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dezembro 26, 2006

O tesouro na casa ao lado

“Há um tesouro na casa ao lado!
- Mas não há uma casa ao lado!
- Então precisamos construir uma!”
Grouxo Marx


Domingos Jorge Velho foi o bandeirante paulista que destruiu o quilombo dos Palmares em 1649. Ele era um craque em matar pessoas, aprisionar índios, invadir terras e em fazer escravos. Ele também foi o primeiro desbravador do Piauí. Subjugou índios no Piauí, Maranhão, Pernambuco e Ceará. Também reprimiu várias tribos rebeladas na chamada Guerra dos Bárbaros, no Rio Grande do Norte e no Ceará. Por serviços prestados, Jorge Velho recebeu uma sesmaria na região das Alagoas, próximo ao Pernambuco e tornou-se criador de gado.

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Vicência Benigna Camelo Pessoa, natural de Correntes – PE, casou-se com Francisco Chagas de Azevedo Sousa, também ele filho da terra.

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Domingos Jorge Velho uniu-se a uma índia cariri e teve filhos. Sua neta, Simoa Gomes, casou-se com o Tenente-coronel Manoel Ferreira de Azevedo.

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Francisco era da décima sexta geração de descendentes de Simoa Gomes Azevedo. Ele e Vicência tiveram oito filhos. Ignácio, Pedro, Amélia (Quaticotinha), Antônio (que morreu ainda criança), Francisca (Chiquita), Hermes, Vicente, Sebastião.

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Em 1756, já viúva, Simoa Gomes de Azevedo ratificou, através de escritura pública, a doação de uma quadra das terras desmembrada do Sítio do Garcia, em benefício da Confraria das Almas, existente na matriz da Freguesia de Santo Antônio de Garanhuns, então Ararobá. Noutras palavras, ela doou as terras que seriam a cidade de Garanhuns.

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Um dos apelidos de Chiquita em criança era Pitiu, o nome de uma escrava de Francisco. Ela odiava o apelido.

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Anos mais tarde, por volta de 1762, o povoado de Ararobá passou a se chamar “Povoação de Santo Antônio de Garanhuns”. Através de uma proclamação, esta povoação passou a categoria de Município, por Carta Régia, de 10 de março de 1811. Passando a se chamar a partir de 13 de dezembro de 1813, Vila de Santo Antônio de Garanhuns.

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Chiquita casou-se com João Reggio. Foram casados quatro anos e ele morreu de febre tifóide.

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Foi o Barão de Nazaré - o deputado Provincial Silvino Guilherme de Barros - que em 1878, em visita a Vila de Garanhuns, gostou do que viu. De volta ao Recife, capital do estado, ele apresentou na Assembléia Provincial um Projeto de Lei, elevando a Vila de Santo Antônio de Garanhuns à categoria de cidade. Em 4 de fevereiro de 1879 foi sancionada a Lei nº 1309. Garanhuns vira cidade.

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Chiquita casou-se de novo com João Leite Piancó.

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A Estação Ferroviária de Garanhuns foi inaugurada em 28 de setembro de 1887. Décadas depois, a estação foi transformada em um Centro Cultural, pelo então prefeito Luiz Souto Dourado.

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Mabele nasceu na Rua Dantas Barreto em 1938. Quando tinha um ano e oito dias seu pai, João Leite Piancó, morreu de septicemia, causada por uma sinusite. Seu patrimônio foi dilapidado por parentes. Dona Chiquita, a viúva, pegou a filhinha e se mudou para São Paulo, onde foi ganhar a vida como costureira.

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Anos depois, Mabele pergunta para a irmã de criação, Laura, sobre o porquê de a mãe ter largado a cidade e ter ido embora para São Paulo, sem lutar por nada.

- Mabele, eles queriam tomar você dela.

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Em 1892 instala-se o primeiro governo autônomo de Garanhuns. O primeiro prefeito eleito do Município foi o Major Antônio da Silva Souto.

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Mabele volta para Garanhuns com sua mãe aos 10 anos.
Garanhuns, dezembro de 2006

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Mabele fez História Natural no Recife. Ela se lembra dessa época como a melhor de sua vida. Ela ia de meias finas e salto alto passear na Rua Nova.

