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12 set2006

Luís Graça

Multidões

Muita gente. Uma média de 50 mil pessoas por dia, no Rock in Rio em Lisboa. Segunda edição. Multidões. Em espaço aberto, sem claustrofobias.
Fobias? Como as não ter? Bibliofobias. A bibliofobia de todos os ausentes da Feira do Livro de Lisboa. Setenta e seis edições.
Um dia de Rock in Rio equivaleu a quantos de Feira do Livro?

Mas os livros não se medem aos parvos. Ou aos palmos.
Embora haja quem encomende sete metros e meio de livros de lombada azul para colocar na prateleira de casa.

Almoço às 19 horas. Acordo tarde. Dá para perceber.
Apanho um táxi. E abalo para o Rock in Rio. Sem bilhete. Oferecem-me vários na Gago Coutinho, a ampla avenida que dá acesso às bilheteiras do certame. A 20 euros. Provavelmente genuínos. Não arrisco. Recuso polidamente e compro o meu bilhete de 53 euros nas barbas de um cinquentão que mo oferecia 33 euros mais barato.

Transpiro, na subida para a entrada do recinto. Vou por ali acima como se fosse Lance Armstrong, a “comer” fugitivo atrás de fugitivo, na mítica subida de L’Alpe D’Huez. Filas reduzidas. Entro sem dificuldade. Pelas 20h30 horas estou num topo do Parque da Bela Vista. Rui Veloso entra em cena pouco depois e começa a desfiar as memórias da minha juventude. Longe vão os tempos em que vi o seu concerto no Coliseu dos Recreios, no dia do meu 25º aniversário. Ou 24º?

“Hoje toda a gente quer aparecer na TV, mesmo que não saiba fazer a ponta de um corno”. Certo, Rui. Certíssimo. E os livros aparecem na TV de raspão. O Rock in Rio é que está a dar. Principalmente na Tenda VIP, onde os mesmos que vão ao Estoril Open sem ver ténis se dão ao luxo de ir ao Rock in Rio sem conseguir ver os músicos ao vivo, instalados numa colina longe demais. Do palco. Mas aparecem na TV.

Encho a alma com o sol poente do Parque da Bela Vista. Abasteço o coração de baladas. Que nisto de baladas Rui Veloso sabe o que toca. Apesar de ter iniciado a sua actuação com o êxito “Chico Fininho”, tiro de partida para uma aventura designada por Rock Português. Ou nem isso.

Depois, Carlos Santana embarca-me numa hora de festa e alucinantes solos de guitarra. Somos todos latinos. Há cabeleiras de palhaço em muitas cabeças. Cabeleiras rosa, cor do banco Millenium BCP, patrocinador omnipresente do evento. Posso evitar as cabeleiras em cima da minha cabeça. Mas não posso evitar os jovens que me passam por cima da cabeça de dois em dois minutos, a fazer “slide”, voando no espaço, suspensos. Música? Não é muito importante ouvir a música. Importante é estar no Rock in Rio. Mesmo que não se saiba fazer a ponta de um corno.

Mesmo que se destile a bebedeira a puxar as pernas das miúdas barranco abaixo. Mesmo que se atenda o telemóvel, que se tire fotografias com o telemóvel, que se grave o rosto do ídolo, para mostrar aos amigos. O Rock in Rio tem alguma coisa a ver com música. Mas acima de tudo é um evento. E o preço a pagar é barato. São apenas 53 euros para dizer que se esteve no Rock in Rio. Mesmo que no outro dia a Senhora Dona Ressaca seja nazi ao ponto de não haver lembrança de nada, numa atitude pidescamente estalinista.

Os isqueiros brilham na noite. Os aviões passam a rasar as cabeças. Não mais de 100 metros acima de nós. Posso jurar. O aeroporto está à distância de 20 segundos. Aviões? Bichos de material bem diferente daquele que utilizou o pioneiro piloto Gago Coutinho. E se perguntassem aos 70 mil daquele dia de Junho quem foi Gago Coutinho? Isso agora não interessa nada. O importante é estar na TV, mesmo que não se saiba fazer a ponta de um corno.

Vou aliviar as mágoas para a zona das casas de banho. Aventura à “Trainspotting”, o filme onde Ian McGregor deparava com a pior casa de banho do mundo. Desurinadamente desaustinado, nem sei onde é suposto lavar as mãos.
Mudo de cena. Como um gelado cornetto de morango, um pão com chouriço. Bebo uma água sem gás. Sem problemas. Regresso ao palco principal. Vem aí Roger Waters.

Waters é água com gás, apesar dos seus 62 anos de grisalhice charmosa. Sei que estou a assistir a um momento histórico. Descubro um amigo de infância. Ele é que me descobre. Estou perto do palco. Sinto o cheiro de Waters. Mas não consigo ver-lhe o branco dos olhos.
Sei que toda a gente percebeu. Não me sabia tão multiorgásmico. Não pude resistir. Quem mandou tocar integralmente “Dark Side of the moon”? Só depois percebi que não eram os Pink Floyd em palco. Não tenho remorsos. Vi-os no Estádio de Alvalade, nos idos de 90, século passado.

--- Quer uma água, Luís Graça?
Agradeço a Filipe Império, no stand da editora Prefácio, na Feira do Livro. Abasteci-me em casa. Duas garrafas de meio litro. Frescas. Duas canetas de tinta azul. Pobre ingénuo. Fool on the hill, a meio do Parque Eduardo VII. Duas canetas? Como pude pensar que havia muitos autógrafos a dar?
Até mesmo José Saramago se encontra sem trabalho na Feira do Livro. Com ou sem Nobel. Até mesmo Francisco José Viegas se encontra sem trabalho. Não interessa se é director da Casa Fernando Pessoa.
O que interessa é aparecer na TV, mesmo que não se saiba ler a ponta de um corno.

Os meus livros do “Fado, Futebol e Farpas” voaram literalmente durante a sessão de autógrafos. Não por cima da minha cabeça. Mas para trás de mim, para a minha frente, para os lados.
Efeitos do descontrolo emocional de um vendedor de uma associação benemérita. Chamado à atenção correctamente, por Filipe Império, devido à sua política de venda de revistas agressiva e incomodativa, resolveu tirar desforço e não se conformava com a nossa atitude pacifista.

Ai, apeteceu-nos tanto dar-lhe com o Rock in Rio inteirinho pela cabeça abaixo. Mas ficámo-nos pelas palavras apaziguadoras. E eu a ver os meus livros a cair ao chão como fruta madura. Punha-se a mesa de autógrafos em pé e o vendedor atirava-a ao chão. E gritava. E insultava. E percorria a linha genealógica de várias famílias, não obstante a ausência de investigação. E rasgava o cartaz com o meu focinho, designeristicamente construído com tanto amor pela minha amiga Inês.

No chão, como corpos frios após a batalha de Munda, os meus livros não eram César triunfante. Eram sobreviventes.
“Fado, Futebol e Farpas”, “De boas erecções está o Inferno cheio” e “O homem que casou com uma estrela porno e outros contos perversos” sacudiram o pó, olharam para os basbaques parados em frente do stand 159, afivelaram um sorriso partizan e voltaram ao seu posto.

No pasaran!


Publicado às 00:33 | Comente [3]


Autores

Milton Ribeiro
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