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novembro 28, 2006

AMADEO & MODIGLIANI (Jesus ganhou-me no ténis de mesa)

Aqui por Lisboa está tudo mais ou menos na mesma. Amadeu de Souza-Cardoso e Modigliani resolveram assombrar as instalações da Fundação Calouste Gulbenkian com uma assombrosa exposição, em exibição até 15 de Janeiro de 2007.

E perdi um jogo de ténis de mesa com João de Jesus Nunes (trabalhador dos correios) nas instalações do centro de formação da Associação de Ténis de Mesa de Lisboa, na Av.Ceuta, ao lado da esquadra da polícia e do posto de abastecimento de gasolina. Com vista para dois contentores do lixo.

Não sei quantas pessoas na vida já dispuseram de match-point nos seus encontros com Jesus. Eu desperdicei o meu. E não foi a primeira vez que perdi com Jesus. Desta feita, perdi por 3-2, sucumbindo não-pesarosamente por 13-11 no último set, depois de ter estado a vencer por 11-10 e com o serviço a meu favor. Jesus está baixo, sociável, sem barba, cabelo incaracterístico e é preciso ter cuidado com o seu smash de direita. Falhei. E depois fui tomar banho. O colega de Jesus na equipa dos CTT (Correios de Portugal) ficou de piquete às limpezas, mas não me disse: “Levanta-te e anda”, para me pressionar a abandonar os balneários. Mesmo sabendo que eu serei um dos lázaros da minha série do Campeonato do Inatel da 3ª categoria.

E para não falhar o match-point na exposição do Amadeo (como daquela vez em que deixei para o último dia o “Constelation”, do Miró, e fui ao museu em dia de folga), pus uma baiana cá da minha convivência a tiracolo e masturbei-lhe a mente com os meus ignorantes comentários em frente às telas dos mestres: Picasso, Amadeo, Modigliani, Lyonel Feininger.

A minha salvadorenha companheira de delírios contemplativos gostou particularmente do facto de poder andar com um banquinho metálico de um lado para o outro, sentando-se a mirar os quadros com pose intelectual e burguesa. Quando descobrimos que o catálogo custava 72 euros não nos sentimos nada burgueses. Trouxemos para casa a folhinha de papel que explica tudo resumidamente. Dei-lhe um lápis doirado que custava um euro.

Mas este Amadeo já tem direito a marketing específico: canecas, canetas, postais, magnetos para frigorífico, o fogo-de-artifício todo. E quem é cliente do banco BPI não paga entrada. Três euros.

Abriu a exposição do Amadeo, fechou uma livraria especializada em livros de banda desenhada, em Coimbra (Dr.Kartoon). E a sua dona, uma belga chamada Fanny, radicada em Portugal, regressou a Bruxelas. Coisas que nos deixam tristes. Mas um grupo de quatro amigos tomou conta da livraria e a aventura vai continuar. No que toca à livraria. A editora Witloof, outro projecto da Fanny (que editou muitas coisas boas, entre as quais o álbum de Gradimir Smujda sobre Toulouse Lautrec) deve ter-se finado. Vou ter saudades da banca da Dr.Kartoon no Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora, que este ano foi na Brandoa, no Fórum Luiz de Camões.

Deixemos o Camões e pensemos um pouco em Cervantes e D.Quixote. No que toca ao (Instituto) Cervantes, gostei bastante dos quatro dias que lá passei a ouvir poesia. Com agrado particular ao escutar Pere Rovira e Cuenca. Quanto aos poetas portugueses que participaram neste encontro ibérico, já os conhecia todos.

Só não gostei de ouvir o filho de um poeta colombiano todo satisfeito a barulhar durante a sessão. Mas não havia nada a fazer. Um telemóvel ainda se pode desligar, um bebé colombiano (filho de um dos poetas) é mais difícil. O miúdo contava com a cumplicidade da organização, como se tivesse a faculdade mafiosa de lhes fazer uma proposta que não pudessem recusar. O bebé não respeitou a poesia de ninguém, nem a do pai.

Muito menos ligou à magnífica exposição do átrio do Instituto Cervantes, sobre a guerra civil de Espanha, com fotos pouco conhecidas do Hemingway e belos cartazes de propaganda em tamanho natural.

