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outubro 24, 2006

Mitificações

Havia silêncio ao fundo da rua
E ardiam luzes sobre a cal ilimitada,
Enquanto a espera e o pasmo
Tolhiam a voz na respiração da muralha.
Quem dera ao luar este estranho amor,
Este rugido na falésia da memória,
Este nocturno enlace entre deus e o diabo.

Évora é uma cidade mitológica por excelência.

E é-o sem matéria mítica de ouro (como a da Bretanha), sem actores extraordinários (como uma Medeia), sem lendas luminosas (como uma Sibila Tiburtina) e sem heróis deslumbrantes (como um Ulisses).

Mas é-o por intensidade e por memória invisível. O quanto basta. E o quanto luz.

A cidade abrange, como se fosse um oráculo enfeitiçado, florestas de azinheira e sobro, campos de vinha, ribeiros discretos, volumes de feno e luares fantasmáticos que abraçam ainda cromeleques antiquíssimos e grutas com desenhos de cor violácea e sangue.

Évora terá um dia escalado até ao cume, até ao lapso profundo da sua vertigem e depois deixou evadir a sua profusa chama entre torres de igrejas, cúpulas, absides delicadas e arcos delongados para que o tempo escorresse e a respiração dos mármores o contemplasse.

Restam-lhe hoje as fontes circulares, os terraços floridos com mouras imaginárias a pavonearem a vertigem das cercas, as gárgulas e os sopros de pedra mudéjar e ainda as linhas amareladas, os ocres claros e os tons de rosa que esmiuçaram fachadas sumptuosas e milenares.

Restam-lhe as faixas de magma obscurecido que se perdem no céu muito azul a contrastar com a dolência robusta da contra-reforma que ainda hoje ensombra a urbe desde a universidade até à igreja da Praça Grande.

É pelos interstícios que esta cidade mitológica se exprime através da compaixão da carne.

Évora, cidade maravilhada pela concordância dos ritmos, mas sempre saudosa das suas proporções a que apenas faltou que se lhe juntasse a força e a vista que são próprias do oceano.

Crónica outonal

A fadiga insinua-se no corpo e no espírito.
Ouço Madeleine Peyroux numa versão da “Javanaise”. É Outono.
Nos jardins da Fundação Gulbenkian, o cair da tarde beijou-me as faces com a suavidade de um céu azul e branco. Fatias róseas a dançar um tango dormente com a brisa compõem um quadro de perfeição.

Não me apetece nada. Não se percebe a razão de tanto “spleen” numa Lisboa de luz maravilhosa. Ou talvez se perceba. Chegou o desencanto do Outono, quando a crise invalida sonhos altos. Ou mesmo rasteiros.
Vê-se o filme de Almodovar (“Volver”) quase por obrigação. Olha-se para as páginas do jornal e parece que passar da 15 para a 16 obriga a um esforço titânico.
Namora-se longamente as 718 páginas de “Os Maias” e deixa-se o início da leitura para o dia seguinte. O cheiro do papel desperta memórias longínquas de 1979. “Número 22, turma J, segundo ano do Curso Complementar”.
O tempo passa, matreiro, a rasgar corações. A 12 de Outubro fala-se de “Os Maias” na Comunidade de Leitores da Culturgest e convidamos o filho de uma amiga para assistir. Os 17 anos dele são diferentes dos meus. A leitura de um “tijolo” de 700 páginas parece mesmo uma coisa impossível.
Eça é que é Eça. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, os desejos, as apetências, as coragens.

Só me apetece hidroginástica. Mas também me custa despir a roupa, vestir os calções, tomar duche de entrada, mergulhar na piscina. Depois, durante a aula, parece que tudo faz sentido. É só deixar o corpo seguir as ordens do professor e da música.
Quarenta e cinco minutos depois não apetece sair do jacuzzi. Não apetece ir para o banho turco. Não apetece tomar duche. Não apetece lavar os calções. Não apetece vestir. Não apetece sair do clube. Não apetece ficar no clube.
Apetece comer. Apetece beber. Não apetece resistir ao apelo de uma cerveja. De um chocolate. Mas não se sabe onde jantar.Não apetece pensar num local.

