Di-lo noite fora
Como se fosse candeia de azeite
Iluminada pelas tendas nómadas do mercado,
Quando, no Rossio de S. Brás,
Se levantou
Uma poeira
Avermelhada
De águas muito abertas
E se fez vida.
No princípio, Évora era uma colina nua e depurada. No topo luzia uma anta colossal e ainda não existiam deuses omnipresentes e únicos que conduzissem a humanidade a flagelações forçadas.
Depois, a cidade foi-se edificando, pedra sobre pedra, peça de granito a peça de granito, e a colina original, cheia de árvores em forma de mão invertida, foi-se ofuscando e acamando em sucessivas alvenarias que, no seu manto sigiloso, restabeleciam a forma da anta ancestral.
A pouco e pouco, a cidade foi germinando e, no seu abismo inefável, acabou por desvelar-se o seu próprio centro do mundo, a sua alma.
Para Évora, o presente ainda hoje é a sombra do caos, pois é justamente o presente aquilo que mais atenta à sua quietude, agindo como uma flor do mal que subtrai à imaginação toda a montagem perdida dos inícios.
Talvez por isso Évora se pareça com um tear adormecido, com um filme em suspenso ou com um leme do tempo sem viagem.
Ou talvez por isso Évora se pareça com uma cascata cristalizada e incompreensível, porque nascida de uma presença excessiva: a da sua velha colina, essa doce guardadora de estrelas.