A fadiga insinua-se no corpo e no espírito.
Ouço Madeleine Peyroux numa versão da “Javanaise”. É Outono.
Nos jardins da Fundação Gulbenkian, o cair da tarde beijou-me as faces com a suavidade de um céu azul e branco. Fatias róseas a dançar um tango dormente com a brisa compõem um quadro de perfeição.
Não me apetece nada. Não se percebe a razão de tanto “spleen” numa Lisboa de luz maravilhosa. Ou talvez se perceba. Chegou o desencanto do Outono, quando a crise invalida sonhos altos. Ou mesmo rasteiros.
Vê-se o filme de Almodovar (“Volver”) quase por obrigação. Olha-se para as páginas do jornal e parece que passar da 15 para a 16 obriga a um esforço titânico.
Namora-se longamente as 718 páginas de “Os Maias” e deixa-se o início da leitura para o dia seguinte. O cheiro do papel desperta memórias longínquas de 1979. “Número 22, turma J, segundo ano do Curso Complementar”.
O tempo passa, matreiro, a rasgar corações. A 12 de Outubro fala-se de “Os Maias” na Comunidade de Leitores da Culturgest e convidamos o filho de uma amiga para assistir. Os 17 anos dele são diferentes dos meus. A leitura de um “tijolo” de 700 páginas parece mesmo uma coisa impossível.
Eça é que é Eça. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, os desejos, as apetências, as coragens.
Só me apetece hidroginástica. Mas também me custa despir a roupa, vestir os calções, tomar duche de entrada, mergulhar na piscina. Depois, durante a aula, parece que tudo faz sentido. É só deixar o corpo seguir as ordens do professor e da música.
Quarenta e cinco minutos depois não apetece sair do jacuzzi. Não apetece ir para o banho turco. Não apetece tomar duche. Não apetece lavar os calções. Não apetece vestir. Não apetece sair do clube. Não apetece ficar no clube.
Apetece comer. Apetece beber. Não apetece resistir ao apelo de uma cerveja. De um chocolate. Mas não se sabe onde jantar.Não apetece pensar num local.
“A Câmara Municipal de Lisboa, a Embaixada de França em Portugal e o Conselho de Administração da EGEAC têm o prazer de convidar V.Ex.ª para a Sessão de Inauguração da 7ª Festa do Cinema Francês”.
Mas a bilheteira do cinema S.Jorge já fechou. Não apetece voltar para levantar os bilhetes. Mas apetece ir ao ciclo de cinema francês. Dentro de nós habita uma enorme convicção de que o ciclo de cinema francês será um poderoso reconstituinte cerebral.
Mas não é. Há filmes que nos deixam abatidos.
Por duas vezes não conseguimos bilhetes.
E depois o campeonato de ténis de mesa (para Trabalhadores) deve começar em Novembro. E depois o tempo começa a ficar frio e já não apetece dormir de torso nu. E depois há-de abrir o Festival de Banda Desenhada da Amadora. Que este ano é na Brandoa. E não apetece ir à procura do novo local. E depois há-de fechar o Festival de Banda Desenhada da Amadora. Que este ano é na Brandoa.
Não apetece nada. É qualquer coisa que anda no ar. É a mudança de estação. É a crise. É tudo junto. Vamos a uma inauguração de uma exposição de Pintura e ficamos para ali a olhar as telas e a sorrir para as pintoras, sem saber o que dizer. Sentamo-nos numa cadeira e sorrimos. À espera que passe o “spleen”. À espera que venha outra vez a chuva do Inverno, para podermos praguejar à vontade.
E poder mergulhar na piscina do Holmes Place com aquele sentimento de vendetta siciliano, enquanto vemos chover por cima de nós, num céu tão perto e tão longe. E um gato espreita no terraço, de bigodes molhados e um olhar curioso e deprimido.
Não se pode espirrar este sentimento de culpa e de ingratidão pelas bênçãos de que já usufruímos? Sabemos que o mundo inteiro anda por aí aos tiros e nós estamos sossegados. Mas cada passo pesa. Cada passo nos leva o pensamento por trilhos iníquos.
Bebe-se uma “flûte” de champanhe em copo de plástico no lançamento de um livro sobre a morte de João Paulo I, nas Ruínas do Convento do Carmo.
Depois aparece-se em fundo na televisão, enquanto o autor é entrevistado. Toda a gente nos vem dizer, nos dias seguintes, que nos viu na televisão. Não percebemos esta importância estúpida de aparecer na televisão. Mesmo sem fazer nada.
E um editor diz-nos, muito contente, que estamos a espernear. Porque tem visto muitos mails a divulgar o nosso último livro, as sessões de autógrafos.
Esperneio.
Mas sem coragem de prosseguir a crónica.
Não apetece.