“A Câmara Municipal de Lisboa, a Embaixada de França em Portugal e o Conselho de Administração da EGEAC têm o prazer de convidar V.Ex.ª para a Sessão de Inauguração da 7ª Festa do Cinema Francês”.
Mas a bilheteira do cinema S.Jorge já fechou. Não apetece voltar para levantar os bilhetes. Mas apetece ir ao ciclo de cinema francês. Dentro de nós habita uma enorme convicção de que o ciclo de cinema francês será um poderoso reconstituinte cerebral.
Mas não é. Há filmes que nos deixam abatidos.
Por duas vezes não conseguimos bilhetes.

E depois o campeonato de ténis de mesa (para Trabalhadores) deve começar em Novembro. E depois o tempo começa a ficar frio e já não apetece dormir de torso nu. E depois há-de abrir o Festival de Banda Desenhada da Amadora. Que este ano é na Brandoa. E não apetece ir à procura do novo local. E depois há-de fechar o Festival de Banda Desenhada da Amadora. Que este ano é na Brandoa.

Não apetece nada. É qualquer coisa que anda no ar. É a mudança de estação. É a crise. É tudo junto. Vamos a uma inauguração de uma exposição de Pintura e ficamos para ali a olhar as telas e a sorrir para as pintoras, sem saber o que dizer. Sentamo-nos numa cadeira e sorrimos. À espera que passe o “spleen”. À espera que venha outra vez a chuva do Inverno, para podermos praguejar à vontade.
E poder mergulhar na piscina do Holmes Place com aquele sentimento de vendetta siciliano, enquanto vemos chover por cima de nós, num céu tão perto e tão longe. E um gato espreita no terraço, de bigodes molhados e um olhar curioso e deprimido.

Não se pode espirrar este sentimento de culpa e de ingratidão pelas bênçãos de que já usufruímos? Sabemos que o mundo inteiro anda por aí aos tiros e nós estamos sossegados. Mas cada passo pesa. Cada passo nos leva o pensamento por trilhos iníquos.
Bebe-se uma “flûte” de champanhe em copo de plástico no lançamento de um livro sobre a morte de João Paulo I, nas Ruínas do Convento do Carmo.
Depois aparece-se em fundo na televisão, enquanto o autor é entrevistado. Toda a gente nos vem dizer, nos dias seguintes, que nos viu na televisão. Não percebemos esta importância estúpida de aparecer na televisão. Mesmo sem fazer nada.
E um editor diz-nos, muito contente, que estamos a espernear. Porque tem visto muitos mails a divulgar o nosso último livro, as sessões de autógrafos.

Esperneio.
Mas sem coragem de prosseguir a crónica.
Não apetece.

outubro 17, 2006

Salazar está vivo

Quem tenha já vivido a experiência de apanhar um táxi no Porto poderá confirmar o que a seguir vou dizer: se fosse feita uma sondagem de opinião entre os taxistas da cidade, decerto se constataria que o ditador António Oliveira Salazar desfruta da ampla simpatia dos profissionais do volante. Valha-nos, ao menos, o facto de o homem ser já defunto, a despeito da particular predilecção dos taxistas pela possibilidade da sua ressurreição. Calhando, porém, Salazar está ainda vivo entre nós, conduzindo um táxi pelas ruas do Porto.

Vou, daqui a instantes, chamar mais um táxi que me transporte até uma das enfadonhas conferências de imprensa que, enquanto jornalista, sou obrigado a cobrir. Como de costume, temo pelo rumo da conversa a que venha a ser obrigado. De preferência, não digo nada e limito a minha participação a monossílabos tão vagos quanto possível, de forma a evitar aborrecimentos ou até algum dano corporal grave (numa das últimas viagens de táxi, o motorista abandonou a viatura no meio da rua para pedir explicações e trocar ameaças físicas e insultos com um outro condutor que quase provocava um acidente).

De costume, portanto, fico quieto lá atrás, fingindo vigiar o movimento das ruas ou meditar em assuntos estranhos à viagem. Ainda assim, nem sempre consigo evitar que o patriótico e ordeiro agente de condução me transforme em depositário das suas sentenças político-filosófico-citadinas.

