Estive no Brasil. Ou melhor: estive no Rio e em Ouro Preto. O Brasil é um continente imenso, não pude calcorreá-lo todo. Falhei a ida a São Paulo por obra do apagão aéreo. Tinha já combinado encontro com o Paulo José Miranda na Livraria da Vila e com outros amigos. Também quereria ir ver o Museu da Língua Portuguesa. Mas não foi desta. Será em breve. Estou em crer. Brasil pertence à fatalidade do meu destino.
Acontece que o angolano José Eduardo Agualusa conheceu a portuguesa Conceição Lopes (Connie Lopes, mais brasileira do que portuguesa na verdade!), amiga da brasileira Fátima Otero. Eles formaram o triângulo que simboliza África, Europa (Portugal) e América do Sul (Brasil) e inventaram a Língua Geral, uma editora que se dedica aos autores de língua portuguesa. Os livros da LG são um belo e arriscado objecto e aí estão nas livrarias brasileiras. Estive no Brasil para o lançamento desta iniciativa e participei do Fórum de Letras de Ouro Preto.
A festa do Rio foi prestigiado pelo Ministro Gil e outras vedetas da literatura, do cinema, do teatro, das artes plásticas, na Laura Alvim. Para mim o Brasil representa muito. Diria: tudo. Ganhei mais amigos nesta viagem, entre eles Gabriel o Pensador, com que andei pela madrugada do Rio e fomos dizer poesia numa livraria do Leblon.
Acho que o Ruy Guerra deu-me a melhor definição para entender esta passional relação com o Brasil: em Moçambique preparei-me para amar o Brasil. Disse-me algo semelhante um dos nomes cimeiros do Novo Cinema Brasileiro, comprade e parceiro de Chico Buarque. A verdade é que Ruy é um verdadeiro carioca nascido na antiga Lourenço Marques, hoje Maputo, a minha cidade. Encontrei amigos deles no Rio e em Ouro Preto, entre eles o Nelson Motta, que lançava um novo livro no mesmo dia da festa da LG. Walter Salles, um desses seres raros andou nessa noite pelas duas festas, um milagre, segundo me disseram, pois Valtinho (ou Waltinho?) é um homem avaro. “O homem mais procurado do Rio”, dizia uma fã, na noite da Laura Alvim. Com Nelsinho cruzei-me em Ouro Preto. Disse para ele num tom de brincadeira: “Você tem que se esforçar, cara. A galera é minha!” (Tinha gente muito legal, a Anna Grammont não me deixará mentir! Lá cruzei com a charmosa jornalista de Cabul e com o Carlos Fino, na casa do Prefeito. “Conheço” o Carlos desde os tempos de Moscovo. Aliás, quando o vi disse: “Carlos Fino, RTP, Moscovo”.)
A verdade é que Ouro Preto foi para mim uma revelação. O Fórum é uma excelente iniciativa e tivemos, numa mesa em que falamos da LG, ocasião para falar das nossas empatias. Lembro ter dito: “O Brasil está no nosso imaginário como o paraíso possível”. Aliás, não lembro, foi o Eduardo Coelho, o meu diligente editor que apontou na memória a frase e que me confessou ter ficado comovido com ela. É verdade: nós aqui, deste lado do Mundo, amamos o Brasil.
Não conhecia Minas Gerais, desconhecia Belo Horizonte. Mas tinha lido e amado muitos mineiros: Drummond antes de todos, mas também Fernando Sabino, mas também Paulo Mendes Campos. Passei como um cometa por aquela cidade belíssima de Ouro Preto, para lá tenho que voltar.
Disse mais em Ouro Preto e aqui quero repetir neste blog: “Venho aqui na esperança de que o Brasil também nos descubra e nos ame porque o amor só o é quando recíproco”. Espero que os brasileiros descubram um pouco mais de nós lendo a Mama África (saíram quatro títulos de quatro africanos: Agualusa, Mia Couto, Zetho Gonçalves e eu próprio, ilustrados por Chichorro e Malangatana (moçambicanos) e António Ole). Mas a LG lançou outros escritores, alguns deles brasileiros. Vale a pena procurá-los.
Regressei há semanas do Brasil mas ainda não me curei da viagem. Reentrei para os meus dias de Maputo, terminando as provas de um novo livro de poemas, onde vejo o Brasil nas referências a Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Toquinho, Marisa Monte, Luciana Souza. Oiço no carro Ana Carolina e Seu Jorge num belo CD ao vivo. O meu amigo Rui Pimentel empresta-me o DVD do show. Em casa, num almoço com Jimmy Dludlu, a Ana Juliana lembra-se de perguntar, enquanto ouvimos “Tom Jobim and friends” , um tema interpretado por Joe Henderson (“O Grande Amor”, que dei a ouvir ao Eduardo Coelho no aeroporto internacional António Carlos Jobim, no Rio, antes da minha partida de regresso), que o Jimmy identifica como o bom jazz man: “Nunca tocaste no Brasil? ”
O Jimmy Dludlu é um talvez o maior guitarrista de sempre entre nós e um dos reinventores do jazz na África do Sul, onde vive, na Cidade do Cabo, com grandes tradições do jazz. Digo: “Vou mandar teus CD’s para a Connie Lopes” e descobrimo-nos a cantar Tom Jobim, com lágrimas, numa exultação impossível.
Toca a “Garota de Ipanema”. Suspendemos os copos de vinho e saudamos a beleza que existe. É domingo. Recordo os lestos domingos da minha infância em que o meu pai punha a tocar no gira-discos, incansavelmente, Martinho da Vila. Foi com ele seguramente que aprendi a amar o Brasil.