Quem fala em Cervantes, fala em D. Quixote. E eu também. No caso, da editora D.Quixote. Não do D.Quixote de La Mancha. Embora eu ache que haverá algum caval(h)eiro a fazer uma triste figura, deixando sair da prestigiada editora de Lobo Antunes os seus editores mais antigos. É a vertigem da mudança, da imagem a tomar conta da sabedoria.

A Livraria Ponto de Encontro, no Saldanha, coração da cidade, fechou as portas da sua casa-mãe, despediu alguns funcionários, mandou vir espanhóis que andam pelo mundo todo a reformar “espaços”, contratou novos funcionários (inexperientes), vestiu-lhes T-shirts a dizer “Book House” e abriu outra vez ao público, com os livros todos arrumados de maneira diferente.

Encolhi os ombros e segui para a Biblioteca do Museu República e Resistência, em Benfica. Invectivado pelo ex-presidente da Associação Escadote Cultural a declamar uma vez mais os obscenos poemas do meu obsceno livro de poesia pornográfica e satírica “De boas erecções está o Inferno cheio”.

Estou inocente. A culpa é toda dos pintores. Do ex-presidente Henrique Tigo (que se vai casar a 2 de Dezembro e exige gravata rosa a todos os convidados) e do Carruço. O Tigo já me tinha ouvido a declamar nas inaugurações das suas exposições. “Envenenou” a cabeça ao Carruço.

E eu lá fui.

Foi um êxito.

A caminho de casa encontrei um amigo jornalista, que trabalha na área dos jogos de vídeo e volta e meia está de abalada para as americanas paragens da cidade dos anjos.

Ainda lhe devo uma posta de bacalhau, que apostei durante o Mundial de Futebol, arriscando uma anti-patriótica vitória holandesa no jogo com Portugal.

O Fred agora tem um hamster com hábitos de ginásio. Vai para a roda às 3 da madrugada e só pára lá para as 7, intervalando para beber água, a fim de evitar a desidratação.

--- Olha lá, ó Fred, o rato não te faz barulho para dormir?
--- Já me habituei.

É como eu.

Vou-me habituando a esta Lisboa.

Noites

Trouxeste o musgo desde esse tempo em que imaginámos
O tecelão de almas
Entre viadutos e luas à procura do mundo.
Seguíamos pela estrada e era já pausada
A saudade
Das amoras e dos moinhos de vento.
Saudade escarnecida pela luz da cidade
Em forma de cunha
Como se fosse um presépio sem magos,
Onde
Alheios
Estivemos desde sempre.

Uma luz muito ténue, ofuscada, londrina e veneziana, mas sem crimes nem máscaras. Uma fileira de candeeiros adormecidos como se fossem candeias a sobrevoar uma lagoa de pedra compacta.

Por cima, ergue-se o muro branquíssimo onde avulta a penumbra e, um após outro, vultos indistintos, manchas tardias, ruídos vazios, gargalhadas ocas e as ameias da muralha recortadas para que os pombos adormecessem.

A densidade da noite esvai os perfis e recoloca assim o memorialismo na iluminação artificial que produz eco nas absides. Este cubismo noctívago propaga num sono remoto a grande quantidade de mirantes onde abundam organismos de vasos, soleiras sem rosto e trepadeiras discretas. Mas a sagacidade da noite é sobretudo fotográfica: há um travelling misterioso que liga cada olhar à ténue chama que se demora sobre S. Braz. S. Francisco ou Santo Antão.

A noite de Évora cobre-se de musgos rendilhados, nuvens volumosas e sonoridades de bronze que escondem o cobalto límpido e vivo do dia.

À noite, o que se acende em Évora é o nome tardio: ruas estreitas, sucessivas, habitadas por filigranas de cal.

Sinos, gerânios e heras suspensas.

Travessas nublosas que escalam até às estrelas e que elevam, na sua intimidade, figuras sonâmbulas consumidas entre gerações e palavras interrompidas pelo tempo.

