O tesouro na casa ao lado
“Há um tesouro na casa ao lado!
- Mas não há uma casa ao lado!
- Então precisamos construir uma!”
Grouxo Marx
Domingos Jorge Velho foi o bandeirante paulista que destruiu o quilombo dos Palmares em 1649. Ele era um craque em matar pessoas, aprisionar índios, invadir terras e em fazer escravos. Ele também foi o primeiro desbravador do Piauí. Subjugou índios no Piauí, Maranhão, Pernambuco e Ceará. Também reprimiu várias tribos rebeladas na chamada Guerra dos Bárbaros, no Rio Grande do Norte e no Ceará. Por serviços prestados, Jorge Velho recebeu uma sesmaria na região das Alagoas, próximo ao Pernambuco e tornou-se criador de gado.
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Vicência Benigna Camelo Pessoa, natural de Correntes – PE, casou-se com Francisco Chagas de Azevedo Sousa, também ele filho da terra.
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Domingos Jorge Velho uniu-se a uma índia cariri e teve filhos. Sua neta, Simoa Gomes, casou-se com o Tenente-coronel Manoel Ferreira de Azevedo.
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Francisco era da décima sexta geração de descendentes de Simoa Gomes Azevedo. Ele e Vicência tiveram oito filhos. Ignácio, Pedro, Amélia (Quaticotinha), Antônio (que morreu ainda criança), Francisca (Chiquita), Hermes, Vicente, Sebastião.
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Em 1756, já viúva, Simoa Gomes de Azevedo ratificou, através de escritura pública, a doação de uma quadra das terras desmembrada do Sítio do Garcia, em benefício da Confraria das Almas, existente na matriz da Freguesia de Santo Antônio de Garanhuns, então Ararobá. Noutras palavras, ela doou as terras que seriam a cidade de Garanhuns.
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Um dos apelidos de Chiquita em criança era Pitiu, o nome de uma escrava de Francisco. Ela odiava o apelido.
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Anos mais tarde, por volta de 1762, o povoado de Ararobá passou a se chamar “Povoação de Santo Antônio de Garanhuns”. Através de uma proclamação, esta povoação passou a categoria de Município, por Carta Régia, de 10 de março de 1811. Passando a se chamar a partir de 13 de dezembro de 1813, Vila de Santo Antônio de Garanhuns.
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Chiquita casou-se com João Reggio. Foram casados quatro anos e ele morreu de febre tifóide.
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Foi o Barão de Nazaré - o deputado Provincial Silvino Guilherme de Barros - que em 1878, em visita a Vila de Garanhuns, gostou do que viu. De volta ao Recife, capital do estado, ele apresentou na Assembléia Provincial um Projeto de Lei, elevando a Vila de Santo Antônio de Garanhuns à categoria de cidade. Em 4 de fevereiro de 1879 foi sancionada a Lei nº 1309. Garanhuns vira cidade.
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Chiquita casou-se de novo com João Leite Piancó.
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A Estação Ferroviária de Garanhuns foi inaugurada em 28 de setembro de 1887. Décadas depois, a estação foi transformada em um Centro Cultural, pelo então prefeito Luiz Souto Dourado.
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Mabele nasceu na Rua Dantas Barreto em 1938. Quando tinha um ano e oito dias seu pai, João Leite Piancó, morreu de septicemia, causada por uma sinusite. Seu patrimônio foi dilapidado por parentes. Dona Chiquita, a viúva, pegou a filhinha e se mudou para São Paulo, onde foi ganhar a vida como costureira.
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Anos depois, Mabele pergunta para a irmã de criação, Laura, sobre o porquê de a mãe ter largado a cidade e ter ido embora para São Paulo, sem lutar por nada.
- Mabele, eles queriam tomar você dela.
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Em 1892 instala-se o primeiro governo autônomo de Garanhuns. O primeiro prefeito eleito do Município foi o Major Antônio da Silva Souto.
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Mabele volta para Garanhuns com sua mãe aos 10 anos.

