Algo acontece, creio, no miolo de certos dias de nevoeiro no Porto – não falo deste nevoeiro que hoje está, que sobe do mar e se espalha pela cidade toda como um véu triste e frio, ou como um segundo céu, pardacento, escuro, hostil. O mistério, esse, acontece em certas manhãs em que uma só e compacta nuvem corre sobre o Douro e se instala, densa, entre as duas margens, dando corpo a um bloco branco de fiapos entretecidos. Este nevoeiro, enfim, que parece um corpo vivo, um réptil gasoso que se contorce entre as casas e as estradas, que passa serpenteando e lambendo as pontes, todo concentrado sobre o rio, qual compacto rolo de véus. É disso que falo, pois, desse halo branco que persiste mesmo quando na marginal já há sol, que ali fica suspenso sobre as águas, imóvel, gasoso e, porém, concreto como um muro que separa a cidade de cá da cidade de lá. Algo acontece, creio, no interior desse corpo estranho, nas dobras do alvo túnel de nuvens, bem diante dos nossos olhos e, porém, invisível. Como num desses truques dos mágicos do circo, nada na manga e... hops!
Tenho feito as minhas investigações sobre os meandros deste nevoeiro e comparado o que está antes e o que fica depois que o muro de nuvens enfim se desvanece. Anoto tudo, fotografo, faço medições, recolho amostras da água e do ar, analiso, estudo – e, porém, nada indica que algo aconteça no interior da réptil nuvem. Quando, de súbito, o grande bloco branco se dissolve no ar, ficam as mesmas casas numa margem e na outra, os mesmos carros, o mesmo brilho metálico na lâmina do rio, as mesmas gaivotas vagabundeando de asas abertas, os mesmos pescadores triste e calados, os cardumes de tainhas moendo o alimento que o esgoto traz. Tudo aparentemente igual e no seu exacto sítio, bem sei. E, todavia, há algo que se altera, um pequeno nada que se não vê, que as fotografias não captam, que não deixa rastro no ar ou na água. Nada, enfim, que alguma ciência alcance.
Experimentei já navegar entre esse nevoeiro, num bote de borracha. Percorri-o de uma ponta à outra, indo e vindo uma e outra vez. Desliguei o motor e pus-me à escuta, mas tudo o que se ouve é o ruído mortiço da cidade que ali chega distantemente, como se uma fina película isolasse deficientemente os sons que o Porto produz – isso e um cântico que mal se percebe, um rumor agudo e vago que nenhum gravador regista, composto do sussurro das marolas e do gemido dos limos, como um som em fuga. Mas nada se enxerga dentro desse nevoeiro, nada do qual se possa dizer ei-lo!, aí está o esconde a grossa nuvem.
Eu, porém, sei do que se trata. O que entre o nevoeiro acontece é o indizível, o invisível e o que não existe: o concílio das bruxas e o parto das sereias, o uivo dos lobos-do-mar e os banhos de Neptuno; congressos de golfinhos e mergulhos de adamastores; o descanso da Janaína e a eloquência da cabeça de S. Torpes; Mobby Dick e o espectral submarino das vinte mil léguas de Verne; o barco do capitão Cornelius Van Drecken e as enormes serpentes marinhas que nele se enroscam; lulas colossais e tritões; as transmutações de Nereu e os inspiradores suspiros das musas aquáticas. Toda a espécie de seres incríveis e impalpáveis se vêm reunir aqui e apenas aqui existem, entre a branca nuvem estendida sobre o rio. Para sabê-lo é preciso, antes de tudo, inexistir também e observar com os olhos de quem acredita no que não é matéria nem espírito, no que não tem peso nem tamanho. É necessário, enfim, ser um pouco doido e um pouco poeta, como as crianças e os pescadores de tainhas.
Mais do que saber, isto é o que pressinto: que entre o nevoeiro algo se oculta e que apenas o pode ver quem sabe exactamente ao que vem; que é preciso estar vigilante para surpreender o momento instantâneo em que, entre a nuvem espessa, todas as coisas ocultas se fazem visíveis, apenas um átimo antes que tudo se dissolva e o sol toque, enfim, as águas. Aqui venho, pois, um dia atrás do outro e aqui me deixo estar à espera que o túnel branco se instale sobre o rio e passe rasando a Ponte da Arrábida. Aqui venho e espero.
O que quero? Ver e tocar o mito, enxergar a lenda, cair no abismo da maravilha. Hei-de gritar para que eles me oiçam, para que eles me vejam; embarcar com o capitão Nemo e namorar Iemanjá. Se é possível? Tem de ser. Para alguma coisa hão-de servir estas manhãs de nevoeiro quando, sobre o rio, nada se move, nem as tainhas vêm morder o isco que lhes trago. Tudo é possível quando um pescador adormece e sonha.