Há um fôlego especial no fio da noite eborense que cresce na enrugada seda das muralhas e que ascende pelo molhe dos pátios até ao cálice negro onde torreões e pináculos segregam prodígios.

novembro 21, 2006

Kyoto (3)

Tomás conhecera toda a Europa nos livros, descansando nos jardins antigos em frente à Gare de Lyon – de onde a sutileza partia para o refino dos ambientes acima dos Apeninos, até se apertar de frio nos bosques dos duelos aposentados, em face da pátina de mármore de óperas cantadas por primas-donas abandonadas por amantes. A Europa de Tomás ficava para trás a cada ano, ele sabia e temia – e não viajava por medo de não reconhecer os ambientes burgueses, as esperas nas salas, as partidas dos claustros para os cemitérios em fiacres envernizados pela fumaça do inverno. Dava a Europa “por vista, sentida e vivida” nas páginas de horas úmidas, dois lances acima de uma escada de mogno que o levara para as vastidões onde o velho continente acabava e começava a “Eurásia da Rússia” (como dizia o doutor delegado). Viajando com eles – com Thomas Mann, Marcel Proust, Henry James, Virginia Woolf, Knut Hansum, D’Annunzio e os nomes menores, de algumas miniaturas em espuma-do-mar (Montherlant, Roger Matin du Gard) –, Tomás vira a Europa pelo vidro dos viajantes sem pressa, sabendo que o tempo cancelava esse olhar e o seu objeto, à cada mudança de trem e de estação que o fazia adiar a viagem, verdadeira, ao continente real das decepções. Assim, nunca comprara a passagem de verdade. Sabia que não ia comprar, desde o início da vida, e, por fim, já não possuía o dinheiro para uma viagem no seu estilo aristocrático. Fecha parêntese.

Ficou o cheque, então, emoldurado, como parte da decoração do Kyoto, entre os cactos, as montanhas e os macacos à espera (de quê?).

Não era o único cheque pregado naquelas paredes. Antes que pensem que poderia haver, nelas, entre as montanhas grisalhas e os expectantes símios, uma enfiada de cheques sem fundo emoldurados para a vergonha dos fregueses faltosos com as dívidas, devo dizer que nada dessas vulgaridades poluiria jamais o Kyoto contaminado, sim, por outros miasmas – mas não pelo da usura dos protestos de Pound. Ou seja: nenhum “voador”, nenhum “borrachudo” era exibido ali no recinto do restaurante confuso (mas não a tal ponto). Sei que isso é a prática comum em restaurantes revoltados com os calotes de pequenas somas... mas o que havia, o segundo e último cheque emoldurado entre os cactos, era um cheque americano, autêntico, para Marianne Moore, endossado pela grande poeta.

Isso mesmo. Está lá a assinatura dela, nas costas da ordem de pagamento de dois dólares e onze centavos que “Mary E. Cooley” passou, para Marianne, contra o Ann Arbor Bank (agência da South University), da cidade de Ann Arbor, Michigan, no dia 19 de maio de 1955. A autora de Nevertheless assinou atrás, autografando o documento que viera parar naquela moldura vidro-com-vidro (para se ver ambas as faces do cheque), por algum motivo estranho demais para se perguntar por ele, numa noite qualquer de rotina, na cidade que permite que um restaurante decorado com um cheque pago à miss Moore decrete a própria morte no meio da indiferença que não mais permite a leitura do poema inacabado que Tomás deixou, justamente sobre a raridade na parede do Kyoto. Que vai fechar.

Se for verdade, se de fato eu vou perder o único lugar público humano (do espaço desumano que vai se tornando a cidade), devo então me levantar e sair para pegar, de volta, ao menos a preciosidade que me pertenceu, recebido de Giovanna que, por sua vez, o recebeu do antiquário italiano que colecionava autógrafos de poetas contemporâneos.

Giovanna pensava que o cheque – apesar de tão raso – fosse valioso pelo autógrafo de alguma milionária famosa. E quando lhe expliquei que Mary E. Cooley não era ninguém, ela então me ofertou o pedaço de papel com a sua cifra, seus carimbos e assinaturas na face principal e nas costas, porque nada lhe convenceria do valor de raridades da poesia (que Giovanna detestava).

