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12 set2006

Manuel Jorge Marmelo

Vontade de emigrar

Relapso. Podem chamar-me relapso e, querendo, atirar-me também umas quantas caneladas. Eu mereço. Tenho deixado vago o espaço que o Porto devia ocupar nas Cidades Crónicas. "Vago" até é uma palavra bonita e, de certa forma, descreve bem o que foi o Porto em Agosto: uma cidade vaga, vazia, quase evanescente, sem trânsito e sem pessoas nas ruas. Nem sei se uma cidade ainda.

O meu espaço nas Cidades Crónicas ficou, portanto, vago. Agora que o Setembro chegou e, com ele, a enchente dos carros em tudo quanto é lugar para estacionar, tento o vagaroso regresso à vida real. Mas ainda não retomei a vontade de escrever sobre o Porto. Até aqui ainda tinha uma boa desculpa, o sol, o calor, a cidade vaga e sem gente, logo sem histórias e sem motivo para uma crónica decente.

Pretendia argumentar que o calor continua e, se calhar, é uma desculpa tão boa como outra qualquer. Mas a verdade é que o Porto me tem aborrecido tremendamente e que quase não passa um dia sem que me imagine a viver noutra cidade qualquer, em Londres ou no Rio de Janeiro, na Praia ou em Luanda, em Belo Horizonte ou em Comala.

O Porto amofina-me porque está sol e as praias da cidade estão impróprias para banhos e contaminadas as suas areias. Tenho vontade de emigrar daqui porque, se me disponho a fazer alguns quilómetros para encontrar a uma praia minimamente decente, é quase certo que, à chegada, encontrarei um areal varrido pelo impiedoso vento Norte e que, por isso, regressarei a casa mais cedo, irritado. Iracundo até.

Em desespero de causa, resolvi, há dias, tentar um dos jardins da cidade, aquele que outrora rodeou um palácio de cristal, sobranceiro ao Douro e onde o sol se derrama morno nas tardes quentes. Fui. Levei um livro e dispus-me a passar uma ou duas horas lendo e sentindo o sol na pele. Mas era bom demais para ser verdade. Logo um diligente segurança do parque se aproximou para me informar que não podia estar ali de tronco nu; que devia cobrir imediatamente a minha despudorada figura com a t-shirt.

Eu sorri, claro, imaginando que o meu flácido abdómen poderia escandalizar alguém, fazer parar o trânsito de aeronaves ou fulminar algum pardal. Sorri e fechei o livro. E vesti-me. E logo transpirava por todos os poros e encharcava a roupa de suor. E tive vontade de emigrar. Muita.


Publicado às 00:41 | Comente [3]


Autores

Milton Ribeiro
Porto Alegre / Brasil


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São Paulo / Brasil


Luiz Ruffato
São Paulo / Brasil


Nelson Saúte
Maputo / Moçambique


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