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agosto 23, 2006

Stalker

O guia não sabe nada. Conhece apenas como mover-se entre momentos. Sabe, também, como agir no interior de certos momentos. Mas, entre eles, sabe tanto como aqueles que conduz. Ou seja não sabe nada.

Por outro lado, o que o diferencia daqueles que conduz é a mais completa ausência de desejo em relação às coordenadas com que os outros sonham. É assim que um guia não vai a parte nenhuma.

Durante esses segmentos, nos quais se move e parece agir, medindo, apontando, tentando, a fé dos que seguem o guia é tudo. Apesar da sua eficácia não depender dessa fé, consegue senti-la; como uma mão nas costas, ou como algo muito mais obscuro e muito menos humano

O guia conhece momentos-chave. Pontos de passagem.

Vistos de fora, ou de longe, não há diferença entre eles. Lá vão.

Partilham, na distância, a mesma linha de movimento.

*

A chinesa olhava em frente, pouco interessada, mas fixando o ecrã como se um dever a incitasse. A russa, sentada na borda do sofá, tentou um esboço de saudação à entrada do homem. A luz da madrugada de Macau desistia de penetrar na sala, deixando apenas um iridescente cartão de visita entre o chão e o fim das cortinas.

“ Só havia isto,” disse a rapariga loura, “depois de saíres, fomos comer e procurámos
alguns filmes. Ela comprou dvd’s chineses e eu encontrei só isto…”

“Stalker?”

- “Stalker,” respondeu, sem compreender exactamente a palavra que acabara de pronunciar, repetindo o tom interrogativo, esboçando uma descrição …” é um filme feito por um homem russo chamado Tarkovski…” e, hesitando, prosseguiu no mesmo sopro, “…quando estava na escola, havia um professor que nos falava de Tunguska sempre que podia. Foi o lugar onde a tundra desapareceu, em 1908, debaixo de uma explosão gigantesca. Dizem que foi algo que caiu do espaço exterior. O filme é sobre isso, ou algo assim…” continuou, a voz laborando num tom de desculpa.

“Não… Stalker não é sobre Tunguska,” pensou o cérebro do homem, vendo, no entanto, o salto na mente da rapariga, estudando a aguda película de luz infiltrando-se na obscuridade do apartamento, sob as cortinas, cego pelo idioma russo vindo do aparelho de TV, que parecia concentrar a atenção das duas raparigas: a chinesa, vinda do norte, das cidades sem moral, uma teta saindo do roupão; a russa, vinda do norte, de uma cidade de arciprestes e recém-primitivos oficiais comunistas re-baptizados, vestida ainda com as roupas da noite, ínfimas pupilas filtrando imagens, atirando imagens para o vazio.

*

Quatro mamilos. Rosa. Castanho. Duas cabeças. A cama. Cabelos negros. Cabelos amarelos. Entrelaçados pelo acaso do sono. As cortinas abertas. Invicta, democrática, sucinta, a luz do sol poente ilumina. A pele recebe a luz. Por nervos a leva ao centro. No centro nada a recebe ainda. Lá, é, por enquanto, uma convidada menor.

*

Quando as pálpebras das mulheres batem a areia do primeiro olhar. Quando, ao segundo olhar, vêem o homem, segurando um copo, cheirando um resto de nariz atrasado, baunilha e especiarias mortas, examinando o trabalho do crepúsculo num fundo de vinho, considerando, sussurrando: “ Estrela da manhã. Estrela da manhã.”

Quando se põem de pé e vão ao chuveiro e se lavam e quando, lavadas, recuperam todos os gestos e fazem mais um empréstimo de asas, nada a seus olhos interrompendo caminho, nada, nos seus sapatos, indicando direcção. Quando o elevador a todos puxa, Caindo. Sursum corda.

*

“Onde ir hoje?”, pergunta o guia, perguntando para si.

“Onde me levarão hoje?”, exagera, experimentando as possibilidades de um questionário gasto, mas saboreando a pergunta que limpa o crânio de qualquer eco.