Entretanto, parece-me impossível ir ao Kyoto, na vigência das suas últimas horas, apenas para trazer de volta um cheque emoldurado. Mary E. Cooley passou por “checheira” (ainda se usa a expressão?), durante todo este tempo em que o quadrinho esteve pregado no restaurante – enquanto a assinatura de Marianne Moore era ignorada, nas costas do documento, voltadas para a parede. A poeta escapou de ganhar fama de caloteira, mas permaneceu na sombra dos seus poemas fluindo debaixo da água – o que faz jus à poesia secreta da autora de The Fish (melhor do que o The Fish da sua amiga Elizabeth Bishop, que viveu numa confortável casa de Ouro Preto, e com quem Tomás antipatizava fortemente).

Foi ele, aliás, quem sugeriu emoldurar também o cheque-presente de Giovanna, para que ficasse ao lado daquele remetido pela Gulbenkian (o tal irresgatável). Durante anos, ambos foram vistos como sem fundo, no fundo falso de um restaurante que nada tinha a ver com o Japão, apesar de se chamar Kyoto. O cônsul Nakamura nunca quis fornecer nenhuma das cartas originais de Kurosawa para formar um trio de documentos internacionais abaixo da linha de cactos, e acho que fez bem. Hoje, meu cheque de Marianne (e Giovanna) está meio desmaiado sob o vidro sujo de cocô de moscas, e não irei me levantar para resgatar, apressado, autógrafo nenhum da vida que risca budas do mapa, apaga lembranças e fecha portas e restaurantes.

Ficarei sem saber quem foi Mary Cooley, e longe – mais longe do que nunca – de tentar vender o documento para aumentar a poupança que poderia financiar, um dia, uma nova viagem a Roma (a fim de rever o túmulo da mais linda puta nascida na antiga região etrusca).

O Kyoto vai fechar. Outras coisas já fecharam. Giovanna está encerrada na tumba, o nome completo certamente já borrado do limo que escurece as campas. Seus clientes, o antiquário dos autógrafos, os que morreram sem rever os parentes, os rapazes que libertaram Roma quando Giovanna viu correr um fio de sangue entre as suas pernas de menina, tudo que dorme e se fecha nas colinas, os pássaros vermelhos e a avenca na sombra, tudo passa – tudo.

E cada encontro é único e nunca será repetido, na roda de gelo do tempo que derrete cada giro, cada volta rápida ou lentamente sobre si mesma – porque o presente apaga o que passou, desenho de óleo na água enferrujada que seca numa frigideira do Kyoto deserto onde também passamos uns pelos outros, pela “única vez perdida”, conforme a imagem do poema de Marianne Moore dedicado a uma amiga.

novembro 14, 2006

Na Vila Sônia não tem inflação

NA VILA SÔNIA NÃO TEM INFLAÇÃO!

A Vila Sônia, essa terra de contrastes... falar de inflação na Vila Sônia vai ser bico, pensei eu, arrogante como sempre, afinal, ao contrário de outros avanços científicos, como molho pesto e bombons recheados de creme de menta, a tal da inflação já chegou aqui, sim senhores, como não.

E posto que estamos muitíssimo bem equipados, nesse arborizado e progressista bairro da cidade de São Paulo, contamos com vários estabelecimentos comerciais, todos praticantes ativos e entusiastas da inflação, modalidade que, se inda não consta da lista olímpica de esportes, deveria constar.

Coisa que sempre me causa espécie, nas raras ocasiões em que me distraio e assisto ou, Deus me perdoe, leio jornais (tento manter minha mente entorpecida com livros de baixa qualidade, consultas ao tarólogo e séries americanas de TV, o máximo de tempo permitido pela convenção de Genebra) é esse negócio de "não teve inflação", " a inflação não subiu" ou, rárárá, "a inflação baixou aqui ou ali".
Minha reação imediata é sempre ligar pra nossa excelentíssima primeira dama e perguntar onde diabos ela faz supermercado, porque aqui na Vila Sônia, terras de encantos mis, os preços sobem que é uma beleza. O problema é que Dona Mariza Letícia num me atende, de modos que ainda não descobri o truque.

Bem, fazendo rigorosa e científica pesquisa, por dentre as variadas casas de comércio vilasonianas, descubro que a lata de leite condensado, que mês passado custava "A", esse mês custa "B" - e bota "B" nisso, em tudo quanto é botequim.

