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17 out2006

Fernando Monteiro

Kyoto (2)

Alguma coisa precisa ser feita para evitar que o Kyoto feche como se fecha uma igreja na cara de um mendigo. O mendigo-conde que andou pelo Recife. Há tanta coisa estranha que se deu no restaurante do português que fabricava sorvete – uma marca que vendia, em carrocinhas, sem se ligá-las em nada a um restaurante de má fama nas altas esferas do ruído social e da mentira –, o mundo rola como uma bola e o fato é que vimos o Brasil ser mais uma vez campeão no receptor de TV invasor que o negro Barbosa trouxe para dentro do Kyoto, nunca mais levou e ficou lá, a reproduzir imagens em preto-e-branco nas quais ninguém prestava atenção. Por que prestar atenção numa imagem incerta e barulhenta, quando Fernandes estava contando sobre o silêncio do seu presente para a mulher que veio recebê-lo escondida, o robe sobre a camisola de quem fingira dormir para depois descer escadas e não permitir que a mão do cônsul fosse explorar entre as suas pernas? Longa pergunta, tão longa quanto a mão de Fernandes, que era do Alentejo, não tinha papas na língua, nem medo de Salazar e do marido da mulher que ele comeu ali mesmo. Depois, quis se suicidar. Foi o seu único momento de fraqueza, além daquele de estuprar a mulher (a palavra, de novo, é essa), depois lhe dar a pistola para que ela o matasse ou saísse da chuva que caía em aguaceiro. Ela não o matou, está claro. Lançou o presente na direção do violador, que se desviou (era uma pistola pesada), arrumou a camisola rasgada, compôs o robe sobre o corpo ofendido pelo amor violento, o amor que quisera ter o seu corpo de qualquer jeito, ao preço da morte até.

O cônsul Fernandes parecia tremer ao contar a história (uma única vez). Após escapar do tiro que não veio, ele voltara para esperar a segunda-feira, o escândalo depois da denúncia à polícia (que a mulher certamente não deixaria de fazer). Mas nada aconteceu. Seu emprego foi garantido pelo acordo da sorte ou do azar que o manteve impune do ato brutal que cometera, contra o “amor da sua vida” (parecia um samba-canção, a história que comovia Seixas só depois de três uísques). Claro, Fernandes teria que pedir para ser transferido da cidade onde cometera a maior infâmia da sua carreira, pior até do que quando ajudara a abortar a revolta do “Santa Maria”, o navio de espanhóis e portugueses revoltosos do capitão Galvão e sua tripulação de amotinados contra a ditadura portuguesa.

Agora essa história já não poderá ser lembrada nas rodas desfeitas do restaurante que fecha no sábado, o Kyoto do minhoto quieto, que a ouviu depois de fechar as portas da noite – porque não se pode ouvir de portas abertas a história de uma mulher insultada dessa maneira.

Agora, também não se poderá ouvir história alguma, dentro das portas fechadas para sempre, na cidade que já não tem histórias de pistolas e bombons mofados para contar à ninguém, à hora nenhuma. Nada disso é invenção da noite, exagero, literatura, imaginações de um homem solteiro que freqüentou, durante muito tempo, um restaurante que jamais esteve na moda (o Kyoto na “moda”? A idéia é engraçada).

Eu próprio vi a caixa que Fernandes mantinha sobre a mesa da sua sala de cônsul, tão envergonhado que dizem ter falecido pouco depois de pedir reforma e retornar à sua São Gonçalo do Amarante (um cidade debaixo de uma montanha, cortada por um rio de sono, segundo uma fotografia na parede do cônsul mais querido da cidade – depois de Tadashi Nakamura).

Nakamura. O cônsul que gostava dos negrinhos, o ser imensamente delicado que declamava para os meninos da periferia os haikais de poetas nublados, Li Tai-Po e uma cambada de bêbados (“Li Tai-Po só é imortal quando bebe”) quebrando a superfície de um lago gelado só com o rumor das suas vozes festejando os balões acesos na chuva, os pirilampos presos sob um lenço de seda...

