Ele odeia a mãe dele. Odeia. Descobriu isso há muito tempo e, claro, não contou a ninguém. Hoje em dia ele acha que sempre soube disso, ele odeia aquela velha. A velhinha cheira a pomada e a malhas de lã – sim, malhas de lã têm um cheiro. Ele odeia a velha, seu sotaque do Brás (que ela tenta disfarçar) e seu cabelo amarelado. Pensando bem, do cabelo amarelado ele tem nojo. Odeia suas certezas, sua fragilidade. Ele odeia cada centímetro quadrado daquela maldita velha. A velha não mora com ele, graças a Deus, a velha tem a sua própria casa. Ele odeia ter que dirigir todos os meses até a Consolação para ver a velha. Aquela velha filha da puta. Uma vez por mês, Sandro a leva ao mercado e também para comprar remédios. Ele vai subindo a Rebouças, desviando dos táxis, dos ônibus, das motocas. Seu ódio pela velha o mantêm intacto, ele chega lá são e salvo. A velha espera por ele na calçada, a blusa dela tem a gola bordada. A velha é tão ridícula, ela deve ser a última pessoa do mundo a usar uma merda dessas. A velha sempre quer ir ao mercado da Avenida Angélica e Sandro quase não se importa, ele faz qualquer coisa para a velha calar a maldita boca. No mercado ele ajuda a velha a sair do carro e empurra o carrinho dela, alcança para ela as compras que estão mais altas, pesa os limões, bananas e laranjas nas balancinhas do mercado, agüenta seus comentários imbecis – a velha tem opinião sobre tudo – e paga suas compras. A velha compra coisas que os velhos adoram comprar, aveia, ameixa, alface americana e geléia real, e fala sozinha com os pacotes na mão. Sandro tem fantasias de acertar a cabeça dela com latas de ervilhas. No final, ele embala as compras, bota tudo no carro, leva a velha para a farmácia. A velha compra seus remédios numa farmácia na Avenida Jabaquara. Sandro tem que atravessar a cidade nesse calor para que a velha compre seus remédios com “desconto”. A velha adora a palavra “desconto” e isso dá nos nervos de Sandro. A farmácia está sempre lotada, cheia de outros velhos que também falam sozinhos, falam com os atendentes, falam com desconhecidos, falam com Sandro, falam, falam. Finalmente a velha é atendida, compra os malditos remédios e está pronta para ser levada para casa. Ela ainda tenta convencer Sandro a levá-la para almoçar no shopping, mas Sandro não cai mais nos truques da velha. A velha é pegajosa, e se Sandro ceder não vai se livrar dela tão cedo. Ele a leva para casa. Estacionar na Consolação é um inferno. Sandro descarrega os pacotes, mas não a ajuda a guardá-los, a velha não gosta porque a velha tem um “método” – a velha tem muitos “métodos” e Sandro odeia cada um deles tanto quanto odeia a velha. Depois da visita mensal à velha, Sandro quase se esquece dela, quase esquece seu ódio e seu mal-estar, quase, porque eles estão ali em algum lugar. E, Sandro vai precisar deles para a próxima vez.