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Mabele, faculdade terminada, recebeu convite para ir trabalhar na BAYER, na Alemanha. Pesquisa de cupins. Mas ela não tinha mais de 21anos e sua mãe tinha que assinar a autorização da viagem. Dona Chiquita não permitiu que a filha fosse embora de perto dela e não assinou droga nenhuma. Mabele ficou em Garanhuns, virou professora e casou-se com Cardoso.

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O primeiro cinema de Garanhuns em 1912, o Cine Grossi.

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Mabele e Cardoso tiveram quatro filhos: Mabelinha, Alexandre, Sara e Aurélio. Crescidos, Mabelinha e Aurélio foram embora para o Recife. Alexandre e Sara foram embora para São Paulo.
Natal 2006 025
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A partir de 1887, Garanhuns passou a contar com trens e com telégrafo.

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Mabele e Alexandre na sala de casa.

- A melhor invenção do mundo é o celular.

- Por que, mamãe?

- Porque quando eu me esqueço de comprar alguma coisa, eu ligo pro Helenildo e ele traz.

- Então a maior invenção do mundo é o Helenildo, mamãe.

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O telefone chega a Garanhuns no final de maio de 1918.

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Alexandre e Hélcio viajaram juntos num começo de férias para o Recife. Eles eram colegas de faculdade. Do Recife, Hélcio iria para a casa dos pais em Olinda e Alexandre para Garanhuns. Alexandre apresentou Hélcio a Mabelinha no aeroporto. Mabelinha usava óculos de fundo de garrafa. Hélcio se casou com Mabelinha. Mabelinha não obedeceu ao médico que disse que ela não poderia ter filhos e teve dois.

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A maior tragédia de Garanhuns se chamou Hecatombe de Garanhuns ocorreu em 1917.

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Faz 10 minutos que Hélcio se peneira na sala chamando por Mabelinha.

- Mabelinha, vamos, Mabelinha. – Mabelinha está se trocando. Mabelinha tem alergia à fumaça de cigarro e reclama do fumo do pai e do irmão, enquanto a cunhada dá graças a Deus de ter tido o bom senso de não fumar durante todo o tempo que está em Garanhuns, mesmo que seus nervos e sua prosa sofram com essa decisão. Mabelinha finalmente aparece na sala. Hélcio e Mabelinha vão ao campo do Nacional, clube de futebol amador, do qual o pai de Mabelinha foi fundador. O velho levou os netos, Juliano e Davi para um jogo. Hélcio e Mabelinha saem pela porta da frente. Hélcio volta, esqueceu a carteira. Carteira no bolso, eles saem novamente. Mabelinha volta, encontrou o isqueiro do irmão Aurélio jogado no quintal. Eles saem novamente. Hélcio volta, se perguntando se além da filmadora, eles deveriam levar a outra câmera. Mas desiste e eles vão embora.

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Acontece que Júlio Brasileiro havia sido prefeito de Garanhuns de 1911 a 1913. E havia ganhado um segundo mandato em 1916. Seus desafetos políticos não paravam de publicar, aberta ou anonimamente, as muitas irregularidades de sua administração. A família Brasileiro tinha muitos aliados e seus mais apaixonados opositores eram da família Rosa – que também tinha muitos partidários.

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Juliano sabe desenhar e ganhou um concurso de desenho na escola. Seu desenho ilustrou os cartazes da festa da Paixão de Cristo. E também foi ele quem fez os cartazes do Halloween.

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Para se vingar dos que dele falavam mal, Brasileiro manda dar uma sova de bengalas e cipó de boi em Sales Vila Nova, funcionário do Cine Grossi e gente dos Rosas.

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Alexandre é casado e levou a mulher para Garanhuns pela primeira vez. Ela é mortalmente tímida e odeia qualquer reunião social, qualquer conversa, qualquer coisa que envolva qualquer pessoa. Mas ela tem se esforçado e parece estar se saindo bem. Ou não tão mal. A mulher de Alexandre é neurótica em muitas frentes diferentes.

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Humilhado, Vila Nova segue para o Recife, onde mata Brasileiro a tiros no Café Chile.