Senão vejamos: na Vendinha da Curva, a lata de leite condensado de nossa predileção, em abril, custava 1, 76 reais. Ou reaus, como diz o dono. Em maio a amiga dona de casa pagará por ela 1,89 reais. Na Mercearia da Japonesa o aumento foi de, pasmem vocês, 0,50 centavos: de 1,55, para 2,05 reais! No Mercadinho da Esquina de Cima o aumento foi quase imperceptível, mas foi: de 1,87 para 1,89 reais. E finalmente, na Venda do Gordo, o supermercado de eleição do meu velho e saudoso pai, aprazível estabelecimento comercial que conta com 3 gôndolas inteirinhas, o meu doce favorito, que em abril custava 1,77 reais, estava sendo oferecido por 1,94 reais.

Indignada e louca por um cafezinho parei para um dedinho de prosa com o Gordo. O Gordo, comerciante de visão, mantém uma garrafa térmica debaixo do balcão, para ofertar um cafezinho muito honesto aos seus clientes fiéis. É comum, ao aceitar o café, ouvir-se o grito do Gordo que, desarvorado, grita para sua mulher "Fulanaaaa, cadê o copo?". Entenderam? Um copo só para todos os clientes, isso é que é controle de gastos, meus filhos. Bão, dividi minhas impressões sobre a pesquisa com o Gordo, que sabiamente passou a mão na minha cabeça e disse:

- Bibi (ele me conhece desde menina, e me chama como meu pai me chamava), ma che inflação, bella? Em que outro supermercado do mundo você é tão bem tratada, bella?

Ah, foi só aí que entendi. Na Vila Sônia não tem inflação. A gente paga uma "taxa simpatia". Então, tudo bem.

A doce memória da pornografia

Não há como negar que a última crónica do Milton Ribeiro tem a virtude de comover qualquer sujeito que tenha visto algum cinema antes de o cinema se ter escapulido para os centros comerciais e ter passado a preferir a companhia das pipocas e dos descomunais baldes de coca-cola. Todos nos lembramos das velhas salas das nossas cidades e podemos traçar a melancólica cronologia do sucessivo encerramento dessas amistosas e desconfortáveis plateias. Sim, também no Porto os velhos cinemas fecharam as portas: o Batalha e a Sala Bebé, o Trindade e o Estúdio Foco, o Nun’Álvares e o Júlio Dinis, o Charlot e o Lumiére (salas A e L), o Pedro Cem e o Águia d’Ouro, o Olympia e o Terço, o Rayone e o Estúdio 400, o Vale Formoso...

A influência do cinema na história da cidade é tão profunda que uma das expressões mais características dos portuenses é uma referência a uma sala de cinema: quando confrontados com uma história demasiado exagerada, com uma óbvia mentira, costumamos comentar que “vai no Batalha”, querendo com isto dizer que não adianta tentarem convencerem-nos da verdade da história, que tudo aquilo é filme – como os que, noutros tempos, passavam no histórico Cine Batalha, agora remodelado, mas ainda sem qualquer programação cinematográfica que se veja.

Outro arreigado sinal cultural dos portuenses ligado ao cinema é uma anedota: dois sujeitos encontram-se na rua, num domingo, e um deles pergunta ao amigo se vai, nesse dia, ao futebol:

- Entom? Bais às Antas?
- Nom. Bou ber os colhões do Nabarone?
-Os colhões do Nabarone?
- Sim, pá. O filme!
- Ó meu murcóm! Num é os colhões do Nabarone. É os Canhões de Nabarone.
- Ai é?! Entom bou às Antas.

Como a introdução erudita já vai longa, passo ao assunto que dá título a esta crónica: a pornografia. Isto porque a minha memória de uma das antigas salas de cinema do Porto, o Cine Júlio Dinis, está ligada ao único filme que, ainda adolescente, ali vi, “A História de Joana”, de 1975, realizado por Gerard Damiano (sim, o mesmo do célebre “Garganta Funda”).

