volta para a página principal |


17 out2006

Manuel Jorge Marmelo

Salazar está vivo

Quem tenha já vivido a experiência de apanhar um táxi no Porto poderá confirmar o que a seguir vou dizer: se fosse feita uma sondagem de opinião entre os taxistas da cidade, decerto se constataria que o ditador António Oliveira Salazar desfruta da ampla simpatia dos profissionais do volante. Valha-nos, ao menos, o facto de o homem ser já defunto, a despeito da particular predilecção dos taxistas pela possibilidade da sua ressurreição. Calhando, porém, Salazar está ainda vivo entre nós, conduzindo um táxi pelas ruas do Porto.

Vou, daqui a instantes, chamar mais um táxi que me transporte até uma das enfadonhas conferências de imprensa que, enquanto jornalista, sou obrigado a cobrir. Como de costume, temo pelo rumo da conversa a que venha a ser obrigado. De preferência, não digo nada e limito a minha participação a monossílabos tão vagos quanto possível, de forma a evitar aborrecimentos ou até algum dano corporal grave (numa das últimas viagens de táxi, o motorista abandonou a viatura no meio da rua para pedir explicações e trocar ameaças físicas e insultos com um outro condutor que quase provocava um acidente).

De costume, portanto, fico quieto lá atrás, fingindo vigiar o movimento das ruas ou meditar em assuntos estranhos à viagem. Ainda assim, nem sempre consigo evitar que o patriótico e ordeiro agente de condução me transforme em depositário das suas sentenças político-filosófico-citadinas.

Num dos mais recentes solilóquios a que fui submetido, o bom do taxista, a propósito de uma obra que demora a terminar, aproveitou para zurzir na nova e polémica configuração da Avenida dos Aliados. Ali, por força da criação de uma linha de metro, o arquitecto Siza Vieira, mundialmente reconhecido, criou um espaço amplo e coberto de granito, de alto a baixo, com um lago rectangular no topo, rodeado de cadeiras de jardim. A intervenção tem sido muito contestada, criticando-se-lhe o cizentismo imposto pelo granito numa praça onde antes havia relvados e passeios de calçada portuguesa. Ainda no sábado à noite, porém, ali vi várias pessoas a conversar amenamente, sentadas nas tais cadeiras em torno do lago, coisa que não me lembro de ter visto antes.

Ainda assim, e para aquele avisado taxista, Siza Vieira devia ser preso por ter feito o que fez na Avenida dos Aliados. “Se fosse no tempo do Salazar, ia mas é para o Tarrafal”(1), foi o que o homem me disse, acrescentando que o velho ditador não autorizaria tais maluquices, como isto de fazer “um tanque” no meio da praça, “para os drogados tomarem banho”. Abrigado no banco de trás, eu limitei-me a sorrir condescendentemente, condenando-me por me faltar a coragem para confrontar o taxista com a minha opinião.

Não me escasseasse o tempo e iniciaria hoje mesmo um regime físico que me fortalecesse os bíceps e o carácter. Assim, escrevo esta crónica para aliviar a consciência.


(1) Tarrafal: campo de concentração de presos políticos portugueses e das ex-colónias portuguesas, situado na ilha cabo-verdiana de Santiago.


Publicado às 08:11 | Comente [11]


Autores

Milton Ribeiro
Porto Alegre / Brasil


Fal Vitiello Azevedo
São Paulo / Brasil


Luiz Ruffato
São Paulo / Brasil


Nelson Saúte
Maputo / Moçambique


Rui Parada
Macau / China


Luís Graça
Lisboa / Portugal


Manuel Jorge Marmelo
Porto / Portugal



Outros Lugares

Verbeat Blogs

O Coração Gasta-se

Rascunho



Arquivos

abril 2007
março 2007
fevereiro 2007
janeiro 2007
dezembro 2006
novembro 2006
outubro 2006
setembro 2006
agosto 2006
julho 2006
junho 2006
maio 2006
abril 2006
março 2006
fevereiro 2006




RSS 2.0