Num dos mais recentes solilóquios a que fui submetido, o bom do taxista, a propósito de uma obra que demora a terminar, aproveitou para zurzir na nova e polémica configuração da Avenida dos Aliados. Ali, por força da criação de uma linha de metro, o arquitecto Siza Vieira, mundialmente reconhecido, criou um espaço amplo e coberto de granito, de alto a baixo, com um lago rectangular no topo, rodeado de cadeiras de jardim. A intervenção tem sido muito contestada, criticando-se-lhe o cizentismo imposto pelo granito numa praça onde antes havia relvados e passeios de calçada portuguesa. Ainda no sábado à noite, porém, ali vi várias pessoas a conversar amenamente, sentadas nas tais cadeiras em torno do lago, coisa que não me lembro de ter visto antes.

Ainda assim, e para aquele avisado taxista, Siza Vieira devia ser preso por ter feito o que fez na Avenida dos Aliados. “Se fosse no tempo do Salazar, ia mas é para o Tarrafal”(1), foi o que o homem me disse, acrescentando que o velho ditador não autorizaria tais maluquices, como isto de fazer “um tanque” no meio da praça, “para os drogados tomarem banho”. Abrigado no banco de trás, eu limitei-me a sorrir condescendentemente, condenando-me por me faltar a coragem para confrontar o taxista com a minha opinião.

Não me escasseasse o tempo e iniciaria hoje mesmo um regime físico que me fortalecesse os bíceps e o carácter. Assim, escrevo esta crónica para aliviar a consciência.


(1) Tarrafal: campo de concentração de presos políticos portugueses e das ex-colónias portuguesas, situado na ilha cabo-verdiana de Santiago.

Kyoto (2)

Alguma coisa precisa ser feita para evitar que o Kyoto feche como se fecha uma igreja na cara de um mendigo. O mendigo-conde que andou pelo Recife. Há tanta coisa estranha que se deu no restaurante do português que fabricava sorvete – uma marca que vendia, em carrocinhas, sem se ligá-las em nada a um restaurante de má fama nas altas esferas do ruído social e da mentira –, o mundo rola como uma bola e o fato é que vimos o Brasil ser mais uma vez campeão no receptor de TV invasor que o negro Barbosa trouxe para dentro do Kyoto, nunca mais levou e ficou lá, a reproduzir imagens em preto-e-branco nas quais ninguém prestava atenção. Por que prestar atenção numa imagem incerta e barulhenta, quando Fernandes estava contando sobre o silêncio do seu presente para a mulher que veio recebê-lo escondida, o robe sobre a camisola de quem fingira dormir para depois descer escadas e não permitir que a mão do cônsul fosse explorar entre as suas pernas? Longa pergunta, tão longa quanto a mão de Fernandes, que era do Alentejo, não tinha papas na língua, nem medo de Salazar e do marido da mulher que ele comeu ali mesmo. Depois, quis se suicidar. Foi o seu único momento de fraqueza, além daquele de estuprar a mulher (a palavra, de novo, é essa), depois lhe dar a pistola para que ela o matasse ou saísse da chuva que caía em aguaceiro. Ela não o matou, está claro. Lançou o presente na direção do violador, que se desviou (era uma pistola pesada), arrumou a camisola rasgada, compôs o robe sobre o corpo ofendido pelo amor violento, o amor que quisera ter o seu corpo de qualquer jeito, ao preço da morte até.

O cônsul Fernandes parecia tremer ao contar a história (uma única vez). Após escapar do tiro que não veio, ele voltara para esperar a segunda-feira, o escândalo depois da denúncia à polícia (que a mulher certamente não deixaria de fazer). Mas nada aconteceu. Seu emprego foi garantido pelo acordo da sorte ou do azar que o manteve impune do ato brutal que cometera, contra o “amor da sua vida” (parecia um samba-canção, a história que comovia Seixas só depois de três uísques). Claro, Fernandes teria que pedir para ser transferido da cidade onde cometera a maior infâmia da sua carreira, pior até do que quando ajudara a abortar a revolta do “Santa Maria”, o navio de espanhóis e portugueses revoltosos do capitão Galvão e sua tripulação de amotinados contra a ditadura portuguesa.

Agora essa história já não poderá ser lembrada nas rodas desfeitas do restaurante que fecha no sábado, o Kyoto do minhoto quieto, que a ouviu depois de fechar as portas da noite – porque não se pode ouvir de portas abertas a história de uma mulher insultada dessa maneira.

