Munida apenas de camisola e mau humor, enfrento a casa e os gatos, as contas atrasadas e a banda larga que ainda não resolveu se vai ser um problema na minha vida ou não.
Faz frio, enfim, um frio redentor e furioso, que deixa a cidade horrorosa lá fora com cara de limpa. Decidi não olhar a cidade de frente, fechei as cortinas e não atenderei à porta.
Os cães resmungam, mas sei que alguém cuidou deles bem cedinho e, covarde, decido não enfrentá-los, nem à sua assustadora necessidade de carinho e aprovação.
A luz da cozinha quase me assusta, eu não lembrava que era assim tão forte. Não sei bem quanto tempo eu dormi.
Leio um e-mail bem intencionado de uma moça que quer discutir as “implicações astrológicas” da minha obra, como se minhas poucas telas pudessem ser chamadas de “obra”, como se eu desse a mínima pra qualquer droga com o termo “astrológicas” no meio e como se eu quisesse discutir o que quer que seja com ela. Mas respondo simpática e vaga, porque sou educada. Mentira. Respondo porque sou uma safada e porque as minhas assustadoras necessidades, inclusive as de atenção e aprovação, são mesmo assustadoras.
No meio da digitação lembro vagamente que tive um sonho sofrido que me perturba nalgum cantinho da cabeça.
Outros e-mails; pedidos de exposição que encaminho para meus agentes (o povo da galeria acha que eu deveria dizer “representantes”); gente querendo aumentar meu pênis, clarear meus dentes, diminuir minha cintura e alisar meu cabelos; amigos contando coisas fofas ou sendo uns babacas (é, de vez em quando os amigos são babacas), mandando fotos de filhos e de bichinhos, convidando para churrascos e seja lá o que mais que pessoas normais façam em suas horas de folga.
Eu deveria ir ao centro comprar telas, eu deveria ir à sede regional da prefeitura renegociar meu IPTU, eu deveria, eu deveria.
Mas incomodada com o que diabos havia nesse sonho que não me lembro e que me angustia, tomo algumas pílulas, não muitas, um pouquinho só a mais do que deveria tomar, volto para a cama, dou um tapa levinho no despertador e viro para o outro lado. Só mais cinco minutinhos.