volta para a página principal | outros textos deste autor


14 nov2006

Fal Vitiello Azevedo

Na Vila Sônia não tem inflação

NA VILA SÔNIA NÃO TEM INFLAÇÃO!

A Vila Sônia, essa terra de contrastes... falar de inflação na Vila Sônia vai ser bico, pensei eu, arrogante como sempre, afinal, ao contrário de outros avanços científicos, como molho pesto e bombons recheados de creme de menta, a tal da inflação já chegou aqui, sim senhores, como não.

E posto que estamos muitíssimo bem equipados, nesse arborizado e progressista bairro da cidade de São Paulo, contamos com vários estabelecimentos comerciais, todos praticantes ativos e entusiastas da inflação, modalidade que, se inda não consta da lista olímpica de esportes, deveria constar.

Coisa que sempre me causa espécie, nas raras ocasiões em que me distraio e assisto ou, Deus me perdoe, leio jornais (tento manter minha mente entorpecida com livros de baixa qualidade, consultas ao tarólogo e séries americanas de TV, o máximo de tempo permitido pela convenção de Genebra) é esse negócio de "não teve inflação", " a inflação não subiu" ou, rárárá, "a inflação baixou aqui ou ali".
Minha reação imediata é sempre ligar pra nossa excelentíssima primeira dama e perguntar onde diabos ela faz supermercado, porque aqui na Vila Sônia, terras de encantos mis, os preços sobem que é uma beleza. O problema é que Dona Mariza Letícia num me atende, de modos que ainda não descobri o truque.

Bem, fazendo rigorosa e científica pesquisa, por dentre as variadas casas de comércio vilasonianas, descubro que a lata de leite condensado, que mês passado custava "A", esse mês custa "B" - e bota "B" nisso, em tudo quanto é botequim.

Senão vejamos: na Vendinha da Curva, a lata de leite condensado de nossa predileção, em abril, custava 1, 76 reais. Ou reaus, como diz o dono. Em maio a amiga dona de casa pagará por ela 1,89 reais. Na Mercearia da Japonesa o aumento foi de, pasmem vocês, 0,50 centavos: de 1,55, para 2,05 reais! No Mercadinho da Esquina de Cima o aumento foi quase imperceptível, mas foi: de 1,87 para 1,89 reais. E finalmente, na Venda do Gordo, o supermercado de eleição do meu velho e saudoso pai, aprazível estabelecimento comercial que conta com 3 gôndolas inteirinhas, o meu doce favorito, que em abril custava 1,77 reais, estava sendo oferecido por 1,94 reais.

Indignada e louca por um cafezinho parei para um dedinho de prosa com o Gordo. O Gordo, comerciante de visão, mantém uma garrafa térmica debaixo do balcão, para ofertar um cafezinho muito honesto aos seus clientes fiéis. É comum, ao aceitar o café, ouvir-se o grito do Gordo que, desarvorado, grita para sua mulher "Fulanaaaa, cadê o copo?". Entenderam? Um copo só para todos os clientes, isso é que é controle de gastos, meus filhos. Bão, dividi minhas impressões sobre a pesquisa com o Gordo, que sabiamente passou a mão na minha cabeça e disse:

- Bibi (ele me conhece desde menina, e me chama como meu pai me chamava), ma che inflação, bella? Em que outro supermercado do mundo você é tão bem tratada, bella?

Ah, foi só aí que entendi. Na Vila Sônia não tem inflação. A gente paga uma "taxa simpatia". Então, tudo bem.


Publicado às 14:48 | Comente [10]


Autores

Milton Ribeiro
Porto Alegre / Brasil


Fal Vitiello Azevedo
São Paulo / Brasil


Luiz Ruffato
São Paulo / Brasil


Nelson Saúte
Maputo / Moçambique


Rui Parada
Macau / China


Luís Graça
Lisboa / Portugal


Manuel Jorge Marmelo
Porto / Portugal



Outros Lugares

Verbeat Blogs

O Coração Gasta-se

Rascunho



Arquivos

abril 2007
março 2007
fevereiro 2007
janeiro 2007
dezembro 2006
novembro 2006
outubro 2006
setembro 2006
agosto 2006
julho 2006
junho 2006
maio 2006
abril 2006
março 2006
fevereiro 2006




RSS 2.0