Agora, também não se poderá ouvir história alguma, dentro das portas fechadas para sempre, na cidade que já não tem histórias de pistolas e bombons mofados para contar à ninguém, à hora nenhuma. Nada disso é invenção da noite, exagero, literatura, imaginações de um homem solteiro que freqüentou, durante muito tempo, um restaurante que jamais esteve na moda (o Kyoto na “moda”? A idéia é engraçada).

Eu próprio vi a caixa que Fernandes mantinha sobre a mesa da sua sala de cônsul, tão envergonhado que dizem ter falecido pouco depois de pedir reforma e retornar à sua São Gonçalo do Amarante (um cidade debaixo de uma montanha, cortada por um rio de sono, segundo uma fotografia na parede do cônsul mais querido da cidade – depois de Tadashi Nakamura).

Nakamura. O cônsul que gostava dos negrinhos, o ser imensamente delicado que declamava para os meninos da periferia os haikais de poetas nublados, Li Tai-Po e uma cambada de bêbados (“Li Tai-Po só é imortal quando bebe”) quebrando a superfície de um lago gelado só com o rumor das suas vozes festejando os balões acesos na chuva, os pirilampos presos sob um lenço de seda...

Não se diz “haikais”, ele ensinava. “Haikai” já está no plural. No singular, é “haiku” (ou o contrário). Não importa. Tadashi também já deixou os negrinhos para trás, no seu grande carro preto, de almofadas de couro odorosas a poder de graxa por sobre as nódoas do sexo. O gentil Tadashi, apaixonado por Akira, recusado por ele, refugiado em si mesmo e nas suas aventuras tristes de Londres e do Recife, um homem muito limpo e asseado nas roupas de linho que usava (e destoavam dos ambientes um tanto promíscuos que preferia). Fora ator na juventude, e havia mantido a teatralidade. Cantava como uma mulher e cozinhava para quem estivesse amando – mesmo que o amado não soubesse apreciar os seus quitutes de mais de mil anos (alguns foram simplificados e postos no cardápio especial do Kyoto).

Os seus parentes de Hiroshima estavam todos mortos. Ele estava fora da cidade e escapara de morrer com eles. A família era grande. Ele falava pausadamente. Pintava anêmonas minúsculas em lenços de papel para o uso diário, e seu perfume era o do banho quente, recendendo um pouco a sândalo de mistura com biscoitos quentes.

Aprovou que o restaurante passasse a se chamar Kyoto, e era a maior autoridade imperial do Japão presente quando o restaurante passou de “Lisboa à Noite” para o nome da cidade-templo. Fez um pequeno discurso. Desejou que o estabelecimento jamais perdesse as raízes portuguesas e, principalmente, nunca permitisse desempoeirar a fileira de cactos que aludiam ao Nordeste, ao México...

O Kyoto era as Nações Unidas das nossas tristezas e pequenas alegrias de província.
Nele, comemoramos quando Tomás Seixas teve um poema aceito na revista “Colóquio-Letras”, da Fundação Gulbenkian, e recebeu um cheque de 19 dólares pela colaboração literária. Aliás, 19,57 para ser preciso, através do documento da divisão internacional do Citibank, de número 3073, o que era equivalente, na época, a mil e oitocentos escudos. Todos pasmos, na roda do Kyoto. A quantia era pequena, até mesmo irrisória, mas um poema pago em dinheiro era uma espécie de escárnio, de contrafação ditada por generosidade perigosa para a lógica do capitalismo – segundo o delegado de polícia que freqüentava o nosso círculo, entrava em choque com os comunistas (quase todos daquela távola inofensiva) e gostava de Castro Alves, mas não dos poemas modernos, de “forma abstrusa e espírito dissoluto”. O delegado era um homem generoso, emprestava dinheiro sem cobrar juros, era apaixonado pela filha (Tomás dizia que a relação chegava ao incesto, na imaginação da autoridade), era um bom homem triste quando a noite acabava e ele pagava a conta, fazia questão de pagar, pois se considerava inferior, como policial obrigado a fazer rondas e prender gente que chorava quando era solta.