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Na a Noite de Ano Bom do ano passado, Mabele fez um leitãozinho com maçã na boca. Mabelinha teve um ataque de nervos ao ver o cadáver caramelado e muito bem temperado em cima da mesa e o cobriu com um lençol.

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Davi faz forte apache de almofada na biblioteca de voinha Mabele.

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A viúva de Brasileiro, Ana Duperron, arquiteta uma grande vingança, contratando matadores e arregimentando, para a causa, simpatizantes que tivessem coragem de “pegar num rifle”.

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Juliano cresceu 10 centímetros em um ano e não pára de comer. Hélcio tem certeza que vai tudo para os ossos.

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O caos se instala em Garanhuns. Pessoas são espancadas, casas são invadidas. Os partidários dos Rosas estão apavorados.

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O melhor amigo de Alexandre é Paulo Galindo. Eles cresceram juntos e se vêem muito pouco. Além disso tanto um quanto o outro têm alergia a telefones, correio, e-mails e qualquer tipo de comunicação humana que envolva emoção. Ou mesmo que não envolva. Alexandre e Paulo se falam pouco. Paulo vem visitar Alexandre, que passa os feriados de Natal na casa da mãe. Alexandre fica agitado. Alexandre fala em Paulo todos os dias, mesmo morando a 2500 quilômetros de distância.

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Buscando proteção, os chefes das famílias que apóiam os Rosas se refugiam na delegacia de Garanhuns, incentivados pelo juiz Abreu e Lima e o delegado Meira Lima.

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Alexandre comprou uma camiseta do clube de futebol paulista para o qual Paulo torce. Paulo é tricolor no Brasil todo. Santa Cruz, São Paulo, Fluminense, Fortaleza, Paraná Clube, Criciúma e Grêmio.

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Quatrocentos homens armados cercam a delegacia de Garanhuns e matam os treze jurados de morte por Ana Duperron que se escondiam lá dentro.

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Davi e Juliano são dois meninos tão doces, que a cunhada tem vontade de perguntar à Mabelinha como diabos eles ficaram assim. Mas tem vergonha e não pergunta. Ela espera que os filhos de seu irmão possam ser criados assim também, tão longe, no Rio de Janeiro.

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Nunca ficou provado se o juiz e o delegado agiram a mando de Ana Duperron.

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Juliano e Davi jogam futebol. Tio Alexandre é o juiz supremo.

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Mabelinha sonha em viver de artesanato. Sua cunhada sonha em viver de escrever. Mabelinha é uma executiva importante da Coca-Cola. Nada do que a cunhada de Mabelinha faz é importante. Mas Mabelinha não sabe disso.
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Rosinha, Matéria Plástica e Bicha Telefônica, foram alguns dos viados famosos em Garanhuns.

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Juliano e Davi mostraram para Tio Alexandre um novo jogo: beisebol de morcego.

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Davi sabe fazer várias posições de ioga. Seus dentes da frente estão crescendo e Hélcio acha que ele fica parecendo um ratinho.

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Garanhuns teve alguns doidos famosos. Pola, Nazaro, Maria Doida, Barbadinha, 120, Bode Cheiroso. A melhor história é a de Garapa.

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Davi, Juliano e Alexandre jogam futebol na varanda. O gol é a parede e Cardoso levanta do sofá para acabar com a farra. As paredes devem ficar limpas.

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Garapa em Garanhuns, não é caldo de cana e sim água com açúcar. Ao ver que o doidinho ia passando, os meninos na rua gritavam:

- Água!

- Açúcar!

E o maluqinho respondia:

- Mistura, filha da puta!!

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Juliano come enormes sanduíches de doce de leite. Juliano passou em todas as matérias.

dezembro 19, 2006

Dentro do nevoeiro

Algo acontece, creio, no miolo de certos dias de nevoeiro no Porto – não falo deste nevoeiro que hoje está, que sobe do mar e se espalha pela cidade toda como um véu triste e frio, ou como um segundo céu, pardacento, escuro, hostil. O mistério, esse, acontece em certas manhãs em que uma só e compacta nuvem corre sobre o Douro e se instala, densa, entre as duas margens, dando corpo a um bloco branco de fiapos entretecidos. Este nevoeiro, enfim, que parece um corpo vivo, um réptil gasoso que se contorce entre as casas e as estradas, que passa serpenteando e lambendo as pontes, todo concentrado sobre o rio, qual compacto rolo de véus. É disso que falo, pois, desse halo branco que persiste mesmo quando na marginal já há sol, que ali fica suspenso sobre as águas, imóvel, gasoso e, porém, concreto como um muro que separa a cidade de cá da cidade de lá. Algo acontece, creio, no interior desse corpo estranho, nas dobras do alvo túnel de nuvens, bem diante dos nossos olhos e, porém, invisível. Como num desses truques dos mágicos do circo, nada na manga e... hops!

