Giraldo subira ao poço de ouro
Para melhor se aproximar
Da folha da figueira até que, naquele dia,
Caiu para dentro
Do círculo
Mais escuro
E em água férrea se desfez.
Tal como muitas cidades europeias, também Évora é uma cidade que herda um legado de extensas muralhas de eras diferentes, fruto de relações hostis com o exterior, com o mundo, com o outro.
Contudo, já é menos habitual que uma cidade com estas características possa ter chegado ao início do século XXI com o integral fechamento dos seus muros praticamente preservado.
Apenas uma razão, que não a do acaso, poderá explicar este fenómeno singular: uma pétrea saudade das origens, uma espécie de misantropia poética, ou ainda um auto-amor primitivo no sentido da sua manifestação mais pura e quase rochosa, óssea ou material.
Quem sabe se Évora se confina excessivamente ao seu próprio palco, ao ruir inicial que lhe inunda o presente, ou à calada cenografia do gesto que a conformou com o cortejo errante onde, ainda hoje, caminha a sós?
E a verdade é que esta tentação de entender Évora como um rosa narcísica, estética, mística e, aqui e ali, dionisíaca, parece irromper de tempos a tempos na arte.
Os imensos períodos e a larga sintaxe em Bernardim, o apego doloroso em Florbela, a catarse corporal e sem limites em José de Carvalho, o apuro da catástrofe emudecida em Palolo, a textura rasa e telúrica de Caxatra, ou as cores ígneas que atravessam as linhas de fuga de um Charrua serão disso exemplo.