Bicórnio, o maior dos reis da antiguidade. Não era de uma mulher que acabou de se banhar e vem para o quarto, de cabelo molhado. Seus pés deixam um rastro de umidade, e ela senta sobre a cama, para reler uma carta. A cabeça não era dessa pessoa viva. Nem era a cabeça pintada de uma prostituta sagrada ou de uma dançarina do templo, que ele também pudesse tomar nos braços, se fosse um marinheiro macedônio, um fenício de bolsa de ouro – que achasse que as prostitutas sagradas eram para ser pagas. Não eram. E ele também já não era jovem, não podia agradar às mulheres que recuavam do seu amor sem forças, afastadas pela mágica do inferno que torna um homem mais idoso do que um pai já morto, na meia idade, quando se faz contas com o tempo, com as cidades deixadas para trás, com os amigos mortos e com o silêncio que nos cerca.

A cabeça, onde estava? Como pudera ser levada, se a madeira apresentava, ainda, os pregos do seu cuidado, afundados no cerne macio da matéria que fora, um dia, parte do tronco de alguma das árvores sobre a colina de um cemitério? Lembrava da tarde pintada na sua memória de velho: era moço e tinha medo, recém-casado. A vida ia mudar e precisava enterrar o que não mais viria do lado oculto do acaso. Encerrar a cabeça numa caixa fora o modo de guardar as possibilidades intactas, e seria a maneira de preservar os dias de volta de esperança do oásis da juventude: ali, o vazio com o objeto no meio de serragem seria a parte oculta daquele lado, escondida entre as dobras dos dois atos: encontrar e guardar, ou guardar e esperar pelo dia em que tudo lhe parecesse mais vazio do que o tanque de peixes do parque abandonado, a piscina invertida, o céu, sem limite, desabado no centro da ilha de mármore que imobiliza todo o orbe, numa única (e pintada) tarde...