Tenho feito as minhas investigações sobre os meandros deste nevoeiro e comparado o que está antes e o que fica depois que o muro de nuvens enfim se desvanece. Anoto tudo, fotografo, faço medições, recolho amostras da água e do ar, analiso, estudo – e, porém, nada indica que algo aconteça no interior da réptil nuvem. Quando, de súbito, o grande bloco branco se dissolve no ar, ficam as mesmas casas numa margem e na outra, os mesmos carros, o mesmo brilho metálico na lâmina do rio, as mesmas gaivotas vagabundeando de asas abertas, os mesmos pescadores triste e calados, os cardumes de tainhas moendo o alimento que o esgoto traz. Tudo aparentemente igual e no seu exacto sítio, bem sei. E, todavia, há algo que se altera, um pequeno nada que se não vê, que as fotografias não captam, que não deixa rastro no ar ou na água. Nada, enfim, que alguma ciência alcance.

Experimentei já navegar entre esse nevoeiro, num bote de borracha. Percorri-o de uma ponta à outra, indo e vindo uma e outra vez. Desliguei o motor e pus-me à escuta, mas tudo o que se ouve é o ruído mortiço da cidade que ali chega distantemente, como se uma fina película isolasse deficientemente os sons que o Porto produz – isso e um cântico que mal se percebe, um rumor agudo e vago que nenhum gravador regista, composto do sussurro das marolas e do gemido dos limos, como um som em fuga. Mas nada se enxerga dentro desse nevoeiro, nada do qual se possa dizer ei-lo!, aí está o esconde a grossa nuvem.

Eu, porém, sei do que se trata. O que entre o nevoeiro acontece é o indizível, o invisível e o que não existe: o concílio das bruxas e o parto das sereias, o uivo dos lobos-do-mar e os banhos de Neptuno; congressos de golfinhos e mergulhos de adamastores; o descanso da Janaína e a eloquência da cabeça de S. Torpes; Mobby Dick e o espectral submarino das vinte mil léguas de Verne; o barco do capitão Cornelius Van Drecken e as enormes serpentes marinhas que nele se enroscam; lulas colossais e tritões; as transmutações de Nereu e os inspiradores suspiros das musas aquáticas. Toda a espécie de seres incríveis e impalpáveis se vêm reunir aqui e apenas aqui existem, entre a branca nuvem estendida sobre o rio. Para sabê-lo é preciso, antes de tudo, inexistir também e observar com os olhos de quem acredita no que não é matéria nem espírito, no que não tem peso nem tamanho. É necessário, enfim, ser um pouco doido e um pouco poeta, como as crianças e os pescadores de tainhas.
Mais do que saber, isto é o que pressinto: que entre o nevoeiro algo se oculta e que apenas o pode ver quem sabe exactamente ao que vem; que é preciso estar vigilante para surpreender o momento instantâneo em que, entre a nuvem espessa, todas as coisas ocultas se fazem visíveis, apenas um átimo antes que tudo se dissolva e o sol toque, enfim, as águas. Aqui venho, pois, um dia atrás do outro e aqui me deixo estar à espera que o túnel branco se instale sobre o rio e passe rasando a Ponte da Arrábida. Aqui venho e espero.