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Mabele fez História Natural no Recife. Ela se lembra dessa época como a melhor de sua vida. Ela ia de meias finas e salto alto passear na Rua Nova.
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Mabele, faculdade terminada, recebeu convite para ir trabalhar na BAYER, na Alemanha. Pesquisa de cupins. Mas ela não tinha mais de 21anos e sua mãe tinha que assinar a autorização da viagem. Dona Chiquita não permitiu que a filha fosse embora de perto dela e não assinou droga nenhuma. Mabele ficou em Garanhuns, virou professora e casou-se com Cardoso.
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O primeiro cinema de Garanhuns em 1912, o Cine Grossi.
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Mabele e Cardoso tiveram quatro filhos: Mabelinha, Alexandre, Sara e Aurélio. Crescidos, Mabelinha e Aurélio foram embora para o Recife. Alexandre e Sara foram embora para São Paulo.

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A partir de 1887, Garanhuns passou a contar com trens e com telégrafo.
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Mabele e Alexandre na sala de casa.
- A melhor invenção do mundo é o celular.
- Por que, mamãe?
- Porque quando eu me esqueço de comprar alguma coisa, eu ligo pro Helenildo e ele traz.
- Então a maior invenção do mundo é o Helenildo, mamãe.
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O telefone chega a Garanhuns no final de maio de 1918.
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Alexandre e Hélcio viajaram juntos num começo de férias para o Recife. Eles eram colegas de faculdade. Do Recife, Hélcio iria para a casa dos pais em Olinda e Alexandre para Garanhuns. Alexandre apresentou Hélcio a Mabelinha no aeroporto. Mabelinha usava óculos de fundo de garrafa. Hélcio se casou com Mabelinha. Mabelinha não obedeceu ao médico que disse que ela não poderia ter filhos e teve dois.
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A maior tragédia de Garanhuns se chamou Hecatombe de Garanhuns ocorreu em 1917.
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Faz 10 minutos que Hélcio se peneira na sala chamando por Mabelinha.
- Mabelinha, vamos, Mabelinha. – Mabelinha está se trocando. Mabelinha tem alergia à fumaça de cigarro e reclama do fumo do pai e do irmão, enquanto a cunhada dá graças a Deus de ter tido o bom senso de não fumar durante todo o tempo que está em Garanhuns, mesmo que seus nervos e sua prosa sofram com essa decisão. Mabelinha finalmente aparece na sala. Hélcio e Mabelinha vão ao campo do Nacional, clube de futebol amador, do qual o pai de Mabelinha foi fundador. O velho levou os netos, Juliano e Davi para um jogo. Hélcio e Mabelinha saem pela porta da frente. Hélcio volta, esqueceu a carteira. Carteira no bolso, eles saem novamente. Mabelinha volta, encontrou o isqueiro do irmão Aurélio jogado no quintal. Eles saem novamente. Hélcio volta, se perguntando se além da filmadora, eles deveriam levar a outra câmera. Mas desiste e eles vão embora.
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Acontece que Júlio Brasileiro havia sido prefeito de Garanhuns de 1911 a 1913. E havia ganhado um segundo mandato em 1916. Seus desafetos políticos não paravam de publicar, aberta ou anonimamente, as muitas irregularidades de sua administração. A família Brasileiro tinha muitos aliados e seus mais apaixonados opositores eram da família Rosa – que também tinha muitos partidários.
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Juliano sabe desenhar e ganhou um concurso de desenho na escola. Seu desenho ilustrou os cartazes da festa da Paixão de Cristo. E também foi ele quem fez os cartazes do Halloween.
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Para se vingar dos que dele falavam mal, Brasileiro manda dar uma sova de bengalas e cipó de boi em Sales Vila Nova, funcionário do Cine Grossi e gente dos Rosas.
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Alexandre é casado e levou a mulher para Garanhuns pela primeira vez. Ela é mortalmente tímida e odeia qualquer reunião social, qualquer conversa, qualquer coisa que envolva qualquer pessoa. Mas ela tem se esforçado e parece estar se saindo bem. Ou não tão mal. A mulher de Alexandre é neurótica em muitas frentes diferentes.
