Trouxeste o musgo desde esse tempo em que imaginámos
O tecelão de almas
Entre viadutos e luas à procura do mundo.
Seguíamos pela estrada e era já pausada
A saudade
Das amoras e dos moinhos de vento.
Saudade escarnecida pela luz da cidade
Em forma de cunha
Como se fosse um presépio sem magos,
Onde
Alheios
Estivemos desde sempre.
Uma luz muito ténue, ofuscada, londrina e veneziana, mas sem crimes nem máscaras. Uma fileira de candeeiros adormecidos como se fossem candeias a sobrevoar uma lagoa de pedra compacta.
Por cima, ergue-se o muro branquíssimo onde avulta a penumbra e, um após outro, vultos indistintos, manchas tardias, ruídos vazios, gargalhadas ocas e as ameias da muralha recortadas para que os pombos adormecessem.
A densidade da noite esvai os perfis e recoloca assim o memorialismo na iluminação artificial que produz eco nas absides. Este cubismo noctívago propaga num sono remoto a grande quantidade de mirantes onde abundam organismos de vasos, soleiras sem rosto e trepadeiras discretas. Mas a sagacidade da noite é sobretudo fotográfica: há um travelling misterioso que liga cada olhar à ténue chama que se demora sobre S. Braz. S. Francisco ou Santo Antão.
A noite de Évora cobre-se de musgos rendilhados, nuvens volumosas e sonoridades de bronze que escondem o cobalto límpido e vivo do dia.
À noite, o que se acende em Évora é o nome tardio: ruas estreitas, sucessivas, habitadas por filigranas de cal.
Sinos, gerânios e heras suspensas.
Travessas nublosas que escalam até às estrelas e que elevam, na sua intimidade, figuras sonâmbulas consumidas entre gerações e palavras interrompidas pelo tempo.
Há um fôlego especial no fio da noite eborense que cresce na enrugada seda das muralhas e que ascende pelo molhe dos pátios até ao cálice negro onde torreões e pináculos segregam prodígios.