O que quero? Ver e tocar o mito, enxergar a lenda, cair no abismo da maravilha. Hei-de gritar para que eles me oiçam, para que eles me vejam; embarcar com o capitão Nemo e namorar Iemanjá. Se é possível? Tem de ser. Para alguma coisa hão-de servir estas manhãs de nevoeiro quando, sobre o rio, nada se move, nem as tainhas vêm morder o isco que lhes trago. Tudo é possível quando um pescador adormece e sonha.

dezembro 13, 2006

O Brasil está no nosso imaginário como o paraíso possível

Estive no Brasil. Ou melhor: estive no Rio e em Ouro Preto. O Brasil é um continente imenso, não pude calcorreá-lo todo. Falhei a ida a São Paulo por obra do apagão aéreo. Tinha já combinado encontro com o Paulo José Miranda na Livraria da Vila e com outros amigos. Também quereria ir ver o Museu da Língua Portuguesa. Mas não foi desta. Será em breve. Estou em crer. Brasil pertence à fatalidade do meu destino.

Acontece que o angolano José Eduardo Agualusa conheceu a portuguesa Conceição Lopes (Connie Lopes, mais brasileira do que portuguesa na verdade!), amiga da brasileira Fátima Otero. Eles formaram o triângulo que simboliza África, Europa (Portugal) e América do Sul (Brasil) e inventaram a Língua Geral, uma editora que se dedica aos autores de língua portuguesa. Os livros da LG são um belo e arriscado objecto e aí estão nas livrarias brasileiras. Estive no Brasil para o lançamento desta iniciativa e participei do Fórum de Letras de Ouro Preto.

A festa do Rio foi prestigiado pelo Ministro Gil e outras vedetas da literatura, do cinema, do teatro, das artes plásticas, na Laura Alvim. Para mim o Brasil representa muito. Diria: tudo. Ganhei mais amigos nesta viagem, entre eles Gabriel o Pensador, com que andei pela madrugada do Rio e fomos dizer poesia numa livraria do Leblon.

Acho que o Ruy Guerra deu-me a melhor definição para entender esta passional relação com o Brasil: em Moçambique preparei-me para amar o Brasil. Disse-me algo semelhante um dos nomes cimeiros do Novo Cinema Brasileiro, comprade e parceiro de Chico Buarque. A verdade é que Ruy é um verdadeiro carioca nascido na antiga Lourenço Marques, hoje Maputo, a minha cidade. Encontrei amigos deles no Rio e em Ouro Preto, entre eles o Nelson Motta, que lançava um novo livro no mesmo dia da festa da LG. Walter Salles, um desses seres raros andou nessa noite pelas duas festas, um milagre, segundo me disseram, pois Valtinho (ou Waltinho?) é um homem avaro. “O homem mais procurado do Rio”, dizia uma fã, na noite da Laura Alvim. Com Nelsinho cruzei-me em Ouro Preto. Disse para ele num tom de brincadeira: “Você tem que se esforçar, cara. A galera é minha!” (Tinha gente muito legal, a Anna Grammont não me deixará mentir! Lá cruzei com a charmosa jornalista de Cabul e com o Carlos Fino, na casa do Prefeito. “Conheço” o Carlos desde os tempos de Moscovo. Aliás, quando o vi disse: “Carlos Fino, RTP, Moscovo”.)

A verdade é que Ouro Preto foi para mim uma revelação. O Fórum é uma excelente iniciativa e tivemos, numa mesa em que falamos da LG, ocasião para falar das nossas empatias. Lembro ter dito: “O Brasil está no nosso imaginário como o paraíso possível”. Aliás, não lembro, foi o Eduardo Coelho, o meu diligente editor que apontou na memória a frase e que me confessou ter ficado comovido com ela. É verdade: nós aqui, deste lado do Mundo, amamos o Brasil.

Não conhecia Minas Gerais, desconhecia Belo Horizonte. Mas tinha lido e amado muitos mineiros: Drummond antes de todos, mas também Fernando Sabino, mas também Paulo Mendes Campos. Passei como um cometa por aquela cidade belíssima de Ouro Preto, para lá tenho que voltar.

Disse mais em Ouro Preto e aqui quero repetir neste blog: “Venho aqui na esperança de que o Brasil também nos descubra e nos ame porque o amor só o é quando recíproco”. Espero que os brasileiros descubram um pouco mais de nós lendo a Mama África (saíram quatro títulos de quatro africanos: Agualusa, Mia Couto, Zetho Gonçalves e eu próprio, ilustrados por Chichorro e Malangatana (moçambicanos) e António Ole). Mas a LG lançou outros escritores, alguns deles brasileiros. Vale a pena procurá-los.