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Humilhado, Vila Nova segue para o Recife, onde mata Brasileiro a tiros no Café Chile.
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Na a Noite de Ano Bom do ano passado, Mabele fez um leitãozinho com maçã na boca. Mabelinha teve um ataque de nervos ao ver o cadáver caramelado e muito bem temperado em cima da mesa e o cobriu com um lençol.
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Davi faz forte apache de almofada na biblioteca de voinha Mabele.
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A viúva de Brasileiro, Ana Duperron, arquiteta uma grande vingança, contratando matadores e arregimentando, para a causa, simpatizantes que tivessem coragem de “pegar num rifle”.
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Juliano cresceu 10 centímetros em um ano e não pára de comer. Hélcio tem certeza que vai tudo para os ossos.
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O caos se instala em Garanhuns. Pessoas são espancadas, casas são invadidas. Os partidários dos Rosas estão apavorados.
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O melhor amigo de Alexandre é Paulo Galindo. Eles cresceram juntos e se vêem muito pouco. Além disso tanto um quanto o outro têm alergia a telefones, correio, e-mails e qualquer tipo de comunicação humana que envolva emoção. Ou mesmo que não envolva. Alexandre e Paulo se falam pouco. Paulo vem visitar Alexandre, que passa os feriados de Natal na casa da mãe. Alexandre fica agitado. Alexandre fala em Paulo todos os dias, mesmo morando a 2500 quilômetros de distância.
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Buscando proteção, os chefes das famílias que apóiam os Rosas se refugiam na delegacia de Garanhuns, incentivados pelo juiz Abreu e Lima e o delegado Meira Lima.
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Alexandre comprou uma camiseta do clube de futebol paulista para o qual Paulo torce. Paulo é tricolor no Brasil todo. Santa Cruz, São Paulo, Fluminense, Fortaleza, Paraná Clube, Criciúma e Grêmio.
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Quatrocentos homens armados cercam a delegacia de Garanhuns e matam os treze jurados de morte por Ana Duperron que se escondiam lá dentro.
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Davi e Juliano são dois meninos tão doces, que a cunhada tem vontade de perguntar à Mabelinha como diabos eles ficaram assim. Mas tem vergonha e não pergunta. Ela espera que os filhos de seu irmão possam ser criados assim também, tão longe, no Rio de Janeiro.
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Nunca ficou provado se o juiz e o delegado agiram a mando de Ana Duperron.
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Juliano e Davi jogam futebol. Tio Alexandre é o juiz supremo.
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Mabelinha sonha em viver de artesanato. Sua cunhada sonha em viver de escrever. Mabelinha é uma executiva importante da Coca-Cola. Nada do que a cunhada de Mabelinha faz é importante. Mas Mabelinha não sabe disso.
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Rosinha, Matéria Plástica e Bicha Telefônica, foram alguns dos viados famosos em Garanhuns.
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Juliano e Davi mostraram para Tio Alexandre um novo jogo: beisebol de morcego.
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Davi sabe fazer várias posições de ioga. Seus dentes da frente estão crescendo e Hélcio acha que ele fica parecendo um ratinho.
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Garanhuns teve alguns doidos famosos. Pola, Nazaro, Maria Doida, Barbadinha, 120, Bode Cheiroso. A melhor história é a de Garapa.
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Davi, Juliano e Alexandre jogam futebol na varanda. O gol é a parede e Cardoso levanta do sofá para acabar com a farra. As paredes devem ficar limpas.
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Garapa em Garanhuns, não é caldo de cana e sim água com açúcar. Ao ver que o doidinho ia passando, os meninos na rua gritavam:
- Água!
- Açúcar!
E o maluqinho respondia:
- Mistura, filha da puta!!
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Juliano come enormes sanduíches de doce de leite. Juliano passou em todas as matérias.