Quem tenha já vivido a experiência de apanhar um táxi no Porto poderá confirmar o que a seguir vou dizer: se fosse feita uma sondagem de opinião entre os taxistas da cidade, decerto se constataria que o ditador António Oliveira Salazar desfruta da ampla simpatia dos profissionais do volante. Valha-nos, ao menos, o facto de o homem ser já defunto, a despeito da particular predilecção dos taxistas pela possibilidade da sua ressurreição. Calhando, porém, Salazar está ainda vivo entre nós, conduzindo um táxi pelas ruas do Porto.
Vou, daqui a instantes, chamar mais um táxi que me transporte até uma das enfadonhas conferências de imprensa que, enquanto jornalista, sou obrigado a cobrir. Como de costume, temo pelo rumo da conversa a que venha a ser obrigado. De preferência, não digo nada e limito a minha participação a monossílabos tão vagos quanto possível, de forma a evitar aborrecimentos ou até algum dano corporal grave (numa das últimas viagens de táxi, o motorista abandonou a viatura no meio da rua para pedir explicações e trocar ameaças físicas e insultos com um outro condutor que quase provocava um acidente).
De costume, portanto, fico quieto lá atrás, fingindo vigiar o movimento das ruas ou meditar em assuntos estranhos à viagem. Ainda assim, nem sempre consigo evitar que o patriótico e ordeiro agente de condução me transforme em depositário das suas sentenças político-filosófico-citadinas.
Num dos mais recentes solilóquios a que fui submetido, o bom do taxista, a propósito de uma obra que demora a terminar, aproveitou para zurzir na nova e polémica configuração da Avenida dos Aliados. Ali, por força da criação de uma linha de metro, o arquitecto Siza Vieira, mundialmente reconhecido, criou um espaço amplo e coberto de granito, de alto a baixo, com um lago rectangular no topo, rodeado de cadeiras de jardim. A intervenção tem sido muito contestada, criticando-se-lhe o cizentismo imposto pelo granito numa praça onde antes havia relvados e passeios de calçada portuguesa. Ainda no sábado à noite, porém, ali vi várias pessoas a conversar amenamente, sentadas nas tais cadeiras em torno do lago, coisa que não me lembro de ter visto antes.
Ainda assim, e para aquele avisado taxista, Siza Vieira devia ser preso por ter feito o que fez na Avenida dos Aliados. “Se fosse no tempo do Salazar, ia mas é para o Tarrafal”(1), foi o que o homem me disse, acrescentando que o velho ditador não autorizaria tais maluquices, como isto de fazer “um tanque” no meio da praça, “para os drogados tomarem banho”. Abrigado no banco de trás, eu limitei-me a sorrir condescendentemente, condenando-me por me faltar a coragem para confrontar o taxista com a minha opinião.
Não me escasseasse o tempo e iniciaria hoje mesmo um regime físico que me fortalecesse os bíceps e o carácter. Assim, escrevo esta crónica para aliviar a consciência.
(1) Tarrafal: campo de concentração de presos políticos portugueses e das ex-colónias portuguesas, situado na ilha cabo-verdiana de Santiago.