Regressei há semanas do Brasil mas ainda não me curei da viagem. Reentrei para os meus dias de Maputo, terminando as provas de um novo livro de poemas, onde vejo o Brasil nas referências a Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Toquinho, Marisa Monte, Luciana Souza. Oiço no carro Ana Carolina e Seu Jorge num belo CD ao vivo. O meu amigo Rui Pimentel empresta-me o DVD do show. Em casa, num almoço com Jimmy Dludlu, a Ana Juliana lembra-se de perguntar, enquanto ouvimos “Tom Jobim and friends” , um tema interpretado por Joe Henderson (“O Grande Amor”, que dei a ouvir ao Eduardo Coelho no aeroporto internacional António Carlos Jobim, no Rio, antes da minha partida de regresso), que o Jimmy identifica como o bom jazz man: “Nunca tocaste no Brasil?

O Jimmy Dludlu é um talvez o maior guitarrista de sempre entre nós e um dos reinventores do jazz na África do Sul, onde vive, na Cidade do Cabo, com grandes tradições do jazz. Digo: “Vou mandar teus CD’s para a Connie Lopes” e descobrimo-nos a cantar Tom Jobim, com lágrimas, numa exultação impossível.

Toca a “Garota de Ipanema”. Suspendemos os copos de vinho e saudamos a beleza que existe. É domingo. Recordo os lestos domingos da minha infância em que o meu pai punha a tocar no gira-discos, incansavelmente, Martinho da Vila. Foi com ele seguramente que aprendi a amar o Brasil.

dezembro 5, 2006

Uma história de Alexandria (1)

Em Alexandria – onde ainda vaga a alma lunática do Bicórnio – eu conheci um egípcio daqueles de formação helênica, extremamente educados, que sentiam a falta de tudo. “Estou amargurado pelas coisas que faltam”, ele dizia. “Meu pai foi assim”.

Ele veio me procurar. Disse que tinha dois motivos: queria publicar um anúncio, em inglês, no jornal onde eu escrevia coisas que ele admirava – explicou – e mostrou um dos meus artigos, com um texto sublinhado: “Sinto falta da réstea de luz sobre a parede branca – uma mancha a desbotar a outra (e a parte do decote, na foto) e dos cães que ouviam se quebrarem as folhas debaixo dos seus saltos altos, no quintal onde sempre vão soprar – na lembrança – os ventos dos livros de aventura lidos no banco de concreto recoberto de azulejos que permaneciam frios da noite. Os perfumes e os chocolates que não se fabricavam mais. Um deles – dos perfumes – tinha um rótulo que sugeria os minaretes de Istambul na noite (justo: chamava-se ‘Topkapi’) contra a massa escuro do Chifre (engano: chamava-se ‘Bósforo’ – porque já havia um perfume chamado ‘Corno de Ouro’)”...

O egípcio até se parecia com Kaváfis, fisicamente – talvez porque todos os alexandrinos cultos se pareçam com “Baltazar” e outros perfis que tiramos dos livros, antes de defrontar um ou outro saído de sob alguma cortina do cenário real de uma cidade muito mudada.

A geração desses homens da passagem do século dezenove para o vinte, conheceu uma modernidade transida pelo senso do passado, de modo que todas as suas ações – e mesmo alegrias – eram meio toldadas por uma sombra sem idade e alguma porção daquela melancolia dos que esperam a morte porém não a desejam, é claro.

Havia uma cidade morrendo – definitivamente – naquele cenário que Lawrence Durrell tentou evocar, ainda vivo, nos romances do quarteto falhado justamente porque Alexandria só em parte era a cidade que ele quis trazer para a ficção inglesa, entre os carnavais de máscaras conspiratórias e os bairros de vícios sem idade (mas é boa a captação do país interior dos coptas e há uma ou outra cena enfumaçada de incenso e neblina entre os bordéis e os barcos, que lembram ser Alexandria a cidade do vício que cultuava – ainda – o lodo dos deuses esquecidos do Delta, da Núbia e do Sudão distante, onde a religião se tornava selvageria)...

Bem, eu falava do egípcio que conheci, e que se dizia da família de Thuban Abulfaiz. Mais não posso dizer do nome sob o qual, suponho, deve seguir vivendo, neste momento, no bairro dos jardins soterrados.

