Aproveito a(s) Feira(s)s do Livro - não sei se foi uma ou se foram várias - para comentar sobre a Feira do Livro de Porto Alegre.
Nossa querida Feira do Livro - que já passou dos 50 anos - é uma grande reunião de livreiros e instituições em uma praça aberta no centro de Porto Alegre. Vende-se livros, ministram-se palestras, há uma área para a literatura infantil (com livrarias especializadas e teatro), há oficinas de literatura, há as empresas de comunicação que transferem seus estúdios para lá e há o coração da cidade, que passa a pulsar pela literatura em lugar de mover-se de acordo com a pressa, a violência ou o medo. Nossa Feira é incomum sob vários aspectos: é gratuita, é realizada em praça aberta, é visitada por milhões de pessoas - não é exagero - e é quase impossível caminhar entre as barracas nos finais de tarde e de semana. Os amigos estão todos lá, conheço gente que vai todos os dias da Feira à Praça da Alfândega, no centro da cidade. Ela começa sempre na última sexta-feira de outubro e acaba por volta do dia 15 de novembro.
Há coisas ruins nela: nos últimos anos, as barracas da Feira tornaram-se uma imensa livraria convencional. Os tradicionais balaios de saldos estão cada vez mais raros e a variedade dos livros é a mesma de qualquer megastore, ou seja, é mínima. Até os sebos estão dedicando metade de seu espaço a livros novos que são os mesmos da barraca vizinha... Vou dar um exemplo: no ano passado, procurei o premiado Nove Noites de Bernardo Carvalho, publicado Companhia das Letras. Perguntei em mais de 50 barracas e nada. Ou seja, todos vendem as mesmas coisas e acabei na Internet. Já Paulo Coelho e nossos best-sellers gaúchos estão em todo lugar. Não há diversidade. É monótono. Talvez as únicas exceções sejam a Livraria Bamboletras e a Ventura Livros. O resto é shopping.
Há coisas ótimas nela: os eventos periféricos. As carradas de seminários gratuitos com os escritores que estão lançando seus livros são excelentes de se acompanhar. Sentamo-nos confortavelmente nos bons salões do Santander Cultural, do Clube do Comércio e do Centro Cultural CEEE Erico Verissimo a fim de ouvir os autores. Ao final, podemos fazer perguntas e debater a obra ou outras obras, a vida, a política, o futebol, o amor, qualquer coisa. As pessoas saem eufóricas destes encontros. Também, nos últimos anos, estão sendo apresentados ciclos também gratuitos de filmes baseados em livros em salas próximas ("É tudo free!", como diria Raul Seixas) e a parte internacional da Feira tem estado mais interessante, com os argentinos e espanhóis entrando com livros e preços bem legais. Mas, quando coloquei lá em cima meu título, não referia-me às possibilidades terapêuticas da cultura e sim de outras, como explico abaixo.
O título diz respeito a um caso pessoal. Alguns meses depois de minha separação, eu ainda estava profundamente deprimido e chegou a época da Feira do Livro. Não morava mais com meus filhos e tinha um enorme tempo livre ao qual estava desacostumado ou acostumado a utilizá-lo apenas para me desesperar ainda mais. Os amigos estavam meio sumidos; afinal, sabe-se que o separado adquire uma espécie de hanseníase contagiosa a alguns, ele(a) causa medo, algo do gênero se-aconteceu-a-ele(a)-pode-acontecer-a-mim-e-eu-não-quero. Porém, decidi que ia voltar a aparecer para as pessoas. Afinal, era a Feira! Habituei-me a ficar na frente do pavilhão de autógrafos por volta das 18h. Sim, ficava ali, como uma prostituta fazendo seu ponto. O extraordinário é que TODOS OS DIAS em que lá fui, surgiram amigos - velhos, novos ou antiqüíssimos - com os quais acabei jantando ou visitando depois. Eles sempre apareceram. Estes amigos traziam com eles outros e, quando me dei conta, estava com uma popularidade tonitruante, se comparada com a imediatamente anterior. Meu telefone voltou a tocar e pude, com mais conforto, fazer de conta que a vida estava voltando ao normal. E custou menos que qualquer psiquiatra, menos que qualquer anti-depressivo... Foi um período de recuperação e inclusão de novos amigos. Um bom período.