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21 nov2006

Fernando Monteiro

Kyoto (3)

Tomás conhecera toda a Europa nos livros, descansando nos jardins antigos em frente à Gare de Lyon – de onde a sutileza partia para o refino dos ambientes acima dos Apeninos, até se apertar de frio nos bosques dos duelos aposentados, em face da pátina de mármore de óperas cantadas por primas-donas abandonadas por amantes. A Europa de Tomás ficava para trás a cada ano, ele sabia e temia – e não viajava por medo de não reconhecer os ambientes burgueses, as esperas nas salas, as partidas dos claustros para os cemitérios em fiacres envernizados pela fumaça do inverno. Dava a Europa “por vista, sentida e vivida” nas páginas de horas úmidas, dois lances acima de uma escada de mogno que o levara para as vastidões onde o velho continente acabava e começava a “Eurásia da Rússia” (como dizia o doutor delegado). Viajando com eles – com Thomas Mann, Marcel Proust, Henry James, Virginia Woolf, Knut Hansum, D’Annunzio e os nomes menores, de algumas miniaturas em espuma-do-mar (Montherlant, Roger Matin du Gard) –, Tomás vira a Europa pelo vidro dos viajantes sem pressa, sabendo que o tempo cancelava esse olhar e o seu objeto, à cada mudança de trem e de estação que o fazia adiar a viagem, verdadeira, ao continente real das decepções. Assim, nunca comprara a passagem de verdade. Sabia que não ia comprar, desde o início da vida, e, por fim, já não possuía o dinheiro para uma viagem no seu estilo aristocrático. Fecha parêntese.

Ficou o cheque, então, emoldurado, como parte da decoração do Kyoto, entre os cactos, as montanhas e os macacos à espera (de quê?).

Não era o único cheque pregado naquelas paredes. Antes que pensem que poderia haver, nelas, entre as montanhas grisalhas e os expectantes símios, uma enfiada de cheques sem fundo emoldurados para a vergonha dos fregueses faltosos com as dívidas, devo dizer que nada dessas vulgaridades poluiria jamais o Kyoto contaminado, sim, por outros miasmas – mas não pelo da usura dos protestos de Pound. Ou seja: nenhum “voador”, nenhum “borrachudo” era exibido ali no recinto do restaurante confuso (mas não a tal ponto). Sei que isso é a prática comum em restaurantes revoltados com os calotes de pequenas somas... mas o que havia, o segundo e último cheque emoldurado entre os cactos, era um cheque americano, autêntico, para Marianne Moore, endossado pela grande poeta.

Isso mesmo. Está lá a assinatura dela, nas costas da ordem de pagamento de dois dólares e onze centavos que “Mary E. Cooley” passou, para Marianne, contra o Ann Arbor Bank (agência da South University), da cidade de Ann Arbor, Michigan, no dia 19 de maio de 1955. A autora de Nevertheless assinou atrás, autografando o documento que viera parar naquela moldura vidro-com-vidro (para se ver ambas as faces do cheque), por algum motivo estranho demais para se perguntar por ele, numa noite qualquer de rotina, na cidade que permite que um restaurante decorado com um cheque pago à miss Moore decrete a própria morte no meio da indiferença que não mais permite a leitura do poema inacabado que Tomás deixou, justamente sobre a raridade na parede do Kyoto. Que vai fechar.

Se for verdade, se de fato eu vou perder o único lugar público humano (do espaço desumano que vai se tornando a cidade), devo então me levantar e sair para pegar, de volta, ao menos a preciosidade que me pertenceu, recebido de Giovanna que, por sua vez, o recebeu do antiquário italiano que colecionava autógrafos de poetas contemporâneos.

Giovanna pensava que o cheque – apesar de tão raso – fosse valioso pelo autógrafo de alguma milionária famosa. E quando lhe expliquei que Mary E. Cooley não era ninguém, ela então me ofertou o pedaço de papel com a sua cifra, seus carimbos e assinaturas na face principal e nas costas, porque nada lhe convenceria do valor de raridades da poesia (que Giovanna detestava).

Entretanto, parece-me impossível ir ao Kyoto, na vigência das suas últimas horas, apenas para trazer de volta um cheque emoldurado. Mary E. Cooley passou por “checheira” (ainda se usa a expressão?), durante todo este tempo em que o quadrinho esteve pregado no restaurante – enquanto a assinatura de Marianne Moore era ignorada, nas costas do documento, voltadas para a parede. A poeta escapou de ganhar fama de caloteira, mas permaneceu na sombra dos seus poemas fluindo debaixo da água – o que faz jus à poesia secreta da autora de The Fish (melhor do que o The Fish da sua amiga Elizabeth Bishop, que viveu numa confortável casa de Ouro Preto, e com quem Tomás antipatizava fortemente).

Foi ele, aliás, quem sugeriu emoldurar também o cheque-presente de Giovanna, para que ficasse ao lado daquele remetido pela Gulbenkian (o tal irresgatável). Durante anos, ambos foram vistos como sem fundo, no fundo falso de um restaurante que nada tinha a ver com o Japão, apesar de se chamar Kyoto. O cônsul Nakamura nunca quis fornecer nenhuma das cartas originais de Kurosawa para formar um trio de documentos internacionais abaixo da linha de cactos, e acho que fez bem. Hoje, meu cheque de Marianne (e Giovanna) está meio desmaiado sob o vidro sujo de cocô de moscas, e não irei me levantar para resgatar, apressado, autógrafo nenhum da vida que risca budas do mapa, apaga lembranças e fecha portas e restaurantes.

Ficarei sem saber quem foi Mary Cooley, e longe – mais longe do que nunca – de tentar vender o documento para aumentar a poupança que poderia financiar, um dia, uma nova viagem a Roma (a fim de rever o túmulo da mais linda puta nascida na antiga região etrusca).

O Kyoto vai fechar. Outras coisas já fecharam. Giovanna está encerrada na tumba, o nome completo certamente já borrado do limo que escurece as campas. Seus clientes, o antiquário dos autógrafos, os que morreram sem rever os parentes, os rapazes que libertaram Roma quando Giovanna viu correr um fio de sangue entre as suas pernas de menina, tudo que dorme e se fecha nas colinas, os pássaros vermelhos e a avenca na sombra, tudo passa – tudo.

E cada encontro é único e nunca será repetido, na roda de gelo do tempo que derrete cada giro, cada volta rápida ou lentamente sobre si mesma – porque o presente apaga o que passou, desenho de óleo na água enferrujada que seca numa frigideira do Kyoto deserto onde também passamos uns pelos outros, pela “única vez perdida”, conforme a imagem do poema de Marianne Moore dedicado a uma amiga.


Publicado às 09:38 | Comente [4]


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