Foi ele quem me contou a história, exatamente da forma como vai aqui narrada – talvez com algo da fantasia de um comerciante nato, surpreendentemente verídica e sincera, por se referir a um acontecimento da juventude do seu pai, descendente do bisneto de Abuazz – “uma das Colunas do Sufismo – , chamado Abulfaiz, fundador da ordem Malamati.

A história é esta:

O pai de Abdul-Qadir (o nome é fictício, a fim de resguardar a identidade do egípcio) apaixonara-se, na juventude, por uma pequena cabeça de pedra calcária. Tinha o nariz inteiro e uma coroa alta, intacta. Naquele tempo, antes de Kemal Ataturk (esta história se passa em Constantinopla, quando a cidade ainda não trocara o nome do imperador pelo dourado vago de “Istambul”), não havia o zelo das antiguidades como patrimônio inalienável do país - zelo que se tornaria quase uma obsessão para os Jovens Turcos. Escavando, os camponeses às vezes achavam coisas antigas, que vendiam a compatriotas e a estrangeiros interessados.

A pequena cabeça fora encontrada por um sujeito ao escavar quase no quintal da sua casa, em algum lugar da fronteira com a Síria, entre a areia molhada e a tristeza de todas as coisas sepultadas que já estiveram em uso, completas e novas (e beleza – de pedra e carne – era vendida e comprada desde o início dos tempos até aquele ano em que o pai de Abdul-Qadir veio a se apaixonar pela cabeça vista num antiquário).

Ele não era um arqueólogo – não havia arqueólogos em Scutari - e nem era negociante no ramo de antiguidades, mas apenas encontrara (e comprara) a cabeça, quando ainda no tempo dos devaneios de solteiro, antes do casamento com Azyadée, que teria quebrado a cabeça egípcia (porque era uma cabeça egípcia), se fosse ainda no tempo do noivado ciumento... O pai de Abdul-Qadir era um homem letrado, que sabia das descobertas de Carter e de outros famosos arqueólogos trabalhando no país dos seus antepassados. Assim, comprara o objeto – que não era barato – sob um fascínio estranho e inesperado. O preço pago, em todo caso, consumira boa parte das economias do rapaz sério, preparando-se para o futuro e por isso vigilante das próprias despesas, no caderno de contas onde assinalara o excesso:

“Cabeça: x. PAGA à vista.
Comentário: Perdi a minha”.

Levada para casa, a peça fizera aumentar uma certa vocação alexandrina para a melancolia, que era, no seu pai, também do temperamento de um moço quase triste, na Constantinopla que clamava: “Vem! Vem gozar dos prazeres que não são muitos, na vida cujo minuto é um piscar de fantasma no olho do vento sobre a água!”...

Longe desses prazeres, pouco se permitira dormir, na primeira noite, tão próximo da cabeça com o seu sorriso apenas enunciado na pedra – adivinhado no escuro. Podia haver até quem a achasse feia, porém aquela escultura era, para ele, como a presença de uma estrela apagada, cuja luz secreta viajasse da sala para a sua cama. A cabeça parecia trazer, do muito remoto, o rumor de pequenos pés descalços em pisos decorados e noites de silêncio à margem de um rio esquecido – com apenas o tremor de lâmpadas de óleo em belos mosaicos.

Palmeiras sem Raízes e Gatos Voadores

Apertado ao lado de minha mãe na poltrona marrom, ouvia-a dizer que as árvores tinham profundas raízes e que se alimentavam da terra, da água e da luz. Fiquei imaginando as raízes penetrando lentamente na terra. O que seria mais comprido – a árvore do chão até a última folha balançando ao vento ou a árvore do chão até a mais solitária raiz que tivesse penetrado, talvez inadvertidamente, mais fundo na terra? Como a raiz encontraria seu caminho sem ver nada, na escuridão onde também seríamos enterrados? E se a terra fosse muito dura? E como era aquele negócio de se alimentar de luz? Minha mãe me explicou inutilmente a fotossíntese, a produção de oxigênio durante o dia e de alguma coisa ruim à noite, mas eu, como quase não saía de casa depois que o sol se punha, não achei aquilo digno de preocupação. O que eu entendi perfeitamente foi a questão da água: quando chovia, as raízes bebiam tudo. Dava para notar porque as poças d`água não duravam muito tempo. Era óbvio que as árvores chupavam tudo.

