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28 nov2006

Luís Graça

AMADEO & MODIGLIANI (Jesus ganhou-me no ténis de mesa)

Aqui por Lisboa está tudo mais ou menos na mesma. Amadeu de Souza-Cardoso e Modigliani resolveram assombrar as instalações da Fundação Calouste Gulbenkian com uma assombrosa exposição, em exibição até 15 de Janeiro de 2007.

E perdi um jogo de ténis de mesa com João de Jesus Nunes (trabalhador dos correios) nas instalações do centro de formação da Associação de Ténis de Mesa de Lisboa, na Av.Ceuta, ao lado da esquadra da polícia e do posto de abastecimento de gasolina. Com vista para dois contentores do lixo.

Não sei quantas pessoas na vida já dispuseram de match-point nos seus encontros com Jesus. Eu desperdicei o meu. E não foi a primeira vez que perdi com Jesus. Desta feita, perdi por 3-2, sucumbindo não-pesarosamente por 13-11 no último set, depois de ter estado a vencer por 11-10 e com o serviço a meu favor. Jesus está baixo, sociável, sem barba, cabelo incaracterístico e é preciso ter cuidado com o seu smash de direita. Falhei. E depois fui tomar banho. O colega de Jesus na equipa dos CTT (Correios de Portugal) ficou de piquete às limpezas, mas não me disse: “Levanta-te e anda”, para me pressionar a abandonar os balneários. Mesmo sabendo que eu serei um dos lázaros da minha série do Campeonato do Inatel da 3ª categoria.

E para não falhar o match-point na exposição do Amadeo (como daquela vez em que deixei para o último dia o “Constelation”, do Miró, e fui ao museu em dia de folga), pus uma baiana cá da minha convivência a tiracolo e masturbei-lhe a mente com os meus ignorantes comentários em frente às telas dos mestres: Picasso, Amadeo, Modigliani, Lyonel Feininger.

A minha salvadorenha companheira de delírios contemplativos gostou particularmente do facto de poder andar com um banquinho metálico de um lado para o outro, sentando-se a mirar os quadros com pose intelectual e burguesa. Quando descobrimos que o catálogo custava 72 euros não nos sentimos nada burgueses. Trouxemos para casa a folhinha de papel que explica tudo resumidamente. Dei-lhe um lápis doirado que custava um euro.

Mas este Amadeo já tem direito a marketing específico: canecas, canetas, postais, magnetos para frigorífico, o fogo-de-artifício todo. E quem é cliente do banco BPI não paga entrada. Três euros.

Abriu a exposição do Amadeo, fechou uma livraria especializada em livros de banda desenhada, em Coimbra (Dr.Kartoon). E a sua dona, uma belga chamada Fanny, radicada em Portugal, regressou a Bruxelas. Coisas que nos deixam tristes. Mas um grupo de quatro amigos tomou conta da livraria e a aventura vai continuar. No que toca à livraria. A editora Witloof, outro projecto da Fanny (que editou muitas coisas boas, entre as quais o álbum de Gradimir Smujda sobre Toulouse Lautrec) deve ter-se finado. Vou ter saudades da banca da Dr.Kartoon no Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora, que este ano foi na Brandoa, no Fórum Luiz de Camões.

Deixemos o Camões e pensemos um pouco em Cervantes e D.Quixote. No que toca ao (Instituto) Cervantes, gostei bastante dos quatro dias que lá passei a ouvir poesia. Com agrado particular ao escutar Pere Rovira e Cuenca. Quanto aos poetas portugueses que participaram neste encontro ibérico, já os conhecia todos.

Só não gostei de ouvir o filho de um poeta colombiano todo satisfeito a barulhar durante a sessão. Mas não havia nada a fazer. Um telemóvel ainda se pode desligar, um bebé colombiano (filho de um dos poetas) é mais difícil. O miúdo contava com a cumplicidade da organização, como se tivesse a faculdade mafiosa de lhes fazer uma proposta que não pudessem recusar. O bebé não respeitou a poesia de ninguém, nem a do pai.

Muito menos ligou à magnífica exposição do átrio do Instituto Cervantes, sobre a guerra civil de Espanha, com fotos pouco conhecidas do Hemingway e belos cartazes de propaganda em tamanho natural.

Quem fala em Cervantes, fala em D. Quixote. E eu também. No caso, da editora D.Quixote. Não do D.Quixote de La Mancha. Embora eu ache que haverá algum caval(h)eiro a fazer uma triste figura, deixando sair da prestigiada editora de Lobo Antunes os seus editores mais antigos. É a vertigem da mudança, da imagem a tomar conta da sabedoria.

A Livraria Ponto de Encontro, no Saldanha, coração da cidade, fechou as portas da sua casa-mãe, despediu alguns funcionários, mandou vir espanhóis que andam pelo mundo todo a reformar “espaços”, contratou novos funcionários (inexperientes), vestiu-lhes T-shirts a dizer “Book House” e abriu outra vez ao público, com os livros todos arrumados de maneira diferente.

Encolhi os ombros e segui para a Biblioteca do Museu República e Resistência, em Benfica. Invectivado pelo ex-presidente da Associação Escadote Cultural a declamar uma vez mais os obscenos poemas do meu obsceno livro de poesia pornográfica e satírica “De boas erecções está o Inferno cheio”.

Estou inocente. A culpa é toda dos pintores. Do ex-presidente Henrique Tigo (que se vai casar a 2 de Dezembro e exige gravata rosa a todos os convidados) e do Carruço. O Tigo já me tinha ouvido a declamar nas inaugurações das suas exposições. “Envenenou” a cabeça ao Carruço.

E eu lá fui.

Foi um êxito.

A caminho de casa encontrei um amigo jornalista, que trabalha na área dos jogos de vídeo e volta e meia está de abalada para as americanas paragens da cidade dos anjos.

Ainda lhe devo uma posta de bacalhau, que apostei durante o Mundial de Futebol, arriscando uma anti-patriótica vitória holandesa no jogo com Portugal.

O Fred agora tem um hamster com hábitos de ginásio. Vai para a roda às 3 da madrugada e só pára lá para as 7, intervalando para beber água, a fim de evitar a desidratação.

--- Olha lá, ó Fred, o rato não te faz barulho para dormir?
--- Já me habituei.

É como eu.

Vou-me habituando a esta Lisboa.


Publicado às 03:46 | Comente [3]


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