“No meio da jornada de nossas vidas”, cita para si, cuspindo nas mãos uma saliva de mau tradutor.

Narcisismos

Giraldo subira ao poço de ouro
Para melhor se aproximar
Da folha da figueira até que, naquele dia,
Caiu para dentro
Do círculo
Mais escuro
E em água férrea se desfez.

Tal como muitas cidades europeias, também Évora é uma cidade que herda um legado de extensas muralhas de eras diferentes, fruto de relações hostis com o exterior, com o mundo, com o outro.

Contudo, já é menos habitual que uma cidade com estas características possa ter chegado ao início do século XXI com o integral fechamento dos seus muros praticamente preservado.

Apenas uma razão, que não a do acaso, poderá explicar este fenómeno singular: uma pétrea saudade das origens, uma espécie de misantropia poética, ou ainda um auto-amor primitivo no sentido da sua manifestação mais pura e quase rochosa, óssea ou material.

Quem sabe se Évora se confina excessivamente ao seu próprio palco, ao ruir inicial que lhe inunda o presente, ou à calada cenografia do gesto que a conformou com o cortejo errante onde, ainda hoje, caminha a sós?

E a verdade é que esta tentação de entender Évora como um rosa narcísica, estética, mística e, aqui e ali, dionisíaca, parece irromper de tempos a tempos na arte.

Os imensos períodos e a larga sintaxe em Bernardim, o apego doloroso em Florbela, a catarse corporal e sem limites em José de Carvalho, o apuro da catástrofe emudecida em Palolo, a textura rasa e telúrica de Caxatra, ou as cores ígneas que atravessam as linhas de fuga de um Charrua serão disso exemplo.

agosto 1, 2006

Despertador

Munida apenas de camisola e mau humor, enfrento a casa e os gatos, as contas atrasadas e a banda larga que ainda não resolveu se vai ser um problema na minha vida ou não.

Faz frio, enfim, um frio redentor e furioso, que deixa a cidade horrorosa lá fora com cara de limpa. Decidi não olhar a cidade de frente, fechei as cortinas e não atenderei à porta.

Os cães resmungam, mas sei que alguém cuidou deles bem cedinho e, covarde, decido não enfrentá-los, nem à sua assustadora necessidade de carinho e aprovação.

A luz da cozinha quase me assusta, eu não lembrava que era assim tão forte. Não sei bem quanto tempo eu dormi.

Leio um e-mail bem intencionado de uma moça que quer discutir as “implicações astrológicas” da minha obra, como se minhas poucas telas pudessem ser chamadas de “obra”, como se eu desse a mínima pra qualquer droga com o termo “astrológicas” no meio e como se eu quisesse discutir o que quer que seja com ela. Mas respondo simpática e vaga, porque sou educada. Mentira. Respondo porque sou uma safada e porque as minhas assustadoras necessidades, inclusive as de atenção e aprovação, são mesmo assustadoras.

No meio da digitação lembro vagamente que tive um sonho sofrido que me perturba nalgum cantinho da cabeça.

Outros e-mails; pedidos de exposição que encaminho para meus agentes (o povo da galeria acha que eu deveria dizer “representantes”); gente querendo aumentar meu pênis, clarear meus dentes, diminuir minha cintura e alisar meu cabelos; amigos contando coisas fofas ou sendo uns babacas (é, de vez em quando os amigos são babacas), mandando fotos de filhos e de bichinhos, convidando para churrascos e seja lá o que mais que pessoas normais façam em suas horas de folga.

Eu deveria ir ao centro comprar telas, eu deveria ir à sede regional da prefeitura renegociar meu IPTU, eu deveria, eu deveria.

Mas incomodada com o que diabos havia nesse sonho que não me lembro e que me angustia, tomo algumas pílulas, não muitas, um pouquinho só a mais do que deveria tomar, volto para a cama, dou um tapa levinho no despertador e viro para o outro lado. Só mais cinco minutinhos.