Certo dia, estava chegando em casa com meu pai, dei-me conta de que tinha que conversar tudo de novo com minha mãe. Acontece que nossa rua, a Av. João Pessoa, atravessava o Arroio Dilúvio através de uma ponte não muito bonita. Claro que eu sempre soubera que havia palmeiras sobre a ponte, mas como não dispunha de tanta informação sobre as árvores, nunca pensara no problema das raízes. Concluí que tinha que informar minha mãe que nem todas as árvores precisavam delas e que as da nossa ponte viviam apenas de luz e água.

Falei com ela. Estranho, sua reação esteve longe de ser uma admissão de seu erro. Antes ficou assustada com as palmeiras: afinal, elas poderiam cair durante uma ventania e eu costumava brincar com meus amigos pelas redondezas. Os adultos eram mesmo desatentos – será que ela nunca vira as palmeiras sobre a ponte e nunca pensara no perigo? E ela morava ali desde 1951!

Comentei o assunto com meus amigos, mas logo esquecemos daquelas coisas arbóreas que, comparadas com nossas novas descobertas, não tinham nenhum atrativo. Descobrimos que a ponte era uma tremenda diversão. Dava para descer por suas laterais e caminhar sob ela! A brincadeira de esconde-esconde logo mudou muito. Todos queriam se ocultar ali e, muitas vezes, vi meninos negociando se era permitido ou não se esconder debaixo da ponte. Quem estava procurando tinha pouca chance. O cara descia por um lado e nós, vendo sua sombra, fugíamos a toda velocidade, subindo pelo outro lado.

E a ponte tinha outra característica: como quase todas as pontes, ela passava sobre a água e nós tínhamos muitos gatos em nosso bairro. Os gatos eram aqueles odiosos bichos que arranhavam nossos cães e que tinham a fama de serem limpos e de saberem cair. Ora, a ponte sobre a água lamacenta e ainda pouco poluída – estamos falando sobre o período entre os anos de 1966 e 1970 -, serviria para que os gatos pudessem comprovar se sabiam mesmo cair e para que constatássemos em quanto tempo eles voltariam a ser os bichos limpinhos e insuportáveis de sempre.

Nunca uma geração de gatos teve tanto medo dos meninos da avenida João Pessoa. Hoje, sou quase indiferente a eles, mas, naquela época, participava feliz das espetaculares caçadas àqueles animais repugnantes. Encontrávamos os gatos onde estivessem, trabalhávamos arduamente por nossa diversão e pelo progresso do conhecimento humano. Eu era dos mais entusiasmados. Havia um, bem branquinho, que ficava hesitando entre mendigar comida na frente da casa de um casal de velhos e correr o perigo de ser capturado por nós. Aos amantes destas excrescências da natureza, asseguro que nunca batemos neles, nunca os maltratamos. Mesmo! Sempre os levávamos em segurança, apenas procurando escapar dos arranhões, mordidas e ouvindo com altivez aquele som ridículo que emitem com a finalidade de avisar quando estão a fim de briga.

Os vôos eram lindos. Eventualmente, caíam com certa elegância. Porém, o mais das vezes, caíam mexendo desesperadamente as pernas – como se corressem no ar - e muitas vezes entravam na água de costas, de uma forma que desnudava a mentira que nos tinham ensinado. O que valera para as raízes das árvores, passara a valer para os gatos. Eles caíam como caíam. E nadavam de uma forma muito mais feia do que os cães, saíam da água como as baratas que fugiam dos chinelos de minha mãe e nós dávamos risadas, descansávamos um pouco e íamos procurar outros. Afinal, precisávamos de uma boa amostragem para confirmar nossas teses.

Asseguramos que nenhum animal foi maltratado ou veio a falecer durante a pesquisa. Não consideramos tortura o estresse e a adrenalina... Os que saíam lanhados ou com rinite alérgica eram humanos. Aprecie com moderação. Se persistirem os sintomas, vá a outro blog. Este texto foi desenvolvido a partir de material reciclável.