Fui, refira-se, levado por um amigo que alardeava mais à vontade nas coisas da pornografia e que, para além de ser consumidor regular da revista “Gina”, guardava em casa uma considerável colecção de filmes para adultos em bobines de 8 mm. Já não recordo quase nada do filme, excepto um ambiente meio “gore” e obscuro e a pretensão artística de certos planos, entremeados pelas habilidades sexuais de Jamie Gillis e Terry Hall (mas isto tive que ir pesquisar ao google). Hoje sei o quão “soft” era a pornografia de “A História de Joana”, mas, na época, algures nos anos 1980, a incursão cinematográfica ao Júlio Deniz (como ainda está escrito o nome do escritor na placa do edifício) assumiu foros de alta transgressão, coroada pelos intumescimentos corporais considerados normais naquelas circunstâncias.

Quando, há não muito tempo, passei diante do “Cine Júlio Deniz”, na Rua de Costa Cabral, e vi que está transformado em local de culto de uma qualquer seita religiosa, não pude deixar de sorrir com a doce memória da minha estreia pública nas coisas da pornografia. Creio, aliás, que não voltei a arriscar ver filmes daquele teor na companhia de estranhos. Mas, lembrando-me deste episódio e da actual utilização da sala, sorri levemente – sorri, enfim, um daqueles sorrisos que acompanham, às vezes, a saudade – não a saudade desse quase inconsciente momento pornográfico, mas do adolescente que então foi ver “A História de Joana”, inocente ainda e só escassamente pervertido pela realidade. Ali, enquanto sorria, recordo-me de me ter questionado se, ao menos, os pastores do actual culto tiveram o cuidado de mandar benzer o Júlio Dinis antes de terem começado a salvar almas num sítio onde tantas outras se transviaram.

novembro 7, 2006

O Marabá está morto

Não há mais cinemas de rua de Porto Alegre. Todos os cinemas se internaram nos shoppings e no Centros "Culturais". À noite, não há mais placas luminosas anunciando filmes, às vezes faltando letras. Além, disto, os cinemas reduziram seu tamanho. Não há mais aquelas imensas salas nas quais funcionários com lanterninhas na mão nos indicavam os lugares livres. A televisão, o VHS, o DVD e a falta de espaço, tempo e charme transformaram nossas salas em coisinhas diminutas, de preço alto e bonitinhas, mas com pouco a mostrar na tela. Os filmes mudaram, tornaram-se infantis, acelerados, meio bestas. Suas fórmulas passaram a se repetir como os sapatos à venda nos shoppings e alguns são criados como em série, como Big Macs.

Mas a época do Marabá era diferente. O Marabá era um cinema que ficava em um bairro contíguo ao centro da cidade. O mais próximo, se considerarmos que nosso centro é, na verdade, uma ponta enfiada no rio-lagoa-estuário Guaíba. O Marabá não tinha nenhum charme, não era freqüentado por mulheres elegantes que deixavam rastros não de ódio, mas de perfume atrás de si. Essas iam a outros lugares. Nenhuma surpresa nisto, pois o Marabá, à princípio, só passava reprises e porcarias. Os filmes mais artísticos que tinha visto lá foram as obras-primas kitsch de Jack Arnold: O Monstro da Lagoa Negra, O incrível homem que encolheu e -- como esquecer dos gritos da mocinha? -- A Revanche do Monstro. O enorme cinema ficava na rua Cel. Genuíno, 210, próximo à Av. José do Patrocínio. Só que, um dia, cansado de tanto passar filmes ruins, alguém enlouqueceu no Marabá e começou a passar somente grandes filmes em programas duplos. Eram apenas duas sessões -- uma iniciava às 14h e outra às 20h -- mas, meus amigos, que sessões! Um belo dia, estando eu na casa dos quinze anos, abri o jornal e li que o Marabá passava A Noite, de Antonioni, e Viridiana (*), de Buñuel, em seu programa duplo. Talvez a nova geração desconheça a expressão "programa duplo". É o seguinte: semanalmente, eram apresentados dois filmes com um pequeno intervalo no meio para irmos ao banheiro e ao bar comprar balas, fumar, conversar, beber, namorar ou simplesmente esticar as pernas. Só que os programas duplos apresentavam normalmente filmes pornográficos ou de pancadaria. Nunca coisas daquele calibre.

