Stalker
O guia não sabe nada. Conhece apenas como mover-se entre momentos. Sabe, também, como agir no interior de certos momentos. Mas, entre eles, sabe tanto como aqueles que conduz. Ou seja não sabe nada.
Por outro lado, o que o diferencia daqueles que conduz é a mais completa ausência de desejo em relação às coordenadas com que os outros sonham. É assim que um guia não vai a parte nenhuma.
Durante esses segmentos, nos quais se move e parece agir, medindo, apontando, tentando, a fé dos que seguem o guia é tudo. Apesar da sua eficácia não depender dessa fé, consegue senti-la; como uma mão nas costas, ou como algo muito mais obscuro e muito menos humano
O guia conhece momentos-chave. Pontos de passagem.
Vistos de fora, ou de longe, não há diferença entre eles. Lá vão.
Partilham, na distância, a mesma linha de movimento.
A chinesa olhava em frente, pouco interessada, mas fixando o ecrã como se um dever a incitasse. A russa, sentada na borda do sofá, tentou um esboço de saudação à entrada do homem. A luz da madrugada de Macau desistia de penetrar na sala, deixando apenas um iridescente cartão de visita entre o chão e o fim das cortinas.
“ Só havia isto,” disse a rapariga loura, “depois de saíres, fomos comer e procurámos
alguns filmes. Ela comprou dvd’s chineses e eu encontrei só isto…”
“Stalker?”
- “Stalker,” respondeu, sem compreender exactamente a palavra que acabara de pronunciar, repetindo o tom interrogativo, esboçando uma descrição …” é um filme feito por um homem russo chamado Tarkovski…” e, hesitando, prosseguiu no mesmo sopro, “…quando estava na escola, havia um professor que nos falava de Tunguska sempre que podia. Foi o lugar onde a tundra desapareceu, em 1908, debaixo de uma explosão gigantesca. Dizem que foi algo que caiu do espaço exterior. O filme é sobre isso, ou algo assim…” continuou, a voz laborando num tom de desculpa.
“Não… Stalker não é sobre Tunguska,” pensou o cérebro do homem, vendo, no entanto, o salto na mente da rapariga, estudando a aguda película de luz infiltrando-se na obscuridade do apartamento, sob as cortinas, cego pelo idioma russo vindo do aparelho de TV, que parecia concentrar a atenção das duas raparigas: a chinesa, vinda do norte, das cidades sem moral, uma teta saindo do roupão; a russa, vinda do norte, de uma cidade de arciprestes e recém-primitivos oficiais comunistas re-baptizados, vestida ainda com as roupas da noite, ínfimas pupilas filtrando imagens, atirando imagens para o vazio.
Quatro mamilos. Rosa. Castanho. Duas cabeças. A cama. Cabelos negros. Cabelos amarelos. Entrelaçados pelo acaso do sono. As cortinas abertas. Invicta, democrática, sucinta, a luz do sol poente ilumina. A pele recebe a luz. Por nervos a leva ao centro. No centro nada a recebe ainda. Lá, é, por enquanto, uma convidada menor.
Quando as pálpebras das mulheres batem a areia do primeiro olhar. Quando, ao segundo olhar, vêem o homem, segurando um copo, cheirando um resto de nariz atrasado, baunilha e especiarias mortas, examinando o trabalho do crepúsculo num fundo de vinho, considerando, sussurrando: “ Estrela da manhã. Estrela da manhã.”
Quando se põem de pé e vão ao chuveiro e se lavam e quando, lavadas, recuperam todos os gestos e fazem mais um empréstimo de asas, nada a seus olhos interrompendo caminho, nada, nos seus sapatos, indicando direcção. Quando o elevador a todos puxa, Caindo. Sursum corda.
“Onde ir hoje?”, pergunta o guia, perguntando para si.
“Onde me levarão hoje?”, exagera, experimentando as possibilidades de um questionário gasto, mas saboreando a pergunta que limpa o crânio de qualquer eco.
“No meio da jornada de nossas vidas”, cita para si, cuspindo nas mãos uma saliva de mau tradutor.