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14 nov2006

Manuel Jorge Marmelo

A doce memória da pornografia

Não há como negar que a última crónica do Milton Ribeiro tem a virtude de comover qualquer sujeito que tenha visto algum cinema antes de o cinema se ter escapulido para os centros comerciais e ter passado a preferir a companhia das pipocas e dos descomunais baldes de coca-cola. Todos nos lembramos das velhas salas das nossas cidades e podemos traçar a melancólica cronologia do sucessivo encerramento dessas amistosas e desconfortáveis plateias. Sim, também no Porto os velhos cinemas fecharam as portas: o Batalha e a Sala Bebé, o Trindade e o Estúdio Foco, o Nun’Álvares e o Júlio Dinis, o Charlot e o Lumiére (salas A e L), o Pedro Cem e o Águia d’Ouro, o Olympia e o Terço, o Rayone e o Estúdio 400, o Vale Formoso...

A influência do cinema na história da cidade é tão profunda que uma das expressões mais características dos portuenses é uma referência a uma sala de cinema: quando confrontados com uma história demasiado exagerada, com uma óbvia mentira, costumamos comentar que “vai no Batalha”, querendo com isto dizer que não adianta tentarem convencerem-nos da verdade da história, que tudo aquilo é filme – como os que, noutros tempos, passavam no histórico Cine Batalha, agora remodelado, mas ainda sem qualquer programação cinematográfica que se veja.

Outro arreigado sinal cultural dos portuenses ligado ao cinema é uma anedota: dois sujeitos encontram-se na rua, num domingo, e um deles pergunta ao amigo se vai, nesse dia, ao futebol:

- Entom? Bais às Antas?
- Nom. Bou ber os colhões do Nabarone?
-Os colhões do Nabarone?
- Sim, pá. O filme!
- Ó meu murcóm! Num é os colhões do Nabarone. É os Canhões de Nabarone.
- Ai é?! Entom bou às Antas.

Como a introdução erudita já vai longa, passo ao assunto que dá título a esta crónica: a pornografia. Isto porque a minha memória de uma das antigas salas de cinema do Porto, o Cine Júlio Dinis, está ligada ao único filme que, ainda adolescente, ali vi, “A História de Joana”, de 1975, realizado por Gerard Damiano (sim, o mesmo do célebre “Garganta Funda”).

Fui, refira-se, levado por um amigo que alardeava mais à vontade nas coisas da pornografia e que, para além de ser consumidor regular da revista “Gina”, guardava em casa uma considerável colecção de filmes para adultos em bobines de 8 mm. Já não recordo quase nada do filme, excepto um ambiente meio “gore” e obscuro e a pretensão artística de certos planos, entremeados pelas habilidades sexuais de Jamie Gillis e Terry Hall (mas isto tive que ir pesquisar ao google). Hoje sei o quão “soft” era a pornografia de “A História de Joana”, mas, na época, algures nos anos 1980, a incursão cinematográfica ao Júlio Deniz (como ainda está escrito o nome do escritor na placa do edifício) assumiu foros de alta transgressão, coroada pelos intumescimentos corporais considerados normais naquelas circunstâncias.

Quando, há não muito tempo, passei diante do “Cine Júlio Deniz”, na Rua de Costa Cabral, e vi que está transformado em local de culto de uma qualquer seita religiosa, não pude deixar de sorrir com a doce memória da minha estreia pública nas coisas da pornografia. Creio, aliás, que não voltei a arriscar ver filmes daquele teor na companhia de estranhos. Mas, lembrando-me deste episódio e da actual utilização da sala, sorri levemente – sorri, enfim, um daqueles sorrisos que acompanham, às vezes, a saudade – não a saudade desse quase inconsciente momento pornográfico, mas do adolescente que então foi ver “A História de Joana”, inocente ainda e só escassamente pervertido pela realidade. Ali, enquanto sorria, recordo-me de me ter questionado se, ao menos, os pastores do actual culto tiveram o cuidado de mandar benzer o Júlio Dinis antes de terem começado a salvar almas num sítio onde tantas outras se transviaram.


Publicado às 13:30 | Comente [3]


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