Havia silêncio ao fundo da rua
E ardiam luzes sobre a cal ilimitada,
Enquanto a espera e o pasmo
Tolhiam a voz na respiração da muralha.
Quem dera ao luar este estranho amor,
Este rugido na falésia da memória,
Este nocturno enlace entre deus e o diabo.
Évora é uma cidade mitológica por excelência.
E é-o sem matéria mítica de ouro (como a da Bretanha), sem actores extraordinários (como uma Medeia), sem lendas luminosas (como uma Sibila Tiburtina) e sem heróis deslumbrantes (como um Ulisses).
Mas é-o por intensidade e por memória invisível. O quanto basta. E o quanto luz.
A cidade abrange, como se fosse um oráculo enfeitiçado, florestas de azinheira e sobro, campos de vinha, ribeiros discretos, volumes de feno e luares fantasmáticos que abraçam ainda cromeleques antiquíssimos e grutas com desenhos de cor violácea e sangue.
Évora terá um dia escalado até ao cume, até ao lapso profundo da sua vertigem e depois deixou evadir a sua profusa chama entre torres de igrejas, cúpulas, absides delicadas e arcos delongados para que o tempo escorresse e a respiração dos mármores o contemplasse.
Restam-lhe hoje as fontes circulares, os terraços floridos com mouras imaginárias a pavonearem a vertigem das cercas, as gárgulas e os sopros de pedra mudéjar e ainda as linhas amareladas, os ocres claros e os tons de rosa que esmiuçaram fachadas sumptuosas e milenares.
Restam-lhe as faixas de magma obscurecido que se perdem no céu muito azul a contrastar com a dolência robusta da contra-reforma que ainda hoje ensombra a urbe desde a universidade até à igreja da Praça Grande.
É pelos interstícios que esta cidade mitológica se exprime através da compaixão da carne.
Évora, cidade maravilhada pela concordância dos ritmos, mas sempre saudosa das suas proporções a que apenas faltou que se lhe juntasse a força e a vista que são próprias do oceano.