O cheque da fundação portuguesa perturbou a escala de valores do delegado, embora não tenha sido depositado por Tomás. Quer dizer, não pôde ser descontado. Era uma ordem de pagamento à vista – “como todo e qualquer cheque”, explicou um bancário amigo do policial –, porém impossível de descontar sem pagar a taxa de cinqüenta dólares das práticas de câmbio vigentes para o caso de um pagamento em moeda estrangeira, que não podia ser depositado em conta etc. Tomás foi discutir o assunto – na compainha do jornalista e advogado Arthur Carvalho – na agência do Banco Central, mas não houve jeito: o cheque só poderia ser descontado se o beneficiário se deslocasse a Portugal e, lá, abrisse conta ou fosse ao banco designado, receber a quantia em dinheiro.

O poema publicado na revista – “O leque pintado na água” – era sobre um peixe. Tomás nunca viajaria para a boa terra do cônsul Fernandes (que se propôs a pagar o cheque do seu bolso), porque temia se decepcionar com o Portugal moderno. Seu medo era buscar o Portugal de Eça de Queiroz nos lugares onde já não havia mais o Velho do Restelo, as formalidades extremas, as mulheres se despindo de todo pudor nas alcovas mantidas em segredo, as serras no sono e as cidades pendentes do brilho das estrelas como brincos roubados por ciganas da Galícia onde a língua latina penetrava na sombra das solidões da península ibérica...

outubro 10, 2006

Sandro


Ele odeia a mãe dele. Odeia. Descobriu isso há muito tempo e, claro, não contou a ninguém. Hoje em dia ele acha que sempre soube disso, ele odeia aquela velha. A velhinha cheira a pomada e a malhas de lã – sim, malhas de lã têm um cheiro. Ele odeia a velha, seu sotaque do Brás (que ela tenta disfarçar) e seu cabelo amarelado. Pensando bem, do cabelo amarelado ele tem nojo. Odeia suas certezas, sua fragilidade. Ele odeia cada centímetro quadrado daquela maldita velha. A velha não mora com ele, graças a Deus, a velha tem a sua própria casa. Ele odeia ter que dirigir todos os meses até a Consolação para ver a velha. Aquela velha filha da puta. Uma vez por mês, Sandro a leva ao mercado e também para comprar remédios. Ele vai subindo a Rebouças, desviando dos táxis, dos ônibus, das motocas. Seu ódio pela velha o mantêm intacto, ele chega lá são e salvo. A velha espera por ele na calçada, a blusa dela tem a gola bordada. A velha é tão ridícula, ela deve ser a última pessoa do mundo a usar uma merda dessas. A velha sempre quer ir ao mercado da Avenida Angélica e Sandro quase não se importa, ele faz qualquer coisa para a velha calar a maldita boca. No mercado ele ajuda a velha a sair do carro e empurra o carrinho dela, alcança para ela as compras que estão mais altas, pesa os limões, bananas e laranjas nas balancinhas do mercado, agüenta seus comentários imbecis – a velha tem opinião sobre tudo – e paga suas compras. A velha compra coisas que os velhos adoram comprar, aveia, ameixa, alface americana e geléia real, e fala sozinha com os pacotes na mão. Sandro tem fantasias de acertar a cabeça dela com latas de ervilhas. No final, ele embala as compras, bota tudo no carro, leva a velha para a farmácia. A velha compra seus remédios numa farmácia na Avenida Jabaquara. Sandro tem que atravessar a cidade nesse calor para que a velha compre seus remédios com “desconto”. A velha adora a palavra “desconto” e isso dá nos nervos de Sandro. A farmácia está sempre lotada, cheia de outros velhos que também falam sozinhos, falam com os atendentes, falam com desconhecidos, falam com Sandro, falam, falam. Finalmente a velha é atendida, compra os malditos remédios e está pronta para ser levada para casa. Ela ainda tenta convencer Sandro a levá-la para almoçar no shopping, mas Sandro não cai mais nos truques da velha. A velha é pegajosa, e se Sandro ceder não vai se livrar dela tão cedo. Ele a leva para casa. Estacionar na Consolação é um inferno. Sandro descarrega os pacotes, mas não a ajuda a guardá-los, a velha não gosta porque a velha tem um “método” – a velha tem muitos “métodos” e Sandro odeia cada um deles tanto quanto odeia a velha. Depois da visita mensal à velha, Sandro quase se esquece dela, quase esquece seu ódio e seu mal-estar, quase, porque eles estão ali em algum lugar. E, Sandro vai precisar deles para a próxima vez.