Não se diz “haikais”, ele ensinava. “Haikai” já está no plural. No singular, é “haiku” (ou o contrário). Não importa. Tadashi também já deixou os negrinhos para trás, no seu grande carro preto, de almofadas de couro odorosas a poder de graxa por sobre as nódoas do sexo. O gentil Tadashi, apaixonado por Akira, recusado por ele, refugiado em si mesmo e nas suas aventuras tristes de Londres e do Recife, um homem muito limpo e asseado nas roupas de linho que usava (e destoavam dos ambientes um tanto promíscuos que preferia). Fora ator na juventude, e havia mantido a teatralidade. Cantava como uma mulher e cozinhava para quem estivesse amando – mesmo que o amado não soubesse apreciar os seus quitutes de mais de mil anos (alguns foram simplificados e postos no cardápio especial do Kyoto).

Os seus parentes de Hiroshima estavam todos mortos. Ele estava fora da cidade e escapara de morrer com eles. A família era grande. Ele falava pausadamente. Pintava anêmonas minúsculas em lenços de papel para o uso diário, e seu perfume era o do banho quente, recendendo um pouco a sândalo de mistura com biscoitos quentes.

Aprovou que o restaurante passasse a se chamar Kyoto, e era a maior autoridade imperial do Japão presente quando o restaurante passou de “Lisboa à Noite” para o nome da cidade-templo. Fez um pequeno discurso. Desejou que o estabelecimento jamais perdesse as raízes portuguesas e, principalmente, nunca permitisse desempoeirar a fileira de cactos que aludiam ao Nordeste, ao México...

O Kyoto era as Nações Unidas das nossas tristezas e pequenas alegrias de província.
Nele, comemoramos quando Tomás Seixas teve um poema aceito na revista “Colóquio-Letras”, da Fundação Gulbenkian, e recebeu um cheque de 19 dólares pela colaboração literária. Aliás, 19,57 para ser preciso, através do documento da divisão internacional do Citibank, de número 3073, o que era equivalente, na época, a mil e oitocentos escudos. Todos pasmos, na roda do Kyoto. A quantia era pequena, até mesmo irrisória, mas um poema pago em dinheiro era uma espécie de escárnio, de contrafação ditada por generosidade perigosa para a lógica do capitalismo – segundo o delegado de polícia que freqüentava o nosso círculo, entrava em choque com os comunistas (quase todos daquela távola inofensiva) e gostava de Castro Alves, mas não dos poemas modernos, de “forma abstrusa e espírito dissoluto”. O delegado era um homem generoso, emprestava dinheiro sem cobrar juros, era apaixonado pela filha (Tomás dizia que a relação chegava ao incesto, na imaginação da autoridade), era um bom homem triste quando a noite acabava e ele pagava a conta, fazia questão de pagar, pois se considerava inferior, como policial obrigado a fazer rondas e prender gente que chorava quando era solta.

O cheque da fundação portuguesa perturbou a escala de valores do delegado, embora não tenha sido depositado por Tomás. Quer dizer, não pôde ser descontado. Era uma ordem de pagamento à vista – “como todo e qualquer cheque”, explicou um bancário amigo do policial –, porém impossível de descontar sem pagar a taxa de cinqüenta dólares das práticas de câmbio vigentes para o caso de um pagamento em moeda estrangeira, que não podia ser depositado em conta etc. Tomás foi discutir o assunto – na compainha do jornalista e advogado Arthur Carvalho – na agência do Banco Central, mas não houve jeito: o cheque só poderia ser descontado se o beneficiário se deslocasse a Portugal e, lá, abrisse conta ou fosse ao banco designado, receber a quantia em dinheiro.

O poema publicado na revista – “O leque pintado na água” – era sobre um peixe. Tomás nunca viajaria para a boa terra do cônsul Fernandes (que se propôs a pagar o cheque do seu bolso), porque temia se decepcionar com o Portugal moderno. Seu medo era buscar o Portugal de Eça de Queiroz nos lugares onde já não havia mais o Velho do Restelo, as formalidades extremas, as mulheres se despindo de todo pudor nas alcovas mantidas em segredo, as serras no sono e as cidades pendentes do brilho das estrelas como brincos roubados por ciganas da Galícia onde a língua latina penetrava na sombra das solidões da península ibérica...


Publicado às 00:29 | Comente [3]


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