NA VILA SÔNIA NÃO TEM INFLAÇÃO!
A Vila Sônia, essa terra de contrastes... falar de inflação na Vila Sônia vai ser bico, pensei eu, arrogante como sempre, afinal, ao contrário de outros avanços científicos, como molho pesto e bombons recheados de creme de menta, a tal da inflação já chegou aqui, sim senhores, como não.
E posto que estamos muitíssimo bem equipados, nesse arborizado e progressista bairro da cidade de São Paulo, contamos com vários estabelecimentos comerciais, todos praticantes ativos e entusiastas da inflação, modalidade que, se inda não consta da lista olímpica de esportes, deveria constar.
Coisa que sempre me causa espécie, nas raras ocasiões em que me distraio e assisto ou, Deus me perdoe, leio jornais (tento manter minha mente entorpecida com livros de baixa qualidade, consultas ao tarólogo e séries americanas de TV, o máximo de tempo permitido pela convenção de Genebra) é esse negócio de "não teve inflação", " a inflação não subiu" ou, rárárá, "a inflação baixou aqui ou ali".
Minha reação imediata é sempre ligar pra nossa excelentíssima primeira dama e perguntar onde diabos ela faz supermercado, porque aqui na Vila Sônia, terras de encantos mis, os preços sobem que é uma beleza. O problema é que Dona Mariza Letícia num me atende, de modos que ainda não descobri o truque.
Bem, fazendo rigorosa e científica pesquisa, por dentre as variadas casas de comércio vilasonianas, descubro que a lata de leite condensado, que mês passado custava "A", esse mês custa "B" - e bota "B" nisso, em tudo quanto é botequim.
Senão vejamos: na Vendinha da Curva, a lata de leite condensado de nossa predileção, em abril, custava 1, 76 reais. Ou reaus, como diz o dono. Em maio a amiga dona de casa pagará por ela 1,89 reais. Na Mercearia da Japonesa o aumento foi de, pasmem vocês, 0,50 centavos: de 1,55, para 2,05 reais! No Mercadinho da Esquina de Cima o aumento foi quase imperceptível, mas foi: de 1,87 para 1,89 reais. E finalmente, na Venda do Gordo, o supermercado de eleição do meu velho e saudoso pai, aprazível estabelecimento comercial que conta com 3 gôndolas inteirinhas, o meu doce favorito, que em abril custava 1,77 reais, estava sendo oferecido por 1,94 reais.
Indignada e louca por um cafezinho parei para um dedinho de prosa com o Gordo. O Gordo, comerciante de visão, mantém uma garrafa térmica debaixo do balcão, para ofertar um cafezinho muito honesto aos seus clientes fiéis. É comum, ao aceitar o café, ouvir-se o grito do Gordo que, desarvorado, grita para sua mulher "Fulanaaaa, cadê o copo?". Entenderam? Um copo só para todos os clientes, isso é que é controle de gastos, meus filhos. Bão, dividi minhas impressões sobre a pesquisa com o Gordo, que sabiamente passou a mão na minha cabeça e disse:
- Bibi (ele me conhece desde menina, e me chama como meu pai me chamava), ma che inflação, bella? Em que outro supermercado do mundo você é tão bem tratada, bella?
Ah, foi só aí que entendi. Na Vila Sônia não tem inflação. A gente paga uma "taxa simpatia". Então, tudo bem.