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19 set2006

Fernando Monteiro

Kyoto (1)

Fiquei quase transtornado – essa é a palavra – quando soube que o restaurante Kyoto iria fechar no sábado.

A cidade parecia se aprofundar nas traições que vinha a me fazer, ultimamente, e creio que eu não esperava ver o velho Kyoto entre as casas fechadas, as livrarias substituídas por lojas e lanchonetes vulgares, os cinemas reduzidos à promoção de repolho & quiabo, nos supermercados ocupando as antigas salas.

Estou mais vulnerável, com a idade. Uma mudança, uma alteração da paisagem, uma falta que busca o meu olhar como uma falha nos dentes da frente, torna-se uma ofensa dirigida a mim, feita para me ferir (ou, no mínimo, desconcertar), enquanto novas caras são indiferentes aos novos lugares que espalham a grosseria da cidade atual como marinheiros espalhavam a peste branca (ou negra?) nas cidades portuárias do extremo Oriente.

O Kyoto. O Kyoto não devia fechar as suas falsas portas – ou portais – do Oriente menos oriental que você possa imaginar, com a decoração de cactos incongruentes e paisagens de Veneza ao lado de algumas estampas japonesas de duvidoso gosto artístico, mostrando montanhas nevadas e macacos pacientes.

Tenho que ter calma – o Kyoto vai fechar – e fica muito difícil explicar que o Kyoto é (ou era) de propriedade de um minhoto muito quieto (o poeta Tomás Seixas foi quem amalgamou as palavras, sem nada ter a ver – exceto com a sua admiração das coisas japonesas), o qual mantinha um retrato de Pierre Loti mal parecido com ele, justo acima do caixa com todas as nossas dívidas nunca cobradas pelo próprio Kyoto, que era nipônico só na disposição de esperar pelo pagamento dos “penduras” que talvez tenham determinado o fim do Kyoto, a remoção do retrato de Loti (presente de Seixas) que tomava banho com as gueixas da verdadeira Kyoto, após viver muito bem entre as turcas proibidas de Constantinopla. Tudo conversa de Seixas, que já morreu.

Não sei o que seria do poeta – que passava as tardes no Kyoto e era amigo íntimo do cônsul Tadashi (de uma Casa Nobre de Tóquio) e do cônsul de Portugal, o bom Fernandes, aparentado com espanhóis, muito infiel a Salazar e a Franco, agora se pode dizer essas coisas, quando até o Kyoto vai deixar de existir como o poeta não existe mais, com as suas íntimas amizades com cônsules que foram embora e talvez também não mais existam nas vilas e cidades de nascmento, parecendo que suas passagens foram projetadas – como um filme – nos fundos de um sobrado do qual se viajava de um quintal do Recife para o Japão de Tadashi, a China do Mandarim de Eça, a Turquia de Loti saudoso dos terraços sobre o Bósforo...

Tadashi sabia fazer mágicas e recebia cartas do cineasta Kurosawa. Quando Trono manchado de sangue foi exibido na cidade – florestas cinzentas de árvores e flechas avançando sobre o sono –, ele mostrou o maço de cartas para nós todos, no Kyoto onde não era tratado como um cônsul, a seu pedido. A bela caligrafia do cineasta de Os sete samurais cobria páginas e mais páginas de delicado papel de arroz, e todos contemplamos aquelas notícias transmitidas como se fossem poemas de garças subindo para a face maquilada da lua num puteiro de Osaka. Tomás achava que as putas de Osaka condescendiam no sexo anal muito mais que nas outras desconhecidas cidades japonesas, sem ter nenhuma boa razão para concluir que era assim em Osaka ou em Tóquio ou até mesmo na Kyoto que então merecia todo o respeito dos freqüentadores de um restaurante tão longe da cidade-templo como as garças incapazes de fazer piscar a lua vaga do futuro.

Estou extremamente nervoso com todas essas recordações. Tenho receio de contar sobre o cônsul Fernandes, porque aqui ele se envolveu com uma mulher casada – nos anos em que isso significava tiros – e a presenteou com uma pistola, numa caixa verde de bombons. Meses depois, Fernandes explicou que quisera se matar, após ouvir uma audição de pianista russo Sergei Dorenski (de passagem pelo Recife), era um domingo e, nos domingos, pianos são mais tristes, e ele não seguiu para o Kyoto, não buscou os amigos, resolveu se matar. Prossigo com o resto dessa história quando me acalmar.


Publicado às 10:25 | Comente [6]


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