Eu e um bando de loucos por cinema começamos a acorrer ao vetusto Marabá. Aposentados e desocupados também pagavam o ingresso baratíssimo do cinema não muito limpo. Grupos de estudantes vinham ver e rever filmes enquanto matavam aulas. Minha sessão habitual era a das 14h; formávamos uma peculiar fauna de jovens secundaristas, universitários, velhos e desempregados. Lembro de ter saído muitas vezes rapidamente de casa, batido a porta, lembro de pegar e pagar o ônibus, de parar nas imediações do centro e de correr como Catherine, Jules e Jim (ou Lola, para os mais jovens) na direção do cinema. Comigo, chegavam outros esbaforidos. Trocávamos um cumprimento rápido e entrávamos. Comigo, algumas vezes veio Maria Cristina, minha primeira namorada; quando víamos os filmes pela primeira vez, não protagonizávamos grandes cenas de amor nas poltronas desconfortáveis de encosto de madeira, deixávamos para fazer isto em frente a sua casa, na rua Santana. No máximo, trocávamos alguns beijos apaixonados no intervalo -- afinal, estávamos ali pelo cinema. Porém, quando conseguíamos ir duas vezes na mesma semana, a segunda tarde era dedicada quase que inteiramente ao amor. Foi numa cadeira do Marabá -- ou em duas, mais precisamente -- que minhas mãos e boca tiveram seu primeiro contato com o seio feminino. Inesquecível. Não entrarei em detalhes sobre tudo o que fiz pela primeira vez no Marabá, mas não exagerem na imaginação, pois nossa primeira relação sexual, a minha e a dela, ocorreu numa noite, atrás do sofá da sala de sua casa... Mas voltemos ao cinema.

Depois vieram outros programas duplos. Houve Gritos e Sussurros (Bergman) e Amarcord (Fellini), Jules e Jim (Truffaut) e Ascensor para o Cadafalso (Malle), O Mensageiro (Losey)e Petúlia, um Demônio de Mulher (Lester), Janela Indiscreta e Um corpo que cai (ambos de Hitchcock), Cidadão Kane e A Marca da Maldade (ambos de Welles), Paixões que alucinam (Fuller) e O Sétimo Selo (Bergman), O Magnífico (de Broca) e A Malvada (All About Eve, de Mankewicz), West Side Story (Wise-Robbins) e O Criado (Losey), e, comprovando que a loucura tomara conta do programador, houve Andrei Rublev (Tarkovski) e Acossado (Godard), o que deixou nossas bundas quadradas por longo tempo. Em 1975, após um programa duplo que apresentava Contos da Lua Vaga (Mizoguchi) e Morangos Silvestres (Bergman), comecei a ter aulas à tarde e a estudar para o exame vestibular. Planejava voltar ao Marabá quando entrasse na universidade, em 1976. Só que, neste ínterim, o Marabá morreu para virar garagem. Sim, após Dillinger está morto (Ferreri) fazer dupla com Um Caso de Amor ou O Drama da Funcionária dos Correios (Makavejev) começou a demolição.

Não há mais cinemas de rua em Porto Alegre, mas também não há nenhuma cinemateca alucinada e radical como o Marabá. Quando as salas menores pareciam ter o poder de reabilitar para nós a gloriosa história do cinema, algo as trouxe para a isonômica mediocridade dos blockbusters. Resta-nos o egoísmo do DVD, resta-nos ver os filmes em nossa casa, às vezes na cama, podendo a sessão ser interrompida pelo telefone ou pela campainha da porta. Apesar das imagens perfeitas, não há o ritual de ir ao cinema, não há a sala escura onde somos ininterrompíveis, nem -- perversão minha -- o divino cheiro de mofo do Marabá, hoje substituído pela fuligem dos autómoveis e pelos gritos dos manobristas.

(*) Aquele Viridiana tinha uma curiosidade que muito nos fez pensar. O filme começava com todos os atores falando espanhol, depois, subitamente, todos aderiam ao francês. Só as legendas permaneciam na língua de Camões. Alguns espectadores desejavam discutir esta característica do filme. Descobrimos depois, conversando no saguão do cinema, que houvera uma troca de rolos por parte da distribuidora e que naquele momento, em Recife, talvez Fernando Monteiro estivesse vendo o filme com sua primeira metade em francês e a segunda em espanhol.