Em Alexandria – onde ainda vaga a alma lunática do Bicórnio – eu conheci um egípcio daqueles de formação helênica, extremamente educados, que sentiam a falta de tudo. “Estou amargurado pelas coisas que faltam”, ele dizia. “Meu pai foi assim”.
Ele veio me procurar. Disse que tinha dois motivos: queria publicar um anúncio, em inglês, no jornal onde eu escrevia coisas que ele admirava – explicou – e mostrou um dos meus artigos, com um texto sublinhado: “Sinto falta da réstea de luz sobre a parede branca – uma mancha a desbotar a outra (e a parte do decote, na foto) e dos cães que ouviam se quebrarem as folhas debaixo dos seus saltos altos, no quintal onde sempre vão soprar – na lembrança – os ventos dos livros de aventura lidos no banco de concreto recoberto de azulejos que permaneciam frios da noite. Os perfumes e os chocolates que não se fabricavam mais. Um deles – dos perfumes – tinha um rótulo que sugeria os minaretes de Istambul na noite (justo: chamava-se ‘Topkapi’) contra a massa escuro do Chifre (engano: chamava-se ‘Bósforo’ – porque já havia um perfume chamado ‘Corno de Ouro’)”...
O egípcio até se parecia com Kaváfis, fisicamente – talvez porque todos os alexandrinos cultos se pareçam com “Baltazar” e outros perfis que tiramos dos livros, antes de defrontar um ou outro saído de sob alguma cortina do cenário real de uma cidade muito mudada.
A geração desses homens da passagem do século dezenove para o vinte, conheceu uma modernidade transida pelo senso do passado, de modo que todas as suas ações – e mesmo alegrias – eram meio toldadas por uma sombra sem idade e alguma porção daquela melancolia dos que esperam a morte porém não a desejam, é claro.
Havia uma cidade morrendo – definitivamente – naquele cenário que Lawrence Durrell tentou evocar, ainda vivo, nos romances do quarteto falhado justamente porque Alexandria só em parte era a cidade que ele quis trazer para a ficção inglesa, entre os carnavais de máscaras conspiratórias e os bairros de vícios sem idade (mas é boa a captação do país interior dos coptas e há uma ou outra cena enfumaçada de incenso e neblina entre os bordéis e os barcos, que lembram ser Alexandria a cidade do vício que cultuava – ainda – o lodo dos deuses esquecidos do Delta, da Núbia e do Sudão distante, onde a religião se tornava selvageria)...
Bem, eu falava do egípcio que conheci, e que se dizia da família de Thuban Abulfaiz. Mais não posso dizer do nome sob o qual, suponho, deve seguir vivendo, neste momento, no bairro dos jardins soterrados.
Foi ele quem me contou a história, exatamente da forma como vai aqui narrada – talvez com algo da fantasia de um comerciante nato, surpreendentemente verídica e sincera, por se referir a um acontecimento da juventude do seu pai, descendente do bisneto de Abuazz – “uma das Colunas do Sufismo – , chamado Abulfaiz, fundador da ordem Malamati.
A história é esta:
O pai de Abdul-Qadir (o nome é fictício, a fim de resguardar a identidade do egípcio) apaixonara-se, na juventude, por uma pequena cabeça de pedra calcária. Tinha o nariz inteiro e uma coroa alta, intacta. Naquele tempo, antes de Kemal Ataturk (esta história se passa em Constantinopla, quando a cidade ainda não trocara o nome do imperador pelo dourado vago de “Istambul”), não havia o zelo das antiguidades como patrimônio inalienável do país - zelo que se tornaria quase uma obsessão para os Jovens Turcos. Escavando, os camponeses às vezes achavam coisas antigas, que vendiam a compatriotas e a estrangeiros interessados.
A pequena cabeça fora encontrada por um sujeito ao escavar quase no quintal da sua casa, em algum lugar da fronteira com a Síria, entre a areia molhada e a tristeza de todas as coisas sepultadas que já estiveram em uso, completas e novas (e beleza – de pedra e carne – era vendida e comprada desde o início dos tempos até aquele ano em que o pai de Abdul-Qadir veio a se apaixonar pela cabeça vista num antiquário).
Ele não era um arqueólogo – não havia arqueólogos em Scutari - e nem era negociante no ramo de antiguidades, mas apenas encontrara (e comprara) a cabeça, quando ainda no tempo dos devaneios de solteiro, antes do casamento com Azyadée, que teria quebrado a cabeça egípcia (porque era uma cabeça egípcia), se fosse ainda no tempo do noivado ciumento... O pai de Abdul-Qadir era um homem letrado, que sabia das descobertas de Carter e de outros famosos arqueólogos trabalhando no país dos seus antepassados. Assim, comprara o objeto – que não era barato – sob um fascínio estranho e inesperado. O preço pago, em todo caso, consumira boa parte das economias do rapaz sério, preparando-se para o futuro e por isso vigilante das próprias despesas, no caderno de contas onde assinalara o excesso:
“Cabeça: x. PAGA à vista.
Comentário: Perdi a minha”.
Levada para casa, a peça fizera aumentar uma certa vocação alexandrina para a melancolia, que era, no seu pai, também do temperamento de um moço quase triste, na Constantinopla que clamava: “Vem! Vem gozar dos prazeres que não são muitos, na vida cujo minuto é um piscar de fantasma no olho do vento sobre a água!”...
Longe desses prazeres, pouco se permitira dormir, na primeira noite, tão próximo da cabeça com o seu sorriso apenas enunciado na pedra – adivinhado no escuro. Podia haver até quem a achasse feia, porém aquela escultura era, para ele, como a presença de uma estrela apagada, cuja luz secreta viajasse da sala para a sua cama. A cabeça parecia trazer, do muito remoto, o rumor de pequenos pés descalços em pisos decorados e noites de silêncio à margem de um rio esquecido – com apenas o tremor de lâmpadas de óleo em belos mosaicos.